25/04/2021

CONEXÃO ARMÊNIA

A conversa de ontem. 


24 de abril é a data que mata o início do Genocídio Armênio de 1915 - pois foi quando 200 intelectuais armênios foram presos em Istambul, numa tentativa de calar a comunidade para as atrocidades que estavam por vir. 

E o dia 24 de ontem foi uma data especial, porque finalmente a nação mais importante do mundo, os EUA, reconheceu o massacre como genocídio - não "fatalidades de guerra", e sim um plano intencional dos turcos de exterminar todo um povo. 

(Se quiser saber mais sobre o tema... leia meu romance "Fé no Inferno".)

Como escritor e armênio por parte de mãe, fui convidado a conversar sobre o tema no canal de Rogério Anitablian com a Conexão Armênia, no Youtube. Contei um pouco da minha relação pessoal com a armenidade - a história da minha família, a pesquisa do livro, e aproveitei para dar o recado mais importante...

Meu livro nunca foi escrito para falar especificamente com a comunidade armênia - pois essa já conhece bem a história. Meu interesse era chegar ao "grande público" (se é que se pode falar de "grande público" quando se trata de literatura brasileira). E uma das minhas maiores preocupações era fazer paralelos - mostrar o porquê de discutir um tema desses mais de 100 anos depois. 

Os armênios eram os nativos da região no Império Otomano, como os indígenas são no Brasil. Uma minoria étnica perseguida, cidadãos de segunda classe, como pretos e pardos, homossexuais... Isso que enfatizei no livro e na minha fala de ontem - que é importante ecoar também na comunidade armênia, pois foi vítima de um genocídio, mas votou em peso num genocida. 

Foram algumas das minhas colocações na LIVE, que receberam aplausos de alguns, indignação de muitos. Li coisas como "viemos aqui para lembrar o genocídio, não falar de política!" (Oi? Genocídio não é pura política? Ou política impura?) Ou pior: "O Brasil recebe sua família aqui e você tem coragem de falar mal de nosso presidente!" (Como se agora eu fosse menos brasileiro do que Bolsonaro, que também tem família que veio de longe, como TODOS os brasileiros... menos os indígenas.) (A propósito, se tenho sangue armênio por parte de mãe, também tenho algo indígena distante por parte de pai, não casse minha nacionalidade.) 

Rogério foi muito gentil comigo, me deixou dar o recado e não comentou/interferiu. Depois, com a enxurrada de comentários protestando e chamando o canal de "esquerdista", ele se posicionou de forma "neutra" e disse que não censurava os convidados. Compreendo a posição, mas para mim não faz sentido ficar só lamentando algo que aconteceu há mais de cem anos se não for para aprender e impedir que aconteça de novo, denunciar novos genocídios, trazer a conversa para o contexto atual. 

Tudo isso foi só uma pequena parte do debate, que teve a participação de outros membros da comunidade, com declarações bem bonitas e comoventes. Dá para ver tudo aqui: 

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(Eu começo no minuto 47). 

E na segunda passada tive outro debate bacana - dessa vez com alunos de jornalismo da Casper Líbero - sobre literatura e pandemia. Entre outras coisas, conversamos sobre como é triste que essas conversas em si só possam acontecer agora por live - e é um formato que acho que vai permanecer em grande medida mesmo pós-pandemia (se é que vai haver pós-pandemia). 


Com alunas da Cásper Líbero. 


22/04/2021

NOTAS PÓS-APOCALÍPTICAS

 

Uma paisagem a se despertar. 

Nessa quarentena toda tenho dormido cedo, acordado cedo. Porque quero que o dia termine logo, mas não tenho forças para conter sua volta...

Nos finais de semana o Klauz vem para cá e eu me banho em vodca e gim para matar o coronavírus. Também dormimos cedo. Ele dorme bem quietinho e nunca quero acordá-lo às sete da manhã, quando eu acordo. Nessas horas em que ele ainda dorme e eu estou acordado é que roubo bancos, espanco velhinhas, participo de orgias... mas ainda de máscara.

O resto dos finais de semana são passados em seções de cinema dos meus infinitos DVDs, deliveries de alta gastronomia, um ou outro game que eu tenha por aqui...

Não sou gamer porque sou pobre. Tenho medo. Tenho medo de comprar um console e me tornar um escravo. Então só jogo os consoles antigos que tenho aqui (NES, SNES, PS1, PSP, DS). (Eu ia colocar “Virtual Boy” como easter egg para nerds, mas nunca tive Virtual Boy e... coloquei mesmo assim.)  

Também fazemos aulas de funcional com uma professora que é a cara (e a voz) da Conká, por live. É muito frustrante porque eu sempre mando comentários, mas ela nunca lê e nunca responde – the story of my life  - porque são coisas como “agora já pode beber vodca?” e acho que isso entra como uma afronta para instrutores de funcional.

No dia-a-dia, muito trabalho, felizmente. Trabalho em casa, faço meus horários, acordo cedo, e sempre me vejo esticando pelas 19h. Se não houvesse um mundo lá fora, eu até poderia deixar de respirar.

17/04/2021

AUTORES NA PANDEMIA

 


Matéria que publiquei ontem na Folha: 


Do que vive um escritor no Brasil? A pergunta sempre ecoou dentro do próprio meio literário, na curiosidade em saber como cada colega consegue manter o ofício e as contas em dia. Em 2014 entrevistei 50 autores de diferentes percursos para uma matéria da Folha que traçava fontes de renda dos escritores no país. O saldo (ao meu ver) era positivo: mostrava que a maioria dos autores estabelecidos conseguia viver, se não da venda de seus livros, de atividades relacionadas à escrita – como oficinas literárias, jornalismo, roteiros e tradução. De lá para cá, a situação na cultura deteriorou como um todo, e agora com a pandemia a pergunta volta com força: Do que estão vivendo nossos escritores?

            O mercado de eventos literários – festivais, bienais, debates – se fortaleceu no início deste século, muito motivado pela Flip – Festa Literária de Parati. Muitos pagavam cachê, e permitiam uma renda complementar aos autores, que discutiam ideias e debatiam seus conhecimentos com o público. Isso já vinha se perdendo nos últimos anos – os cachês, que estacionavam numa média de R$2 mil reais por evento desde o começo do milênio, foram sendo cada vez raros, os eventos foram perdendo patrocínio e, claro, apoio estatal; esperava-se que o escritor estivesse presente motivado apenas em divulgar sua obra. Com a pandemia, os eventos tiveram de migrar para o virtual – as conhecidas “lives” – e nesse cenário os cachês são raridade absoluta.

            Afonso Borges, jornalista mineiro que há 35 anos promove eventos literários, como o Sempre um Papo e o Fliaraxá, foi um que conseguiu manter parte de sua programação através de recursos já captados para as atividades presenciais, migrando para lives. “Eu nem saberia como captar patrocínio para um evento virtual. É sempre a perspectiva da volta presencial que sustenta o patrocínio.”

            O pernambucano Marcelino Freire organiza desde 2006 a Balada Literária, que teve de se tornar virtual. Nome forte nas oficinas literárias, está com quatro turmas online e também tem faturado com cursos pré-gravados. “A vantagem é que tem gente de todo o Brasil fazendo os cursos, até de fora do país. Presencialmente não seria possível. Outra vantagem é que coordeno direto da minha casa, ao lado dos livros. O fato de eu estar cercado de livros me faz levantar, pegar um parágrafo na estante e citar ou ler um texto ali na hora.” Afonso Borges também vê ocasiões em que a ausência de deslocamento é positiva. “É lógico que um escritor de 80 anos vai se sentir mais à vontade falando de casa.” Marcelino coloca que “a renda tem se mantido e vem de maneira mais econômica: a comida faço em casa, não pego avião, uber, não uso hotel, não gasto sola de sapato.” Mas segundo ele não compensa o gasto com remédio, falta de exercícios, e “excesso de tristeza.”

            Outra fonte de renda importante para os autores, que tinha ganho força na última década, era a escrita de roteiros para TV. Com as produções paradas, roteiristas que não têm contrato fixo estão penando. A paulistana Tati Bernardi, colunista da Folha, sentiu o baque mesmo sendo contratada da Globo. Conseguiu reinventar-se com os cursos online e o podcast “Calcinha Larga.” “Virei a louca dos Podcasts”, diz. Para ela, sociofóbica confessa que não costumava ministrar oficinas presenciais, o formato virtual foi um incentivo e está com turmas lotadas de sua oficina de autoficção “Fale mal, mas fale de você.”

Um relatório sobre o mercado de livros feito pela GfK para a Associação Nacional de Livrarias aponta que a venda de livros aumentou em cerca de 4% de 2019 para 2020, mas isso não chega a fazer diferença na renda dos autores.  E o acréscimo não se refletiu na literatura infantojuvenil, um campo onde autores conseguiam formar sua renda principalmente por direitos autorais – não só por adoções e compras governamentais, mas porque conseguiam publicar num ritmo muito maior do que a ficção adulta, até pelo volume menor de texto de cada obra. Entretanto, com as escolas fechadas, a divulgação e a adoção dos livros para jovens e crianças foi prejudicada. “Com as famílias em crise financeira, pedir livros de literatura, ou investimento em cultura de forma ampla, não está contemplado no contexto emergencial da escola on-line”, aponta Tiago de Melo Andrade, premiado autor mineiro do segmento, que costumava viajar o ano todo divulgando seus livros com as crianças. “Nunca passei tanto tempo sem contato com o ambiente escolar. Claro há uma ou outra mesa remota, mas nada que se compare e o resultado não é o mesmo.”

            O ofício da tradução, fonte de renda para muitos autores (como eu), não foi especialmente impactado na pandemia. Amanda Orlando, editora da Globo Livros, aponta que num primeiro momento as editoras congelaram, mas com a percepção do aumento de vendas, as traduções voltaram a ser requisitadas: “em um fluxo ainda maior do que em anos como 2019 e 2018”, aponta ela. “Sem dúvida, as pessoas aproveitaram o lockdown e o maior tempo disponível em casa para ler. Essa boa notícia deu um novo gás ao negócio do livro e hoje vemos um aumento nas aquisições, embora a alta do dólar ainda seja um entrave considerável.” Porém Antônio Xerxenesky, autor gaúcho que também atua na tradução, faz uma ressalva importante:  "A inflação brasileira não se refletiu em um aumento do valor da lauda de tradução", que permanece a mesma há meia dúzia de anos.

            A impressão que fica é que os autores, como todos os brasileiros, estão se virando e se reinventando. Mas quem sempre perde é a literatura em si que, mesmo quando ganha em vendas, perde em relevância e incentivo para se fortalecer e refletir nossos tempos. Deve fazer parte do plano desse governo. Se é que há algum plano.  

 

Santiago Nazarian é escritor e tradutor, autor de Fé no Inferno (Companhia das Letras, 2020), entre outros.

 

12/04/2021

O APOCALIPSE NUNCA TERMINA


 

Avançamos para o segundo ano de quarentena. Será pouco tempo? Será só o começo? Esses dias minha mãe falava: “Pensa quando vocês contarem: ‘Imagina como foi ficar em quarentena?’” E eu tive de dizer: “Mais provável a gente dizer: ‘Imagina quando a gente ia em teatro ao vivo... com plateia... aglomerados!’” Já está me soando como leões no coliseu.

“Não quero terminar a vida assim”, minha mãe diz, lamentando o isolamento. Minha irmã lamenta o segundo aniversário que minha sobrinha vai passar sem poder fazer festa, e me parece mais grave. Dois anos na vida de uma criança – sem festa, sem escola, sem viagens – é muito tempo. A gente não tem esse termômetro...

Melhor do que passar por isso na velhice, na infância, talvez seja mesmo passar na meia-idade, como eu. Estou na idade perfeita do isolamento social. Já viajei muito, trepei muito, realizei praticamente todos os meus sonhos. Sinto que socialmente não tenho nem direito de querer nada além da morte.

Mas, como continuo respirando diariamente, o dia sopra pela minha janela um hálito de jasmim e me dá vontades...

Não tenho do que reclamar. Estou num ritmo de trabalho muito melhor do que há alguns anos, em que todos pareciam ricos e se eu me lamentava era porque EU era o fracassado. Por isso acho tão curioso essas correntes solidárias – se ficou miserável junto a todo mundo, está desculpado, entre na fila; se pede ajuda quando tá tudo mundo abastado: tu és o fracassado.

Como trabalho não é tudo (mas é 100%), o coração está tranquilo com um garoto formoso que vem aos finais de semana e me traz esse jasmim. O que mais eu poderia querer?

(o texto terminava com uma lista, mas, relendo, achei que o melhor é deixar tudo em aberto...)

A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...