31/07/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE



Há mais de quinze anos tenho uma vizinha que hoje está com 90 e tantos. Nunca falamos mais do que bom dia. Moro no segundo andar, não preciso pegar elevador, e sou daqueles moradores reclusos, que tem licença para ser excêntrico porque é escritor e “já foi no Programa do Jô.”


Há algumas semanas ela tocou aqui em casa. Perguntou se eu podia trocar o gás dela, porque o prédio está sem porteiro. Troquei, claro, e disse que qualquer coisa que ela precisasse poderia tocar.
Dois dias depois ela tocou me oferecendo um pedaço de bolo.

Eu disse que não podia comer bolo. (E é verdade, só como doce nos finais de semana.)
Ela disse que era leve, “você está tão magrinho; você emagreceu muito, eu lembro que você era forte...” E eu agradeci, mas disse que não.

Então me senti culpado. Pensei se não deveria ter aceitado, jogado no lixo. Mas daí toda semana ela ia aparecer com o bolo...

Estou ensaiando voltar à academia. Ainda não tive coragem. Ao menos aquela nojeira de compartilhar equipamentos vai terminar. Sou daqueles que quando um equipamento está ocupado vai para outro, mas daí sempre aparece um coió suado pedindo para revezar...

"Revezar Equipamentos Faz Parte do Seu Treino", estava escrito pela academia. My arse! Agora o mundo vê que eu estava certo!

A restrição do contato físico em geral para mim é grata. Detesto contato – já disse que nem minha mãe eu abraço; detesto cumprimentar amigos com beijinhos. Contato mesmo, só na hora do sexo...

Mas agora faz teeeempo...

Saindo para o mercado de máscara, tenho notado maior troca de olhares com os meninos aqui pela Frei Caneca. Será que estão todos mais carentes, desesperados, ansiosos por qualquer contato? Será que fico mais bonito de boca tapada?

Não tenho tido mais paciência pros aplicativos. Povo não tem nada a dizer, só quer trocar nudes. Daí é melhor ver as fotos de profissionais.

Bem... também não tenho visto muito as fotos de profissionais. Deve ser o frio. O frio, o trabalho, a resignação de ser para sempre um velho escritor solitário.

(Nessa de escritor solitário, esta semana gravei uma entrevista pro Metrópolis - ainda não sei quando vai ao ar. Foi aqui de casa, por Zoom. Saudades do estúdio, do "rolê", pó compacto na cara...)

(A vizinha velhinha do bolo nunca mais voltou.)


24/07/2020

DEDO NO OUVIDO


(O que é que faz na quarentena?)

Nas últimas semanas tivemos lançamentos de discos do Rufus, Kylie, Irrepressibles, Pretenders, Adriana Calcanhotto; alguns dos meus artistas favoritos.

(esse clipe do Irrepressibles foi a trilha da minha quarentena sem balada.)


Não tenho ideia de como é lançar um disco na pandemia. Como leigo, eu diria que hoje não faz diferença, que talvez seja até melhor, porque as pessoas estão mais em casa, mais em busca de “distração”, divertimento...

(o do Rufus) 

Mas é uma visão total de leigo... E talvez TODOS sejamos leigos nesse novo contexto. Porque mesmo na literatura... eu achava que poderia ser bom lançar livro nesses tempos... Agora não sei...

(Assim com o meio literário) a indústria fonográfica está há muito ameaçada. Foram os MP3, o pirateamento, depois o streaming. Mas se a indústria despenca, a arte não acaba porque a necessidade de expressão é imortal. Não morre no final.

A verdade é que os artistas estão sempre dispostos a fazer, mesmo de graça.

Eu entrei na adolescência nos anos 90, com a consagração do CD, então nunca vivi realmente a era do LP, nunca nutri esse fetiche. (De fato, os poucos vinis que eu tinha se foram todos na separação). Os CDs permanecem todos. E são alguns milhares.

Dos primeiríssimos CDs que comprei, estão aqui:

Dangerous do Michael Jackson
Erotica da Madonna
Eurythmics Greatest Hits
Us do Peter Gabriel
Off the Ground do Paul McCartney
Best of Santa Esmeralda

(Criança viada, né? Todos que ainda adoro. Madonna talvez menos.)

Logo peguei uma época em que o dólar era um pra um (plano real), em que CDs importados custavam o mesmo (ou menos) do que os nacionais, e era-a-era do Britpop, e eu fiz intercâmbio, depois trabalhei numa livraria que vendia CDS, numa agência de publicidade que pagava bem... Assim fui montando meu acervo.  

Viajei para a Europa algumas vezes no final dos 90 e começo dos 2000 e trouxe tantos CDS, singles, aqueles formatos que não fazem mais (CD-Single parte 1, parte 2; depois até DVD-Single), tudo uma mega exploração da indústria fonográfica da época, colocando só duas ou três faixas (inéditas) a mais, para abusar dos fãs. Eu caía. Do Suede tenho praticamente todos os singles – na época não tinha outro jeito de ter/escutar as faixas; a internet engatinhava, era discada e não tinha como baixar.

(Can't Get Enough, de fato. Cada um tinha só duas faixas inéditas.)

Tinha a rádio também, claro. Eu passei brevemente por isso, mas deixou boas lembranças. A Brasil 2000, com o Kid Vinil, o programa dele tocava esses B-sides, esses alternativos (assim como o programa Lado B, com o Fábio Massari, na MTV). Foi no programa do Kid que ouvi (e gravei em cassete, perdendo o começo) pela primeira “My Dark Star” do Suede (B-side do single “Stay Together”). Um amigo meu também ligou lá e pediu para ele tocar para mim “Common People”, o novíssimo single do Pulp. Eu mesmo liguei uma vez e pedi Golden Palominos...


(das melhores músicas deles; e ter ouvido primeiro na rádio deixa tudo mais bonito.)


Essas eram as formas de escutar, porque para se atualizar, havia os amigos, os primeiros foruns de internet, fanzines (como o "Esquizofrenia", do Gilberto Custódio, onde li pela primeira vez sobre o Pulp) e mesmo as publicações britânicas impressas. Na época do dólar sob controle comprava regularmente revistas como Vox, Select, Q (que este mês encerrou atividades...). 

Ainda tenho essa (o cassete que veio junto não sei...)


Como nunca tive compromisso em me atualizar nas tecnologias, resisti de migrar dos CDS. Teve uma época em que eu ainda andava pelas ruas com um discman enorme no bolso, enquanto o povo ouvia iPod. Hoje o povo está no streaming... eu ainda tenho iPod.

Ainda tenho um iPod Classic, de 160G, 30 mil músicas, que me acompanha diariamente. Já deu vários paus – já tive de revirar a Santa Ifigênia para encontrar quem arrumasse, já troquei placa, mas ele segue firme..

Ainda acho a melhor coisa, porque você ouve música offline, baixa de todos os meios possíveis – tenho tanta coisa que não se pode encontrar nas plataformas de streaming. Mas agora tenho me rendido ao streaming também...

Só recentemente, como sempre, vencido pelo cansaço, Spotify me ofereceu uma oferta (porque a versão gratuita com anúncios é impossível) e eu aceitei. Comecei a ver a praticidade de encontrar os novos álbuns, ou pesquisar artistas antigos. (Para você ver como sou tiozinho, esta manhã malhei deixando meu Spotify num shuffle de Tom Jones e Shirley Bassey.)

Também tem a praticidade de compartilhar as descobertas e playlists com amigos. Tenho feito regularmente playlists e postado nas minhas redes (bem, tenho postado apenas no Facebook, porque, como eu disse, sou velho e apegado).

Mas ainda não desapeguei totalmente do CD (muito menos do iPod), se não resgatei o fetiche pelo vinil, vira e mexe ainda compro os álbuns de que mais gosto. A cópia física ainda me parece a única segurança de permanência, sobrevivência, de que estaremos sempre com aqueles que amamos...

12/07/2020

A VIDA POR UMA JANELA


Largado e pelado na quarentena.
Esta semana fiz meu “lançamento virtual”, que na verdade foi mais uma “live” no Instagram. Foi bacaninha, teve uns problemas de som, não teve lá muita gente, mas pude discorrer mais profundamente sobre o livro novo e responder perguntas dos leitores, além da ótima conversa com o Márcio Menezes.

Dá pra ver no @janela_livraria

 
(aproveitando, quem ainda quiser autografado, HOJE é o último dia, só por aqui: https://janelalivraria.com.br/produto/fe-no-inferno/

E esta semana também se encerrou o curso que fiz sobre A História dos Armênios, com os professores Monique Goldfeld e Heitor Loureiro (que tanto me orientou na pesquisa do meu livro).


No curso. 

Apesar de eu já conhecer grande parte do conteúdo histórico, a visão aprofundada e as discussões sobre a identidade armênia (com grande parte dos alunos fazendo parte da comunidade), principalmente nas duas últimas aulas, foram a parte mais interessante para mim. Também foi bacana ver a importância e o papel da minha própria família (os Gasparian e Nazarian) nessa história.

Para quem se interessar, em agosto eles abrirão outra turma. Aqui:



Foi a primeira vez que fiz um curso por videoconferência - não dá comparar com a experiência social de estar numa turma, toda a troca (como o curso de publicação que fiz ano passado com o André Conti ou os cursos de cinema de horror que fiz com o Carlos Primati), mas é o que dá para fazer hoje em dia e quebra um belo galho.

O problema maior é que agora fico o dia todo diante de telas: seja nesse curso, na aula de funcional, no trabalho de tradução, nas redes sociais, pedir comida. TUDO é por uma tela. Nem de madrugada tenho descanso, que acordo com insônia e fico no Insta, no Tinder, no Grindr...

(Sexo virtual eu NUNCA fiz, juro, nunca na VIDA. Acho mega broxante ficar interpretando no sexo.)

E isso porque, apesar de estar longe de ser dos seres mais tecnológicos, sempre interagi mais com as pessoas através das telas.

Mas foi ISSO, de ficar o dia todo na frente das telas que acabou causando minha conjuntivite (que tantos profetizaram como covid) e que todo dia ameaça voltar. Termino todos os dias com olhos ardendo.


Me assumindo gay no final dos anos 90, junto à chegada da Internet no Brasil, os chats, aplicativos e rede sociais sempre foram a melhor forma de conhecer outros gays, arrumar namorados (ou apenas dates) (o falecido mesmo, conheci pelo Grindr) ou mesmo encontrar gente com gosto musical (alternativo) parecido. Mas agora que essa parece ser a ÚNICA possibilidade, tem me cansado tanto...


Estamos todos nos desdobrando, encontrando novas formas de fazer encontros (virtuais) de realizar nossos trabalhos, promover nossos lançamentos... Na sexta que fiz minha live, também teve lançamento virtual do Ricardo Lísias e do Alexandre Willer (esse por sinal eu já li, e adorei – contos gays bem afetivos – que evitarei a comparação inevitável com Caio Fernando Abreu).

A live do Alexandre Willer com o (editor) Alexandre Staut. 

A minha irmã (que é palhaça – literalmente – atriz e diretora) criou com o marido um canal no Youtube, com episódios impagáveis. O mais recente é esse:



 (Adorei a "Baixa Augusta", a Diaba da Procrastinação)


Minha querida amiga Cléo de Páris está apresentando toda terça uma peça em live por Instagram. Toda semana ela me convida... e eu perco.



A verdade é que ODEIO live. Odeio ver essas coisas por celular. Acho o som ruim, a imagem pequena, me disperso... e tenho conjuntivite. (É, posso usar essa desculpa, lives me causam conjuntivite). A graça de ver por uma tela é poder pausar, pular, voltar, então pra mim live não faz sentido. 


Numa live com meu editor, Emilio Fraia, no Insta da Companhia das Letras. 

Muita gente responde a esse ódio por lives com “apenas não assista”, mas a questão é que fica aquele aviso de “fulano está em live”, dá uma importância que muitas vezes não há. Tem gente que faz live TODO SANTO DIA.

Mas enfim, eu sei, todo mundo está procurando maneiras de sobreviver, de se expressar, de se comunicar... 

(E PODE me convidar pra live,  porque eu não gosto, mas é o que dá pra fazer. E tenho livro novo pra promover. Me chama que eu vou.) 

Eu mesmo, fico biscoitando em seminudes porque estou sozinho há muito tempo neste apartamento com a coelha, sem amor, só biscoitos... Solidão, né, minha filha?

Então uma seminude recente. Dá cookie é bom. 

 
Para dizer que não tenho visto ninguém, semana passada meu amigo-colega-vizinho escritor-editor Alexandre Staut me chamou para uma reuniãozinha na casa dele, exatamente para o lançamento do livro do Alexandre Willer. Fui, que é literalmente no prédio ao lado. Nos sentamos cada um a um metro do outro e pudemos conversar, beber... Antes disso, durante os 4 meses de quarentena, só tinha tido um encontro com mais de uma pessoa no enterro da minha avó...


Ensaiando o fim da quarentena...

08/07/2020

LANÇAMENTO VIRTUAL


Continuando com os "lançamentos possíveis", nesta sexta farei uma live no Insta da Livraria Janela. Além da conversa, eles estão vendendo o livro autografado até este DOMINGO (vão enviar todos para cá com os nomes, eu autografo e eles reenviam semana que vem).

Aqui:

https://janelalivraria.com.br/produto/fe-no-inferno/


Quem comprou comigo já está recebendo - está bem mais demorado do que o costume, principalmente pro RJ, mas muita gente já avisou que recebeu.

Por enquanto eu não vou mandar mais pessoalmente, mas quem não comprar esta semana autografado pode achar normalmente depois nos grandes sites (em papel e ebook).

E é isso, agora é espalhar a palavra...




A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...