05/05/2021

A CALÇA DOS MORTOS

 

Resenha que publiquei ontem na Folha: 


 

Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação literária mundial, retratando uma cena pop de sexo e drogas que ainda parecia fresca na literatura e que gerou o cultuado filme dirigido por Danny Boyle em 1996. Vinte e oito anos depois, a fórmula não é tão fresca nem tão impactante – mesmo a linguagem oral (vertida de um inglês escocês no original, que pode ser um pesadelo para tradutores) já não soa tão fascinante. Mas se o impacto é perdido, é o momento de se apreciar com mais conforto o humor e o talento de Welsh como contador de histórias.

Difícil precisar em qual número da sequência de Trainspotting colocar “A Calça dos Mortos”, que a Rocco acaba de lançar no Brasil. A editora coloca como quinto, mas a história traz diversos personagens de Welsh, alguns até que não tinham relação com seu romance original, em algo que poderíamos chamar de “welshverso” (o universo compartilhado de personagens de Welsh, como se tornou comum fazer no cinema com personagens de histórias em quadrinhos). Aqui, temos Mark Renton (o junkie interpretado por Ewan McGregor no filme original) como um bem-sucedido empresário de DJS; Sick Boy como um cafetão virtual de acompanhantes de luxo; Franco Begpie como um artista plástico de gosto duvidoso e carreira em alta; Daniel Spud trabalhando como “mula” do tráfico de órgãos e drogas. São todos homens brancos héteros de meia-idade (caminhando para a terceira), ainda em buscas juvenis, em crises com suas escolhas, que escorregam sempre da alta sociedade para a sarjeta. Num cenário de viagens de trem e avião entre Los Angeles, Berlim, Amsterdã e Edimburgo eles se reencontram e tentam acertar as contas com esquemas arriscados e duvidosos. 

Não deixa de ser divertido. Um universo hiper masculino, de drogas, bebidas, gangsteres, mulheres e futebol. Mas é um bom exemplo de que, ao contrário do que prega o senso comum, a maturidade nem sempre vem a favor da literatura ou é a qualidade ideal a ser perseguida. O frescor da juventude e das primeiras publicações de um autor pode trazer uma força que se perde com o tempo – principalmente com as indulgências de uma carreira bem-sucedida. Welsh parece querer discutir isso em seu subtexto, com personagens de sua geração que, como ele, “chegaram lá”, e não se sentem confortáveis com isso.

A proposta de “A Calça dos Mortos” gera paradoxos. Como tudo na escrita (atual) de Welsh, não é nada novo – então se o livro segue a toada do romance original, não segue a intenção de ser original em si; se pode atrair quem acompanha seus personagens, também pode cansar quem já conhece a fórmula; e quem é novo no “rolê” pode ser afastado pelo excesso de referências e “easter eggs” destinados a quem já conhece (bem) o trabalho do autor. Para um leitor ocasional do “welshverso” (como eu), dá para acompanhar numa boa - é uma leitura bem prazerosa e descartável.

 

Santiago Nazarian é escritor e tradutor, autor de Fé no Inferno (Companhia das Letras, 2020), entre outros.

Avaliação: Regular. 

25/04/2021

CONEXÃO ARMÊNIA

A conversa de ontem. 


24 de abril é a data que mata o início do Genocídio Armênio de 1915 - pois foi quando 200 intelectuais armênios foram presos em Istambul, numa tentativa de calar a comunidade para as atrocidades que estavam por vir. 

E o dia 24 de ontem foi uma data especial, porque finalmente a nação mais importante do mundo, os EUA, reconheceu o massacre como genocídio - não "fatalidades de guerra", e sim um plano intencional dos turcos de exterminar todo um povo. 

(Se quiser saber mais sobre o tema... leia meu romance "Fé no Inferno".)

Como escritor e armênio por parte de mãe, fui convidado a conversar sobre o tema no canal de Rogério Anitablian com a Conexão Armênia, no Youtube. Contei um pouco da minha relação pessoal com a armenidade - a história da minha família, a pesquisa do livro, e aproveitei para dar o recado mais importante...

Meu livro nunca foi escrito para falar especificamente com a comunidade armênia - pois essa já conhece bem a história. Meu interesse era chegar ao "grande público" (se é que se pode falar de "grande público" quando se trata de literatura brasileira). E uma das minhas maiores preocupações era fazer paralelos - mostrar o porquê de discutir um tema desses mais de 100 anos depois. 

Os armênios eram os nativos da região no Império Otomano, como os indígenas são no Brasil. Uma minoria étnica perseguida, cidadãos de segunda classe, como pretos e pardos, homossexuais... Isso que enfatizei no livro e na minha fala de ontem - que é importante ecoar também na comunidade armênia, pois foi vítima de um genocídio, mas votou em peso num genocida. 

Foram algumas das minhas colocações na LIVE, que receberam aplausos de alguns, indignação de muitos. Li coisas como "viemos aqui para lembrar o genocídio, não falar de política!" (Oi? Genocídio não é pura política? Ou política impura?) Ou pior: "O Brasil recebe sua família aqui e você tem coragem de falar mal de nosso presidente!" (Como se agora eu fosse menos brasileiro do que Bolsonaro, que também tem família que veio de longe, como TODOS os brasileiros... menos os indígenas.) (A propósito, se tenho sangue armênio por parte de mãe, também tenho algo indígena distante por parte de pai, não casse minha nacionalidade.) 

Rogério foi muito gentil comigo, me deixou dar o recado e não comentou/interferiu. Depois, com a enxurrada de comentários protestando e chamando o canal de "esquerdista", ele se posicionou de forma "neutra" e disse que não censurava os convidados. Compreendo a posição, mas para mim não faz sentido ficar só lamentando algo que aconteceu há mais de cem anos se não for para aprender e impedir que aconteça de novo, denunciar novos genocídios, trazer a conversa para o contexto atual. 

Tudo isso foi só uma pequena parte do debate, que teve a participação de outros membros da comunidade, com declarações bem bonitas e comoventes. Dá para ver tudo aqui: 

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(Eu começo no minuto 47). 

E na segunda passada tive outro debate bacana - dessa vez com alunos de jornalismo da Casper Líbero - sobre literatura e pandemia. Entre outras coisas, conversamos sobre como é triste que essas conversas em si só possam acontecer agora por live - e é um formato que acho que vai permanecer em grande medida mesmo pós-pandemia (se é que vai haver pós-pandemia). 


Com alunas da Cásper Líbero. 


22/04/2021

NOTAS PÓS-APOCALÍPTICAS

 

Uma paisagem a se despertar. 

Nessa quarentena toda tenho dormido cedo, acordado cedo. Porque quero que o dia termine logo, mas não tenho forças para conter sua volta...

Nos finais de semana o Klauz vem para cá e eu me banho em vodca e gim para matar o coronavírus. Também dormimos cedo. Ele dorme bem quietinho e nunca quero acordá-lo às sete da manhã, quando eu acordo. Nessas horas em que ele ainda dorme e eu estou acordado é que roubo bancos, espanco velhinhas, participo de orgias... mas ainda de máscara.

O resto dos finais de semana são passados em seções de cinema dos meus infinitos DVDs, deliveries de alta gastronomia, um ou outro game que eu tenha por aqui...

Não sou gamer porque sou pobre. Tenho medo. Tenho medo de comprar um console e me tornar um escravo. Então só jogo os consoles antigos que tenho aqui (NES, SNES, PS1, PSP, DS). (Eu ia colocar “Virtual Boy” como easter egg para nerds, mas nunca tive Virtual Boy e... coloquei mesmo assim.)  

Também fazemos aulas de funcional com uma professora que é a cara (e a voz) da Conká, por live. É muito frustrante porque eu sempre mando comentários, mas ela nunca lê e nunca responde – the story of my life  - porque são coisas como “agora já pode beber vodca?” e acho que isso entra como uma afronta para instrutores de funcional.

No dia-a-dia, muito trabalho, felizmente. Trabalho em casa, faço meus horários, acordo cedo, e sempre me vejo esticando pelas 19h. Se não houvesse um mundo lá fora, eu até poderia deixar de respirar.

17/04/2021

AUTORES NA PANDEMIA

 


Matéria que publiquei ontem na Folha: 


Do que vive um escritor no Brasil? A pergunta sempre ecoou dentro do próprio meio literário, na curiosidade em saber como cada colega consegue manter o ofício e as contas em dia. Em 2014 entrevistei 50 autores de diferentes percursos para uma matéria da Folha que traçava fontes de renda dos escritores no país. O saldo (ao meu ver) era positivo: mostrava que a maioria dos autores estabelecidos conseguia viver, se não da venda de seus livros, de atividades relacionadas à escrita – como oficinas literárias, jornalismo, roteiros e tradução. De lá para cá, a situação na cultura deteriorou como um todo, e agora com a pandemia a pergunta volta com força: Do que estão vivendo nossos escritores?

            O mercado de eventos literários – festivais, bienais, debates – se fortaleceu no início deste século, muito motivado pela Flip – Festa Literária de Parati. Muitos pagavam cachê, e permitiam uma renda complementar aos autores, que discutiam ideias e debatiam seus conhecimentos com o público. Isso já vinha se perdendo nos últimos anos – os cachês, que estacionavam numa média de R$2 mil reais por evento desde o começo do milênio, foram sendo cada vez raros, os eventos foram perdendo patrocínio e, claro, apoio estatal; esperava-se que o escritor estivesse presente motivado apenas em divulgar sua obra. Com a pandemia, os eventos tiveram de migrar para o virtual – as conhecidas “lives” – e nesse cenário os cachês são raridade absoluta.

            Afonso Borges, jornalista mineiro que há 35 anos promove eventos literários, como o Sempre um Papo e o Fliaraxá, foi um que conseguiu manter parte de sua programação através de recursos já captados para as atividades presenciais, migrando para lives. “Eu nem saberia como captar patrocínio para um evento virtual. É sempre a perspectiva da volta presencial que sustenta o patrocínio.”

            O pernambucano Marcelino Freire organiza desde 2006 a Balada Literária, que teve de se tornar virtual. Nome forte nas oficinas literárias, está com quatro turmas online e também tem faturado com cursos pré-gravados. “A vantagem é que tem gente de todo o Brasil fazendo os cursos, até de fora do país. Presencialmente não seria possível. Outra vantagem é que coordeno direto da minha casa, ao lado dos livros. O fato de eu estar cercado de livros me faz levantar, pegar um parágrafo na estante e citar ou ler um texto ali na hora.” Afonso Borges também vê ocasiões em que a ausência de deslocamento é positiva. “É lógico que um escritor de 80 anos vai se sentir mais à vontade falando de casa.” Marcelino coloca que “a renda tem se mantido e vem de maneira mais econômica: a comida faço em casa, não pego avião, uber, não uso hotel, não gasto sola de sapato.” Mas segundo ele não compensa o gasto com remédio, falta de exercícios, e “excesso de tristeza.”

            Outra fonte de renda importante para os autores, que tinha ganho força na última década, era a escrita de roteiros para TV. Com as produções paradas, roteiristas que não têm contrato fixo estão penando. A paulistana Tati Bernardi, colunista da Folha, sentiu o baque mesmo sendo contratada da Globo. Conseguiu reinventar-se com os cursos online e o podcast “Calcinha Larga.” “Virei a louca dos Podcasts”, diz. Para ela, sociofóbica confessa que não costumava ministrar oficinas presenciais, o formato virtual foi um incentivo e está com turmas lotadas de sua oficina de autoficção “Fale mal, mas fale de você.”

Um relatório sobre o mercado de livros feito pela GfK para a Associação Nacional de Livrarias aponta que a venda de livros aumentou em cerca de 4% de 2019 para 2020, mas isso não chega a fazer diferença na renda dos autores.  E o acréscimo não se refletiu na literatura infantojuvenil, um campo onde autores conseguiam formar sua renda principalmente por direitos autorais – não só por adoções e compras governamentais, mas porque conseguiam publicar num ritmo muito maior do que a ficção adulta, até pelo volume menor de texto de cada obra. Entretanto, com as escolas fechadas, a divulgação e a adoção dos livros para jovens e crianças foi prejudicada. “Com as famílias em crise financeira, pedir livros de literatura, ou investimento em cultura de forma ampla, não está contemplado no contexto emergencial da escola on-line”, aponta Tiago de Melo Andrade, premiado autor mineiro do segmento, que costumava viajar o ano todo divulgando seus livros com as crianças. “Nunca passei tanto tempo sem contato com o ambiente escolar. Claro há uma ou outra mesa remota, mas nada que se compare e o resultado não é o mesmo.”

            O ofício da tradução, fonte de renda para muitos autores (como eu), não foi especialmente impactado na pandemia. Amanda Orlando, editora da Globo Livros, aponta que num primeiro momento as editoras congelaram, mas com a percepção do aumento de vendas, as traduções voltaram a ser requisitadas: “em um fluxo ainda maior do que em anos como 2019 e 2018”, aponta ela. “Sem dúvida, as pessoas aproveitaram o lockdown e o maior tempo disponível em casa para ler. Essa boa notícia deu um novo gás ao negócio do livro e hoje vemos um aumento nas aquisições, embora a alta do dólar ainda seja um entrave considerável.” Porém Antônio Xerxenesky, autor gaúcho que também atua na tradução, faz uma ressalva importante:  "A inflação brasileira não se refletiu em um aumento do valor da lauda de tradução", que permanece a mesma há meia dúzia de anos.

            A impressão que fica é que os autores, como todos os brasileiros, estão se virando e se reinventando. Mas quem sempre perde é a literatura em si que, mesmo quando ganha em vendas, perde em relevância e incentivo para se fortalecer e refletir nossos tempos. Deve fazer parte do plano desse governo. Se é que há algum plano.  

 

Santiago Nazarian é escritor e tradutor, autor de Fé no Inferno (Companhia das Letras, 2020), entre outros.

 

12/04/2021

O APOCALIPSE NUNCA TERMINA


 

Avançamos para o segundo ano de quarentena. Será pouco tempo? Será só o começo? Esses dias minha mãe falava: “Pensa quando vocês contarem: ‘Imagina como foi ficar em quarentena?’” E eu tive de dizer: “Mais provável a gente dizer: ‘Imagina quando a gente ia em teatro ao vivo... com plateia... aglomerados!’” Já está me soando como leões no coliseu.

“Não quero terminar a vida assim”, minha mãe diz, lamentando o isolamento. Minha irmã lamenta o segundo aniversário que minha sobrinha vai passar sem poder fazer festa, e me parece mais grave. Dois anos na vida de uma criança – sem festa, sem escola, sem viagens – é muito tempo. A gente não tem esse termômetro...

Melhor do que passar por isso na velhice, na infância, talvez seja mesmo passar na meia-idade, como eu. Estou na idade perfeita do isolamento social. Já viajei muito, trepei muito, realizei praticamente todos os meus sonhos. Sinto que socialmente não tenho nem direito de querer nada além da morte.

Mas, como continuo respirando diariamente, o dia sopra pela minha janela um hálito de jasmim e me dá vontades...

Não tenho do que reclamar. Estou num ritmo de trabalho muito melhor do que há alguns anos, em que todos pareciam ricos e se eu me lamentava era porque EU era o fracassado. Por isso acho tão curioso essas correntes solidárias – se ficou miserável junto a todo mundo, está desculpado, entre na fila; se pede ajuda quando tá tudo mundo abastado: tu és o fracassado.

Como trabalho não é tudo (mas é 100%), o coração está tranquilo com um garoto formoso que vem aos finais de semana e me traz esse jasmim. O que mais eu poderia querer?

(o texto terminava com uma lista, mas, relendo, achei que o melhor é deixar tudo em aberto...)

24/03/2021

A LOUCA DOS DELIVERIES


Cara de quem comeu e não gostou. 


Faz um tempinho que não posto aqui... Estava comendo.

 

Ensaiei uma série de textos, reflexões, notas sobre o apocalipse, mas fiquei dividido entre o que era obviedade, no que eu estava me repetindo; hoje em dia é sempre um equilíbrio delicado entre fazer coro com sua bolha – “quem ainda defende esse presidente é um mau-caráter” –, dizer o que todo mundo está dizendo para receber sua sardinha; tentar um viés novo e pagar de polêmico; ou simplesmente abordar outros assuntos e passar por alienado.


Vamos hoje por essa terceira via, shall we?

 

Deixa eu engolir que eu conto. 

Nessa vida enclausurada, o que tenho mais postado são pratos que tenho pedido, alguns que tenho preparado. Já criei a expectativa em alguns seguidores das dicas de delivery na sexta – o dia em que quebro a dieta rigorosa que ainda mantenho durante a semana, e começo a esbórnia do “finde”.

O bolo de chocolate é o que pedi de mais gostoso da Helena Rizzo, do Mani. 


A(s) quarentena(s) estabeleceram os serviços de entrega de uma forma que acho que não tem mais volta – a maioria dos restaurantes teve de aderir e acho que a reabertura não mudará o quadro.

Fim de semana passada pedimos o paillard com massa do Cantina do Piero. 


Para mim foi ótimo, porque sempre adorei culinária, comer, cozinhar. Sou taurino - “todos os prazeres são orais” - um obeso mórbido... às vezes no corpo de um atleta, às vezes no corpo de um obeso suave. (Eu falo, é a vaidade que salva minha vida). Mas muitos restaurantes eu deixava de frequentar por falta de companhia, por preço, por preguiça. Percebo hoje que, embora eu adore comer bem, prefiro comer em casa. E isso também passa por algo que já sei há tempos: detesto ser servido. Nem passa por algo tão nobre como questões sociais, eu apenas prefiro fazer eu mesmo o que posso fazer (seja servir uma fatia de pizza, seja cortar o cabelo, seja.. buscar um copo d'água. Me lembro que me irritava tanto quando um antigo namorado me pedia um copo d'água. Se eu quero um copo d'água eu LEVANTO E PEGO.)

Por isso não consigo mais ter faxineira há aaaanos...

(Mas voltemos ao assunto.) 

Por mais que os restaurantes cobrem mais caro por prato no delivery, a conta final é sempre muito mais baixa (sai uber, couvert, entradinhas e, principalmente as bebidas alcóolicas, que é o que mais encarece a conta num restaurante). 

Além disso, nos dias atuais, não há mais NADA a fazer, nenhum programa, teatro, cinema, balada. Quando a gente se sentava num boteco com amigos, dava para gastar fácil mais de 100 pila numa noite. Esse é o preço de um bom prato, de um chef estrelado, que hoje se pede por delivery. (Ao menos essa é a conta que faço para convencer a mim mesmo...)

(Ai, mas gastar isso num livro é caro...)

(...ok, não vou entrar nessa discussão agora.)

Tenho aproveitado os deliveries desde antes da pandemia. Os últimos dois anos foram bem mais estáveis para mim financeiramente – longe de ser um período de riqueza, eu ao menos tenho um fluxo mensal constante; já passei muitos períodos de pobreza, daí entrava uma bolada e eu gastava tudo indo pra Finlândia, pra Armênia, pro Japão! (Agora nem dá para pensar em viajar...). Bem, dois anos atrás eu nem tinha mais CELULAR, estava quase desistindo da vida... mas isso também é outro assunto.

Como alguns amigos agora têm me pedido dicas, coloco aqui as minhas melhores opções de deliveries que encontrei até agora. Algumas foram descobertas recentes, outras eram restaurantes que sempre gostei – alguns eu não ia/vou há anos. Podemos chamar de meu “Prêmio Louca dos Deliveries”.

 

SANDUÍCHE

Sanduíche de "sexy" pastrami do Z-Deli.

Postei há poucas semanas que o Fôrno tinha o melhor sanduíche de pastrami da cidade. Me recomendaram o do Z-Deli e tive de rever meu voto. Eles também têm hambúrgueres ótimos – meus favoritos eram do Cabana Burger, mas da última vez não deu muito certo. (Hambúrguer artesanal tenho feito eu mesmo em casa, ou então peço um McDonalds, Burger King, que confesso que amo). O sanduíche de pernil do Estadão chega bem bacana (assim como o de mortadela do Mercadão, mas esse acho meio excessivo).

 

O hambúrguer de wagyu trufado com alho negro do Cabana foi o melhor que comi.


MASSA: 

Paillard alla pietá

Confesso que não sou muito fã de massa, tem que ter alguma carne no meio, mas os meninos sempre gostam e acabo pedindo (como agora que estou com OUTRO loiro pós-púbere em casa... que come feito um passarinho). No quesito “comidona”, o polpetone do Jardim de Napoli é imbatível, mas nesse fim de semana pedimos também uma ótima massa aos quatro queijos com paillard da Cantina do Piero. Agora, dos melhores pratos que pedi na VIDA é o paillard alla pietá do Evvai – já tinha comido (outro prato) lá e esse já pedi esse duas vezes. As massas do Arturito (da Paola Carosella) também são bem boas e com um preço ok, mas vêm tão mau-servidas (da última vez a porção tinha literalmente meia dúzia de nhoques) que desisti.

 

O polpetone do Jardim de Napoli

O Nhoque da Paola: Literalmente veio isso na porção. Faz sentido num restaurante, empratado, pós-couvert, entrada. Pra mandar para a casa de uma pessoa, espera-se um pouco mais de generosidade, principalmente de nhoque, que é um prato símbolo de fartura. O que imagino é que, com a "democratização do delivery", muita gente que nunca sonhava em ir num restaurante da Paola, resolveu pedir, por isso eles diminuíram o menu (e as porções). 



FRUTOS DO MAR: 

Comidinha de praia com preço de cidade grande. 

Coisa cara, mas eu amo. E não adianta pedir em lugar mais baratinho, que não presta. O clássico Rufino’s (que eu ia muito com minha avó, lá nos anos 90) é ótimo também no delivery. O Badauê, de Maresias, que abriu há poucos anos em São Paulo, também é bem bom. Coco Bambu não é tão barato, mas o povo pede porque tem porções enormes... mas também não presta... não só porque é antro de minions; é uma culinária grosseira, sem a menor sutileza, aqueles camarões misturados com arroz, creme de leite, batata palha... Evite.

 

JAPONÊS: 

Comeria isso todo dia. 


Esse é daqueles caros que eu amo mesmo quando peço mais baratinho. O melhor que pedi, de longe, é o By Koji – dos melhores que comi na VIDA (e olha que já fui ao Japão), mas é caro. Tenho fugido dos muitos inventivos (tipo Tata Sushi), que colocam trufa num sushi e o pedido todo fica trufado (dica de delivery: se pedir trufa, tudo ficará trufado). Um meio-termo que satisfaz? Flying Sushi (ao menos dá para variar o peixe, não é só salmão). 

 PIZZA: 


Não dava nada pro Abraccio, mas essa pizza de cerveja com abobrinha e queijo de cabra é fenomenal.

Bráz (não Bráz Elettrica, por favor). Mas pizza também é daquelas coisas que mesmo quando é ruim é bom. O Abraccio me surpreendeu com uma de abobrinha com queijo de cabra. E ainda prefiro as daqui da esquina (tipo Nonna D’Amore, na Frei Caneca) às franquias como Pizza Hut e Dominós (a pior de todas).

 

CARNE: 

O estrogonofe do Freddy. 


Ainda preciso encontrar um bom delivery de churrasco. (Quem me acompanha há tempos sabe que já virei quase mestre churrasqueiro na época em que morei em Maresias – fazia churrasco quase TODO dia; daí meu lado obeso mórbido). Já pedi no Fogo de Chão, Brazeiro, Le Bife, Outback... Vem tudo mais ou menos. Tenho é uma boa dica de estrogonofe: Freddy (outro restaurante clássico que eu ia com minha avó) – é caro, mas é ótimo e dá para dois ou três. No Parmegiana: o Degas, mas o da Pompeia, que o de Pinheiros não presta (não sei porque, mas é diferente).

 ARMÊNIA: 


Kibe cru, homus, esfihas...


Serei óbvio (para os armênios), mas... Garabed. Sei que é caro, as esfihas são bem superfaturadas e não são tudo isso, mas o kibe cru, o homus, são os melhores que comi na VIDA (e olha que já fui à Armênia). Effendi também é bem bom, com um preço um pouco mais acessível (as esfihas talvez estejam pau a pau). Em esfiha, pessoalmente eu gosto mais da árabe, mais macia, menos crocante, então se é para comer esfiha acabo pedindo no Jaber mesmo, que ainda é meu favorito.

 

Como a quarentena continua, se estende, nunca vai acabar, essa lista estará sempre em construção. Aguardo suas sugestões nos comentários. (Não tem comentários, mas se você quiser muito, conseguirá me sugerir.)

Fun fact: enquanto buscava minhas fotos de comida no iPhone, muitos pratos deixaram de ser assinalados, enquanto vários detalhes de membros masculinos que me foram enviados eram listados como comida. Assim seguimos mastigando humanos, digerindo seus sonhos...

Ainda malhando em casa...

27/02/2021

GANHE 5 MIL SEM SAIR DE CASA!

Devidamente trajado para conversar de casa com meu editor...


Fiquei pensando que vocês estão todos há quase um ano trabalhando de casa...

E eu que trabalho há quase vinte ainda não compartilhei com vocês dicas essenciais, conselhos preciosos, táticas infalíveis para sobreviver trabalhando direto do sofá...

Então estou lançando meu curso de “frila por quilo” nas principais plataformas digitais...


Mentira.


 Eu não sei ganhar dinheiro, senão lançaria...


 Eu trabalho em casa, sim, desde 2002, com alguns breves períodos em que fiz uns frilas in-loco. Antes disso, trabalhei em agência de publicidade por quatro anos, em livraria por alguns meses. Mas quase toda minha vida profissional foi mesmo moldada em casa.

 Eu costumava dizer que é preciso ter temperamento para isso, eu tenho, gosto de trabalhar sozinho; mas hoje em dia isso não faz muita diferença, não é? Já ouvi tanta gente dizendo que nunca conseguiria trabalhar de casa, porque ficaria enrolando o dia todo. Bem, imagino que muitas dessas pessoas tiveram de aprender.

 Eu sentia bem o contrário – quando trabalhava em agência de publicidade (ou quando trabalhei no marketing da Abril) sentia que ter de cumprir horário era um grande desperdício de tempo. Eu passava HORAS sem fazer nada, na internet, como um plantão infinito, e às vezes quando estava prestes a ir embora no final do dia, chegava um “job” urgente que me deixava até tarde da noite.

Trabalhar em casa propicia esse luxo de fazer seus horários, desde que você cumpra prazos (e eu NUNCA, JAMAIS, furo um prazo, tenho orgulho de dizer sempre isso), mas também apresenta questões bem problemáticas:

Se você tem um fluxo-fila constante de trabalho, é tentador trabalhar demais, porque diferentemente de um trabalho fixo, quanto mais você trabalha, mais você recebe. Daí tem o perigo não apenas de minar sua vida pessoal, mas de comprometer a qualidade do seu serviço. Como tradutor, recebo tantos prazos indecorosos de tradução: “300 páginas num mês” – e se eu traduzir 300 páginas num mês obviamente vou receber mais nesse mês do que se traduzir 200, 150, mas qual será a qualidade do trabalho? E se estabeleci que faço 200 páginas por mês, mas minha filha de oito anos precisa de aparelho nos dentes?

(Se quer saber, 300 laudas por mês de tradução literária dá por volta de 10 mil reais – é o dobro de 5 mil reais sem sair de casa, mas também sem ter muita vida. E é impossível que você traduza isso com qualidade ou mantenha esse ritmo todos os meses do ano.)

(Felizmente não tenho uma filha. Ainda mais precisando de aparelho.)

O problema mais normal é que você, como frila (e ainda mais como frila em literatura como eu) não consegue um fluxo tão constante de trabalho assim. Há momentos em que TODOS se lembram de você (para mim, parece sempre que é entre julho e novembro)  e momentos em que nada aparece. Então o que você ganha num mês tem de ser diluído em vários. Tem muitas editoras bacanas que te passam livros sempre, mas de repente elas fazem um intervalo de um, dois meses, até te mandar o próximo, coisa normal, então são DOIS MESES que você não recebeu nada, se não conseguiu manobrar com outras editoras ou outros frilas. (Nem sempre é fácil manobrar. Muita editora quer o trabalho para ontem – então se você já está com algo, perde o job; e tem editora que se você recusa uma vez te coloca na geladeira por meeeeeses.)

Daí tem os pagamentos....

Porque por mais que a gente trabalhe mês inteiro naquele job-livro-tradução, parece que o pagamento é um favor. A data é flutuável (eu, por exemplo, estava esperando um pagamento grande que atrasou mais de uma semana,  e ouvi que atrasou “por causa do feriado bancário do carnaval” – “Oi, vou atrasar meu aluguel este mês, sem multa, por causa do carnaval, tá?”)

Eu sempre tenho essa sensação, de que o pessoal que nos paga nas empresas, que tem de enfrentar o duro dia-a-dia corporativo, acha que a gente que faz frilas pra eles, de casa, está sempre recebendo um extra. Não parece que eles estão pagando por algo que a gente ficou um mês inteiro (ou mais) fazendo – TODOS OS DIAS.

E essa é outra merda de ser frila, claro, ter de cobrar, conferir, mandar nota, o dinheiro nunca cai naturalmente. É sempre um parto...

Ah, e tem ainda outra merda: você trabalha meses, anos, com um contato (editora, assistente) numa empresa. Ele é demitido. Você também é, sem aviso prévio nem nada. Claro, a empresa pode continuar usando seus serviços, mas o mais natural é que a nova pessoa que ocupe o cargo use seus próprios contatos.

Mas se você já está nessa merd... nessa vida, digo, devido à pandemia, a vida de frila também em suas benesses.  Você faz seus horários, suas férias, acorda a hora que quer, pode trabalhar ouvindo sua música; e só de não ter um patrão a quem responder já faz toda a diferença. Precisa ter certo temperamento, sim, precisa ser caxias. Eu costumo dizer que “quem tem a si mesmo como patrão, tem como empregado um escravo.” Sou bem rígido com meus prazos, procuro sempre me antecipar. Tem vários dias que estou sem pique, cansado, de ressaca, com problemas pessoais, e me obrigo a cumprir a cota diária de laudas. No final, acabo sempre entregando antes do prazo. Mas acho que isso é o mínimo que a gente tem de fazer se quiser sobreviver num mercado tão difícil. (como na tradução literária).

Então vão aí dicas rápidas para quem quer trabalhar em casa...


... não, primeiro vou desmistificar mitos:

 

- Não pode trabalhar de pijama:

Acho bobagem, essa coisa de ritual de que “tem de se vestir pro trabalho para fazer ‘home office’. Tem é de se sentir à vontade. Eu trabalho de regata e bermuda todos os dias. Claro, se tiver reuniões por vídeo, melhor se ajeitar um pouquinho.

 

- Desligue as redes sociais:

Também acho bobagem. Redes sociais para mim é como o colega trabalhando na baia do lado. Te distrai um pouco, e faz parte para você não se sentir tão sozinho. E é uma forma de se manter antenado no que está acontecendo no mundo - isso é importante de manter, se está trabalhando sozinho. Eu acho que se você deixa as redes sociais ligadas TODOS os dias, você não tem necessidade de ficar olhando TODA a hora. 

 

- Monte uma super área de trabalho:

Depende da sua área de atuação. Se você trabalha com texto, como eu, não precisa de um super investimento-computador-área. Dá para se virar com o que você tem. Mas é importante ter uma área separada (já explico nas dicas).

 

- Acorde cedo para trabalhar:

O melhor de trabalhar em casa é poder acordar quando quiser. Não se obrigue a acordar cedo (a não ser que haja outros compromissos pessoais que te obriguem a isso), desde que você consiga cumprir as horas diárias para realizar suas tarefas. Eu passei anos acordando perto da hora do almoço. Nos últimos anos, tenho acordado cedo, por volta das 7h, mas geralmente vou malhar, cuido das coisas da casa, e só começo a trabalhar lá pelas 11h.

 

Então vamos ao que você DEVE fazer:

 

- Seja solitário:

Trabalhar em casa é ideal para quem não tem vida, não tem família, não tem ninguém no mundo como eu... Sofrências à parte, muitas das dicas que dou aqui ficam mesmo prejudicadas para quem mora com marido e filhos. Porém o ESSENCIAL para trabalhar em casa é ter um espaço reservado, em que você possa ficar sozinho, fechar a porta. (Ou se mora com alguém, que esse alguém passe o dia todo fora). Já tive períodos com namorado aqui em casa (como os dois meses do Tadzio aqui no final do ano) e é muito complicado, porque meu escritório é na sala. Ter um ser vivo circulando pela casa desconcentra muito mais do que as redes sociais, te digo. (Especialmente se o ser circula só de cueca...)

- Não beba:

Não ter horários, não ter patrão, para muitos é um convite ao alcoolismo. Para algumas atividades criativas (como escrever livros) a bebida até pode ajudar. Mas torna-se insustentável como prática diária. Então se está trabalhando em casa, não pode pegar nem aquela cervejinha. Deixe para o dia da folga. E tenha dia da folga. 

- Não viaje:

E não estou falando de dorgas  - isso entraria na mesma categoria do “não beba.” Se você quer trabalhar de casa, esteja em casa. Tem essa ideia de que “quem trabalha de casa pode trabalhar de qualquer lugar”, e é verdade, mas não no ritmo e comprometimento que é exigido. Se você está sempre viajando, conhecendo lugares novos, não vai ter tanto tempo para dedicar à sua rotina de trabalho – a não ser que seu trabalho envolva turismo/viajar. Eu já passei períodos trabalhando de outros lugares, em Florianópolis, na Finlândia, Maresias, mas foram períodos de meses em que aluguei uma casa, criei uma rotina, e isso sempre envolve um tempo de adaptação. Se você quer VIVER viajando, é bom que tenha um trabalho que envolva isso; e se vai só tirar férias, tire férias, esqueça o trabalho, por mais que dê para fazer no laptop.

- Respeite a semana:

Não é porque você está trabalhando de casa que a semana deixou de existir. Tente respeitar o ritmo de segunda a sexta, porque isso fará sentido para seus contatos, seus pagamentos, seu banco. Isso também te deixará mais em sintonia com o mundo. Eu geralmente trabalho de segunda a sexta, avançando quase sempre na manhã, às vezes tarde do sábado (domingo praticamente nunca). Infelizmente eu não consigo nunca respeitar feriados (trabalho nos feriados da semana, mas eventualmente me permito me fazer um “feriado de mim mesmo” numa brecha de trabalho).  E nesse respeite a semana: Não é porque você está trabalhando no FDS que deve mandar emails de trabalho aos outros (ou de cobrança). Deixe para a fatídica manhã de segunda. (Anote isso, dona Elisa Nazarian).

Por fim, e mais importante:

- Não deixe a coelha roer os fios do seu computador.


(Para quem gostou do curso, pode depositar por pix: santiagonazarian@gmail.com )


19/02/2021

MEUS 100 ANOS NA FOLHA

Para sempre lembrar...


A Folha de São Paulo faz 100 anos hoje. Vi tantos amigos comemorando, contando suas experiências, que não pude deixar de compartilhar minha experiência e expressar minha gratidão.


2017

Foi o jornal que mais me deu espaço, sempre, não apenas resenhando meus livros (positivamente, negativamente...), dando notas sobre os lançamentos, mas me convidando para contribuir. Colaboro com mais ou menos assiduidade desde... 2005? Foram dezenas de resenhas, artigos, sempre em torno de literatura, com total liberdade. A única limitação que sempre recebi foi de espaço (e triste ir vendo que o espaço para literatura foi ficando cada vez menor). 

Ano passado eles publicaram uma página inteira com um capítulo do meu Fé no Inferno.

Como colaborador, nunca frequentei a redação (acho que nunca nem fui lá dentro!); muitos dos editores que me pediram texto eu só conheço pelas redes sociais (ou email), então nunca tive esse dia-a-dia do jornal. Também nem sou jornalista. Contribuí e contribuo como escritor que está há um bom tempo nesse meio, que circula bem (que tem o blog de literatura mais antigo do Brasil...), e que conseguiu construir certo nome... acho... certo nome amaldiçoado. 

Confesso que não guardei NADA - quer dizer, nada do que eu publiquei lá; do que publicaram sobre meus livros eu tento guardar, ou tentava. Hoje em dia estou mais relaxado... Mas dos artigos e resenhas que escrevi, não guardei praticamente nada impresso.

Então tive de puxar pela memória (e pelo Google) para tentar lembrar dos textos que mais gostei de escrever, que a Folha publicou. A grande maioria foi encomenda deles (e teve algumas encomendas ainda que me fizeram que não aceitei, simplesmente porque não me achei capaz). Mas vamos lá, links com bastidores: 


"SAI DAQUI COM TEU CURUPIRA."

Um dos textos mais "polêmicos" que publiquei na Folha, foi aquele em que avaliei como a literatura fantástica (e o "fantástico em geral") não decolava no Brasil (em 2019). Os nerd tudo pirou, me xingaram de tudo quanto é nome, como se eu estivesse torcendo contra. Veio muito autorzinho novo no twitter dizer que seu livro tava vendendo, mas passado um ano e meio, não discordo de nada do que escrevi. 

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/09/eterna-promessa-literatura-fantastica-brasileira-nunca-decola.shtml

"QUEM NÃO LACRA NÃO LUCRA."

Um pouco antes eu havia publicado outro texto, que não deu tanta repercussão, que falava da necessidade do autor hoje ter uma ligação com a situação atual, ter um lado militante além da ficção pura. Entrevistei gente bacana e consegui bons depoimentos. E ainda acho que é uma discussão pertinente: 

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/07/em-meio-a-crise-autores-e-editores-buscam-meios-de-renovar-a-ficcao.shtml

NOVINHOS

Uma das coisas mais bacanas do espaço que a Folha me propiciou foi apresentar novos autores. A maioria das resenhas é o jornal que me propôs, e teve uma ou outra que propus que não aceitaram. Mas adorei fazer a do Tobias Carvalho (que já tinha ganho o prêmio Sesc) e, principalmente, do Fernando Abreu de Barreto, que lançou um belo livro de terror, por uma editora pequena, e consegui emplacar na Folha. 

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/12/autor-estreante-remete-a-caio-fernando-abreu-mas-com-sentimentalismo-sutil.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/04/1614998-terror-lirico-indica-que-novo-autor-do-pais-pode-acrescentar-muito-ao-genero.shtml


ESCREVEU NÃO LEU

Em 2017 fiz outra matéria grande com um perfil de "quem lê literatura brasileira contemporânea". Foi meio polemicuzinho, um povo lacrador veio dizer que eu tinha uma visão parcial, mas foi legal para dar vozes a leitores, quase como uma homenagem. 

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/02/1857595-quem-sao-os-leitores-da-ficcao-brasileira-contemporanea.shtml


BOWIE NA BRASA

Quando Bowie morreu, me pediram uma crônica. Não sei se ainda gosto (na verdade, nem tive coragem de reler), mas gostei de fazer. E acho que foi a única coisa que publiquei na Folha que não foi (diretamente) relacionada à literatura.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/01/1729901-quantas-vezes-um-anjo-cai.shtml


FICÇÃO CAFONA

Nem lembro direito do livro, mas revi o título dessa resenha e adorei: "Com 800 mil cópias vendidas, ficção cafona gira em círculos." Li muita ficção cafona pro jornal. (É preciso dizer que praticamente TODOS os títulos de matérias não foram dados por mim. Foi coisa da edição do jornal. No começo eu até me empenhava nos títulos, mas depois que vi que eles faziam os deles, comecei a mandar sem título mesmo. E muitas vezes fui xingado principalmente pela chamada...)

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/05/1623872-com-800-mil-copias-vendidas-ficcao-cafona-gira-em-circulos.shtml

"É ESCRITOR? MAS VIVE DO QUÊ?"

Uma matéria que foi ideia minha, e provavelmente a que mais me orgulha, foi a pesquisa para responder à velha pergunta: "Do que vive um escritor no Brasil?" Entrevistei 50 escritores, fiz minhas análises, e até hoje cito muito dessa matéria em entrevistas, embora a situação tenha mudado (deteriorado) muito de 2014 para cá, infelizmente. Também gerou polêmica. Escritorzinho-comercial-não-citado respondendo com texto na Folha que "vendo muito livro, ganho mais que meu pai". Faz parte... 

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/12/1567614-pesquisa-informal-mostra-que-poucos-escritores-se-sustentam-pela-venda-de-livros-no-brasil.shtml

NO MEIO DO MATO

Em 2014 também fiz uma análise do "êxodo urbano" na literatura brasileira. Como nós, urbaníssimos, estávamos buscando narrativas mais interioranas, rurais. Acho que ninguém se ofendeu. 

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/09/1522415-exodo-urbano-na-atual-escrita-brasileira.shtml


EPIDEMIA ZUMBI

Em 2009, em plena onda dos Vampiros (com a saga "Crepúsculo") eu fiz uma matéria antevendo os zumbis como a próxima onda. Estava certo, não?

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3112200917.htm


MARCADO COMO TATUAGEM

Não coloquei aqui dezenas de resenhas que fiz de literatura americana/inglesa contemporânea, a maioria de regular para negativa. Mas acho que a primeira foi essa de 2005 (eu é que não vou reler, tenho medo). E foi depois disso que a Nova Fronteira entrou em contato comigo para publicar meu livro ("Mastigando Humanos"). O resto é história...

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1009200519.htm

MIRA, ISOLA

MENTIRA! Porque acabei de descobrir que ANTES disso já tinha publicado resenha de um livro do... MIRISOLA! Me usaram de boi de piranha, porque falei mais ou menos bem e o cara logicamente me espinafrou, escreveu uma carta-resposta com impropérios que a Folha resolveu não publicar. Sei lá se eu estava certo - eu era jovem, e os jovens sempre estão certos. Também não tenho coragem de reler: 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2304200520.html


NOS PRIMÓRDIOS...

E em.. 1998! Eu já tinha foto na Folha, no Festival Mix Brasil, nos curtas que fazia sobre body art. 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq08059833.htm


Essa eu guardei...

(Quem não consegue acessar os links por causa do paywall, pode pagar e ajudar o jornal ou pesquisar como driblar, claro...)






25/01/2021

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE: O NOVO NORMAL


- Agora que começou a vacinação, muito se fala sobre “a luz no fim do túnel”, embora o túnel ainda seja longo, e as coisas só comecem a voltar ao normal no próximo ano.

- Mas pessoalmente acho que algumas coisas NUNCA mais serão como antes, independentemente da eficácia da vacinação. É o “novo normal”, de que tantos falam, que veio para ficar. 

- Usar máscara, por exemplo. Tem muita gente ansiosa para largar (bom, muitos já largaram, muito nem chegaram a usar). Mas eu acho que sempre haverá uma parcela da população ainda usando, não só pela paranóia, não só por novos vírus; é um costume que sempre foi normal em países asiáticos (e que estranhei quando fui ao Japão, há dez anos, ver tanta gente circulando de máscara no transporte público) e que deve permanecer em muitos que estiverem doentes, que tiverem medo de ficar doentes, seja de um resfriado. Eu ainda acho um saco, ainda mais agora no verão.

- Cumprimentar amigos (e estranhos) com beijinhos e o contato físico social em geral é algo que deve diminuir bem, felizmente. Nunca gostei, sempre tive meio nojinho, e agora todo mundo terá motivos para ficar eternamente ressabiado.

- Deixar sapato para fora da casa é outro costume oriental, que eu e muita gente adotamos durante a quarentena. É mais higiênico. E não tem motivo para voltarmos a ficar em casa calçados, pelo menos aqui no meu apê.

- As lives já existiam e devem permanecer. O triste é que acho que muito festival literário vai continuar adotando esse formato, para não precisar pagar passagem-hospedagem-cachê aos autores. E acho que também haverá híbridos, com autores nacionais presentes, por exemplo, e estrangeiros ao vivo num telão.

- O formato também das entrevistas e correspondentes de TV aparecendo de casa, por zoom acho que também vai pegar. Participei de vários programas de TV desde que começou a quarentena (Metrópolis, Arte1, Canal Curta, Jornal da Cultura) e foi tudo por zoom. Acho que nunca mais que uma TV vai mandar uma equipe de gravação aqui em casa.

- Academia com hora marcada é outra tendência que acho que fica. Meio chato, ter de se programar de antemão, ter horário limitado, mas limita mesmo as aglomerações. E acho que várias outras aglomerações que antes ocorriam naturalmente agora serão contidas.

- Delivery de tudo foi um lado positivo da pandemia, que deve permanecer. Não vejo os restaurantes mais deixando de entregar, principalmente com o crescimento dos aplicativos. Acho que o delivery deve até ainda aumentar em outras áreas.

- Posso deixar o texto aqui para daqui a dois, três, cinco anos ver o quanto acertei nas previsões... mas será que meu blog, será que EU durarei mais tanto tempo?

19/01/2021

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE 2.1

São Paulo do alto... do hospital. 


Tenho passado dias morosos e melancólicos no hospital. Do alto da varanda do 13o andar, olhando a vista de São Paulo enquanto escrevo...

Minha irmã se cuidou bem mais contra a covid do que eu, mas teve um problema grave no pâncreas e teve de operar em plena pandemia. Foi tudo bem, e agora está passando uma semana internada. Eu fico com ela quando meu cunhado tem de trabalhar (minha mãe está com minha sobrinha). 

Até que é gostoso, esse clima convalescente. Enquanto minha irmã cochila, eu trabalho nas traduções. Quando ela acorda, assistimos às notícias do apocalipse, a chegada da vacina, Pazuello sem saber flexionar “as duas milhões” de doses... Especialistas dizem que este ano deve ser mais difícil do que o ano passado. Nós não precisamos de especialistas para isso. 

Fico pensando como será quando eu mesmo for internado; eu nunca tive nada, mas a idade vai chegando... uma hora chega. Ano passado minha última avó se foi de covid, este ano começou com minha irmã mais velha no hospital, a fila vai diminuindo... 

Também farei menos falta no mundo. Todo escritor é melhor morto. Só deixo a escrita, não deixo família, não tive filhos, não transmiti legado de miséria nenhuma, blábláblá. Se eu fosse internado, nem sei quem ficaria no hospital comigo. (Então, se acordo de madrugada com uma dor estranha no peito, se sinto um tumor no cérebro, eu apenas deito e espero passar.) 

A vista de noite...



Marco voltou semana passada para o sul, para a casa dos pais. Foi uma relação intensa, mundos muito diferentes, não só pela diferença de idade, o que não deixou de tornar tudo mais interessante. Deixa saudades e muito carinho. 

A melhor notícia do ano parece ser que já temos um novo presidente para 2022. QUALQUER coisa é melhor do que a reeleição do indigente. Agora Dória disparou na frente e, longe de ser uma boa notícia, parece que é a melhor que teremos, ainda com um longo caminho para as vacinas trazerem normalidade. Ano novo difícil de fato...




15/01/2021

O ESCRITOR É UM CAÇADOR SOLITÁRIO




O lobo-guará é um caçador solitário. De pernas longas, orelhas compridas, chega a cerca de um metro de comprimento, quando adulto. Com hábitos crepusculares, não sai quando está muito quente, nem quando está muito frio. Animal onívoro, vive em savanas e cerrados da América do Sul, mas não sabe jogar futebol. Tampouco sabe jogar xadrez, paciência ou carteado. Não frequenta bares nem bibliotecas. Não vai a estádios. Não promove aglomerações. Nem é de jogar conversa fora. O lobo-guará só se aproxima de outros indivíduos de sua espécie quando é para se acasalar. Isso se tiver sorte.

Sorte nenhuma teve o lobo-guará-sépia...


Comecinho da minha "Fábula do Lobo-Guará", que saiu este mês na Máquina de Contos, projeto com curadoria do Tiago Velasco, apenas para clientes Nextel e Algar Telecom. Apesar de não ter sido uma cessão exclusiva, pagaram um bom cachê, então por enquanto vou deixar só por lá. Mais pra frente de repente publico em outro veículo... ou em livro. Eu até quero publicar outro livro de contos (até hoje só tive o Pornofantasma) e já tenho uma boa dúzia reunida - alguns que saíram aqui e ali, outros tantos inéditos. Mas é aquela coisa, já não tem muita gente lendo meus livros... e livro de contos povo lê menos ainda...

A verdade é que me parece cada vez mais difícil escrever algo relevante hoje em dia. Não sou daqueles pau-no-cu que diz que a realidade é mais louca-importante-interessante do que a ficção (essa é a ideia mais sem imaginação que conheço), mas sei bem o espaço cada vez menor que a ficção literária recebe neste mundo pós-apocalíptico. 

E depois de tratar do tema provavelmente mais importante que eu pessoalmente poderia tratar como escritor (o genocídio armênio), o que mais posso fazer? Mais um livrinho de terror? 

"A irracionalidade toda berra ao redor: eu estou morrendo! Vivendo! Gozando! Eu estou me desperdiçando e ninguém está prestando atenção!" (do meu "BIOFOBIA"). 

Não. Não tenho escrito nada, livro nenhum, desde que entreguei Fé no Inferno, há um ano. Por isso sempre gosto de encomendas como essa, da Máquina de Contos, alguém me pedindo um texto. Ao menos sei que tem alguém esperando do outro lado...Esse formato de fábula/conto de fadas é algo que adoro fazer, e até tenho outro livro infantil para sair, já vendido para a Melhoramentos (que atrasou horrores pela pandemia, mas talvez ainda saia este ano...). 

Mas romance, que é o que importa, não tenho nada, nem na gaveta, nem na cabeça, nem na vontade...

Voltando aos contos, esse projeto do Velasco também está abrindo espaço para novos autores. É uma forma de começar a formar um público-currículo, e também tem um cachezinho decente. Se você ainda tem a ilusão de que a carreira literária vai te fazer feliz, dá uma olhada: 


Boa sorte!



02/01/2021

MEU ANO NOVO


Eu na virada. 


2020 não deixou de decepcionar-impressionar nem na sua reta final. As últimas semanas foram tensas, com problemas graves na família, crises pessoais, mas conseguimos sobreviver... até aqui. 

Mas pouco antes tava aqui. 

Por uma série de motivos, minha mãe fez um almocinho de Natal bem antecipado, então dia 25 foi só eu mesmo e o Marco, meu namorado. 

Pra minha sobrinha dei de presente esse lindo vestidinho. 
No pré-Natal fiz meu famoso tender na Coca-cola, de uma receita que peguei da Nigella, com cuscuz marroquino. 

Clima de virada me pega como inferno astral, e eu sempre gosto de viajar - para não parecer que acabei a temporada na mesma. Nunca é fácil viajar no réveillon, e eu sabia que este ano com a pandemia o desafio seria ainda maior. Acabei reservando um belo hotel por três dias durante o Natal, e na véspera ainda não sabia se conseguiria-deveria ir, com a volta da fase vermelha. Arriscamos, fomos, foi tranquilo. Ficamos em Paúba, no litoral norte, que decidiu ignorar as restrições - os serviços funcionavam normalmente. Mas a praia e o hotel estavam vazios. Deu para ser feliz. 

A praia. 
Meu Tadzio. 


Eu. 


Trilhas. 

Comidinhas de praia. 


Réveillon mesmo foi aqui. Ainda estou com muito trabalho (de tradução) (felizmente), fiz comidinhas gostosas, tomamos coisinhas, e comemoramos o fim do mundo. 


Abrindo os trabalhos. 


Baladinha em casa. 



Moqueca, arroz de coco, farofa de banana e lula a dorê foi o primeiro prato que fiz em 2021.



Tudo permanece incerto para 2021, Marco deve voltar em breve pro sul, tem uns perrengues vindo aí, mas tenho tentado aproveitar os momentos, a companhia, as ondas positivas...



Queimando o que resta...

A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...