25/01/2021

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE: O NOVO NORMAL


- Agora que começou a vacinação, muito se fala sobre “a luz no fim do túnel”, embora o túnel ainda seja longo, e as coisas só comecem a voltar ao normal no próximo ano.

- Mas pessoalmente acho que algumas coisas NUNCA mais serão como antes, independentemente da eficácia da vacinação. É o “novo normal”, de que tantos falam, que veio para ficar. 

- Usar máscara, por exemplo. Tem muita gente ansiosa para largar (bom, muitos já largaram, muito nem chegaram a usar). Mas eu acho que sempre haverá uma parcela da população ainda usando, não só pela paranóia, não só por novos vírus; é um costume que sempre foi normal em países asiáticos (e que estranhei quando fui ao Japão, há dez anos, ver tanta gente circulando de máscara no transporte público) e que deve permanecer em muitos que estiverem doentes, que tiverem medo de ficar doentes, seja de um resfriado. Eu ainda acho um saco, ainda mais agora no verão.

- Cumprimentar amigos (e estranhos) com beijinhos e o contato físico social em geral é algo que deve diminuir bem, felizmente. Nunca gostei, sempre tive meio nojinho, e agora todo mundo terá motivos para ficar eternamente ressabiado.

- Deixar sapato para fora da casa é outro costume oriental, que eu e muita gente adotamos durante a quarentena. É mais higiênico. E não tem motivo para voltarmos a ficar em casa calçados, pelo menos aqui no meu apê.

- As lives já existiam e devem permanecer. O triste é que acho que muito festival literário vai continuar adotando esse formato, para não precisar pagar passagem-hospedagem-cachê aos autores. E acho que também haverá híbridos, com autores nacionais presentes, por exemplo, e estrangeiros ao vivo num telão.

- O formato também das entrevistas e correspondentes de TV aparecendo de casa, por zoom acho que também vai pegar. Participei de vários programas de TV desde que começou a quarentena (Metrópolis, Arte1, Canal Curta, Jornal da Cultura) e foi tudo por zoom. Acho que nunca mais que uma TV vai mandar uma equipe de gravação aqui em casa.

- Academia com hora marcada é outra tendência que acho que fica. Meio chato, ter de se programar de antemão, ter horário limitado, mas limita mesmo as aglomerações. E acho que várias outras aglomerações que antes ocorriam naturalmente agora serão contidas.

- Delivery de tudo foi um lado positivo da pandemia, que deve permanecer. Não vejo os restaurantes mais deixando de entregar, principalmente com o crescimento dos aplicativos. Acho que o delivery deve até ainda aumentar em outras áreas.

- Posso deixar o texto aqui para daqui a dois, três, cinco anos ver o quanto acertei nas previsões... mas será que meu blog, será que EU durarei mais tanto tempo?

19/01/2021

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE 2.1

São Paulo do alto... do hospital. 


Tenho passado dias morosos e melancólicos no hospital. Do alto da varanda do 13o andar, olhando a vista de São Paulo enquanto escrevo...

Minha irmã se cuidou bem mais contra a covid do que eu, mas teve um problema grave no pâncreas e teve de operar em plena pandemia. Foi tudo bem, e agora está passando uma semana internada. Eu fico com ela quando meu cunhado tem de trabalhar (minha mãe está com minha sobrinha). 

Até que é gostoso, esse clima convalescente. Enquanto minha irmã cochila, eu trabalho nas traduções. Quando ela acorda, assistimos às notícias do apocalipse, a chegada da vacina, Pazuello sem saber flexionar “as duas milhões” de doses... Especialistas dizem que este ano deve ser mais difícil do que o ano passado. Nós não precisamos de especialistas para isso. 

Fico pensando como será quando eu mesmo for internado; eu nunca tive nada, mas a idade vai chegando... uma hora chega. Ano passado minha última avó se foi de covid, este ano começou com minha irmã mais velha no hospital, a fila vai diminuindo... 

Também farei menos falta no mundo. Todo escritor é melhor morto. Só deixo a escrita, não deixo família, não tive filhos, não transmiti legado de miséria nenhuma, blábláblá. Se eu fosse internado, nem sei quem ficaria no hospital comigo. (Então, se acordo de madrugada com uma dor estranha no peito, se sinto um tumor no cérebro, eu apenas deito e espero passar.) 

A vista de noite...



Marco voltou semana passada para o sul, para a casa dos pais. Foi uma relação intensa, mundos muito diferentes, não só pela diferença de idade, o que não deixou de tornar tudo mais interessante. Deixa saudades e muito carinho. 

A melhor notícia do ano parece ser que já temos um novo presidente para 2022. QUALQUER coisa é melhor do que a reeleição do indigente. Agora Dória disparou na frente e, longe de ser uma boa notícia, parece que é a melhor que teremos, ainda com um longo caminho para as vacinas trazerem normalidade. Ano novo difícil de fato...




15/01/2021

O ESCRITOR É UM CAÇADOR SOLITÁRIO




O lobo-guará é um caçador solitário. De pernas longas, orelhas compridas, chega a cerca de um metro de comprimento, quando adulto. Com hábitos crepusculares, não sai quando está muito quente, nem quando está muito frio. Animal onívoro, vive em savanas e cerrados da América do Sul, mas não sabe jogar futebol. Tampouco sabe jogar xadrez, paciência ou carteado. Não frequenta bares nem bibliotecas. Não vai a estádios. Não promove aglomerações. Nem é de jogar conversa fora. O lobo-guará só se aproxima de outros indivíduos de sua espécie quando é para se acasalar. Isso se tiver sorte.

Sorte nenhuma teve o lobo-guará-sépia...


Comecinho da minha "Fábula do Lobo-Guará", que saiu este mês na Máquina de Contos, projeto com curadoria do Tiago Velasco, apenas para clientes Nextel e Algar Telecom. Apesar de não ter sido uma cessão exclusiva, pagaram um bom cachê, então por enquanto vou deixar só por lá. Mais pra frente de repente publico em outro veículo... ou em livro. Eu até quero publicar outro livro de contos (até hoje só tive o Pornofantasma) e já tenho uma boa dúzia reunida - alguns que saíram aqui e ali, outros tantos inéditos. Mas é aquela coisa, já não tem muita gente lendo meus livros... e livro de contos povo lê menos ainda...

A verdade é que me parece cada vez mais difícil escrever algo relevante hoje em dia. Não sou daqueles pau-no-cu que diz que a realidade é mais louca-importante-interessante do que a ficção (essa é a ideia mais sem imaginação que conheço), mas sei bem o espaço cada vez menor que a ficção literária recebe neste mundo pós-apocalíptico. 

E depois de tratar do tema provavelmente mais importante que eu pessoalmente poderia tratar como escritor (o genocídio armênio), o que mais posso fazer? Mais um livrinho de terror? 

"A irracionalidade toda berra ao redor: eu estou morrendo! Vivendo! Gozando! Eu estou me desperdiçando e ninguém está prestando atenção!" (do meu "BIOFOBIA"). 

Não. Não tenho escrito nada, livro nenhum, desde que entreguei Fé no Inferno, há um ano. Por isso sempre gosto de encomendas como essa, da Máquina de Contos, alguém me pedindo um texto. Ao menos sei que tem alguém esperando do outro lado...Esse formato de fábula/conto de fadas é algo que adoro fazer, e até tenho outro livro infantil para sair, já vendido para a Melhoramentos (que atrasou horrores pela pandemia, mas talvez ainda saia este ano...). 

Mas romance, que é o que importa, não tenho nada, nem na gaveta, nem na cabeça, nem na vontade...

Voltando aos contos, esse projeto do Velasco também está abrindo espaço para novos autores. É uma forma de começar a formar um público-currículo, e também tem um cachezinho decente. Se você ainda tem a ilusão de que a carreira literária vai te fazer feliz, dá uma olhada: 


Boa sorte!



02/01/2021

MEU ANO NOVO


Eu na virada. 


2020 não deixou de decepcionar-impressionar nem na sua reta final. As últimas semanas foram tensas, com problemas graves na família, crises pessoais, mas conseguimos sobreviver... até aqui. 

Mas pouco antes tava aqui. 

Por uma série de motivos, minha mãe fez um almocinho de Natal bem antecipado, então dia 25 foi só eu mesmo e o Marco, meu namorado. 

Pra minha sobrinha dei de presente esse lindo vestidinho. 
No pré-Natal fiz meu famoso tender na Coca-cola, de uma receita que peguei da Nigella, com cuscuz marroquino. 

Clima de virada me pega como inferno astral, e eu sempre gosto de viajar - para não parecer que acabei a temporada na mesma. Nunca é fácil viajar no réveillon, e eu sabia que este ano com a pandemia o desafio seria ainda maior. Acabei reservando um belo hotel por três dias durante o Natal, e na véspera ainda não sabia se conseguiria-deveria ir, com a volta da fase vermelha. Arriscamos, fomos, foi tranquilo. Ficamos em Paúba, no litoral norte, que decidiu ignorar as restrições - os serviços funcionavam normalmente. Mas a praia e o hotel estavam vazios. Deu para ser feliz. 

A praia. 
Meu Tadzio. 


Eu. 


Trilhas. 

Comidinhas de praia. 


Réveillon mesmo foi aqui. Ainda estou com muito trabalho (de tradução) (felizmente), fiz comidinhas gostosas, tomamos coisinhas, e comemoramos o fim do mundo. 


Abrindo os trabalhos. 


Baladinha em casa. 



Moqueca, arroz de coco, farofa de banana e lula a dorê foi o primeiro prato que fiz em 2021.



Tudo permanece incerto para 2021, Marco deve voltar em breve pro sul, tem uns perrengues vindo aí, mas tenho tentado aproveitar os momentos, a companhia, as ondas positivas...



Queimando o que resta...

A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...