05/08/2022


Beijo no Gordo (1938-2022)

Acordei hoje com a notícia da morte do Jô, uma tristeza. Ontem mesmo falei tanto dele. Das pessoas que mais deram força pra minha carreira – fui ao programa dele 4 vezes e sempre era um acontecimento. Ninguém mais no Brasil poderia fazer um programa desses, que abrangesse tantos assuntos, trouxesse tanta gente diferente, escritores dos mais variados. Por mais que falassem da soberba dele, sem ele os talk shows ficaram bem mais burros. Era um artista de um nível que não se faz mais. Ficam as boas lembranças e o privilégio de ele ter passado por minha vida.

06/07/2022

OFICINA


Vira e mexe leitores/seguidores me pedem oficinas literárias. E SEMPRE colegas autores me sugerem dar oficinas - como se fosse a única salvação do escritor hoje em dia. 

Acho esses cursos sempre duvidosos - muita gente que mal consegue escrever um livro tá aí, ensinando os outros a escrever. Mas faz certo sentido - o professor de piano não é exatamente o maior pianista, só é preciso ter didática, saber ensinar. 

Eu não sei. Não me considero apto a ensinar ninguém a escrever. Por isso, quando formato oficinas, penso em outros formatos, dar mais um panorama/real do meio literário, e discutir as ideias dos alunos.


É isso que vou fazer numa nova oficina, todos os sábados de agosto, das 10h às 12h, por zoom. 

São vinte anos de carreira nessa indústria vital, doze livros e muitas histórias para compartilhar. 

Vão ser inscrições limitadas, para poder discutir também as ideias dos alunos, responder dúvidas, etc, mas também não acho que vai lotaaaar. Já tenho um punhado de inscrições, e quando eu achar que deu eu fecho. 

As informações estão nos flyers. Para se inscrever e tirar qualquer dúvida, só me inscrever no email da foto principal. 


14/06/2022

PAUTAS ECOANDO


Escritoras na arquibancada do Pacaembu.

No fim de semana dei uma passada na Feira do Livro do Pacaembu, para encontrar os colegas e participar dos autógrafos da revista Morel, editada pelo querido Ronaldo Bressane, com a qual colaborei há alguns meses. 

Com a Giovana Madalosso, que organizou o encontro de mulheres.


Era manhã de domingo, bem o momento em que quase 500 escritoras se reuniram nas arquibancadas do estádio, para fazer uma fotografia das mulheres produzindo literatura hoje. 

Eu entendi o encontro mais como uma celebração do que um protesto. Se historicamente as mulheres sempre estiveram às sombras na literatura, o momento é de total holofote. Nunca se publicou tanto, se discutiu tanto, se fez tantos eventos, livrarias e publicações para as mulheres. 

É um momento para pautas identitárias, em que as produções literárias que mais repercutem discutem a questão das mulheres, dos negros, dos indígenas. (Lembro que, nos finalistas do Jabuti do ano passado, por exemplo, TODOS os finalistas tratavam de questões raciais, inclusive o meu livro). 

Com os góticos Nestarez e Aguiar, no Pacaembu.

Acho sempre bem vindo discutir novas pautas, trazer novos temas, novas estéticas - mas me incomoda um pouco quanto a "pauta da vez" se torna absoluta, e até se nega ou invalida quem está fora dela. Vi nos últimos tempos livros importantes de autores homens-brancos-héteros sendo escanteados por não se encaixarem na discussão de vez (sendo às vezes até invalidados por esses grupos). Sempre gosto de lembrar do exemplo de um prêmio que o Evandro Affonso Ferreira recebeu, que veio com uma avalanche de críticas femininas, por não terem mulheres finalistas. Não se pode dizer que um senhor escritor como o Evandro já teve em toda sua carreira tanto espaço quanto uma Djamila, uma Del Fuego, uma Tatiana Salem Levy, por exemplo. Então ainda que as reinvindicações por espaço de grupos marginalizados sejam legítimas, pontualmente muitas vezes ela se tornam injustas. 


Com Julia Codo e Andrea del Fuego.

Fiquei refletindo como os gays se encaixavam nesse momento. E acho que a pauta homossexual masculina não está sendo especialmente favorecida, também por não ser novidade. 

Pode se dizer que historicamente mulheres e negros estão escrevendo, publicando, comunicando seus pontos de vista há muito pouco tempo, mas isso não é exatamente verdade com os homens gays. Os homossexuais masculinos escrevem desde a antiguidade clássica - e seus pontos de vista, o homoerotismo, está presente desde então, ainda que de maneira latente ou velada. A história de afeto e amor entre os homens acontece desde os épicos gregos, os romances de cavalaria, o romantismo. 

Essa visão homoerótica de mundo, na verdade, nunca foi um grande tabu na literatura, ela só passou a ser quando a homossexualidade passou a ser assumida e discutida - daí o afeto entre os homens que "passava de boa", de forma velada, se tornou "viadagem."

Pense em Àlvarez de Azevedo, por exemplo, ou Oscar Wilde, que fez toda fama e fortuna em cima de uma literatura homoerótica, que só se tornou problematizada quando ele de fato foi condenado por pederastia no final do século XIX. Penso também em como uma obra como "Morte em Veneza" seria problematizada hoje, com a questão da pedofilia. De todo modo, esses pontos de vista de homens gays são escritos, publicados e amplamente discutidos há séculos.

Para mim é cada vez mais um desafio tentar encaixar o que eu tenho a dizer com temas que sejam relevantes no momento. "Fé no Inferno" foi pensado muito dessa forma (e ainda que tenha conquistado certo prestígio, não posso dizer que foi muito bem-sucedido). Sempre levantei a bandeira do "atemporal-universal", mas acho que estamos num momento político em que isso se confunde com o "irrelevante." É a velha história do "quem faz diferente não faz diferença." É preciso encontrar algo que soe novo, mas que ainda ecoe aos milhares - como tantas mulheres têm feito. 

30/05/2022

DO PANTANAL À BOLÍVIA

Quebra Torto com Letras. 

Acabo de voltar de três dias intensos no Festival América do Sul, que teve dança, música, teatro e literatura em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em meio ao Pantanal. 

Foi o primeiro evento presencial de que participo desde a pandemia. Bom ver os encontros voltando - como eu sempre digo, acho essencial para a carreira do escritor essa troca: encontrar leitores, encontrar escritores, e encontrar artistas de outras áreas. Valeu muito por isso, apesar da correria. 

Márcia Medeiros falando com nosso público. 

Minha mesa com as queridas escritoras Márcia Medeiros (do RS) e Carla Maliandi (da Argentina) aconteceu às 8h da manhã de um sábado - e achava difícil que tivesse alguém, mas encontrei um público lotado, interessado, participativo, que deu um banho em público de muito festival literário. 

A mediação foi do querido Wellington Furtado Ramos, que fez mestrado na minha obra (e doutorado na do Raduan Nassar; foi fácil pra ele porque ele ficou na mesma prateleira alfabética), então as perguntas eram as mais pertinentes. E o público também mandou bem. Os poucos livros que a editora enviou para serem vendidos lá se esgotaram num piscar. 

Bons drinques na piscina do hotel. 


Com uma mesa tão cedinho assim, tinha o sábado praticamente livre para ver jacarés, comer jacarés, abraçar jacarés... e consegui mais ou menos. 

Os bichos eu só consegui ver rapidinho, na estrada - capivaras, um punhado de jacarés, muitos tucanos - mas consegui comer (porque mortos eles não saem do lugar...). Disseram que o melhor lugar para comer jacaré era na Bolívia, que fica logo ao lado. Aproveitei a oportunidade para fazer uma viagem internacional improvisada, e acrescentar um novo país à minha lista - quem diria que eu conseguiria fazer isso em 2022. 

Em Puerto Suarez com a querida Manal, que é marroquina, muçulmana, e estuda minha obra aqui no Brasil. 
A trupe atravessando a fronteira. 

A fronteira da Bolívia fica a pouco minutos de Corumbá. Fomos de Uber, atravessamos à pé, depois passamos um perrengue lá dentro para encontrar onde tivesse o tal jacaré. A cidade de Puerto Suárez estava completamente deserta, tudo fechado, nenhum restaurante aberto, ao meio dia de sábado. No final, conseguimos chegar até uma biboquinha à beira do rio Paraguay, que servia um jacaré óooootimo (mas desconfio que misturaram com iscas de peixe, para completar a porção). Daí de noite, de volta a Corumbá, nos levaram a um restaurante que servia jacaré de tudo quanto é tipo: moqueca, filé, grelhado - pedi uma coxinha de jacaré. 

Nosso almoço boliviano. 


O jacaré. 

Também peguei um barco no final do dia, para ver os bichos, mas já estava escurecendo e só vi os mosquitos.

Domingo de noite já estava de volta a SP, cansado mais satisfeito. Ainda não sei direito quando será a próxima viagem, o próximo evento (tem uma turnê do Sesc pelo Paraná, em setembro, mas ainda não está bem confirmada). O tempo de enxurrada de festivais literários já passou - tanto pela pandemia, pelo desgoverno, a crise, o momento cultural brasileiro e o meu momento pessoal-profissional, que já não sou novidade nem estou no auge. Mas é bom também que os encontros agora sejam assim, bem mais esporádicos, que o fogo não é o mesmo e a preguiça impera aos 45. 

A mesa. 


23/05/2022

DE VOLTA NA PISTA


Na cidade do México em 2014. 

Começando uma semana voltando aos eventos literários presenciais. No fim de semana vou estar no Pantanal, num debate num festival pra lá de bacana. A programação toda está aqui: 

https://www.festivalamericadosulpantanal.ms.gov.br/

Estou fazendo uma série de stories/reels no Instagram, porque preciso agitar as coisas por lá (preciso agitar as coisas como um todo na minha vida, na real). E estava lembrando dos eventos literários mais bacanas que participei. Decidi desdobrar aqui, com fotos.  

Fórum das Letras de Ouro Preto. 

(Obviamente falo dos que participei, porque tem vários eventos que se orgulham de dizer quantos milhares de escritores já fizeram circular pelo Brasil todo, mas nunca me chamaram, tipo a Arte da Palavra do Sesc.)

(Acho que não sou bom o suficiente pra eles...)

Na Flip 2003 com Chico Mattoso, JP Cuenca e Paulo Roberto Pires. 

Começando para um dos mais célebres. A Flip. Fui convidado da primeira edição, em 2003, que já começou hypada e com certeza foi uma vitrine absurda no começo da minha carreira.

Em Passo Fundo, 2007.

A Jornada Literária de Passo Fundo é muito bacana porque não só leva os escritores para falar com os alunos, como adota alguns meses antes os livros desses autores em sala de aula. Então você fala para diversos alunos que te leram de fato. 

Na Fliaraxá com Marçal Aquino e Antonia Pelegrino, mediados por Carlos Herculano. 

Tem o Fliaraxá, do querido Afonso Borges, que reúne escritores de diversos gêneros, num hotel pra lá de cenográfico. Os encontros de bastidores são os melhores. 

Em Extrema (divisa de Minas e SP), tinha um festival bem bacana, do Marcelo Spomberg, que era muito voltado para literatura de gênero - terror, policial e suspense. Espero que volte...

Em Guadalajara, 2013. 

A feira do livro de Guadalajara, no México, sempre tem uma programação bem extensa com brasileiros, e é uma viagem incrível.

Bienal do RJ, com Michel Melamed e Cecilia Gianetti. 


As bienais acho que são voltadas para uma literatura mais comercial, literatura infantojuvenil, mas sempre é uma oportunidade de business, encontrar os editores (que geralmente não estão presentes em outros eventos). 

Aliás, isso é algo essencial nos encontros literários presenciais, trocar ideia com os pares. A literatura é uma atividade muito solitária, então a gente alimenta muitas paranoias e vaidades descabidas - "ninguém me ama" ou "todo mundo me ama", é bom saber o que está acontecendo com os colegas, que a gente não está sozinho nas frustrações e conquistas. 

´Só gente bonita e joiada em Araxá. 

Os encontros mais bacanas acontecem não nas mesas de debates, mas nos bastidores. Encontrar o Marcelino Freire no hotel, café da manhã com o Ziraldo, beber de noite com o Raphael Montes, com o Xico Sá...

Drinques com Mutarelli no México. 

O atual (des)governo já fodeu muito com o apoio para cultura, muita coisa perdeu patrocínio, se tornou inviável. Agora temo a pá de cal que a pandemia jogou nos eventos literários - com o estabelecimento definitivo dos encontros remotos. Acho que muitos eventos que poderiam ser presenciais, principalmente em cidades mais distantes, no exterior, vão optar por um modelo online ou híbrido, para não ter de arcar com passagens, deslocamentos, hotel... Quem perde é principalmente o autor. Eu comecei numa época - no começo dos 2000 - em que os eventos literários se proliferavam à toda - e foi essencial para minha formação de autor, para conhecer o meio, fazer meu nome circular....

Só gente joiada: Felipe Franco Munhoz, Paulo Lins, Marcelino Freire, Paulo Scott e eu.

Vamos ver como a coisa fica. Por enquanto, esse evento no Pantanal é o ÙNICO presencial que tenho no ano (mesmo sendo finalíssimo dos principais prêmios no ano passado, veja só...). 

Ao menos o trabalho aqui em casa tem sido intenso... Mas sempre dá para se queixar, para melhorar...

Bons tempos, na Espanha. 


#literatura #fliaraxa #flip #filguadalaraja #artedapalavra

12/05/2022

45 (DO SEGUNDO TEMPO)

 

45 hoje, só no cafézinho. 

Não há muito o que comemorar, apenas agradecer pelo que resta...


Nos últimos anos, até que tive aniversários tranquilos - com pandemia e tudo, não me faltou trabalho, dinheiro, e aniversário passado até consegui ir pra praia. (Foi a última viagem que fiz, por sinal.) 

Desde o segundo semestre as coisas ficaram bem complicadas por aqui, com pouco trabalho, pouco dinheiro, inflação galopante, e os gastos, as dívidas, os boletos que não param...

Uma amiga minha comentava esses dias: "Que inferno é ser adulto", de uma hora para a outra você precisa ter alguns milhares de reais sobrando para pagar um veterinário, daí precisa trocar o celular, daí sua geladeira quebra... E é tudo eu que tenho de arcar, sozinho. Não tem papai-mamãe, não tem marido, não tem renda. Cada jujuba que entra nessa casa vem de uma lauda que eu escrevi/traduzi/preparei... 

A pegadinha deste mês é essa: como viver sem geladeira.

...ou sem jujubas. 

Mas podia ser pior. Estava pior, há um mês. Na verdade, até pude contar com a bondade de estranhos, depois que desabafei nas redes sobre a falta de trabalho/dinheiro/perspectivas. Recebi todo tipo de conselho - de investimento em binários a trabalhos em TI e restaurante -; recebi também pix e até ovos de Páscoa!

Parece que todo mundo aceita que é impossível viver como escritor no Brasil...

Bem, eu tenho vivido, há vinte anos, alguns anos melhor, outros pior... Nunca esperei viver da venda de livros, mas meu nome como autor é o que me garantiu trabalhos como tradutor, palestrante, roteirista... Só que eu sinto é que esses trabalhos pagam cada vez menos... Talvez meu nome valha menos também... 

Não me arrependo de nada, só lamento que nada deu muito certo...

O histórico de carreira não conta tanto; a literatura é mais um meio que se alimenta de novidades, da pauta do momento (que atualmente está mais com as mulheres e os negros). É prender a respiração e ver até onde posso cruzar...

Continuo tentando, continuo fazendo projetos pra cinema, TV, tem livro novo para o ano que vem... Mas a fé, o entusiasmo, são cada vez menores. A gente deve continuar tentando que uma hora dá certo? Ou é preciso saber a hora de desistir? Aos 45 (do segundo tempo)?

Eu só queria estabilidade... (Oh, such a taurus...)

Sempre acho meio constrangedor expor assim as fraquezas - queria eu só expor prêmios e reconhecimento - mas é o único jeito de as coisas acontecerem. Muita gente se solidariza - porque gosta de ver que o outro está na merda -, mas alguns de fato ajudam, percebem a emergência. E foi só assim que consegui engrenar de volta nos jobs. 

Então, se a situação continua complicada, se não há motivos para comemorar, ao menos há muito trabalho (o que faz toda a diferença não só no bolso, mas principalmente na cabeça). Já é motivo para se agradecer. Estou inclusive traduzindo um dos MAIORES autores de literatura infantil do país para o inglês... 

(Será que ele também está na merda?)


(Acho que este post na verdade está parecido com tantos outros que já postei nos últimos meses, no último ano... Por isso não tenho postado mais nada por aqui, não tenho muito mais a dizer.) 


31/03/2022

SOBRE A TECLA SAP


Esta semana de Oscar me fez repensar no valor da tradução, da dublagem, da legendagem...
“Só quem pode avaliar o trabalho de um tradutor é quem não precisa dele”, é uma máxima (não lembro de quem) não totalmente verdadeira, porque uma má tradução emperra, atravanca e soa estranha, mesmo para quem não domina a língua original.

Vi o Oscar com meu namorado, que tem um inglês mediano, mas desistimos da tradução simultânea, não tanto por imprecisões, mas pelo excesso de comentários desnecessários. No trecho de cada filme, nas homenagens, os comentaristas faziam questão de explicar, dar sua opinião. Me fartei durante a homenagem ao 007, que no original só mostrava cenas dos filmes, mas os comentaristas brasileiros (da TNT) faziam questão de pontuar cada cena. Um saco.

Porém o Oscar é um caso específico, dos raros casos de tradução simultânea hoje em dia. Mais problemático tenho achado toda essa defesa e essa campanha pela dublagem – inclusive de veículos e pessoas de peso. Não sei muito de onde isso vem, a quem interessa. “A dublagem do Brasil é a melhor do mundo, blábláblá”; pode ser, mas continua ainda sendo... dublagem. Pense num ator que ficou meses se preparando para o papel, dominou um sotaque, gravou a cena trocentas vezes, teve sua interpretação baseada no calor do momento, na interação com outros atores, com o ambiente. Como dá para comparar a performance vocal dessa pessoa com alguém que entrou num estúdio, gravou dúzias de falas num dia, sem contracenar com outros atores, sem cenário, e geralmente sem nem disfarçar seu sotaque (carioca, invariavelmente) carregado? Como comparar a entrega vocal de uma Meryl Streep com uma Maria das Couves?

Entendo que, num país tão desigual, a dublagem seja uma forma de inclusão, mas deve ser encarada como tal, uma muleta, por nosso ensino deficitário. O ideal era que o povo conseguisse ler legendas, conseguisse dominar outras línguas... Dublagem é uma gambiarra.
 
“Ah, mas tem coisa que é melhor dublada do que o original” – talvez, se o original for muito ruim ou se for originalmente dublado, como os desenhos animados. Daí acho que faz sentido. A merda maior dessa campanha atual pela dublagem é que mesmos nos streamings (principalmente Amazon Prime), já se encontra uma caralhada de filmes APENAS DUBLADOS (sinceramente não entendo por que se dão ao trabalho de dublar, mas não disponibilizam o áudio original, mesmo sem legendas). Parece os velhos tempos de televisão aberta, sem tecla SAP.
 
Dito isso, a legendagem também está longe de ser uma arte perfeita.

Já traduzi para legendas (para dublagem, nunca). É preciso sintetizar para caber na tela, no ritmo da fala e da leitura. Então já é uma simplificação. Mas para mim é muito mais válido do que a dublagem. Primeiro porque dá para cotejar, você tem o áudio original e pode pescar divergências, mesmo que não tenha um inglês perfeito. Depois, porque mesmo que você não entenda nada da língua original, você ainda tem o tom, o timbre, o ritmo, e toda a sonoridade da atuação original, que não fica comprometida.

Já ouvi argumentos de que a legenda tira a atenção do foco da tela, da imagem. Isso não consigo avaliar, porque leio legendas desde pequeno, e hoje preciso cada vez menos delas. Talvez seja mesmo uma questão de hábito. Para mim, dublagem me tira muito mais o foco da cena...

A merda das legendas.... e da tradução em geral, é que vem sendo cada vez mais sucateada, desprofissionalizada. Os filmes caem em torrents com legendas amadoras, de gente que traduz com inglês básico e Google tradutor. Dói de ler. E com tanta gente fazendo de graça, claro que o trabalho do tradutor profissional é desvalorizado. (Eu mesmo não traduzo legendas há aaaaanos).
 
Falando da tradução literária, que é minha principal atividade, também acho sempre melhor ler no original, claro. Mas muitos dos meus favoritos são de línguas que eu não domino: Thomas Mann, Kafka, Hesse, Moravia. De toda forma, o ritmo de trabalho da tradução literária é muito menos industrial do que a tradução audiovisual... ou era, também vem sendo sucateada, com prazos cada vez mais apertados, valores por lauda cada vez menores, gente recorrendo ao Google Tradutor.
 
É vergonhoso o que se ganha – pensando em toda a experiência, o estudo, a vivência que precisa se ter para se traduzir; não é só conhecimento das línguas, tem muito, muito de conhecimentos gerais, é preciso entender do que se está falando, ou pesquisar... Coisa que não se tem tempo em tradução de audiovisual, e cada vez menos na tradução literária.
 
Por essas, eu, como tradutor, sempre defendo: Leia, veja, escute o original.

Meu namorado está há um ano comigo. E nesse ano deu um salto e já consegue acompanhar numa boa filmes com legendas no inglês original ou em espanhol – próximo passo é sem legendas. Aprende-se a ler legenda lendo legenda. Aprende-se inglês ouvindo inglês, lendo em inglês, muito mais do que em curso na Cultura Inglesa. É preciso ir tirando aos poucos as muletas, não dar uma cadeira de rodas...

28/03/2022

GARIMPO DE MIM MESMO



Aproveitei a manhã de segunda no centro para garimpar meus próprios livros nos sebos. Nesses tempos de pobreza absoluta, tenho que vender o que posso, e tem sempre gente pedindo, perguntando pelos livros mais antigos.

Procurar a si mesmo num sebo sempre desperta sentimentos conflitantes. ‘Fui largado nessas prateleiras empoeiradas, sou leitura de segunda mão.” Mas também, quando não me encontro, sinto que não fiz história. Hoje teve de tudo.

No começo, não estava encontrando nada. “Ninguém quer se desfazer de mim”, eu me consolava. Não é bem assim que funciona. Embora o destino do sebo pareça certo abandono, quanto mais um livro vende, mais fácil encontrá-lo revendido. Não à toa, logo comecei a encontrar vários “Mastigando Humanos”, em diversos níveis de conservação – que foi um livro que chegou até a ser leitura de vestibular (hoje em dia seria impensável...). Também encontrei “Feriado de Mim Mesmo”, que foi um livro que vendeu razoavelmente; BIOFOBIA; Pornofantasma; e nada dos dois primeiros (que sempre alguém me pede).

Nesse garimpo, é importante não olhar muito para os lados – porque o intuito é não gastar mais dinheiro do que se pode recuperar. Concentro-me no N, mas sempre encontro velhos amigos, colegas de alfabeto: Pedro Nava (que não cheguei a conhecer), Raduan Nassar; o saudoso e querido Noll; o Eric Novello; e até minha mãe, Elisa Nazarian, que publicou pouco, mas bonito.

Em alguns livros, reconheço meu próprio autógrafo: “Para João, grande leitor, espero que te assombre”, encontrei hoje num BIOFOBIA (não lembro que João seria, mas a assinatura com certeza é minha). Tenho histórias curiosas com autógrafos em sebo, por sinal.
Anos atrás, o grande Evandro Affonso Ferreira, que tinha um sebo em Pinheiros, me ligou porque tinha um presente para mim. Era o meu primeiro livro, “Olívio”, rabiscado e comentado pelo Bernardo Carvalho. Ele escreveu uma crítica bacana no lançamento (acho que na TRIP), mas o livro tinha trechos marcados com “PÉSSIMO!” (e um ou outro com “ÓTIMO”). Estou guardando o livro aqui, para algum dia leiloá-lo como raridade.

Também encontrei décadas atrás, num sebo, uma primeira edição de “Morangos Mofados”, assinada pelo próprio Caio, com coraçõezinhos, para um rapaz com nome incomum. Eu conhecia um homônimo e sondei com ele se ele teria perdido a edição – se fosse uma perda sentida, eu o presentearia de volta -; mas ele não parecia sentir falta. Fiquei com o livro para mim, assinado para ele.

Anos depois, numa palestra no Recife, uma leitora me traz meu primeiro livro para eu autografar. “Achei num sebo, já tem um autógrafo. Mas coloca também meu nome?”, ela pediu. Quando abri o livro, era autografado para quem? EXATAMENTE o mesmo leitor perdido do Caio. Histórica verídica, ainda que sem graça.

Já eu, nunca me desfaço. Tenho algo de acumulador. Não à toa os livros transbordam das prateleiras da minha casa. Alguém precisa alimentar as traças. Só vendo mesmo os meus... por absoluta necessidade.

Então fui colocar os novos-velhos livros à venda nas minhas redes. Tinha alguns lacrados, alguns mais antigos, edições estrangeiras, mas todos em excelente estado, porque os que estavam capengas (ou caros), obviamente não comprei. (Tinha por sinal um “O Prédio, o Tédio e o Menino Cego” que parecia até ter páginas grudadas... Fiquei de certa forma lisonjeado.)

Tinha colocado a lista aqui, abaixo. Mas em poucas horas vendi TODOS pelo Facebook e Instagram. Já são umas migalhas pro meu almoço. Valeu a todos. Volto no próximo garimpo. 





“FERIADO DE MIM MESMO” (2005): Um thriller minimalista em que um solitário tradutor acha que tem seu apartamento invadido. Tenho a primeiríssima edição e a segunda. (R$60).

“MASTIGANDO HUMANOS” (2006): Um improvável romance narrado por um jacaré de esgoto. Meu grande “hit”. Essa é a edição original da Nova Fronteira, com ilustrações. (R$60)

“BIOFOBIA” (2014): Um thriller de um decadente cantor de rock, um emo velho, em conflito com a natureza. R$60.

“PORNOFANTASMA” (2011): Meu único livro de contos. Histórias longas de morte e sexo. (R$60)

“NEVE NEGRA” (2017): Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um pai ausente começa a duvidar da identidade do filho. Pós-terror de criança do capeta. (R$60)

“FÉ NO INFERNO” (2020): Um romance sobre o Genocídio Armênio e os genocídios do Brasil atual. Finalista do Jabuti e do Oceanos. (R$80)

“A MORTE SEM NOME” (2017): A bela edição sérvia (que provavelmente ninguém vai conseguir ler, mas serve para colecionadores). (R$100)

“MASTICANDO UMANI” (2013): A edição italiana. (R$100).

“GERAÇÂO ZERO ZERO” (2011): A antologia organizada por Nelson de Oliveira, que mapeou os escritores surgidos no começo do milênio. Eu participo só com um conto, mas tem muita gente melhor por lá: Galera, del Fuego, Scott, Mutarelli, Stigger e por aí vai. (R$60).





04/03/2022

LEMBRANÇAS DA RÚSSIA (NOTAS SOBRE UM NOVO APOCALIPSE)


Rússia com os filtros de 2011. 

Esse poderia ser outro “notas sobre o apocalipse”, um novo apocalipse que se avizinha, enquanto o anterior nem acabou. Sempre há novas maneiras de morrer (e escrevo isso desde “A Morte Sem Nome”...), oportunidade é o que não falta. Mas tenho lido tanta gente comentando sobre a Rússia, condenando a Rússia, falando sobre a guerra, e eu não tenho nada a falar, porque estou longe de ser especialista. Só tenho lembranças... intensas das duas vezes que estive por lá, há dez anos.


Outubro de 2011. 

Acho a Rússia um país fascinante e assustador, seja na literatura, na música, nos costumes... e nos meninos. Os meninos mais lindos do mundo.

Lembro a segunda vez que cheguei em São Petersburgo, receoso de pegar táxi – porque lá eles te extorquem sem o sorriso do brasileiro – e resolvi ir a pé até o hotel, como eu já conhecia o caminho. Atravessando uma ponte cruzei com um pelotão imenso de soldadinhos, todos lindoooos, todos olhando feio para mim...

Isso é algo que me chamou muito a atenção. Todo mundo te encara na rua. De cara fechada.

As duas vezes eu fui de trem, quando estava morando na Finlândia, que dá pouco mais de três horas. No lado finlandês eu via os bosques, as casinhas, tudo parecendo contos de fadas. Ao atravessar para o lado russo dava com construções destruídas, muros pixados, arame farpado.

O controle de passaporte era dentro do próprio trem – lembro de duas oficiais carrancudas que abriram minhas malas, me revistaram, sem falar uma palavra de inglês; ninguém fala inglês, nem no guichê de informações turísticas da estação. (Me pergunto se não passasse pela imigração – me mandariam de volta no mesmo trem?)

Dezembro sem neve em São Petersburgo. 

São Petersburgo é uma cidade linda (e cara), dá para caminhar bem a pé. Peguei um frio bem razoável, tanto em outubro quanto em dezembro, um pouco acima de zero, o que é sempre imprevisível. Visitei o famoso museu Hermitage – que é incrível, mas um pouco excessivo demais pro meu gosto. E ainda vi um show do Suede, que estava preparando repertório para um disco novo e tocou 7 músicas novas, 5 das quais nunca foram lançadas.

Brett ainda estava com as letras na mão. 

Também conheci a cena gay – dez anos atrás ainda havia cena gay; a lei “antipropaganda” estava prestes a ser aprovada, e dava para encontrar um punhado de bares, saunas e boates gays em São Petersburgo. Uma delas, a Cabaré, era divertidíssima, tinha pista de dança, karaokê, show de drag (com uma versão russa de “Tico-Tico no Fubá”); lembro também da Central Station, com garçonzinhos delícia de cueca e gravata borboleta.  

Era um perigo fotografar nas boates. Um segurança quase confiscou minha máquina. 



Eu sentia como se tivesse viajado no tempo – para uma versão alternativa dos anos 80, numa Rússia capitalista. Todo mundo fumava em todo lugar, a gente pedia uma vodca num restaurante e te traziam uma garrafa inteira... Ah, e comi o estrogonofe. Tinha gosto de... estrogonofe. Isso de que é completamente diferente do daqui é lenda; só não tem arroz e batata palha (me serviram com purê de batata).

Hermitage. 

É triste pensar que um país tão rico culturalmente esteja sendo destruído por seu próprio governante, mas não é o mesmo que está acontecendo aqui? A gente pode culpar o Putin, o Bozo, mas no fim os governantes são reflexo do povo, mesmo governantes que se mantém no poder de maneiras não tão democráticas...

Para Ucrânia nunca fui; adoraria, em outros tempos; conheci Estônia e Armênia, da ex União Soviética; adoro aqueles lados, mas acho cada vez mais difícil viajar, não só pelos conflitos, pela guerra, também pela pandemia, pobreza, desânimo, por tudo isso... O mundo está acabando mesmo, pelo menos para mim.

10/02/2022

NOVOS VENTOS

 


Todos os sábados de março, das 10h às 12h, estarei com um curso online na Balada Literária. Não costumo dar cursos ou oficinas, porque não me sinto apto a ensinar ninguém a escrever, nem gosto de ficar alimentando as ilusões alheias; então, quando o querido Marcelino Freire me convidou, pensei num formato que tratasse disso, em que eu me sentisse mais à vontade.

Não é uma oficina de escrita, serão conversas sobre como funciona o mercado literário, para quem está pensando em publicar ou já está começando a carreira. Falaremos desde o processo da preparação do livro, a busca da editora, publicação, divulgação, vendas de direitos para audiovisual e exterior, prêmios, e todos os processos pelos quais passa um escritor profissional. 

Na bagagem, trago vinte anos de experiência como autor - com doze livros publicados, dezenas de traduções, direitos vendidos para teatro, cinema e exterior; além de todo o conhecimento da experiência de colegas e amigos. A conversa terá minha sinceridade costumeira, dando a realidade, valores e tudo mais. 

O valor do curso em si é R$600, e a inscrição pode ser feita no site da Balada Literária. Corra, que as vagas são limitadas e já estão acabando! (Mentira; na verdade não faço ideia se está acabando ou se ainda ninguém se inscreveu. Quem cuida disso é o pessoal da Balada.)

https://baladaliteraria.com.br/loja/curso-conversas-sobre-o-mercado-literario-escrever-publicar-divulgar-e-sobreviver-com-santiago-nazarian/


Estou saindo (espero) de uma fase muito complicada - que começou quando minha coelha morreu, em novembro. Não bastasse o luto, teve o rombo que o veterinário me deixou, daí teve a frustração dos prêmios que fiquei de finalista e não levei, em dezembro tive cartão clonado, os jobs pararam todos. Entrei numa dívida e numa deprê difíceis de contornar. 

A falta de trabalho mexe não só no lado financeiro, mas muito na autoestima - ficar esmolando trabalho, escrevendo para editor que não responde, cobrando quem te deve. Parece que ninguém te quer, que você (e seu trabalho) não vale nada.

A única coisa que dá para fazer é chorar. Mas chorar quietinho em casa não adianta nada. É uma merda ter que expor nossas penúrias e fraquezas - muita gente só vende sempre a imagem de sucesso -; muita gente também diz que eu só reclamo, mas já aprendi que é só quando reclamo é que as coisas acontecem. 

Muitos amigos nas redes vieram dar força com o costumeiro "vai melhorar" (vai, e vai piorar de novo, talvez bem mais), e alguns realmente me ajudaram me indicando frilas, jobs, o próprio Marcelino que me convidou para esse curso,

O foda é que os amigos das letras são tudo fodido também - então os jobs nunca pagam tão bem, os projetos são sempre de risco; um amigo querido me indicou uma editora para tradução, fiz um teste com eles, fui aprovado, daí me informaram que pagavam DEZ REAIS a página de tradução (a última tradução que fiz, pagava 40). Imagina você passar três meses para traduzir um livro de 400 páginas (um ritmo puxado) e receber 4 mil reais?

(Povo acha que sou de família rica, mas é uma família falida, não tenho renda nem ninguém a quem pedir ajuda.)

Teve também editora amiga que veio com: "Tinha um tradução para te dar, mas acabei passando pra outro." (Falei pra ela: "Tinha um brigadeiro pra te dar. Mas comi.")

Felizmente, surgiram outros trabalhos que já estão pagando; recebi enfim os direitos de uma venda para cinema (que eu estava negociando há aaaaanos) e agora as contas estão sob controle... a cabeça mais ou menos. 

A má notícia é que nessa angústia toda, avancei num livro novo, novo romance (ou mais para uma novela) que, se tudo der certo, sai ano que vem. É um tema espinhoso, arriscado, e um formato totalmente diferente de tudo o que já publiquei. Mas ainda pode ser enquadrado como "existencialismo bizarro" (ou seja, outro fracasso...). 

Tinha também outro infantil para sair - que foi vendido, pago, tinha até já sido preparado, mas a editora mudou de editor e acharam muito violento. Infanto-juvenil tem de ser tudo assim: fofinho e adotável. (Um milagre eu ter conseguido publicar um livro tão cínico como "A Festa do Dragão Morto", pela Melhoramentos). 

Enfim, as coisas voltaram a andar, vamos ver até quando. 


22/01/2022

APOCALIPSE DE MIM MESMO


Hoje em dia gosto muito mais de cozinhar do que de escrever, do que de ler...

 

Mas não tenho a menor vocação para fazer disso uma carreira.

 

Descobri cedo o que era prazer, o que era talento, o que era vocação. Eu tocava teclado numa banda, fazia fotos, escrevia – tudo de mais ou menos para péssimo. Abri mão de tudo para me dedicar a escrita. Não porque tivesse tanto talento, mas porque percebi que era essa minha vocação. Era uma atividade que eu sabia que podia me dedicar – trabalhar sozinho, em casa, criando histórias. Acho que é algo que muita gente quer (bom, como sou escritor, parece que ao meu redor existe APENAS gente que quer isso). E todo mundo tem o “talento inicial” – no caso, a alfabetização, porque existem outras artes-áreas com requisitos mais técnicos. Mas a vocação do escritor sempre me pareceu ser essa, de gostar de ficar sozinho, trabalhar sozinho, sem troca, e ainda assim conseguir cumprir prazos, ser criativo, ser produtivo. Muita gente diz que ficaria procrastinando...

 

Eu nunca tive uma crise criativa. Nunca furei um prazo de entrega – de livro, de tradução, de matéria, de roteiro. Sou obsessivo, eu entrego. E sinto sempre que tenho MENOS trabalho do que poderia. Atualmente, tenho bem menos trabalho do que preciso para sobreviver...

 

A gente vai criando uma carreira e acha que vai ser sempre uma crescente. Eu há muito acho que dou um passo para frente, dois para trás. Com 12 livros, quase uma centena de traduções, o blog de literatura há mais tempo em atividade no país (18 anos) - pelo qual nunca recebi um centavo – me sinto na pior fase profissional e financeira da vida. E não dá para culpar nem o presidente e a covid. A literatura deveria estar surfando na pandemia...

 

(Eu até que surfei, até o segundo semestre do ano passado. Depois, tudo desabou...)

 

Nessas horas, penso que entendi tudo errado. Porque nenhuma carreira é vocação para os solitários. Mesmo na escrita, as coisas só acontecem para os bem relacionados, gregários, que prefeririam estar formando uma banda de rock. Ninguém faz sucesso sozinho.

 

Mas a gente tem que descobrir tudo isso mesmo na marra, no murro. Não tem ninguém para perguntar, ninguém para dar conselhos, é um mercado em que rola pouca grana, então é muito pouco profissional. Em toda minha carreira, nem editor, nem agente, nunca consegui sentar para conversar, entender: o que estou fazendo de certo? O que estou fazendo de errado?

 

Hoje me autodiagnostico com dois erros principais. 1) Sempre preferi trabalhar sozinho, então nunca formei uma turma, nunca busquei trabalho em equipe. 2) Sempre busquei o diferente, então sempre evito os assuntos do momento; só comento se tem algo de diferente para acrescentar (o que gera a pecha de “polêmico”).

 

São erros... ou traços de que não me arrependo. Porque é o que sou e não poderia ter feito diferente. Sempre fiz o que acredito. Eu precisava encontrar outro caminho...

 

Agora me encontro no meio do Atlântico, sem pouso à vista. Voltar ao aeroporto de origem leva mais tempo do que chegar ao destino final. Mas me encontro sem combustível...

 

O que a gente faz, sem arrependimentos e sem conquistas? Sem rumo e sem perspectivas?

 

Também queria ter sido um escritor mais discreto, daqueles que não expõem tanto de si. Tipo agora. Bem, nos livros eu consigo... Mas ainda sou daqueles que tenta resolver tudo pela escrita. E que não tem nada a perder.

Beijo no Gordo (1938-2022) Acordei hoje com a notícia da morte do Jô, uma tristeza. Ontem mesmo falei tanto dele. Das pessoas que mais deram...