27/05/2020

FÉ NA QUARENTENA

Já dá para ler. 

O ebook do meu novo romance, Fé no Inferno, já está disponível pela Companhia das Letras.

https://www.amazon.com.br/F%C3%A9-no-Inferno-Santiago-Nazarian-ebook/dp/B085VQZH59/ref=tmm_kin_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=1590526094&sr=8-1


A versão física chegou a entrar em pré-venda, daí teve pandemia, a editora segurou todos os lançamentos e agora tive a surpresa do ebook já estar disponível. Não é pré-venda, é uma espécie de "soft opening", já dá para baixar HOJE.

(Se tinha alguém ansioso - o que não creio - é o que temos.)

O impresso depende da pandemia, das livrarias e de toda a força que vocês puderem dar ao livro, porque o contexto não está ajudando em nada, e ainda não sei como será a divulgação/lançamento.

Segue release:

Estamos numa época de minorias perseguidas, de nativos expulsos de suas próprias terras, da religião majoritária se impondo sobre um povo. Estamos no Brasil de 2017, às vésperas de uma eleição reveladora; e estamos em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Quem une essas duas épocas é Cláudio, um jovem cuidador de idosos que vai trabalhar para Domingos, um senhor armênio, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Como homossexual e neto de indígenas, Cláudio sabe bem o que é ser minoria, e na convivência com Domingos conhece uma história que remonta a mais de um século: o genocídio armênio perpetrado pelos turcos. A partir da leitura de um livro de memórias, Cláudio começa a suspeitar de que possa estar diante de um dos últimos sobreviventes de um dos maiores massacres do século XX, e sua responsabilidade como cuidador é mantê-lo vivo. Com Fé no Inferno, Nazarian se firma como um exímio contador de histórias, mestre indiscutível do ritmo e da condução. Com duas linhas narrativas que se cruzam e se entrelaçam, e mesclando pesquisa histórica, folclore armênio e uma observação mordaz do Brasil contemporâneo, este romance mantém o leitor emocionado e absolutamente envolvido até seu desfecho surpreendente.

(não sei se concordo com tudo isso - nem se o final é surpreendente, mas tá valendo)

22/05/2020

A HISTÓRIA DO CORPO

Pelado, tatuado, abandonado e quarentenado. 

Nesse período masturbatório, em que só podemos vasculhar nós mesmos, fiquei pensando nas tantas perguntas que já fizeram sobre minhas tatuagens...

“Mas e se você se arrepender?” “Vai ficar velho cheio de tatuagens?” “Dói?” São das perguntas que mais fazem a quem é tatuado; além, é claro, sobre o significado de cada uma. Então vamos responder algumas.

Talvez alguns saibam que, antes de me tornar escritor, eu toquei numa banda de glam rock e também conquistei certo reconhecimento como performer de body art: fiz fotos e vídeos de auto-mutilação por São Paulo, entre os 18-20 anos, no final dos 90. Chegaram a fazer um documentário, exibido em festivais, saiu em jornais e passou na TV Cultura. Não me envergonho, mas não me orgulho, porque era mais uma experimentação de um jovem trevoso do que tudo... Bem, talvez me orgulhe sim, de ter começado chutando a porta, mas como “obra” estava longe de ser algo consistente...

Primeira matéria no jornal, em 97. 

E nesse clima fiz minha primeira tatuagem aos... 18? Por aí. Também não sei direito qual foi, mas acho que foi umas duas ou três pequenas, na verdade, com a Zuba, que era mais conhecida por fazer piercings (já tinha feito piercing na minha sobrancelha, nariz e dois mamilos – que não tenho mais) e meio que dividimos uma namorada... Coisas dos anos 90...

Com a querida Zuba. 

Dessa primeira leva eu tenho uma formiguinha no peito, que eu adoro como conceito, mas já está bem borrada. Tinha a ver com esse consumo da doçura - acho que era uma despedida da inocência. A Zuba também fez uma serpente em S no meu braço direito que já não tem tanto sentido e já tem o olho quase fechado.

Quando me mudei para Porto Alegre, um ex me mandou um email que me incomodou e comentei com uma colega. Minutos depois, outra colega me pediu para que eu trouxesse um livro sobre a evolução das espécies que eu tinha em casa. Eu anotei um “EX” na mão, para não esquecer, e a primeira colega achou que eu não queria me esquecer do ex. Achei um conceito bacana - ainda acho – e logo em seguida tatuei esse “ex” na mão esquerda (algo que passou, mas que precisa ser lembrado). Sendo esse ser nostálgico, eu ainda gosto da ideia, da tatuagem, mas é algo que chama muito a atenção e é muito chato explicar. (Vê que nem aqui consegui explicar de forma sucinta.)


Bianca e eu com ossos ocos como água de coco. 

Algumas pessoas já fizeram tatuagens de livros/textos meus, tem a capa de “A Morte Sem Nome” na Rebeka, uma leitora querida do Recife, algumas frases em algumas leitoras pontuais (curiosamente, pelo que sei só foram mulheres), assim como tem a Bianca, de Porto Alegre, que fez a mesma tatuagem que eu do “ossos ocos como água de coco”, do Mastigando Humanos, uma tatuagem que adoro porque ressalta meu caráter trevoso, cômico e ensolarado numa imagem só.

Meu lugar favorito no mundo. 

No período em que morei em Florianópolis, fiz com a Magéli Martinez tatuagens bem significativas, como o mapa da ilha (que amo)  e uma tatuagem-piada. Eu via tanto aqueles meninos de 14 anos com o nome da namorada do antebraço, e tanta gente perguntando sobre minhas tatuagens, que tatuei como paródia: D. A. A. M.T.  – que se traduz como “Don´t Ask About My Tattoos” – Não pergunte sobre minhas tatuagens. Talvez o mais correto teria sido” D.N.A.A.M.T”, já que o “don´t é uma contração do “Do Not”, mas enfim, posso tomar como DO Ask About My Tattoos, e minha tatuagem não tem de passar pelo Cambridge...

Com a querida Magéli. 
Na minha temporada na Finlândia fiz meu “veadinho da playboy”, ou “rena”. Tirei a ideia de uma estampa de camisetas e cuecas que eles vendiam na lapônia – comprei várias, uma camiseta tenho até hoje (as cuecas eu gastei...).  Para eles o veado, a rena, o chifre, é um símbolo de virilidade, então significava meio que um comedor finlandês. Gostei do duplo sentido que tinha por aqui e tatuei por lá.


E o tatuador ia preenchendo  o desenho perguntando: "Tem certeza de que não quer um nariz vermelho?"

(Por sinal, lembrei que fiz outra tatuagem na Finlândia, lá em 2002, desenhada por um namorado alemão que eu tinha na época. É uma espinha de peixe na minha nuca/começo da espinha. Eu nunca vejo, então sempre esqueço, mas me dizem que está zoada.)

No lado esquerdo do peito fiz uma em homenagem à minha primeira coelha, pouco antes de ela morrer. O falecido também tem uma igual, no antebraço. Mas a minha não ficou muito boa, infeccionou, teve muito problema de cicatrização – não sei porque, foi a única vez que tive problemas assim – e acabou bem borrada. Decidi mudar de tatuadora. (e de marido.)

Entre o cometa e a coelha. 

Também precisava fazer uma tatuagem pela Armênia, depois da minha viagem e de toda minha pesquisa sobre a história dos meus antepassados. O escudo do brasão tinha a melhor ideia, o monte Ararat (que pude contemplar desde meu quarto de hotel) que é um símbolo dos armênios e uma fronteira. Mas pedi para tirar a arca, para afastar qualquer imagem religiosa. Essa é das mais recentes que fiz com a Luiza Peccin, uma querida com um estúdio na Augusta.  

Essa é do ano passado. 

E com ela também fiz a mais recente, meu diabinho desenhado pela minha sobrinha. Estava com 20 tatuagens, queria ir para o 21-impar (dizem que) e não sabia o que fazer. Quando vi minha sobrinha de 7 anos desenhando um diabo não tive dúvidas: o Diabo visto pelos olhos de uma criança.

Falei para minha sobrinha que quando ela voltasse das férias iria ter uma surpresa para ela.

No meio da semana, minha irmã disse que ela tinha perguntado se eu já tinha deixado algum presente...

Constrangido em dizer que era uma "surpresa", mas não um "presente", até deixei na casa delas um pacote de chocolates da Kopenhagen. Mas expliquei que não era a "surpresa".

Quando minha sobrinha viu a tatuagem, desenhada por ela, ainda fresca em meu braço, com minha irmã ressaltando "Olha, é para sempre é uma prova de amor!" Minha sobrinha deu de ombros e voltou a comer as línguas de gato.


Essa fiz em janeiro. 

Tem várias outras, mas isso já está ficando aburrido pra mim mesmo, imagina pra você...
....


Respondendo às perguntas iniciais: Arrependimento: Zero. Várias tatuagens que eu fiz hoje não têm mais tanto sentido para mim, mas ficam como uma marca da época. A gente vê tanto que perdem um pouco o significado, é como uma pinta na pele – talvez para quem tenha tatuagens mais “comunicativas” – quem tatua um “Homer Simpson”, sei lá -  o arrependimento seja maior, mas para mim não acontece. Já me arrependi um pouco do LUGAR que coloquei algumas tatuagens, porque impossibilitaram de colocar outras que ficariam melhores lá, mas vou resolvendo acrescentando.

Vou ficar velho cheio de tatuagens? Claro que não! Coronavírus chegou!

Sarcasmos à parte, se hoje é (pouco) estranho ver um velho tatuado, não será em breve, porque minha geração toda está se tatuando.

Eu ainda evito tatuagens no rosto e pescoço (embora eu adooooore no pescoço e esteja tentado a fazer),  por causa da resistência que AINDA existe. No final dos 90 me disseram que não podiam me contratar numa escola de inglês porque eu tinha tatuagem na mão; no Japão implicavam bem com minhas tatuagens em lugares como academia de ginástica; sei que ainda tem um peso (mas a gente faz por isso, não?); então me contenho (um pouco).  

Por fim: Dói? No bolso, sim.

Nah, na verdade nem é tão caro se fizer pequenas e chapadas (como as minhas) e não dói muito – depende de onde você for fazer...

Não, não tenho no pau.

Braço esquerdo:  8
Peito: 3
Virilha: 1
Perna Esquerda: 2
Braço Direito: 6
Nuca: 1

18/05/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE



Gravando vídeo (ainda vestido), em quarentena. 


“Tire os sapatos antes de entrar, pedi ao abrir a porta. Entrando, ele já foi tirando as meias, a calça, camisa, cueca. Tinha o cheiro orgânico de animais que não se pode pedir por delivery. Toquei primeiro sua testa, de luvas. Como identificar quão quente deve ser o corpo do outro? Corpo estranho. Esperava que ele não notasse minha hesitação por trás da máscara, a falta de excitação dentro da calça...”

Início de “Corpo Estranho”, conto que escrevi sobre encomenda pra revista Gama, para uma edição de contos eróticos sobre a quarentena: (dá pra ler todo aqui: https://gamarevista.com.br/semana/ta-pensando-em-sexo/janela-indiscreta-minicontos-eroticos/?video=1&fbclid=IwAR2_l4-ynBSnnSzYZFzDFfGXLW1ZCnEVNVJIkEk-rGjz95q9RoviGMR_Xao .

Gostei de fazer, principalmente porque não tenho... não tinha feito nada de ficção nos últimos meses. Um mini conto é pouco. Não sou daqueles que se diz escritor porque faz meia dúzia de mini-contos, ou uma dúzia de frases de efeito. Mas já é um pequeno exercício...

Minha agente também pediu outro “mini conto” para outro mini projeto que deve sair em breve. Mas, diabos, ninguém mais pode escrever/publicar um CONTO de FATO! Com cinco, dez, TRINTA páginas?

(bom, ninguém quer pagar por isso.)

Tenho saudades... Saudades de quando passava uma tarde, uma semana escrevendo contos assim. Saudades mas não vontades; ainda sinto que não tenho muito o que dizer. Mas, pra minicontos, basta.

(Por sinal, esse conto que minha agente pediu pra eu gravar em vídeo, eu colei na parede para decorar, e agora toda vez que passo na sala tenho um sobressalto achando que alguém deixou uma mensagem para mim. Feriado de Mim Mesmo feelings...)



Tenho saudades de tantas outras coisas...

Na verdade minha vida está basicamente tão solitária como sempre, mas agora as pessoas parecem entender (compartilhar) o que eu passo, e agora vejo menos possibilidade de mudança. A gente tem de se apoiar exclusivamente nas redes sociais para socializar, sensualizar, paquerar – mas continuo achando essa ideia de trocar nudes tão broxante (é como foto de comida, pouca gente sabe fazer direito – sem sentir o cheiro, o gosto, a temperatura, acaba ficando meio asqueroso).

Nunca gostei de sexo ficcional, de interpretar papéis, me chama disso ou daquilo, gosto de conhecer a pessoa e estar com a pessoa – se posso entrar em detalhes: se o cara fica de quatro eu broxo, gosto de corpo colado. E isso porque deixo o contato pro sexo, apenas pro sexo, no dia-a-dia não aguento abraço de amigo, nem de mãe, detesto que encostem em mim, não supoooorto massagem.

Mas sexo virtual é algo que nunca fiz e nunca farei... espero que nunca tenha que fazer... que eu consiga terminar este mês sem isso...

Prefiro enrolar em plástico bolha.



Dog Man Star ou Atividade Paranormal?

12/05/2020

FESTA NO FIM DO MUNDO


Fiz 43. Em meio à pandemia.

Não foi tão ruim. 43 não é uma idade tão emblemática e, como eu disse, ano passado eu estava bem pior.

Este ano fiz o que eu pude, o que dava, acordei cedo, trabalhei pouquinho, malhei, bebi, pedi um sushi - uma audácia em tempo de coronavírus - e fiz uma live no Instagram às 20h.

Agradeço a todos que assistiram, que mandaram perguntas, nunca tinha feito isso, então me perdi um pouco, não consegui responder a todos, me disseram que minha imagem ficou meio craquelada, mas é que meu esteticista não é serviço essencial.

Rafael Cortez (meu primo querido, comediante e ex-CQC) e os escritores Marcelino Freire, Andrea del Fuego, Penelope Martins e Raphael Montes participaram ao vivo em vídeo, além de comentários de leitores e amigos queridos, incluindo a célebre Laura Albert-JT LeRoy (que me exigiu um trecho em inglês).

Não foi um grande aniversário, mas foi um aniversário diferente, por isso já está valendo. O carinho de todos fez a diferença.

04/05/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE

Ontem, olhando a vida pela janela. 


Semana que vem é meu aniversário, já sei que ainda estaremos em quarentena. Não acho tão ruim, para mim. Apesar de tudo, ano passado eu estava pior, deprimido, obeso, mórbido, tinha acabado de me separar. Busquei colo nas amigas, convidei as mais próximas para jantar – mas nenhuma podia por causa do dia das mães (mesmo com filhos grandes, mesmo eu marcando na noite do domingo). Uma com uma sensibilidade tocante me disse algo como “terminar relacionamento não é drama nenhum.” Não falo com duas delas desde então. Sou rancoroso assim.

Acabei jantando com meia dúzia de rapazes queridos que puderam. Mas ainda foi meio deprê, porque eu estava deprê. E homem não oferece grande colo.

Este ano brinquei que não sabia se fazia uma LIVE ou me suicidava. Acho que vai ser live mesmo. Dá para eu pedir meu prato favorito, fazer uma gin tônica, responder embriagado com o soro da verdade às perguntas de quem assistir. Se bem que meu prato preferido é sushi – comer sushi nesses tempos equivale ao suicídio?

Um brinde a mim. 

O mundo está acabando e eu estou bem melhor do que quando EU acabava meu relacionamento – veja só. O sofrimento é subjetivo ou é puro egoísmo? Estou com bastante trabalho, por enquanto as contas estão pagas – não que eu esteja ganhando bem (como tradutor, a gente nunca está), mas também não há como/onde gastar. Com trabalho e o corpo em forma, a cabeça fica no lugar...

A não ser naquelas noites, naquelas madrugadas de insônia, em que acordo achando-sabendo que o mundo vai acabar.

Estacionei nos 74-76kg (74 nas sextas, 76 nas segundas, depois dos abusos  do fim de semana). Para mim está ok, desde que não volte a engordar. Continuo fazendo mais de uma hora de funcional todos os dias, acompanhando as lives da academia ou por conta própria. Até que tem dado um resultado legal, meu corpo está menos musculoso, mais definido.

Tenho acordado cedo, por volta das 7h. Tenho vontade de correr pelas ruas. Estou pensando em deixar meu celular debaixo do edredom, com um monte de travesseiros, assim o Dória não descobre que eu saí.

Tenho histórico de atleta. E de obeso. E de junkie. Qual será que vence?

Entendo a necessidade da quarentena, mas acho pouco sensível quem está em sua casa com jardim, piscina, varanda, família, xingando o pobre que vive no cortiço e só pode dar uma volta na praça. Não é à toa que agora querem fechar avenidas na Zona Leste, na periferia. É lá que o povo vive mais aglomerado, com menos espaço. Enquanto não for proibido, não cabe a nós julgar a necessidade do outro de sair.

Eu mesmo tenho buscado aquela fresta da janela, na sala, por onde consigo tomar meia hora de sol por dia. Olhando para fora, o que eu vejo? As varandas imensas dos apartamentos do primeiro andar – os únicos do prédio que têm isso. Imagino o prédio todo cobiçando aquele espaço (e os moradores de lá já reclamaram que cai de tudo das janelas – de cigarro aceso a camisinha usada). São moradores bacanas, de todo modo... (mas ainda tenho de ouvir, sozinho, na insônia, na madrugada, a vizinha que tem varanda-gramado-cachorro gemendo de prazer. Sim, ela também é bem servida de marido).

E ainda tem uma família de labradores. A grama do vizinho é mesmo mais verde. 


21/04/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE



"Art, the Clown."

 
Estamos todos trancados, mas algum olham as estrelas...

Não, pera, isso já postei (?).

Estou me perdendo nas minhas próprias notas e começo a achar que estou postando sempre a mesma coisa. A vida não pode mudar tanto num mês, em setenta metros quadrados.

Povo trancado podia estar lendo, podia estar maratonando séries, mas a vibração que sinto é que o povo está mais é cozinhando. O que mais vejo é receitas, em fotos feias, pães embatumados, pudins molengas. Nem pedir delivery o povo tem mais coragem.

O resultado é que o povo poderia ficar grato aos artistas, que fizeram livros, que fizeram filmes, que agora o povo pode consumir para passar o tempo – mas sei que isso vai ser considerado cada vez mais como supérfluo; povo é mais grato ao entregador de pizza. Então vai, enche esse bucho de pão!

Eu não tenho lido mais, não tenho cozinhado mais, não tenho feito nada a mais. Estou seguindo como um soldado, na rotina de sempre (que não chega a ser espartana): traduzo de segunda a sexta. Fim de semana reviso. Faço dieta de segunda a sexta. Jejum de 24h duas vezes por semana. Funcional 90 minutos por dia. Sigo emagrecendo.

E começo a me perguntar para quê?

A resposta mais óbvia é a boa forma (para quem?), mas acho que a mais certeira está no fim de semana. Eu faço dieta, sigo na programação, para que no final de semana eu possa comer, possa beber tudo o que eu quero. É a velha lógica de recompensa, infantil, capitalista, de poder aproveitar a vida só dois dias por semana. Mas faz sentido, porque ao menos a gente sabe que tem algo ali a se esperar. Eu, que trabalho em casa há tantos anos, sempre precisei disso para separar um dia do outro.

Um dia após o outro, o mercado literário vem sendo destruído. Se essa crise servir para destruir de vez o mercado, as chances de se reinventar já estão há muito sendo dadas: editora comercializar os próprios livros; ebooks mais baratos; povo que quer comprar o livro físico quer autografo do autor... Ou povo não quer comprar, como já não compra mais música, filme... chegaremos ao streaming de livros?

A literatura, como sempre, sobrevive, porque para realizá-la não é preciso muito mais do que papel e caneta. Mas, para que ela volte a circular pelas ruas, é preciso um novo sopro.

E um sopro hoje pode ser fatal.

17/04/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE

Ilustração de Marco Túlio R. para meu "Mastigando Humanos."



“O erro dos dinossauros foi querer aparecer demais”, era um dos meus "memes" em “Mastigando Humanos” (bom, naqueles tempos se chamava de frase de efeito, ou bordão, mas eu casei com imagens - então criei os memes?).  Esse dias vi uma charge... digo, um meme de dinossauros avistando o meteoro. Um deles dizia: “Vai destruir a economia.” E, apesar do inteligente sarcasmo, aparentemente foi o que aconteceu. O meteoro não matou os dinossauros, só criou condições (climáticas) que dificultaram a sobrevivência daqueles que dominavam a terra.

Agora parece que somos colocados diante de uma escolha moral. O vírus promete matar milhões dos mais fragilizados. Se nos sacrificarmos todos, morrerão algumas centenas de milhares que não estavam na promessa inicial. Sacrificar a sociedade toda para poupar alguns milhões de seus mais fracos parece ser uma escolha bastante “civilizada”, no que o termo tem de mais contemporâneo – porque sabemos que não era assim que era feito em sociedades tribais.

Me surpreende que essa civilidade apareça agora, que algo como o coronavírus faça essa civilidade aparecer. Auxílio emergêncial, proibição no corte de luz, uso de leitos privados para atender a população: são todas medidas que poderiam/deveriam ter sido usadas há tanto tempo no país, tantas emergências – que me surpreendo que cheguem antes tarde.

O “presidente”, é claro, é contra. Mas ele não pode ser usado nem como termômetro moral, porque é um QI muito, muito baixo. Eu diria inimputável. Como as pessoas podem estar só dando conta disso agora? O homem estava na televisão há uma década falando as maiores asneiras com tremas. EU estou avisando há pelo menos cinco anos!

E a porra do vírus não foi capaz nem de acabar com ele. Ele não ter se contaminado depõe terrivelmente contra e eficácia do vírus. Se ele contraiu e omitiu, pior ainda, o “histórico de atleta” de um deficiente mental na terceira idade é o suficiente para livrá-lo de complicações.

Esta semana morreram Garcia-Roza, Rubem Fonseca, Moraes Moreira – não diretamente do coronavírus, mas o clima não ajuda - e morrerão muitos mais, se os idosos estão mais em risco e nossas grandes lendas estão na terceira idade. Sobre Moraes Moreira, ouvi os comentários típicos: “Morreu dormindo, que bom, morreu em paz.” Morre em paz para quem vê de fora, quem está desperto. Quem garante que quem dorme morre em paz? A pessoa pode estar em seu pior pesadelo, revivendo seu pior momento, estar sonhando com seu pior sofrimento e isso enfim se torna sua morte.

A quarentena foi prolongada em São Paulo. Termina em 10 de maio. (Felizmente meu aniversário é dia 12, e já estarão abertos todos os bares, restaurantes, as pessoas estarão sambando pelas ruas.) Toda semana o pico da epidemia é projetado para duas semanas além, e é natural que as pessoas comecem a se entregar à sorte ao niilismo. Todos nós precisamos copular. Suponho que, quando o próprio contato social se torna arriscado, as pessoas comecem a desprezar camisinha, anticoncepcionais. Temos mais nove meses?

14/04/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE

Ilustração de Alexandre Matos para meu "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego."



Será que daqui a trinta anos lembraremos dessa época dizendo: “Não sabe como foi louco quando tivemos de ficar de quarentena em casa”? Ou será: “Não sabe como era bom quando a humanidade podia andar em bando”? Será que teremos humanidade daqui a trinta anos?

Estou entrando em inferno astral, embora não acredite nisso. Estou entrando em inferno astral sem Fé no Inferno. O livro foi adiado, talvez para maio, talvez para junho... Certamente não será para o meu aniversário (no 12 de maio – já tínhamos agendado o evento de lançamento para sábado dia 9).

Me dá mais desânimo do que ansiedade. Não dá para ficar ansioso com um lançamento nesta época (com aniversário nesta idade). E afinal, é o décimo segundo... tantas vezes tive grandes expectativas que não deram em nada. Ou deram em pouca coisa. Deram. Cada livro foi um pequeno degrau, que manteve minha carreira fluindo. (Enquanto tanta gente lança dois, três livros, e sorve pelo resto da vida como escritor...)

O mais prazeroso para mim sempre foi o ato, escrever, criar, quando engreno num livro novo – esse é o momento que mais quero compartilhar, quero que as pessoas vejam, leiam – mas desse momento até o livro ser lido levam meses, anos. Daí o pique já esfriou, o livro já ficou distante, já é menos meu, já tenho outras coisas a dizer...

Só que agora não tenho nada a dizer.

Sempre invejei os artistas que trabalham “ao vivo”, que têm respostas imediatas do público: os músicos, os atores de teatro. Escritor não recebe aplauso.

(Ato falho ou não, tinha escrito "sempre invejei os artistas que TRABALHAVAM ao vivo" - será que agora ao vivo só em live de Instagram?)

Eu devia era começar outro romance – não é isso que todos os escritores estão fazendo? Ou fazer uma novelinha, um conto, um microconto, um post de Facebook. Bem, ao menos tenho mantido aqui atualizado.

11/04/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE


Wilde



O amor livre dos anos 70 teve o golpe violento da AIDS nos 80, que agora parecia estar sendo domada com as PrEps, mas para estragar a festa vem coisa pior; e agora ninguém pode nem se cumprimentar.

Há indícios fortes de que o novo coronavírus mate apenas heterossexuais – pois seria uma forma de a natureza conter a hiperpopulação humana. Por isso não morrem crianças. O vírus poupa quem ainda é virgem.

Pelo menos foi o que li numa corrente de Whatsapp.

(Por sinal, tenho Whatsapp há um ano, apenas um ano, mas não estou em grupo nenhum, nunca recebi corrente nenhuma; sinceramente ainda não entendo essa coisa de “correntes de Whatsapp”; pra mim funciona como o antigo “torpedo” de celular. Abro uma vez por dia. Geralmente pra ver mensagens dos meninos que migraram do Tinder, do Grindr. Ainda não entendi qual é todo o fuss...)

(Sim, sou velho.)

Tem ficado cada vez mais confuso para mim essa quarentena, me parece insustentável, parece que nunca vai acabar. Por que acabaria? A “curva vai ser achatada” quando? Antes a gente não devia usar máscara, agora sim. Agora até animais domésticos podem pegar a doenças – especialmente gatos -; vi nessa madrugada na Globonews, que recomendava que doentes ficassem longes de seus animais.

Por que não podemos todos simplesmente morrer?

Ontem acordei em mais uma madrugada de insônia e vi um amigo postando no Facebook: “Olhem só como o céu está estrelado”. Olhei pela janela e vi o mesmo céu acre de quando o homem dominava a terra.

Parafraseando Wilde: Estamos todos na sarjeta... E o melhor é procurar moedas no asfalto.

08/04/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE

Foto de Sally Mann. 


Tenho me surpreendido com a vontade dos meus amigos em viver.

Achei que meus amigos eram todos trevoso suicidas.


Mas agora eles, que não precisam pegar transporte público, que podem pedir delivery, estão borrifando tudo com álcool gel, pegando com a ponta dos dedos, mostrando uma generosidade em não transmitir ao próximo que eles próprios não tinham na hora do sexo...

Estamos todos trancados. Alguns mais paranoicos do que outros.

Também é um momento único, porque quem fica mais confortável dentro de casa (porque tem casa grande, porque está acostumado a ficar em casa – como eu – o manco sedentário ou quem está numa casa confortável com família) pode se considerar mais altruísta e pregar #FiqueEmCasa para o autônomo que vive em quitinete, num barraco, na frente de uma obra.

Ou para a menina da escola que vive com o pai abusador.

Minha mãe, que é senhora de idade, grupo de risco, sei que está saracuteando por aí. Minhas tentativas de interditá-la diante da família foram em vão exatamente por eu ser esse rapaz tão indoor, que não sente os efeitos do confinamento. Não sei como é difícil viver trancado. Eu mesmo não a vejo desde o Natal (por precaução, gente, desde o Natal senti que era arriscado e evitei visitá-la).

E eu mesmo tenho saído: duas, três vezes por semana, vou ao mercado, corro pela rua – tenho de comprar verduras para a Gaia, afinal. Dia desses vi na Globonews que a população tinha de limitar a saída: “Sair no máximo UMA VEZ AO DIA”! Porra, uma vez ao dia?! Vou fazer toda minha cota neste fim de semana.

Nessas parcas saídas pelo bairro, encontrei algumas pessoas – envergonhado, “só vou logo ali”- inclusive meu primo, meu tio “Naza” (o apelido de rico dos “Nazarian”), que também é grupo de risco, e saracuteava como minha mãe. Porém se há um efeito bom do covid que eu espero que fique é esse de evitar beijinhos e abraços. Podemos agora todos nos cumprimentarmos com tchauzinho, até o resto da vida, não?

04/04/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE

Eu e Gaia. 


Como todo mundo, tenho sentido a quarentena, mas não tenho sentido a quarentena como todo mundo.

Percebo agora como meu estilo de vida, meu histórico e minha profissão me dão vantagem neste momento. Tenho dito que viver isolado faz com que, agora, eu esteja isolado há tempo demais, e é verdade, mas também tenho prática. Minha vida mudou pouquíssimo – o que também tem seu lado negativo (seu lado positivo).

Vejo que quem agradecia estar em casa assistindo à Netflix agora já se sente incomodado. Eu, que sempre tive tempo para fazer tudo, nem posso pensar como seria se agora não estivesse fazendo nada. Sinto que estou mais ocupado (com tradução) do que grande parte dos meus amigos. E isso é inédito.

No mais, sigo com a dieta, sigo com lives diárias da academia no Instagram. Agradeço por há tempos estar fazendo funcional, que é algo que basicamente não precisa de equipamento nenhum, tenho conseguido fazer em casa e conquistei bagagem o suficiente para fazer sozinho. Emagreci quase 1,5kg em duas semanas de quarentena – pode ser um pouco de músculo, visto que eu pegava pesado na musculação, mas o importante sempre é perder.

“O Importante É Perder”: alguém já deu esse título a livro de auto-ajuda/ fitness/ nutrição?

Como não sou santo (apesar do nome), como minha vida não é só treino e restrição, me permito ainda beber (pesado) aos fins de semana, comer tudo o que quero. E isso é outro privilégio. Eu mesmo já tive tantos períodos em que não podia comer o que queria, não por dieta, mas por falta de grana.

O pouco de amor e carinho que recebo diariamente na minha vida vem dela: Gaia, minha coelhinha. É tão bom ter motivo para levantar da cama, ir à área de serviço, fazer o pratinho de verduras dela. E ver que ela pula animada nem porque está com fome, às vezes ela deixa as verduras ali, está mais ansiosa em ir pra sala comigo. Quem estaria ansioso pra ir pra sala comigo?


FÉ NA QUARENTENA

Já dá para ler.  O ebook do meu novo romance, Fé no Inferno, já está disponível pela Companhia das Letras. https://www.amazon.com.br/...