19/02/2020

MINHA VIDA COM ZÉ DO CAIXÃO

(13/03/1936 - 19/02/2020)
Morreu nesta quarta o lendário cineasta José Mojica Marins, o (criador do) Zé do Caixão.

Eu só o conhecia como fã, vi algumas palestras, muitos dos filmes, li a biografia, mas nunca nem cheguei a conversar ou tirar uma foto com ele.

É das figuras mais importantes não só do cinema de terror nacional, mas do cinema nacional como um todo. Como bem lembra o jornalista e pesquisador (e amigo querido) Carlos Primati, apesar de muitos o considerarem "menosprezado", poucos cineastas brasileiros tiveram tanta repercussão (nacional e internacionalmente), receberam tantas homenagens, prêmios, mostras, foram fruto de tantos estudos acadêmicos quanto ele.

Muitos o consideram gênio, outros o relegam ao "trash"; pessoalmente acho que ele tem... tinha um pouco dos dois. Ele tinha o lado intuitivo, inventivo, de criar coisas geniais, inventar sua própria maneira de fazer cinema. Mas também tinha um gosto bem discutível e uma limitação no conteúdo (compensada pela inventividade na forma).

Eu adorava. Não tudo. Mas principalmente os três filmes da trilogia principal: "À Meia Noite Levarei Sua Alma" (1964), "Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver" (1967, meu favorito) e "Encarnação do Demônio" (2008) - esse último (seu último longa) foi uma grande surpresa quando assisti no cinema, um filme pesado, terror de verdade, em sintonia com o melhor do "torture porn" que estava sendo feito na época (um sub-gênero que ele ajudou a criar, e que eu adoro). Vários amigos participaram da produção.

Fico triste de não ter nenhuma história pessoal com ele, mas não se pode dizer que ele se vai cedo, aos 83 anos, há vários debilitado. É triste que não deixa herdeiros diretos, ao menos, não com a repercussão que teve. Como coloquei no meu (malfadado) artigo da Folha sobre literatura fantástica, do ano passado, é sintomático que o cineasta mais bem-sucedido de terror no Brasil tenha se tornado célebre com um personagem que a todo tempo nega o sobrenatural, como para reforçar que o fantástico não tem mesmo espaço entre nós.

Para encerrar, compartilho o pouco que cheguei a ele, quando o querido Eduardo Dussek (um ídolo um pouco mais próximo) foi no programa dele no Canal Brasil, e contou que eu o havia apresentado à Marchinha do Zé do Caixão (começa no minuto 3:20). Estamos no carnaval, dá tempo de ressuscitar a marchinha.






14/02/2020

MATADOR DE PASSARINHO



Na adolescência, descobrimos que havia um rato na nossa casa. Minha mãe comprou algo como um mata-mosca gigante, com uma cola para grudar o bicho. Colocou ração de cachorro. Ideia mais idiota possível. Acordei um dia escutando pios. Havia um passarinho, um sabiá, todo grudado na cola. Eu tentei soltá-lo, mas parecia que os ossos iam estalando, quebrando. Com lágrimas nos olhos, peguei uma telha e matei o bicho.

Na mesma casa, nossa gata deu cria. Passados alguns dias, a gata começou a jogar os filhotinhos na piscina. Matou alguns, tentou afogar outros. Minha mãe se desfez da gata. (Acho que depois disso é que tivemos ratos.)

Uma década atrás, eu estava num fim de semana depressivo, sem dinheiro, saí para dar uma volta numa noite de domingo. Na porta de casa, vi uma gata branca e estendi a mão para acariciá-la. A gata saiu correndo para a rua, passou um carro e eu virei o rosto. Dei alguns passos e, infelizmente, tive a ideia de virar o rosto de volta. A gata estava estrebuchando esmagada no asfalto. Nunca vou esquecer disso.

Já contei essa história aqui, mas quando minha primeira coelha morreu, coincidiu de ser o dia seguinte da eliminação do falecido no Masterchef Brasil. Saímos com ela numa caixa de sapato, procurando pelo bairro um veterinário para deixar o corpo. E as pessoas iam parando a gente pelas ruas, querendo tirar foto com o falecido, achando que ele estava chorando por ter sido eliminado.

Hoje fiz minha boa ação do dia. Morro de nojo de pomba, mas vi uma parada, com a cabeça presa num saquinho plástico. Pisei na ponta do plástico, pra ver se ela puxava, mas ela foi se enrolando mais. Tive de PEGAR a pomba (eca) e rasgar o saco da cabeça dela. "Agora voe, amiguinha, vá transmitir doenças a algum bolsominion..."




02/02/2020

COMO CRIAR UM COELHO


Gostosa. 

Minha coelha Gaia está fazendo 4 anos comigo. Chegou com três meses, para preencher o vazio deixado pela Asda, a primeira coelha, que viveu só um ano e meio.

A Asda, tão lindinha, aqui na sala. 

Eu não tinha essa coisa com coelhos - antes, tive um iguana. Mas um dia passei na Cobasi, vi os coelhinhos, estava em lua de mel, e pensei por que não? O atendente me convenceu que era o melhor dos bichos.

Asda.
Asda sempre foi doentinha - coelha de petshop, comprada por impulso, já veio com problemas de pele, depois passou por uma operação para retirar um nódulo, acabou tendo um sangramento que nunca soubemos o que provocou. (A morte dela foi até anunciada no site da Band, já que ela apareceu no Masterchef, com o falecido. Virou literalmente "estrelinha".)

Já a Gaia foi adotada de uma menina que tinha uma família de coelhos, e nunca teve problema algum. E ela passou bons meses em Maresias, com um quintal para correr, cavar, fazer tocas; terminava o dia coberta de terra. Eu tinha um pouco de medo por causa das cobras (cheguei a ver três cobras no jardim), mas ela foi feliz. Agora voltou a ser coelha de apartamento.


Gaia querendo colo. 

Ela vive solta pelo apartamento enquanto estou aqui. Quando saio ou vou dormir, eu tranco ela na área de serviço. Gaiola nunca usei. Não me arrisco a deixar ela solta sozinha, porque ela destrói o sofá - mas quando dou pequenas saídas, como ao mercado, já não preciso mais trancá-la.

Na terra, em Maresias. 

Durante o dia ela fica quietinha, sempre em algum canto por perto. Se eu desapareço da vista dela por mais de 5 minutos (se vou ao quarto, por exemplo), ela vai espiar onde eu estou. Quando começa a escurecer, ela vai para o sofá, para receber carinho e ver TV comigo. No dia que escureceu em SP no meio da tarde, ela já foi para o sofá esperar por mim.

Ela na porta do quarto esperando por mim. 

Nos dias mais depressivos, é ela quem me faz sair da cama, levantar para dar comida para ela . Faz a diferença ter um animalzinho ansioso esperando (e ela fica mais ansiosa para me ver e ir para a sala do que para comer). Coelho é um bicho bem carente, carinhoso (eu digo que mais do que gato, menos do que cachorro; demonstram o amor lambendo); para mim, é o bicho de estimação ideal.


Já postei algumas vezes aqui no blog as dicas para quem quer ter coelho em casa. Aproveito então este aniversário para reforçar/atualizar, com perguntas e respostas básicas:


O QUE COME?
Folhas escuras (escarola, agrião, couve, catalônia, almeirão, chicória) (rúcula também pode, mas a Gaia não gosta e não come de jeito nenhum, ela separa e bota fora). Alface falam que dá diarreia. Espinafre falam que tem ferro demais.

É bom complementar também com ração, em pequena quantidade (mas uma BOA ração, tipo Nutrópica ou Funny Bunny; tem muita ração que é pra engorda, pra coelho de abate.)

Feno também é indispensável, para ajudar na digestão e precisa estar sempre disponível. (E hoje já se encontra com facilidade nesses petshops grandes). Alfafa tem muito cálcio e não é bom dar sempre.

Frutas e cenoura podem ser dadas, mas em moderação, como um petisco, porque engordam muito o coelho e podem provocar diabetes. (A Gaia é mega gulosa, e eu posso ter acabado de colocar as verduras dela, se ela sente cheiro de fruta que eu esteja comendo, ela larga as verduras e vem pro meu pé querendo fruta).

ONDE FAZ XIXI/COCÔ?
Em bandeja. Igual gato. Depende um pouco do coelho, mas em geral aprende fácil. A Asda fazia xixi na bandeja, mas soltava uns cocozinhos pela casa. A Gaia NUNCA faz nada fora da bandeja. É uma lady. Uma dica é encher a bandeja com feno - ela reconhece como o único lugar na casa que tem um "matinho" e faz tudo lá.



Gaia na bandejinha. 
PRECISA PASSEAR?
Não. Muita gente recomenda até NÃO passear, porque coelho se assusta/estressa fácil. Certamente não dá para sair de coleira. Eu saio vez ou outra com ela até a feira da esquina, no colo.


"Tô suave."
ATENDE AO NOME/CHAMADO?
O coelho ENTENDE o nome, certamente, mas não necessariamente atende. Acho que depende do animal. A Gaia, se eu chamo na sala, ela vem quando quer, se eu chamo na cozinha ela sempre vem, porque sabe que vai ganhar comida. É mais ou menos como gato.




MORDE?
Essa eu coloquei aqui porque muita gente me perguntou, mas não sei de onde o povo tirou isso. Coelho não morde. Eu literalmente coloco o dedo na boca da minha coelha. Eles têm os dentes da frente e pouco mais do que isso. O que eles fazem principalmente de defesa é arranhar. Daí se você alopra com o coelho dá para furar umas roupas, mas também pouco mais do que isso; unha de coelho não é afiada como de gato.

PRECISA VACINAR?
Não. Não existe vacina pra coelho no Brasil. Na prática, coelho não precisa de veterinário, a não ser que seja doentinho como a Asda.

PRECISA CASTRAR?
Essa é controversa. Muita gente recomenda, não só pela procriação, mas por risco de câncer, porque o coelho fica mais calmo, etc. Mas a veterinária também já me falou dos riscos da cirurgia de castração em coelhas fêmeas - é um bicho muito frágil. Macho é bem mais fácil castrar (mas também não tem o risco do câncer de ovário). Então é algo a se ponderar. Eu não castrei.

COMO DAR BANHO?
Não se dá banho. Dizem que faz mal, cria fungos, problemas de pele e pode causar resfriados. O coelho se lava o dia todo se lambendo, como gato, e tem um cheirinho bem gostoso (de casaco de pele...). Eu NUNCA dei banho na Gaia, mesmo ela já tendo se coberto de lama.

PRÓS?
- É um bicho interativo, carinhoso. Não escala, como um gato (então não vai conseguir roubar comida da mesa), não faz barulho ALGUM (então não vai ficar latindo, miando enquanto você estiver fora); não tem altos custos mensais (porque come pouca ração, o principal são as verduras); não precisa de tanto espaço e atividade como um cachorro (mas não seja cruel de deixar numa gaiola); não fede (falam que xixi de coelho fede - mas a minha só faz na bandeja, que fica na área de serviço, então não sinto nada).

CONTRAS?
- Rói TUDO. É preciso deixar coisas para o coelho roer, porque o dente está sempre crescendo, mas mesmo assim, ele vai roer tudo o que estiver ao alcance dele (principalmente fios de eletrodomésticos); então é preciso meio preparar/blindar a casa. Também solta pelo - e tem períodos de troca que solta MUITO pelo. E é um bicho carente, que não pode passar um dia sem companhia, nem dá para deixar só ração pra ele e viajar (porque ele PRECISA de verdura fresca todo dia).

ONDE CONSEGUIR?
Os petshops vendem barato (por volta de R$100), porque é um bicho que se reproduz com facilidade. Mas NÃO compre, procure adotar. Entre em grupos de doação nas redes sociais - foi o que eu fiz com a Gaia. Os coelhos de petshops vêm com vários problemas, por essa procriação intensiva; são tirados muito cedo da mãe - quando comprei a Asda, me disseram que ela tinha três meses (porque é a idade recomendada para desmamar), mas ela era tão pequena e coelho cresce tão rápido, que hoje sei que ela era menor. E eu vejo tantos coelhos minúsculos em petshop, que sei que eles têm poucas semanas. NÃO compre. Espere um pouquinho mais e adote, que seu coelho vai viver bem mais.

A Asda veio desse tamanho, nem tinha desmamado. 

(E fico mega feliz que a menina que me doou, que era uma adolescente na época, hoje está se formando em veterinária, e me enche de orgulho com as postagens politizadas contra o governo que faz nas redes.)


Como não posso sensualizar passeando com coelho, só me restam as redes...

29/01/2020

AGATHA

Agatha quando era gata. 

Dizem que quando a gente morre todas as histórias de nossa vida passam em nossa mente. Mas será que fazem sentido? Uma vida inteira, ou um assassinato. Será que naquele instante derradeiro tudo se encaixa num clique e tem-se a impressão de que a história está completa, tudo foi cumprido, era esse mesmo nosso final, tramado desde o começo?

Com tanta violência, tantos assassinatos, nós, que aqui restamos, ainda estamos procurando sentido. Somos como um Detetive Hercule Poirot... mas jogados num romance surrealista. As pistas não se juntam, os motivos são banais, não há o toque de planejamento, de genialidade, a beleza de uma morte bem pensada, o assassinato no momento exato...

Relendo hoje “O Assassinato de Roger Ackroyd”, vejo como falta propósito em nossas vidas... ou nossas mortes. Como tudo seria mais interessante se fosse realmente um hábil quebra-cabeças, deixado a desvendar para os mais atentos, ou os perseverantes, que seguissem até o final. A vida compreendia pelos leitores. E tudo com um fino humor inglês.

Não sei que histórias passarão em minha cabeça quando a faca finalmente entrar nas minhas costas. Mas adoraria que minha morte tivesse sido escrita por Agatha Christie.



Orelha que escrevi para "O Assassinato de Roger Acroyd", numa edição da Globo de dez anos atrás. O briefing era escrever uma orelha mais literária, menos publicitária, quase como um microconto. Esse foi o texto aprovado, mas antes tinha mandado outro um pouco menos objetivo, que acharam um pouco demais (e era um pouco demais de paródia de mim mesmo), então refiz. O primeiro era assim:


Dizem que quando a gente morre todas as histórias de nossa vida passam em nossa mente. Eu me lembrei disso quando senti a faca entrando. Minhas próprias paixões, conquistas e fracassos, emaranhadas com aquelas que vivi como leitor. Não conseguia diferenciá-las, principalmente porque ainda estava concentrado em continuar respirando. Ele enfiou a faca novamente - e outra vez - depois parei de contar. Eu vim ao chão, ele seguiu para a porta. Meu assassino me deixava para completar sozinho a história. Não fazia sentido, minha própria morte, uma trama à qual eu não poderia dar final. Me lembrava de tantos romances policiais – sempre com um grande desfecho, uma grande virada, motivos e encaixes que davam poesia a uma morte. Naquele momento, eu só queria chegar ao telefone, chamar uma ambulância, ligar para minha irmã e perguntar qual era mesmo o nome daquele livro da volta do Detetive Poirot? A memória é um lento rastejar. E eu estava tirando tudo do lugar - apagando digitais, manchando pegadas, destruindo pistas que narrariam minha vida, meu assassinato. Sem mais poder seguir em frente, permaneci deitado no chão de tacos, meu sangue se infiltrando nas frestas, misturando-se a fios de cabelos, restos de insetos, lágrimas de outrora. Ficaria ali, para contar minha história? Ou seria tudo esquecido, enxaguado, reformado com um novo piso? No meu último suspiro, apenas um desejo: como eu gostaria que minha morte tivesse sido escrita por Agatha Christie.

Hoje acho que o texto aprovado é mesmo bem melhor. Orelha tem que cumprir um serviço (mesmo que não tivesse sido isso que haviam pedido inicialmente). E assim começou minha história com Agatha Christie...





E por algum acaso do destino, Agatha Christie acabou se tornando uma das autoras com quem mais tenho trabalhado... Bom, na verdade, é a "A "autora que mais traduzi. Desde 2018 tenho traduzido os livros dela para a plataforma de áudio Storytel, que chegou ao Brasil trazendo uma caralhada de audiobooks, podcasts e muita coisa legal. (Inclusive meus três primeiros romances, que estão esgotados nas livrarias, estão por lá). 



Ouso dizer que traduzir Agatha Christie é... fácil. Bem fácil. Os textos dela são muito apoiados no diálogo, o que os torna bem coloquiais. Há um desafio da época, é claro, ela escreveu de um século atrás até os anos 70 - isso limita as gírias e a "soltura" da coloquialidade; e há também uma sátira da época, referências aos costumes. Mas ela também já foi tão traduzida, em tantos idiomas, que sempre é fácil tirar uma dúvida. (E é fácil encontrar tantas barbeiragens feitas em outras traduções...)

E não vou dar uma daquelas de tradutor pau-no-cu falando que "tradução fácil é chata", que o "legal é o desafio". O desafio pode ser legal se o livro for bom, tem um monte de desafio que é só um saco mesmo. Agatha Christie é sempre divertida; e se é fácil, dá para a gente se soltar e tentar apenas tornar o texto mais gostoso. 

Assim, no meio do processo de traduzir os livros pra audiobook, a Globo Livros me procurou novamente para eu traduzir um dos livros dela em papel. 

A nova edição com tradução minha. 

"M ou N" é um romance de espionagem, com um casal de protagonistas não tão conhecidos entre os personagens dela. Tem posicionamentos muito progressistas em relação ao feminismo e a utilidade dos cidadãos de terceira idade, além de questionamentos sobre a guerra. 

Junto à tradução me pediram um texto de apresentação. E ressaltei a importância de Agatha, não só como bela leitura de entretenimento, mas como crítica social e retrato de seu tempo. Tem sido muito enriquecedor mergulhar na obra dela e ver seu desenvolvimento através das décadas do século XX. (Ela mesma tem uma história louquíssima de adultério, desapareceu quando descobriu a traição do marido, foi encontrada dias depois com amnésia. Era uma mulher à frente de seu tempo. E muito da biografia dela se vê espelhada em seus livros.)

Estou terminando agora a tradução de "Noite Sem Fim", que foi dos livros que mais gostei (e que era dos favoritos dela), por isso mesmo resolvi fazer o post. É um livro de final de carreira, então é bem mais ousado e contemporâneo (eu encontrei inclusive um "bitch" escrito por Agatha Christie; tive de traduzir pelo "vaca" padrão. Mas adoraria pegar os diálogos dela e adaptar tudo para a coloquialidade atual.). O humor inglês dela é imbatível. 

Assim, tia Agatha tem pago há muitos meses as contas de casa. Traduzi outras coisas ano passado (livros empresariais, juvenis, um clássico da ficção científica; hoje eu traduzo cerca de 150 laudas por mês), mas com ela já me sinto em casa. 

Na Storytel acho que, por enquanto, tem só dois livros dela em português (na minha tradução), mas já estão vindo muitos mais: 


E aproveitando, recebi há alguns dias a nova edição do Frankenstein, da Zahar, que também tem tradução e apresentação minhas. Esse já foi um livro bem mais trabalhoso, que também exigiu muita pesquisa minha para as notas (eu lembro que literalmente no dia 24 de dezembro a editora me pedia para pesquisar territórios turcos na época do livro). Mary Shelley é uma autora bem mais sorumbática. Mas acho que ficou um belo trabalho. 
As duas edições com tradução minha. 




18/01/2020

FÉ NO INFERNO

No mosteiro de Noravank, em 2015. 

Estamos numa época de minorias perseguidas, de nativos expulsos de suas próprias terras, da religião majoritária se impondo sobre um povo. Estamos no Brasil de 2017, às vésperas de uma eleição reveladora; e estamos em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial.

Quem une essas duas épocas é Cláudio, um jovem cuidador de idosos que vai trabalhar para seu Domingos, um senhor armênio, nos Jardins, em São Paulo. Como homossexual e neto de indígenas, Cláudio sabe bem o que é ser minoria, mas na convivência com Domingos conhece uma história que remonta a mais de um século: o genocídio armênio perpetrado pelos turcos. A partir da leitura de um livro de memórias, Cláudio começa a suspeitar que possa estar diante de um dos últimos sobreviventes de um dos maiores massacres do século XX, e sua responsabilidade como cuidador é mantê-lo vivo.

“Fé no Inferno” é um romance que intercala dois períodos emblemáticos através da veia provocadora de Nazarian, um autor que há duas décadas representa o “Lado B” de sua geração. Mesclando pesquisa histórica, folclore armênio e uma observação mordaz do Brasil contemporâneo, o autor cria sua obra mais ambiciosa, num texto obrigatório para os dias de hoje.




Essa é a sinopse do meu novo romance, que sai em abril, pela Companhia das Letras. A Folha deu nota hoje, então começo oficialmente os trabalhos de divulgação.

Como armênio (ou "neto de armênios"? Ou "meio-armênio?") eu devia há muito essa história, mas simplesmente não me considerava capaz. A partir da minha viagem para a Armênia, em 2015, comecei a pesquisar, rascunhar e montar esse romance, que ganhou nova relevância com os tempos de perseguição de minorias que estamos vivendo. 

Mas ainda falarei muito sobre isso. Este é só o começo...

Espero poder rodar o Brasil em lançamentos, mesas e debates - aberto aos convites que surgirem. Agradeço novamente a acolhida na Companhia (e por terem aceito um título tão provocativo sem questionamentos), minha agente Lúcia Riff, e principalmente ao professor-doutor-historiador Heitor Loureiro, que foi quem mais me ajudou em todo o trabalho de pesquisa e escrita. 

Tenho fé. 

(Mas não muita.) 


"O Diabo pelos olhos de uma criança", minha tatuagem nova, desenhada pela minha sobrinha, que tem muito a ver com o livro. 



12/12/2019

PERCA PESO, PERGUNTE-ME COMO

Hoje


“Meu maior orgulho em 2019 foi ter desaparecido.”

Já considero essa uma frase clássica minha para mim mesmo.

Meus maiores orgulhos são sempre masturbatórios...

Na batalha. 

Perdi 25 quilos em 2019 – até agora. Em abril eu estava com 107kg, agora estou com 82 - e muitos músculos. Impressiona. Impressiona a mim mesmo. Mas não tanto se pensar que foram 25kg em 8 meses, uma média de 3kg por mês, nada muito radical.


Aqui, no começo do ano (com Caroline Rodrigues e Gustavo Valezzi) - não sou louco de postar uma foto sem camisa, mas acredite, eu estava com mais de 100kg.

Mais do que a perda, sei que muita gente se impressiona de eu ter chegado aos 107kg - até que foi gostoso. Foi uma somatória de fatores – que podem ser resumidos no fato de eu ser taurino, para quem acredita, e resolver tudo na comida.

Eu nunca tive tendência natural a ser magro, nunca fui tão gordo, mas sempre tive peito, tive massa. Só que desde a adolescência faço muito, muito esporte; começou com caratê, depois musculação, natação; e o ano que passei em Florianópolis – em que pra sair de casa eu já tinha que subir morro e descer morro – estabeleceu uma rotina de esforço físico insustentável.

Aqui, aos 33, pesava poucos menos de 70kg.

Uma hora eu simplesmente cansei. Literalmente “cansei de ser sexy.”

Quando me casei com o ex-cozinheiro, achei que podia relaxar. Troquei o prazer da atividade física pelo prazer de comer, cozinhar (eu mesmo cozinho MUITO bem, se é que não sabem). Estava chegando aos 40 anos e uma hora a gente cansa mesmo desse compromisso de pagar de gatinho, ainda mais trabalhando num meio (literário) que vê a beleza com desconfiança e com um namorado cozinheiro que estava bem acima do peso. Isso nunca foi problema pra mim.

Só que, em seis anos de namoro-casamento, eu fui engordando 10, 20, 30 quilos.

Uma hora simplesmente deixei de me pesar.

Claro que me incomodava, mas não o suficiente. Também não era como se o falecido parecesse incomodado - ele trazia cupcakes; talvez nutrisse um prazer (não tão) secreto em me ver degradar física, profissional e emocionalmente.


Se ganhei muito peso no casamento, transbordei de vez no último ano, em que estávamos separando e eu estava morrendo de ansiedade, sem trabalho, esquecido e acabado. Liguei um foda-se bonito. Em Maresias eu fazia churrascos praticamente TODOS os dias. E quando finalmente acabou, resolvi voltar a malhar (antes de tudo para não MORRER); a balança marcava 107kg.


Povo acha que sou vida louca. E até sou... ou fui. Mas minha vida adulta sempre foi uma tentativa de equilibrar o lado junkie, com o intelectual e o atleta... foi ficando mais difícil. Enquanto sou caótico no espaço, sou absurdamente regrado na rotina (JAMAIS furei um prazo num trabalho, faltei a uma mesa, deixei de cumprir um compromisso). Eu parei de usar drogas anos atrás, quando não era mais possível usar sem sair da programação. Sou uma pessoa obsessiva. Então apenas me reestruturei para perder peso – sem pressa. 

Agora chegamos aos segredos da dieta milagrosa!

Começando as selfies de academia em abril.

Voltei à academia em abril, e mantive um ritmo de 6 dias por semana: musculação e funcional. Como eu malho há quase vinte anos, recuperar os músculos foi fácil, em quinze dias já levantava o mesmo peso de antes, a questão era diminuir as medidas. Tinha de parar de comer.


Esse é um almoço padrão da minha semana hoje: peito de frango, abóbora, cogumelos e espinafre. Alguns dias é só um prato desses o dia todo. 


Como eu tinha ligado um foda-se bonito, também foi fácil, fácil diminuir. Eu não tinha regra nenhuma, então qualquer regra que estabelecesse já faria diferença. Decidi que álcool, açúcar e besteiras, só final de semana (sexta, sábado e domingo – três dias do que os nutricionistas chamam de “dia do lixo”). Nos outros dias era comidinha fit, em duas refeições por dia – almoço e jantar – só.

Saladinha de atum. 

Funcionou. Comecei a perder 3 quilos por mês. Uns 700 gramas por semana. Claro, toda segunda feira eu voltava inchado do fim de semana – segundas e segundas pensei que tinha fodido com minha dieta - mas toda sexta tinha perdido em relação à sexta anterior. Continua sendo assim até hoje.


Pra você ter uma ideia de como me permito literalmente TUDO no final de semana - comi esse panetone de 1kg inteiro há uns quinze dias. Valeu cada caloria. E já foram todas queimadas - porque não ia ameaçar minha boa forma com "Cacau Show", né?

É muito frustrante perder peso quando você está 30 quilos acima – porque você leva meses para perder 10 quilos, mas ainda está com 97kg, ninguém repara, ninguém acha você “magrinho”. Até hoje, as pessoas falam “como você está forte”; porque eu estou de fato forte; e com 82kg (para 1,78m) estou longe de ser “magrinho”.

Dia desses, no parque. 


De toda forma, já recuperei quase todas minhas roupas antigas - algumas camisas agora apertam pelos músculos, mas voltei a usar calças 38. Tem sido um prazer reencontrar tantas peças de guarda-roupa antigas, de que felizmente não me desfiz.

Dia desses provando uma camisa que comprei em Londres, em 2002 -agora que as flores voltaram às estampas masculinas. 


Continuo perdendo, não tenho um limite estabelecido (é aquelas, não existe essa coisa de "magro demais"), mas acho impossível voltar para a casa dos 60 (como tinha aos trinta e poucos). Sou um senhor escritor de 42 anos, não dá para pagar de modelo. O importante é que já está dando para ser feliz... de leve.

Aqui aos trinta. 

Eu venho da escola da androginia – sou um ex-gótico, ou “um emo velho”. Eu nunca gostei de cara forte. Nunca quis ser musculoso (ou “Barbie” e nem tenho pelos suficientes para ser "Urso"), JAMAIS tomaria bomba, anabolizante ou o que quer que fosse (nunca nem tomei suplemento algum). Só que meu tipo de corpo é mais fácil ser forte (e gordo) do que ser magro definido.  Eu faço o que dá com o corpo que tenho...

Ainda dá para perder um pouco de barriga, ainda dá para perder um pouco de peito. Ainda dá para trincar o abdome e foder de vez com minha escrita

Quando comecei a perder peso, recebi pouco incentivo. “No começo é fácil”, muita gente me disse. Não é exatamente verdade. No começo é mais fácil perder, porque tudo é lucro, mas se exercitar com mais de 100 quilos nas costas não é fácil. Conforme fui perdendo, foi ficando mais fácil me exercitar; quanto menos eu comia, mais fácil ficava diminuir a comida. Tive de fazer esses ajustes, claro, cortando carboidrato, colocando uns jejuns durante a semana. Foi mais fácil ir cortando as calorias gradativamente.

Atualmente, se de sexta até domingo eu me esbaldo, segunda eu só vou comer (com parcimônia) no jantar; isso é um jejum de 24 horas (jantar de domingo a jantar de segunda). Faço outro jejum de 24h do jantar de quarta ao jantar de quinta. Isso sempre sem deixar de treinar segunda de manhã, quinta de manhã, como em todos os outros dias.


Arroz branco já é uma indulgência que me permito no máximo uma vez na semana. 

No fim de semana, nunca cortei (conscientemente). Mas claro, fui notando que eu CONSEGUIA comer menos, conforme emagrecia. Só não foi uma preocupação. Até agora me deixo livre pra comer, beber o que quero de sexta a domingo - de delivery do Outback a parmegiana no boteco e jantar com os amigos -, é dos poucos prazeres que a vida me dá... E são 3 dias livres por semana, 4 de restrição, não é nada absurdo.

(Mas numa dieta assim não se pode ter exceções - nada de beber um dia no meio da semana e compensar na sexta. Sigo rigidamente a programação.)

Não estou tendo acompanhamento de nutricionista. Duvido que exista uma nutricionista que criasse uma dieta como essa - com três dias absolutamente livres, que me deixasse beber vodca; mas para mim funcionou. Criei o que funcionava para mim. Eu devia escrever um livro sobre isso (faria mais sucesso que o meu existencialismo bizarro... rá!).

Não tenho nutricionista, mas tenho a Elisângela, com que faço aula de funcional três vezes por semana. Muito da perda devo a ela. 

É fácil, é tranquilo? Mais ou menos...

Passar fome durante o dia, o jejum de 24 horas, é tranquilo pra mim. O problema tem sido mesmo durante a madrugada. Durante a semana eu acordo constantemente com fome, não consigo dormir, meu sono está uma merda. Parece que meu corpo ainda suplica por calorias na madrugada. Fim de semana, se eu acordo, eu me permito meter uma Nutella numa boa, e volto a dormir. Durante a semana eu não faço – mesmo com Nutella no armário, eu me controlo – e fico me revirando na cama.

Resumindo: eu era mais feliz quando era gordo...

Mas eu era gordo quando estava feliz...

Sinceramente, não posso dizer que me sinto MUITO melhor fisicamente. Sinto fome, tenho insônia. Me sinto mais disposto para atividades físicas, é claro - mas talvez a gordura (e a possibilidade de comer) me deixasse menos ansioso... ou menos ativo (ainda que não passivo), mais anestesiado... De todo modo, infelizmente, sinto mesmo é que o mundo me trata melhor, agora que estou mais apresentável.


Sem ironias, foi assim que já perdi 25kg, sem deixar de beber e comer açúcar TODOS os finais de semana. Não sei se é das melhores receitas de saúde - talvez eu morra amanhã mesmo, mas living is overrated; o importante é que meu caixão será mais leve – resumo em dicas rápidas o que está funcionando para mim:

- Exercícios SEIS dias por semana, DUAS horas por dia: uma hora de musculação, uma hora de aeróbico.
- Dieta restrita de segunda a quinta: é frango com salada e pouco mais. Uma ou duas refeições ao dia. Só. Nada entre as refeições. Nem um pãozinho.
- Pode café (sem açúcar) e água. Só. 
- Fim de semana pode, literalmente, TUDO.
- Comprei uma balança. Não me peso todo dia. Me peso QUATRO VEZES ao dia; ter uma balança me ajudou a ver como eu engordava, como eu emagrecia.

E por fim, o que mais ajudou, foi ter um ano absurdamente rotineiro, sem viagens, sem mudanças. Todas minhas semanas foram iguais. Trabalhei todos os dias aqui em casa - e eu mesmo preparo minha comida. Isso ajuda a seguir a dieta, o treino, a comida que eu mesmo faço. Se todos os prazeres são orais, não dá para ter prazer todos os dias.


Todo esse esforço, e o único ser que me ama no mundo é uma coelha. Bem, que ela me ajude a sensualizar então...


04/12/2019

PESSOAS NORMAIS



Crítica que assinei na Folha em 03/12



Connel é o atleta popular. Marianne é a garota esquisita. Durante o ensino médio eles engatam um romance secreto – e seguem com idas e vindas durante o espaço de quatro anos em que se passa a história, de 2011 a 2015, até o término da universidade. Por vezes Connel se torna o recluso esquisito; Marianne vira estrela da faculdade; então o contexto muda, mas a relação entre os dois permanece, num misto de amizade colorida e amor livre.
“Pessoais Normais” é a segunda obra da jovem irlandesa Sally Rooney, de vinte e oito anos, que estreou com “Conversas Entre Amigos” (lançado no Brasil em 2017, pela Alfaguara) e se tornou um fenômeno literário, publicada em mais de uma dezena de países e finalista do Booker Prize. É compreensível: sua escrita é sofisticada, fluida e, acima de tudo, eficiente. Ela inicia capítulos com saltos no tempo, para então recapitular e mostrar como as coisas chegaram até o momento presente. Os diálogos diretos são inseridos no texto sem separação de aspas (ou travessões, por aqui), como se toda sua escrita tivesse essa falsa despretensão coloquial. E esse o traço que mais salta no romance: falsamente despretensioso.
Rooney tem mestrado em literatura americana, e isso é flagrante não só na estrutura do texto, como no universo que retrata. Apesar de o livro se passar na Irlanda, não poderia ter um tom mais de high school americano, com as divisões entre os alunos, o bullying, o bailinho de formatura em que o menino precisa convidar a menina.  Com frequência surge um estranhamento quando o livro cita Dublin ou as viagens dos dois protagonistas pela Europa, nos lembrando que o livro não se passa nos EUA. Isso não é um problema em si, mas é um dos sintomas de a autora querer retratar “pessoas normais”, fazer uma “escrita normal”, eficiente, reconhecível e premiável. Ela não se arrisca, joga seguro – não há estranhamento, não há loucura, falta personalidade.
                Longe de ser um livro ruim, “Pessoas Normais” é, no final das contas, um livro de menininha - um bom livro de menininha. Mas espero que não crie escola – não precisamos de mais escritoras escrevendo normalzinho assim.

Avaliação: bonzinho. 
               


01/12/2019

SEM CHANCE DE SER FELIZ

Onde passei a virada, as férias, a páscoa, o ano todo...

Até que não foi tão mal...


2019 até que não foi tão ruim, para mim, melhor do que o ano passado, ao menos...

2018 estava naquela latência, naquela suspensão, todos na expectativa das eleições, os trabalhos parados, as pessoas se digladiando; não dava para fazer planos nem para ser feliz. 

Com o anúncio oficial do apocalipse, parece que as pessoas saíram da letargia e arregaçaram as mangas para aproveitar o que ainda dava em 2019, enquanto o Brasil ainda não foi destruído de vez. 

Em maio, ainda inchado, comemorei meu aniversário de 42 sem grandes ânimos, com amigos. 

Para mim até que teve bastante trabalho, bastante tradução - claro, aqueles trabalhos com pagamentos mirrados, que mal davam para fechar as contas, mas deu. Não tive férias, não viajei nada - o único voo que peguei o ano inteiro foi pra Bienal do Rio.

Passagem rápida por Jacareí, para entregar um prêmio literário do qual fui curador, no começo do ano. 

Foi bom para colocar a cabeça no lugar, de todo modo, trabalho e rotina servem para isso. E o corpo também - foram quase VINTE E CINCO QUILOS perdidos em 8 meses, um ritmo nada absurdo de uns 3 quilos por mês, constante e administrável.  E continuo perdendo. Em breve farei um post com os "segredos da boa-forma". 

I want cookies. 

Meu maior orgulho em 2019 foi ter desaparecido...

O processo começou com o fim do meu casamento de 6 anos com o ex-cozinheiro. Terminamos em abril - depois que ele foi cooptado de vez para o universo de luxo-fútil-bolsominion de Maresias. Jogado de volta ao "mercado dos solteiros", depois de 6 anos monogâmico, fui obrigado a cuidar do corpo. E que mercado selvagem encontrei...

Conheci muita gente louca, muita gente desregulada, que aos trinta e poucos ainda mora com os pais, que é travada para sexo, ou que é maníaca sexual, que tem namorado, mas quer mais de um, que só funciona com aditivos, ou que não pode beber, não pode comer, não tem nada a dizer. E eu, que estava com auto-estima tão baixa, que achava que não havia razão no mundo para alguém querer ficar comigo, comecei a achar que sou o melhor partido da cidade. 


Minha querida amiga Del Fuego fala o quão bom é estar casado, para focar no trabalho, não perder energia flanando por aí. Eu discordo dela; acho que o casamento tem um elemento castrador, a gente se acomoda, se aposenta. Estar solteiro me fez sair mais de casa, conhecer mais pessoas, ver os amigos, contatos que também se refletem no trabalho. 

Mas eu sempre prefiro estar casado. 

Lançamento do ano. 

Voltando ao trabalho, minha produção literária até que caminhou bem. Lancei pela Melhoramentos meu primeiro infantil: "A Festa do Dragão Morto", que não teve grande repercussão, porém mais do que eu esperava para um infantil: Estadão deu uma matéria de página inteira (do meu livro e da Paula Fábrio) e muita gente bacana elogiou. Não fiz lançamento em SP, porque preferi que a editora trabalhasse diretamente com o público alvo; mas fiz uma mesa-lançamento com o Tiago de Melo Andrade na Bienal do Rio - que serviu principalmente para encontrar colegas queridos. 

Na Bienal do Rio. 

No segundo semestre também lancei um continho, um "single", pela Companhia das Letras, "Solo És Mãe Gentil", que refletiu muito o clima de tensão pré-pós-eleições. E estou nas prés do meu próximo romance por eles - que saí já no primeiro semestre de 2020. 


O conto, em formato exclusivo digital, dá para ser comprado aqui: Amazon

Também teve um punhado de matérias para a Folha - que deram o que falar, como a matéria sobre a literatura fantástica -; o curso de publicação que fiz com o André Conti; e algumas mesas em São Paulo, mas nada muito grandioso; foi um ano de contenções e concentração.  

Debate no Mix Literário, agora em novembro. 


Chego agora ao final do ano sem planos, sem viagens, nem grandes expectativas; seguirei sem descanso nas traduções, na dieta e na academia. Porque se não dá para ser feliz, pelo menos dá para seguir estável. 



09/11/2019

ENTERRANDO A LITERATURA FANTÁSTICA

Com Paulo e Maressa. 


Acabo de voltar de uma passagem relâmpago por Avaré, no interior de SP, onde participei do "Café Insólito", uma noite de palestras em torno da "literatura fantástica", ou de gênero, no Instituto Federal.

Foi tudo organizado por Paulo Arnaud, um jovem estudante de letras, que começa a dar os primeiros passos como escritor, e que se desdobrou para conseguir me levar. Essas horas é que a gente vê como vale a pena - como nossos livros fazem a diferença; talvez em pouca, pouquíssima gente, mas fazem profundamente. E são os leitores que podem mesmo nos levar mais longe - se arregaçam as mangas; lindo ver um novo escritor (e curador e "agitador cultural" de sua cidade) que desperta com meus livros. E lá também conheci a professora Maressa Vieira, que mediou a mesa, e também é leitora antiga - já trabalhou meu "Feriado de Mim Mesmo" em sala de aula.

Foi especialmente lindo porque ultimamente me senti como "Inimigo Número Um da Literatura Fantástica Brasileira", graças a repercussão (descabida?) do meu texto na Folha. Meu diagnóstico era apenas que a literatura fantástica passava por um bom (ou ótimo?) momento, mas que eu não considerava que isso era o suficiente para que ela se fixasse de fato na cultura nacional - e apontava algumas teorias (apenas teorias), que podiam ser refutadas. (tem tudo dois posts abaixo aqui no blog.)

Samir Machado de Machado fez um bom texto de resposta na Folha, e mais uma caralhada de gente me atacou pelo twitter, dizendo que era só a minha literatura que não decolava, que minha opinião era ultrapassada, que me faltava bagagem...

Nessas críticas, curiosamente, senti a soberba da academia (do próprio Samir, mas não só), de quem faz mestrado-doutorado em qualquer biboca de faculdade, e se considera mais autoridade do que alguém que atua há quase vinte anos na área, com dez livros publicados pelas maiores editoras do país, quase OITENTA traduções, e que discute o tema na imprensa e em mesas pelo Brasil (e mundo) desde o começo do milênio.

Eu precisava... eu merecia... eu precisava de um novo diploma.

(Curiosamente, meu post anterior a este é sobre "Os Melhores Filmes de Terror de 2019", em que destaco dois ótimos brasileiros. Nesse momento meu post foi compartilhado com louvores de "uma sumidade no gênero". Quer dizer, a gente é autoridade quando elogia, não quando critica.)

Com todas as críticas/respostas/discussões que recebi, mudei pouco minha opinião. Mas pude trazer uma visão mais otimista (para alunos de letras interessados em literatura fantástica, como os de Avaré): de que há um bom mercado, um bom mercado brasileiro para a literatura fantástica no momento.

Mas que ela segue não prestando.

Teve um punhado de livros que indicaram, como exemplo da atual pungência da atual literatura fantástica brasileira. Muitos eu conhecia. Alguns são boas exceções. Outros fui conferir...

Não prestam.

Infelizmente.

Já discuti muito sobre isso (novamente: não comecei ontem); existe um desafio básico em fazer literatura de gênero e fazer "alta" literatura (sim, ainda acredito nisso). Como respeitar as convenções do gênero sem recorrer (apenas) a clichês, como fazer "alta" literatura sem provocar apenas estranhamento, e sim respostas objetivas (no caso do terror, "provocar medo"). É um desafio que eu mesmo (como autor) acho que não consegui vencer. Mas eu prefiro criar o estranho, a dificuldade, do que recorrer a uma literatura rasa.

E muito do que eu vejo da literatura fantástica (bem sucedida) brasileira é isso: literatura rasa. Muito dos livros que me indicaram, inclusive. Eles se apoiam muito na trama, podem ser lindamente costurados, mas não oferecem nada além do que isso: história. O texto não é apenas banal (às vezes sofrível, quando se pretende literário mas carrega em adjetivações cafonas) na estrutura, mas também nas ideias. O texto não oferece reflexões mais profundas do que a narrativa imediata. Não ACRESCENTA.

Não por acaso, ofereci um desses livros que mais me indicaram (não vou dar o título, porque não convém gongar o autor aqui) para uma resenha na Folha. Recusaram - porque ainda que seja sucesso de vendas, é insignificante culturalmente; e eu concordo. É um livro que faz dinheiro hoje e é esquecido amanhã. (E me passaram outro mais relevante que estou resenhando agora.)

(Vale lembrar que já consegui emplacar na Folha um autor iniciante, por uma editora pequena, com um ÓTIMO livro de vampiros - o "A Forma da Sombra" do Fernando de Abreu Barreto [que não é amigo; até hoje nunca o encontrei pessoalmente]. Então não é como se eu estivesse trabalhando CONTRA a literatura fantástica...)

(aqui: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/04/1614998-terror-lirico-indica-que-novo-autor-do-pais-pode-acrescentar-muito-ao-genero.shtml)


Voltando a Avaré, foi sintomático que a noite de ontem começasse com a palestra de uma psicóloga sobre "sintomas de psicopatia" (dentro de um evento de literatura fantástica). Sempre é preciso recorrer ao real, ao palpável, "diagnosticável" para ser respeitável. Enquanto ela dava o perfil de um psicopata, eu pensava: "Mas o que isso tem a ver com literatura fantástica?"


Minha fala trouxe não só esses questionamentos, mas, principalmente, uma defesa desses questionamentos, da importância da discussão, da pluralidade de ideias. Num momento em que cultura é vista como supérflua (ou inimiga), a importância de um pensamento livre e de incentivos para que continuemos pensando, discutindo e, principalmente, registrando. Porque no final, o que permanece de uma sociedade é apenas a cultura.

E a literatura fantástica brasileira não permanecerá! :P


31/10/2019

OS MELHORES FILMES DE TERROR DE 2019

Clímax. 

Já se tornou tradição eu fazer minha seleção de melhores no Halloween - mesmo que o ano não tenha acabado; quem não lançou seu filme mosqueou!

Não achei um ano especialmente bom, não tem nenhuma grande obra digna de Oscar, e as aventuras independentes foram tímidas. Não se lançou novas tendências (como o pós terror de 2017). Mas sempre há muito o que se salvar.

Então vamos com minhas escolhas absolutamente pessoais e inquestionáveis:


CLÍMAX

Filme Zé-droguinha do Gaspar Noé. Uma trupe de balé faz uma festa, alguém batiza o ponche com um ácido dos infernos e o inferno acontece. É um filme contemplativo para ver no cinema, para passar mal. Longos planos sequência. Quase um musical. Terror real. Eu AMEI. 



MIDSOMMAR

O terror da coletividade. Um grupo de americanos vai passar férias numa comunidade escandinava e descobre que a noção de coletivo deles vai um pouco além do que eles esperavam. Do mesmo diretor de "Hereditário" era um dos terrores que mais prometia, e entregou, mas também não chegou a oferecer nada além. Previsível e um pouco arrastado, é um ótimo terror que finge ser "incrível". 


BLISS

Uma pintora pau no cu precisa terminar uma obra e toma uma porrada de drogas para isso. No filme acompanhamos a viagem dela, que é mais interessante do que sua arte. Daqueles filmes lisérgicos, muito bem feitos, mas sem uma alma de "Mandy", por exemplo. De todo modo, é divertido, é louco, o que atrapalha é ter uma protagonista tão pentelha. 


MAL NOSSO

Belíssimo terror brasileiro de baixo orçamento que conseguiu alcançar os circuitos. Mistura snuff, possessão e assombração com estilo. Uma bela surpresa que me colocou o diretor Samuel Galli como "A" maior promessa do gênero no país. 


GRETA


Eu adoro esses filmes de sequestro, tortura, obsessão - daí colocam Isabelle Huppert como protagonista; como eu poderia não gostar? E ainda é dirigido pelo Neil Jordan. Dos filmes mais divertidos deste ano para mim. Amei. 


SUSPIRIA

O remake que ninguém queria fez bonito. Confesso que não sou grande fã do original. Na verdade, nem desse segundo. Mas cenas emblemáticas como a dança dos ossos quebrados fazem desse um filme importante. Eu gostei - não entendi quase nada, até porque metade do filme é em alemão e vi sem legendas, mas gostei. É um filme com cenas que seguem me impactando.


THE CLEANING LADY


Esse talvez seja o mais desconhecido e controverso. É um filme bem, bem B, mas acho que tem uma alma aí. É quase um Audition dos pobres. Uma mulher solitária, que vive um caso extra-conjugal, é stalkeada por uma faxineira com o rosto queimado. É creepy. É divertido. Não presta. Mas é divertido. 

MORTO NÃO FALA


Dennison Ramalho é dos nomes mais importantes do terror nacional - de curtas antológicos a séries na Globo e parcerias com o Mojica-do-Caixão. E esse é seu primeiro longa - de um coveiro que vai enlouquecendo ao ouvir a voz dos mortos. Tem uns efeitos bem diferentes e bem legais, e é um terror bem brasileiro. 

LUZ


Tão inventivo quanto teatro, esse filme de possessão se passa todo numa delegacia, reconstituindo um crime. Faltou uma cena de impacto,  com pouco mais de uma hora, parece mais um "demo" de filme (em todos os sentidos) do que um filme acabado. Mas é uma experiência. 

BOAR


Num ano com tubarões e jacarés, quem diria que o melhor filme de animal assassino seria com um JAVALI. Nada de extraordinário, mas bem divertido, com TODOS os personagens bem construídos, essa produção australiana também ganha muitos pontos por ter um monstro de animatronic.  



30/09/2019

A REAL DA LITERATURA FANTÁSTICA

Debate no Sesc Santo Amaro sobre literatura de horror no Brasil, com (a partir da esquerda) Santiago Nazarian, André Vianco, Marcos DeBrito e Raphael Fernandes
Eu, Vianco, DeBrito e Raphael Fernandes em debate mês passado . 
(Íntegra do texto que publiquei ontem na Folha, com minhas considerações e polêmicas abaixo:)



Nunca houve um momento tão bom quanto o atual para a literatura fantástica no Brasil. Festivais temáticos proliferam, autores emplacam sucessos de vendas, novas produções no cinema e na TV levam o terror e a fantasia para novos públicos. A despeito disso, o momento também nunca foi pior.

Acompanho a cena há quase 20 anos. Sempre há essa sensação de “agora vai” quando a Globo anuncia uma série de terror (como "Supermax", de 2016), quando um filme como um ator badalado estreia (como "Isolados", de Thomas Portella, com Bruno Gagliasso, de 2014), quando surge um novo autor sucesso de vendas (como André Vianco, na virada do século).

Entretanto, apesar de apelo comercial e sucesso relativo de público, a literatura fantástica brasileira permanece sempre à margem, não apenas desprezada pela crítica, mas incapaz de deixar uma marca na cultura nacional.

Recentemente estive em uma mesa com autores conhecidos do gênero —Marcos DeBrito, Raphael Fernandes e o próprio André Vianco— para debater algumas dessas questões, especificamente relativas à literatura de horror.

“Por que a literatura de horror permanece à margem?”, questionei. As justificativas correram em círculos: “não se dá espaço à literatura de gênero”, “é vista como algo menor”, “é relegada a um público infantil”. Tudo isso é verdade, mas essas são as consequências, não a causa. Por que essa literatura é vista como menor?

O Brasil não tem uma tradição no fantástico —e isso também não chega a ser uma explicação, é outra consequência. Enquanto na América Latina existem correntes importantes de realismo fantástico, no Brasil o “realismo concreto” sempre imperou. Arrisco uma razão: a extensão territorial e a miscigenação do nosso povo fez com que a produção cultural/artística nacional se sentisse sempre na responsabilidade de explicar nossa identidade, retratar nossa realidade.

Apesar de termos um folclore riquíssimo, a fantasia na produção artística foi vista como um exagero, destinada a entreter (e, por isso, seria voltada a um público menos sofisticado ou infantojuvenil).

Agora, enquanto temos uma diversidade enorme de formas de publicação (com os e-books) e mais espaço para produção audiovisual (com plataformas de streaming, YouTube, canais a cabo), também temos uma crise política e identitária que ressalta essa necessidade de retratar a realidade. Levar a literatura para o fantástico soa fútil num momento como este, mesmo que esteja a serviço de uma alegoria.

É triste que seja assim. Em países como a Argentina, autoras de minha geração, como Samantha Schweblin e Mariana Enriquez conseguem emplacar sucessos editoriais, com respaldo crítico e fortes elementos sobrenaturais (vide “Distância de Resgate” de Schweblin, e “As Coisas que Perdemos no Fogo” de Enriquez). Aqui até há bons autores que tentam, mas sempre se fica numa zona cinzenta.

Há dois anos, a produtora RT Features (que tem no currículo filmes importantes do universo fantástico, como "A Bruxa", de 2015) resolveu encomendar e investir numa coleção de livros de terror “literário” (ou o que foi chamado posteriormente de “pós-terror”), cujos direitos de adaptação audiovisual pertenceriam a ela.

Apenas três títulos saíram, publicados pela Companhia das Letras de forma isolada, sem a unidade de uma coleção —“As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, “Enterre seus Mortos”, de Ana Paula Maia, e o meu "Neve Negra". Arrisco-me a dizer que os livros tiveram recepção morna —vistos com desconfiança pelo meio literário, tampouco foram abraçados pelos fãs do gênero.

Talvez o mais bem-sucedido desses três tenha sido o livro de Ana Paula, não apenas pelo ótimo texto, mas exatamente por não conter elementos fantásticos e se afastar das convenções do que se chama terror (além, talvez, de carregar uma bandeira involuntária, por ter sido escrito por uma mulher negra).

Assim, o ciclo permanece, e a literatura fantástica que encontra espaço é voltada a um público mais jovem, uma literatura de entretenimento. E que mal há nisso?, perguntariam os autores que vendem bem e contestam a divisão entre “alta” e “baixa” literatura, levantando a bandeira da ficção comercial como uma forma de popularizar a leitura.


O problema é que a literatura de entretenimento é feita para ser de consumo fácil e rápido —comunica-se com o instante, mas não tem lastro para permanecer. Assim, nunca se cria um histórico do gênero fantástico no Brasil, porque os livros são perecíveis. Não deixam uma marca em nossa cultura.

É curioso notar que nosso cineasta mais bem-sucedido no terror (o único?), José Mojica Marins, o Zé do Caixão, tenha feito sucesso justamente com um personagem “de carne e osso” que nega a todo tempo o fantástico, que não acredita no “além”.

Talvez esteja aí uma fórmula mais viável, que não precisa necessariamente se ancorar no fantástico —a literatura de gênero pode ganhar relevância se encontrar formas de retratar nossa realidade de forma objetiva. Isso já acontece, por exemplo, na literatura policial, que de uma forma ou de outra sempre teve maior espaço.

***



Acordei, postei o texto nas minhas redes. Como sempre o povo é só elogios e comentários civilizados. Mas por trás, é claro, vem povinho esbravejar. Depois do almoço um amigo avisa: "Ó, tão te xingando lá no twitter."

O povo gosta de polemizar. Os contra-argumentos que li eram de que "tal autor está vendendo muito", "há todo um novo movimento da literatura fantástica", "eu vendi 200 livros em um mês!" (Oi? Isso não é o que se vende numa noite de autógrafos?).  Parece que o povo não leu o começo do texto que diz "Nunca houve um momento tão bom para a literatura fantástica". E que todo o texto aponta que, apesar de ter autores que vendem, apesar de até existir autores de qualidade, e de ter festivais temáticos, não se cria uma tradição de literatura fantástica, ela permanece à margem, uma subcultura desses nerds de twitter.

(Daí a gente vai ver, é gente que usa nick tipo "Cassandra Werewolf" e diz que é autoridade por ler Stephen King desde os 11 anos... Provavelmente desde quando eu já publicava e já traduzia literatura de horror. É por essas que acham que literatura fantástica é coisa de moleque...)

O pesquisador Bruno Matangrano foi mais elegante e fez boas contra-argumentações, mas a mim me parece a visão de alguém que está mergulhado num universo, e acha que o mundo todo está com ele, enquanto que a visão geral do meio literário permanece que "o Brasil só produziu literatura fantástica da pior qualidade", inclusive foi o comentário que li hoje de uma importante agente literária. 

Há promessas de mudança, como eu coloquei no texto, mas eu acompanho a cena há décadas e não consigo ser otimista, meus queridos. Os autores de ficção fantástica não estão representando o Brasil nos eventos lá fora, não estão na Flip, não são finalistas de Jabuti, ficam sempre restritos a esse nicho à parte (diferentemente de outros países, como coloquei, em que a literatura fantástica participa do mainstream), têm eventos próprios, prêmios próprios, não deixam sua marca.

O pessoal do Twitter veio protestar que eu "não sabia" o que acontecia no nicho, mas o texto era exatamente sobre isso, que permanecia um nicho que não se comunicava com o meio literário maior. 

Veio gente também dizer que era a MINHA literatura que não decolava, por isso eu me doía. Isso pode até ser, meu olhar pode estar meio viciado por isso - mas convém lembrar que meu livro de maior "sucesso comercial", "Mastigando Humanos", que vendeu algumas dezenas de milhares, pode se dizer que é um livro fantástico, mas que não contradiz o que eu disse - foi um livro que atingiu um público mais jovem, e não contribuiu para estabelecer uma nova corrente de fantástico no país.

(E concordo que talvez eu não devesse ter usado o exemplo do meu próprio livro, do "Neve Negra", no texto; mas é que era uma história de bastidores que eu conhecia bem, da coleção que não emplacou.)

Algumas pessoas se doeram também - não sei porque - pelo meu comentário sobre o livro da Ana Paula Maia, que eu adoro, que é minha amiga, e que inclusive fui eu a primeira pessoa a falar dela, lá em 2003 (e inclusive fiz a orelha e dei o título do segundo livro dela).

Então eu SEI do que estou falando - nem só pelo meu conhecimento do gênero, mas principalmente por ter uma visão mais ampla, do meio literário. E o texto foi fruto de uma discussão que tive com três dos maiores autores de fantasia/terror do momento. Mas, é claro, é uma opinião pessoal. E acho sempre válida a discussão. É só uma pena que o povo queira mais é atacar, e pelas costas, nos seus grupinhos, e a discussão, como a literatura fantástica, não avança...



MINHA VIDA COM ZÉ DO CAIXÃO

(13/03/1936 - 19/02/2020) Morreu nesta quarta o lendário cineasta José Mojica Marins, o (criador do) Zé do Caixão. Eu só o conhecia co...