07/09/2021

CEGO, SURDO E MUDO

 

Flagrante verde e amarelo da esquina...

Fui hoje de manhã pra academia. Moro do lado da Paulista. Deprimente ver a quantidade de bolsominions, gente com camiseta do Brasil, muitos tiozões e velhinhas. 

Confesso que soltei uns mugidos, identificando o gado; se me xingaram eu não sei, estou sempre de fones de ouvido - os fones salvaram minha vida, como diria aquela música da Björk (lembro de uma vez, louco de cogumelo em Amsterdã, em que a música nos fones foi o que me deu a noção de tempo, para eu conseguir voltar ao hostel...) 

(Não entendo esses autores sociabilíssimos, que dizem ouvir "as vozes das ruas" - as conversas dos transeuntes, dos taxistas - hoje em dia é melhor não ouvir. Eu estou sempre de fone; sempre trancado comigo mesmo; a minha trilha é o que faz com que eu me sinta em casa, onde quer que eu esteja...)

(Mas estou divagando.)

Provavelmente o gado achou que meu mugido era só eu cantarolando; ou um "hmmmm" apreciativo, uma cantada. (Uma vez descobri um bolsominion no meu chuveiro, depois do sexo; se fosse antes, talvez eu tivesse broxado... ou não, às vezes é bom foder com raiva...)

Hoje foi só broxada. Não tenho mais esse ímpeto. Não tenho mais vontades. Vejo os amigos postando no feed: "se ainda tiver bolsomion aqui, caia fora, blábláblá" - isso desde 2018, quando eu também, eu ainda tinha esse espírito, ainda tinha esperança... Meu vizinho de baixo ainda grita "fora bolsonaroooo", e eu só faço um joinha. Minha voz não tem mais projeção; já tive um falsete tão agudo...

Surdo, mudo e broxa... a cegueira também avança. A cada semana fica mais difícil para eu ler sem óculos - é impressionante; e ainda insisto. Mas também já li muito, já vi de tudo, não há mais nada de bom a ver, por vir... (Isso também não é uma música da Björk?)

<iframe width="560"

27/08/2021

OS MELHORES GAMES DE TODOS OS TEMPOS

Castlevania - Lords of Shadow. Meu vício atual. 

 


Tá, o título do post foi puro clickbait, faz parte do jogo... 

Mas voltei a uma fase gamer e achei que merecia um post. Eu poderia analisar a influência dos games na literatura - minha geração cresceu há mais de 40 anos mergulhada nos "videojogos", e isso já está presente de maneira clara em obras que vão de Salmon Rushdie a Dennis Cooper, Daniel Galera e Simone Campos (essa última talvez possa analisar o movimento bem melhor do que eu.)

Mais do que temáticas - que já vieram dos quadrinhos, dos filmes, da literatura - os games trouxeram estruturas que também influenciaram essas artes. A divisão em fases. Os chefes de fases. A possibilidade de morrer, renascer e seguir adiante... Isso está presente em muitas obras contemporâneas, como está presente em várias obras minhas, desde "A Morte Sem Nome"; "Pornô fantasma" (a novela no livro de contos) é total inspirada em Silent Hill; e "Fé no Inferno" tem muito disso também, não só na parte contemporânea, com Cláudio jogando seu PSP, mas principalmente na parte histórica (a vila queimada do protagonista se chama "Lurplur" - literalmente traduzido do armênio: Montanha Silenciosa - Silent Hill - basicamente um easter egg pra ninguém.) Meu sonho era que fosse adaptado para game (mais do que para o cinema). Acho que daria um belo "survival horror" - canto a bola no próprio livro, inclusive. Alguém tipo Rodrigo Teixeira bem que podia lançar uma coleção de "games expressos", baseados em obras nacionais. 

Esses dias meu namorado trouxe seu PS3 aqui, e voltei a jogar como louco. É um prazer único. E ainda que a gente (eu) se sinta culpado, ainda que se esteja queimando horas e horas em movimentos repetitivos, em que a gente poderia estar lendo, trabalhando, a gente também poderia estar roubando, a gente poderia estar matando, a gente poderia estar se drogando; já gastei pior minhas horas e os games já salvaram minha vida, como você vai logo ver...

Estou longe de ser um gamer inveterado ou especialista. Sou de fases. Não tenho nenhum console recente. Mas quando começo...

Então decidi colocar aqui os 10 games/franquias que mais joguei na vida. Tudo coisa das antigas, que sou velho. Vão aí: 


- CASTLEVANIA

De longe a série que mais joguei na vida, desde o Nintendinho até "Lords of Shadow" (que estou jogando só agora). É basicamente uma adaptação bem livre de "Drácula", um herói que tem de matar o vampiro, com todos os elementos que um moleque gótico como eu adoraria. Ainda prefiro os 2D (Symphony e Rondo no topo). (Ah, detestei a série de animação da Netflix). 


- SILENT HILL 

Tenho boas lembranças de virar a noite jogando o original em Porto Alegre, logo que me mudei para lá, com amigos novos. Depois joguei continuações do PSP, vi os filmes; mas o melhor sempre foi o clima. "Silent Hill" estabeleceu o padrão da cidade fantasma (no qual um protagonista busca por alguém desaparecido) melhor do que qualquer filme. (Nessa pegada gosto bem de "Obscure" também, que é um survival mais... obscuro. De "Resident Evil" nunca consegui gostar.)


- MONSTER HUNTER










]

O Monster Hunter Freedom Unite pro PSP talvez seja o game que mais joguei na vida, porque é vício puro. Você tem de caçar monstros, fazer armas para caçar monstros, cultivar alimentos para caçar monstros; um game que exige horas e horas de cultivo, de planejamento, para uma caçada que pode levar quase uma hora. Tem algo de predatório - porque enquanto você caça coisas parecidas com tiranossauros, também caça unicórnios, golfinhos, veadinhos... Mas se você se dispõe e pega o jeito... é um vício terrível. (Por isso tenho evitado os mais recentes...)

- LIMBO

Jogo de plataforma bem simples - um garoto tentando sobreviver no limbo- que é elevado não só pela arte absurda (em preto e branco) como pelos quebra-cabeças que é preciso resolver. É uma beleza de visual e clima. Também gosto bem da pseudo-sequência, "Inside". 


- TETRIS 

Adoro jogos de quebra-cabeça tipo Tetris e Lumines. No Tetris cheguei a ficar bem bom. Lembro de uma época em que estava bem viciado (não só no game) e depois de uma noitada de pó, em que estava surtado, com a cabeça rebootando, foi jogar Tetris no Nintendo DS que me fez fixar na realidade. O videogame salvou minha vida. 


- PATAPON

Nessa franquia você tem que conduzir uma tribo por batalhas, seguindo a cadência de ritmos de guerra. Daqueles bem viciantes também. E adoro as músicas. Mas só consegui mergulhar no primeiro (também do PSP). 


- FRIDAY THE 13th

Tem uma versão mais recente bem bacana pra PC e Xbox, que é tudo o que eu queria quando criança. Mas o que mais joguei mesmo foi o do nintendinho, que é considerado por muitos como um dos piores games de todos os tempos. Discordo. Acho um belo game de estratégia, com temática de horror, mas se torna muito fácil depois que você pega os truques. (Quando criança eu adorava esses jogos baseados em filmes de terror - do Jason, do Freddy, Tubarão, etc - grande parte lançada pela LJN, e grande parte não presta mesmo). 


- FROSTBITE

Provavelmente o primeiro jogo que joguei e me viciei, quando era bem pequeno. Esse jogo de Atari é bem simples: você controla um esquimó que tem de saltar em placas de gelo e ir construindo um iglu, enquanto desvia de ursos, peixes, etc. Mas é uma delícia de jogar. 


- SUPER MARIO

Dos grandes jogos da minha infância - principalmente o primeiro e o terceiro. Ainda me lembro de jogar pela primeira vez, na casa do meu primo, quando ninguém tinha Nintendo ainda no Brasil. Os gráficos, a extensão do jogo, a possibilidade de pular fases, tudo me parecia revolucionário. O mais recente que tenho é o do DS, mas não gosto tanto. 


- HUNGRY SHARK

Único jogo de celular que já joguei. Um ex baixou e foi um vício que durou algumas semanas. Mas é daquelas coisas que fica sempre tentando te arrancar dinheiro...


E como menção honrosa...


O GAME DO HOMEM COXINHA (PC), claro. 






12/08/2021

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE






Sempre me lembro desse trecho do livro do Mike Sullivan (“O Inferno É Logo Ali”). A diferença é que não tenho escrito nada...

A covid passou suave por mim, mas acho que deixará sequelas em toda a população. Alguns hábitos nunca mais voltarão, e nem todos eram maus hábitos...

O que será do cinema, do teatro, por exemplo? O povo já se acomodou tanto com streaming, o povo já se acostumou tanto a ficar em casa...

Esses dias fui o ver o (ótimo, eu achei) novo do Shyamalan (no cinema, vazio), de uma família que vai para uma praia deserta e começa a envelhecer a cada minuto. O filme começa com eles chegando ao hotel e me deu uma nostalgia... fiquei com uma vontade que o filme ficasse duas horas só naquilo, eles fazendo check-in, eles tomando café da manhã, eles na piscina... E isso porque viajei três vezes desde que começou a pandemia (a última há três meses, no meu aniversário, para um hotelzinho bem bacana em Juquehy).

Em maio, com Klauz no litoral norte, ainda havia sol...


Tive também essa nostalgia com o (excelente) “Paris Brest”, do meu amigo Alexandre Staut, (que tem alguns anos, mas só fui ler agora), as memórias dele no começo do milênio quando morou na França, trabalhou como cozinheiro, camelou, se fodeu, viveu... Saudades dessas viagens, das possibilidades, da juventude... (Mais ou menos na mesma época eu trabalhava como barman numa boate em Londres).

Do livro do Staut. 

E ainda com o novo do Galera, “O Deus das Avencas”, que é uma reunião de três novelas. A primeira é puro Galera – que eu sempre adorei, como escritor, como pessoa – sobre um casal prestes a dar à luz, às vésperas da fatídica eleição. Deu uma saudade dele, que não é um amigo próximo, mas a gente sempre se encontrava por aí nas viagens, nos festivais. Saudades de toda a classe, na verdade, dessa troca com os colegas...

O novo do Galera. 

Quando a gente envelhece nosso círculo de amizades se restringe muito a colegas de profissão, porque todo mundo tem família, todo mundo tem trabalho, e os encontros profissionais são mais importantes do que os sociais. Mas agora todo mundo trabalha de casa, ou “só” em casa (porque eu trabalho em casa desde 2003) e tem a melhor desculpa-justificativa para evitar encontros.

Não estou tão sozinho porque estou namorando há quase seis meses, um namoro tranquilo. E sempre me fecho muito no relacionamento, deixo tanta gente de lado. Mas o trabalho que foi intenso nos últimos... três anos, quase, agora deu uma parada. Temo pelo futuro... futuro próximo... próximos meses...


De um conto novo, a única coisa autoral fiz este ano. 

Não tenho escrito nada, ou quase. Dia desses fiz um continho para uma revista literária – uma espécie de sucessor espiritual de meu “Apocalipse Silencioso”, contemplando esses tempos de pandemia (não é o que todo mundo está fazendo?). Não tenho muito mais a dizer, na verdade. Parece que está todo mundo na obrigação de xingar o presidente, tirar sarro dos tanques, lamentar a morte do Tarcísio Meira – eu sinto como todo mundo, penso como tudo mundo. E se eu concordo com tudo, fico quieto, e passo por alienado; comento quando tenho algo diferente a dizer, e pago de polêmico...

“Mas eu amava seu diário da quarentena”, me disse meu amigo Clayton Brandão. Eu queria comentar sobre um ou outro livro, um ou outro filme , então ao menos resolvi fazer mais esse... Agora não tenho mais nada a dizer.


Cara de quarentena. 

15/07/2021

CORONGADO

 



Fui mais um pego pela covid. 

O meu caso foi curioso e acho que vale de alerta/observação. 

Estou longe de ter sido dos mais paranoicos/precavidos. Nesses meses todos de pandemia viajei algumas vezes, conheci pessoas, comecei mais de um namoro... Mas também não cometi grandes abusos - não peguei transporte público, não frequentei nenhuma aglomeração (nem festinha, nem protesto), os poucos restaurantes que frequentei foram só durante as viagens. Sempre usando máscara...

Dito tudo isso, nas últimas semanas em si, os riscos que corri foram os cotidianos: academia, mercado e... UBS.

Me vacinei na terça-feira (dia 29/06), com astrazeneca. Não tive efeito colateral nenhum. Mas quatro dias depois comecei a sentir uma dor de cabeça, um enjoo. Achei que devia ser efeito colateral retardado (até porque tinha postado de pirraça que não tinha sentido nada). Avisei meu namorado, que estava vindo pra cá, ele também achou que não era nada de mais. Passou o fim de semana aqui, eu tive uma febre fraca (quase 38C) e domingo ele foi embora. Na terça (5) eu ainda estava com sintomas leves - tosse, uns 37,5C - e ele começou a sentir a mesma coisa na casa dele. Só daí tive certeza que não era mesmo efeito colateral. 

Feito o teste, foi confirmada a covid. 

Não tive nada muito grave. Cansaço, tosse, perdi o olfato por uma semana (mas não o paladar), teve uma noite em que senti um peso na respiração, mas foi só uma noite. 

Não fui hospitalizado, mas obviamente assim que comecei a passar mal não saí mais de casa. Minha irmã trouxe uma sopinha. O (meu vizinho, amigo, escritor, editor) Staut comprou verduras para minha coelha. Consegui trabalhar normalmente - tive de entregar uma tradução enoooorme, e foi bom para focar. Meu namorado ficou na casa dele, porque ele mora longe e tinha todo o problema da locomoção. Mas penso no que posso ter propagado nos dias em que achei que era efeito colateral. Meu namorado mesmo, é mais provável que tenha pego de mim, já que senti os sintomas antes. 

Então é preciso falar mais sobre efeitos colaterais; não entendo esse povo que esconde que vacina tomou, quais foram os efeitos. Isso tudo tem de ficar bem claro. Eu mesmo ainda não sei se a vacina que eu tomei vai valer de alguma coisa, visto que logo após me infectei - ou já estava infectado, vai saber. Minha segunda dose é só daqui a dois meses. 

Sou total a favor do SUS, da vacinação, mas para combater o obscurantismo o povo tem vindo com essas lógicas de não discutir muito, de não falar que vacina tomou, quais foram os efeitos, o que é um contrassenso. 

É possível que eu tenha me contaminado na própria UBS - tive de ficar mais de 90 minutos na fila, num dia de chuva, que tivemos de nos aglomerar num toldinho. Isso porque busquei uma segunda opção, já que o primeiro posto em que fui estava ainda mais cheio. Era o ÚNICO dia em que minha faixa etária poderia se vacinar e isso favoreceu a aglomeração. Não tive escolha 

(E se eu não me contaminei nessa UBS lotada... provavelmente eu já estava com covid e e posso ter contaminado alguém por lá.) 

Quase quinze dias depois, aparentemente o pior já passou para mim. Não tenho comorbidades (meus problemas são mais de caráter), tenho uma rotina privilegiada trabalhando em casa. Posso esperar tranquilamente negativar para voltar à vida normal.
 
Meu namorado teve exatamente os mesmos sintomas e também já está bem. (Ele é novinho, e só toma primeira dose lá para setembro). Mas nunca poderei dizer se não fui responsável pela morte de alguém. Então vamos se vacinar. Vamos discutir as vacinas e os efeitos. Vamos brigar sim para tomarmos a melhor vacina possível, com as melhores condições, e não aceitar o que vier.

E vamos continuar nos cuidando.

(Obviamente repudio a cloroquina, mas acho que faltam estudos para comprovar a eficácia da vodca no combate ao coronga.)

01/07/2021

SOBRE O TEMPO



- Adoro o frio. 

- Não à toa escrevi um romance sobre o "raro fenômeno" da neve no Brasil.

- (Por sinal, só vi neve no Brasil uma vez, em 2000, em Caxias do Sul.)
 
- (No ano em que eu lançava "Neve Negra", fizeram na Serra Catarinense a festa literária "Flineve" - e os filhos da puta não me convidaram. Mágoa eterna.)

- A primeira vez que vi neve foi aos 9 anos, em Bariloche. (Quer dizer, antes já tinha visto no congelador...)
Na neve, de pochete (esses foram os anos 80...)



- A última vez que vi neve foi em 2015, na Armênia.
 
- Nos meses que passei na Finlândia, a neve chegou tarde. Só nevou de fato a partir de janeiro. Antes fazia uma geada, uma chuvinha, alguns graus acima de zero...

- É bem melhor 10 graus negativos com neve do que 3 positivos com chuva. Inclusive porque a neve deixa mais claro, menos cinza.
 

 
- O mais frio que já peguei foi -23C, em Helsinque. (Mas já fui bem mais alto na Finlândia, até Karigasniemi, 8 horas de ônibus acima do Circulo Polar Ártico).
 
- (Ainda quero ir lá pra baixo, Terra do Fogo, Ushuia e tal.)

- -23C é diferente de-10C, sim. Com -10C ainda se vê muita gente nas ruas. -23 já é pesado...

- Nunca esquiei, mas quando fiz intercâmbio na Inglaterra aprendi a patinar no gelo até que direitinho.
 
- Não entendo o povo que diz que não toma banho no frio. Melhor coisa é um banho quente. Tomo vários por dia no frio. (Mas eu bem que queria ter uma banheira...)

- (Quando tomo banho muito quente no frio, ao sair, tenho por alguns segundos uma coceira na pele toda, parece alergia. Alguém mais tem isso?)

- Por sinal, a ideia de que "se sente mais frio no Brasil do que na Europa, porque lá as casas estão preparadas para o frio" veio do meu antigo professor de finlandês.
 
- Aproveitem o frio, agasalhem-se e... cuidado com o Trevoso.

O mar congelado no Golfo de Bótnia. 



30/06/2021

MEIO JACARÉ

 




Tomei ontem a primeira dose da vacina - astrazeneca. Não senti naaaada, reação nenhuma. Não valeu. 

Curiosa foi a fila da vacinação - tive de esperar 90 minutos aqui na Bela Vista - um recorte da minha geração (pois ontem só vacinavam 44 e 45 anos); gente de todas as classes sociais, as mulheres em geral bem mais conservadas do que os homens, eu mais conservado do que a maioria... acho. Mas ainda uma constatação de como estamos velhos, ao ver em que grupo etário me encontro. 

Segunda dose só em setembro. Será que sobreviveremos até lá? 


22/06/2021

BLÁBLÁBLÁ VIRTUAL


Saudades de um palco, né, minha filha? (Ouro Preto). 

A Companhia das Letras promove neste final de semana seu festival Na Janela, de debates com seus autores. Eu estarei lá no sábado, numa conversa com Michel Laub.


Tem outras conversas marcadas para os próximos meses (coloco aqui sempre na aba "agenda") - todas virtuais. Apenas um debate marcado pelo Sesc Paraná em outubro, que deveria ter acontecido ano passado, ainda está em aberto se será presencial ou por live. 


Ainda há esperança de que os debates literários voltem ao velho normal...


Passo Fundo. 

Os debates virtuais são o que dá para fazer - e não custam nada para ninguém. Mas não sei muito o que se ganha com isso. (De cachê em geral o escritor não ganha nada mesmo - das 16 "lives" de que participei ano passado, apenas UMA tinha cachê). Pouca gente assiste/participa, e a troca é muito limitada. Há certa troca, até, discussões de temas pertinentes, mas nada que se compare aos debates presenciais. 

Guadalajara.


Já falei isso aqui, o escritor é um caçador solitário, então os festivais, os debates, as mesas com o público e outros autores eram os raros encontros em que ele podia ter alguma noção de seu espaço na cena literária-cultural, de como sua literatura era percebida, trocar angústias, aprender com os pares - principalmente os eventos que ocorriam em outras cidades, que exigiam deslocamento, compartilhamento de voos, vans, hotéis com outros autores. Não-raro as conversas mais importantes aconteciam nos bastidores desses eventos - sem as policies do discurso oficial, do palco; quando cada um deixava de tentar vender seu peixe. 

Olinda. 

Eu comecei a carreira num período muito auspicioso para o escritor brasileiro, no começo do século-milênio, com os eventos literários se proliferando, certo investimento para a cultura. Foi imprescindível para minha formação como "escritor profissional" - sem os eventos eu seria mais um jovem escritor masturbatório trancado no apartamento, achando que o mundo me AMAVA, ou me ODIAVA, achando que eu era o ÚNICO. 

Salvador. 

Pelos eventos literários pude jantar com o Ziraldo, tomar café com Antonio Cícero, ir numa boate gay com o Ferréz, viajar pelo interior do Paraná com a Eliane Brum, comer sarapatel com a Conceição Evaristo, beber na sarjeta com o João Gilberto Noll, ir num churrasco da casa da Samantha Schweblin, pegar um barco com o Hobsbawm...

Bogotá. 

Fora todas as viagens em si, as paisagens, os países. Só como escritor convidado fui ao Peru, Colômbia, Espanha, Alemanha, Argentina, México, Venezuela, Portugal...


Madri. 

E a despedida de tudo isso foi março do ano passado, no Rio, quando fui receber o prêmio da Unesco pelo meu livro infantil, poucos dias antes de decretada a pandemia. Longe de ser um cenário novo, foi uma aproximação importante do meio infantojuvenil; conheci tantos colegas do meio que só falava pelas redes (inclusive Laurent Cardon, que ilustrou o livro infantil encartado no Neve Negra, com quem eu nunca havia encontrado); além de fortalecer o laço com tantos queridos, minha própria editora, terminar a noite bebendo com o Samir Machado2 e o Raphael Montes...

Lima. 


Seguimos com as mesas virtuais, enquanto é o que dá. Só temo o quanto o formato está se consolidando, o quanto essa comodidade - logística, financeira - limitará futuros encontros reais. Eu já sou um velho escritor cansado (devo até virar jacaré semana que vem, finalmente), já viajei muito, mas quem mais perderá serão as futuras gerações de escritores...

28/05/2021

QUATRO BRASILEIROS


The Brazilian books are on the table

Tem sido uma boa época para ler, para mim. Bem, deveria ter sido para todos, desde o início da pandemia – mas toda a ansiedade daquele apocalipse iniciante fez com que eu não conseguisse ler quase nada no começo de 2020. Começou a melhorar no final do ano, e agora que as coisas estão funestamente estáveis, que estou namorando e não perco tempo no Grindr, estou conseguindo devorar regularmente as coisas que chegam aqui.

Ótimas coisas têm chegado aqui. A Companhia – que é minha editora há mais de quatro anos – enfim está me mandando com regularidade preciosidades- um alento em tempos de livrarias fechadas, abertas, fechadas. (Chegou HOJE aqui o novo do Bernardo Carvalho, que fica para um próximo post). As editoras também voltaram a publicar, e encontrar novas formas de divulgação, depois daquele primeiro momento de pânico (do qual meu último livro sofreu tanto). Ainda não sei se é uma boa época para (um autor) se publicar. Ainda não dá para fazer noite de autógrafos, o povo tá mais sem dinheiro que no ano passado, e os temas passam todos pelo crivo da “relevância em tempos de guerra.” Mas quando é uma boa época para se publicar?

Então escrevo aqui sobre quatro livros que li nas últimas semanas. Todos brasileiros. Todos publicados recentemente. Alguns são amigos. Nenhum comi. Do Paulo Henriques Britto, que só vi uma vez na vida e sou fã, não exatamente amigo, sugeri resenhar pra Folha, mas me falaram que já tinham encomendado resenha por lá. Então fica tudo mesmo pro blog, em textos ligeiros: 

 

NADA VAI ACONTECER COM VOCÊ, SIMONE CAMPOS (Companhia das Letras)

Uma modelo desaparece e sua irmã vai em busca dela. Narrado do ponto de vista das duas, o romance é um thriller de sequestro, que talvez seja a obra mais comercial da carioca Simone Campos. Para além da trama instigante, traz reflexões importantes sobre raça, poder econômico, e moralismo em tempos pré-pandemia. Acho a segunda metade um tanto quanto novelesca. Mas é daqueles que você não consegue largar. (E a capa é uma beleza)

 

O CASTIÇAL FLORENTINO – PAULO HENRIQUES BRITTO (Companhia das Letras)

Segundo livro de contos do festejado tradutor-poeta, que nem se enxerga muito como ficcionista, apesar de ser de mão cheia. O primeiro volume de contos dele, “Paraísos Artificiais” de 2004, é uma pérola, dos meus livros de contos favoritos da VIDA – e disse isso pra ele na primeira e única vez que o encontrei, o que ele pareceu receber com muita surpresa. Eu não diria que esse está muito atrás, mas eu estou mais velho... Os hiatos, os absurdos, que pareciam ser uma marca sua como contista, aparecem menos aqui, e com menos impacto (para mim). Entretanto, há contos nostálgicos, mais conclusivos, que afirmam o talento dele para a trama, não só para linguagem – como os primeiros, do rapaz certinho que se envolve com uma trupe de teatro ou do aluno de conservatório que constrói a carreira usurpando o talento do colega. Postei o trecho acima e um amigo comparou com Noll - acho que tem a ver sim (e Noll é meu autor nacional favorito de todos os tempos). Bem bom. 

 

Eu com o Paulo Henriques Britto (e meu namorado da época, o Fábio), eras atrás. 

VISTA CHINESA – TATIANA SALEM LEVY (Todavia)



Bons tempos em que a Todavia me mandava livros todo mês. (Será que ressentiram que falei mal de algum, ou que não falei de vários, ou que só falei merda, ou acharam que o que eu falava não importava mesmo?) Esse da Tatiana eu acabei comprando (por ebook), quando as livrarias estavam fechadas. E hoje em dia tem que ser assim mesmo, né? A gente se acostumou a comprar livro de amigo em noite de autógrafo (que, para quem é escritor experiente, em São Paulo, acontecia TODA SANTA NOITE), agora fica mais fácil dar perdido e não prestigiar. A Tatiana nem é amiga próxima, o perdido era bem fácil, mas o livro PULSAVA para eu ler, como lançamento dos mais importantes da temporada. E mais do que faz jus.

É o relato em primeira pessoa de um estupro, e da investigação, com uma crítica dos métodos policiais duvidosos. Tão orgânico que assusta. Ótimo. 

 

BAIXO ESPLENDOR – MARÇAL AQUINO (Companhia das Letras)


Começa assim...

Primeiro romance do Marçal em mais de quinze anos (poderiam ter sido quinze anos em que ele ficou bêbado, perdido pelas ruas; poderiam ter sido quinze anos em que ele lamentava o assassinato da família; mas foram quinze anos em que ele escrevia sobre isso na Rede Globo) – e traz a grata surpresa de ser full Marçal Aquino.

Aqui, durante a ditadura militar, um investigador se infiltra numa gangue de roubo de carga, se envolve com a irmã de um deles, e tem de equilibrar desejo e dever, amor e tiroteio. É beeem gostoso de se ler. Um universo totalmente “aquiniano”, um "brutalismo kitsch", com a marca do autor - embora nunca o vejamos como um dos personagens. Ótimo. 


O triste é que tenho lido todos esses livros cedo de manhã, meu namorado ainda dormindo, para aproveitar a luz que vem das janelas. Porque sempre tive uma visão excepcional, mas estou me tornando mais um que não consegue ler sem óculos... 

E se a natureza me impede de ler, por que devo insistir?

15/05/2021

44



Aniversário na praia. 


Aniversário é uma data esquisita. Deveria ser o dia mais importante do ano para cada um de nós... e para mais ninguém. É assim que sempre sinto, embora saiba que algumas pessoas têm famílias, amigos, companhias que fazem com que o dia pareça realmente especial. (Fiquei espantado, por exemplo, ao ver a Cintia Moscovich compartilhando no aniversário dela o quanto recebeu de presentes, mensagens, bolos. Eu nunca recebo absolutamente NADA, de ninguém, nem um bolinho - nunca fariam uma festa para mim. Mas sempre fui muito independente, solitário). Assim, o aniversário acaba sendo um lembrete de nossa (minha) irrelevância no mundo. 


Meu jantar de aniversário este ano. 

Não poderia ser muito diferente em plena pandemia. Ano passado passei trancado, sozinho, só deu para fazer uma "live". Este ano cogitei fazer o mesmo, este ano cogitei não fazer nada - se eu quisesse que o dia fosse especial, teria eu mesmo de tomar a iniciativa. Então arrisquei ir para a praia. E tive uma boa companhia. 

Com Nicklauz. 

Ficamos na Pousada Tupinambá, em Juquehy (litoral norte de SP). A pousada é linda, estava vazia, com ótimo custo-benefício. O tempo variou entre chuva, mormaço e raras aberturas de sol, mas deu para aproveitar tudo... inclusive o quarto. Adoro comidinhas e bebidinhas de praia. Foram três dias de respiro que valeram a pena... se eu continuar respirando. 

Pousadinha delícia. 

Chego em 44 anos em boa forma - já tive melhores, mas já tive BEM piores. Acordo sempre cedo, malho, tenho bastante trabalho, muita energia, namorando um menino bacana. A cabeça também está ok, na medida do possível. O problema é o resto do mundo...


Na casa da minha mãe no interior, preparando a feijoada de dia das mães. 

Foi uma semana toda de comemorações: antes teve o dia das mães, em que também escapei para o interior e preparei uma feijoada para Dona Elisa - que está devidamente vacinada com as duas doses. 


O resultado. 

Sigo este ano apocalíptico sem grandes planos. Se chegarmos a 2022 já estamos no lucro. 


(Postei essa com a hashtag irônica "sem filtro" - mexi tanto na foto que ficou parecendo pintura.)

CEGO, SURDO E MUDO

  Flagrante verde e amarelo da esquina... Fui hoje de manhã pra academia. Moro do lado da Paulista. Deprimente ver a quantidade de bolsomini...