04/12/2019

PESSOAS NORMAIS



Crítica que assinei na Folha em 03/12



Connel é o atleta popular. Marianne é a garota esquisita. Durante o ensino médio eles engatam um romance secreto – e seguem com idas e vindas durante o espaço de quatro anos em que se passa a história, de 2011 a 2015, até o término da universidade. Por vezes Connel se torna o recluso esquisito; Marianne vira estrela da faculdade; então o contexto muda, mas a relação entre os dois permanece, num misto de amizade colorida e amor livre.
“Pessoais Normais” é a segunda obra da jovem irlandesa Sally Rooney, de vinte e oito anos, que estreou com “Conversas Entre Amigos” (lançado no Brasil em 2017, pela Alfaguara) e se tornou um fenômeno literário, publicada em mais de uma dezena de países e finalista do Booker Prize. É compreensível: sua escrita é sofisticada, fluida e, acima de tudo, eficiente. Ela inicia capítulos com saltos no tempo, para então recapitular e mostrar como as coisas chegaram até o momento presente. Os diálogos diretos são inseridos no texto sem separação de aspas (ou travessões, por aqui), como se toda sua escrita tivesse essa falsa despretensão coloquial. E esse o traço que mais salta no romance: falsamente despretensioso.
Rooney tem mestrado em literatura americana, e isso é flagrante não só na estrutura do texto, como no universo que retrata. Apesar de o livro se passar na Irlanda, não poderia ter um tom mais de high school americano, com as divisões entre os alunos, o bullying, o bailinho de formatura em que o menino precisa convidar a menina.  Com frequência surge um estranhamento quando o livro cita Dublin ou as viagens dos dois protagonistas pela Europa, nos lembrando que o livro não se passa nos EUA. Isso não é um problema em si, mas é um dos sintomas de a autora querer retratar “pessoas normais”, fazer uma “escrita normal”, eficiente, reconhecível e premiável. Ela não se arrisca, joga seguro – não há estranhamento, não há loucura, falta personalidade.
                Longe de ser um livro ruim, “Pessoas Normais” é, no final das contas, um livro de menininha - um bom livro de menininha. Mas espero que não crie escola – não precisamos de mais escritoras escrevendo normalzinho assim.

Avaliação: bonzinho. 
               


01/12/2019

SEM CHANCE DE SER FELIZ

Onde passei a virada, as férias, a páscoa, o ano todo...

Até que não foi tão mal...


2019 até que não foi tão ruim, para mim, melhor do que o ano passado, ao menos...

2018 estava naquela latência, naquela suspensão, todos na expectativa das eleições, os trabalhos parados, as pessoas se digladiando; não dava para fazer planos nem para ser feliz. 

Com o anúncio oficial do apocalipse, parece que as pessoas saíram da letargia e arregaçaram as mangas para aproveitar o que ainda dava em 2019, enquanto o Brasil ainda não foi destruído de vez. 

Em maio, ainda inchado, comemorei meu aniversário de 42 sem grandes ânimos, com amigos. 

Para mim até que teve bastante trabalho, bastante tradução - claro, aqueles trabalhos com pagamentos mirrados, que mal davam para fechar as contas, mas deu. Não tive férias, não viajei nada - o único voo que peguei o ano inteiro foi pra Bienal do Rio.

Passagem rápida por Jacareí, para entregar um prêmio literário do qual fui curador, no começo do ano. 

Foi bom para colocar a cabeça no lugar, de todo modo, trabalho e rotina servem para isso. E o corpo também - foram quase VINTE E CINCO QUILOS perdidos em 8 meses, um ritmo nada absurdo de uns 3 quilos por mês, constante e administrável.  E continuo perdendo. Em breve farei um post com os "segredos da boa-forma". 

I want cookies. 

Meu maior orgulho em 2019 foi ter desaparecido...

O processo começou com o fim do meu casamento de 6 anos com o ex-cozinheiro. Terminamos em abril - depois que ele foi cooptado de vez para o universo de luxo-fútil-bolsominion de Maresias. Jogado de volta ao "mercado dos solteiros", depois de 6 anos monogâmico, fui obrigado a cuidar do corpo. E que mercado selvagem encontrei...

Conheci muita gente louca, muita gente desregulada, que aos trinta e poucos ainda mora com os pais, que é travada para sexo, ou que é maníaca sexual, que tem namorado, mas quer mais de um, que só funciona com aditivos, ou que não pode beber, não pode comer, não tem nada a dizer. E eu, que estava com auto-estima tão baixa, que achava que não havia razão no mundo para alguém querer ficar comigo, comecei a achar que sou o melhor partido da cidade. 


Minha querida amiga Del Fuego fala o quão bom é estar casado, para focar no trabalho, não perder energia flanando por aí. Eu discordo dela; acho que o casamento tem um elemento castrador, a gente se acomoda, se aposenta. Estar solteiro me fez sair mais de casa, conhecer mais pessoas, ver os amigos, contatos que também se refletem no trabalho. 

Mas eu sempre prefiro estar casado. 

Lançamento do ano. 

Voltando ao trabalho, minha produção literária até que caminhou bem. Lancei pela Melhoramentos meu primeiro infantil: "A Festa do Dragão Morto", que não teve grande repercussão, porém mais do que eu esperava para um infantil: Estadão deu uma matéria de página inteira (do meu livro e da Paula Fábrio) e muita gente bacana elogiou. Não fiz lançamento em SP, porque preferi que a editora trabalhasse diretamente com o público alvo; mas fiz uma mesa-lançamento com o Tiago de Melo Andrade na Bienal do Rio - que serviu principalmente para encontrar colegas queridos. 

Na Bienal do Rio. 

No segundo semestre também lancei um continho, um "single", pela Companhia das Letras, "Solo És Mãe Gentil", que refletiu muito o clima de tensão pré-pós-eleições. E estou nas prés do meu próximo romance por eles - que saí já no primeiro semestre de 2020. 


O conto, em formato exclusivo digital, dá para ser comprado aqui: Amazon

Também teve um punhado de matérias para a Folha - que deram o que falar, como a matéria sobre a literatura fantástica -; o curso de publicação que fiz com o André Conti; e algumas mesas em São Paulo, mas nada muito grandioso; foi um ano de contenções e concentração.  

Debate no Mix Literário, agora em novembro. 


Chego agora ao final do ano sem planos, sem viagens, nem grandes expectativas; seguirei sem descanso nas traduções, na dieta e na academia. Porque se não dá para ser feliz, pelo menos dá para seguir estável. 



09/11/2019

ENTERRANDO A LITERATURA FANTÁSTICA

Com Paulo e Maressa. 


Acabo de voltar de uma passagem relâmpago por Avaré, no interior de SP, onde participei do "Café Insólito", uma noite de palestras em torno da "literatura fantástica", ou de gênero, no Instituto Federal.

Foi tudo organizado por Paulo Arnaud, um jovem estudante de letras, que começa a dar os primeiros passos como escritor, e que se desdobrou para conseguir me levar. Essas horas é que a gente vê como vale a pena - como nossos livros fazem a diferença; talvez em pouca, pouquíssima gente, mas fazem profundamente. E são os leitores que podem mesmo nos levar mais longe - se arregaçam as mangas; lindo ver um novo escritor (e curador e "agitador cultural" de sua cidade) que desperta com meus livros. E lá também conheci a professora Maressa Vieira, que mediou a mesa, e também é leitora antiga - já trabalhou meu "Feriado de Mim Mesmo" em sala de aula.

Foi especialmente lindo porque ultimamente me senti como "Inimigo Número Um da Literatura Fantástica Brasileira", graças a repercussão (descabida?) do meu texto na Folha. Meu diagnóstico era apenas que a literatura fantástica passava por um bom (ou ótimo?) momento, mas que eu não considerava que isso era o suficiente para que ela se fixasse de fato na cultura nacional - e apontava algumas teorias (apenas teorias), que podiam ser refutadas. (tem tudo dois posts abaixo aqui no blog.)

Samir Machado de Machado fez um bom texto de resposta na Folha, e mais uma caralhada de gente me atacou pelo twitter, dizendo que era só a minha literatura que não decolava, que minha opinião era ultrapassada, que me faltava bagagem...

Nessas críticas, curiosamente, senti a soberba da academia (do próprio Samir, mas não só), de quem faz mestrado-doutorado em qualquer biboca de faculdade, e se considera mais autoridade do que alguém que atua há quase vinte anos na área, com dez livros publicados pelas maiores editoras do país, quase OITENTA traduções, e que discute o tema na imprensa e em mesas pelo Brasil (e mundo) desde o começo do milênio.

Eu precisava... eu merecia... eu precisava de um novo diploma.

(Curiosamente, meu post anterior a este é sobre "Os Melhores Filmes de Terror de 2019", em que destaco dois ótimos brasileiros. Nesse momento meu post foi compartilhado com louvores de "uma sumidade no gênero". Quer dizer, a gente é autoridade quando elogia, não quando critica.)

Com todas as críticas/respostas/discussões que recebi, mudei pouco minha opinião. Mas pude trazer uma visão mais otimista (para alunos de letras interessados em literatura fantástica, como os de Avaré): de que há um bom mercado, um bom mercado brasileiro para a literatura fantástica no momento.

Mas que ela segue não prestando.

Teve um punhado de livros que indicaram, como exemplo da atual pungência da atual literatura fantástica brasileira. Muitos eu conhecia. Alguns são boas exceções. Outros fui conferir...

Não prestam.

Infelizmente.

Já discuti muito sobre isso (novamente: não comecei ontem); existe um desafio básico em fazer literatura de gênero e fazer "alta" literatura (sim, ainda acredito nisso). Como respeitar as convenções do gênero sem recorrer (apenas) a clichês, como fazer "alta" literatura sem provocar apenas estranhamento, e sim respostas objetivas (no caso do terror, "provocar medo"). É um desafio que eu mesmo (como autor) acho que não consegui vencer. Mas eu prefiro criar o estranho, a dificuldade, do que recorrer a uma literatura rasa.

E muito do que eu vejo da literatura fantástica (bem sucedida) brasileira é isso: literatura rasa. Muito dos livros que me indicaram, inclusive. Eles se apoiam muito na trama, podem ser lindamente costurados, mas não oferecem nada além do que isso: história. O texto não é apenas banal (às vezes sofrível, quando se pretende literário mas carrega em adjetivações cafonas) na estrutura, mas também nas ideias. O texto não oferece reflexões mais profundas do que a narrativa imediata. Não ACRESCENTA.

Não por acaso, ofereci um desses livros que mais me indicaram (não vou dar o título, porque não convém gongar o autor aqui) para uma resenha na Folha. Recusaram - porque ainda que seja sucesso de vendas, é insignificante culturalmente; e eu concordo. É um livro que faz dinheiro hoje e é esquecido amanhã. (E me passaram outro mais relevante que estou resenhando agora.)

(Vale lembrar que já consegui emplacar na Folha um autor iniciante, por uma editora pequena, com um ÓTIMO livro de vampiros - o "A Forma da Sombra" do Fernando de Abreu Barreto [que não é amigo; até hoje nunca o encontrei pessoalmente]. Então não é como se eu estivesse trabalhando CONTRA a literatura fantástica...)

(aqui: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/04/1614998-terror-lirico-indica-que-novo-autor-do-pais-pode-acrescentar-muito-ao-genero.shtml)


Voltando a Avaré, foi sintomático que a noite de ontem começasse com a palestra de uma psicóloga sobre "sintomas de psicopatia" (dentro de um evento de literatura fantástica). Sempre é preciso recorrer ao real, ao palpável, "diagnosticável" para ser respeitável. Enquanto ela dava o perfil de um psicopata, eu pensava: "Mas o que isso tem a ver com literatura fantástica?"


Minha fala trouxe não só esses questionamentos, mas, principalmente, uma defesa desses questionamentos, da importância da discussão, da pluralidade de ideias. Num momento em que cultura é vista como supérflua (ou inimiga), a importância de um pensamento livre e de incentivos para que continuemos pensando, discutindo e, principalmente, registrando. Porque no final, o que permanece de uma sociedade é apenas a cultura.

E a literatura fantástica brasileira não permanecerá! :P


31/10/2019

OS MELHORES FILMES DE TERROR DE 2019

Clímax. 

Já se tornou tradição eu fazer minha seleção de melhores no Halloween - mesmo que o ano não tenha acabado; quem não lançou seu filme mosqueou!

Não achei um ano especialmente bom, não tem nenhuma grande obra digna de Oscar, e as aventuras independentes foram tímidas. Não se lançou novas tendências (como o pós terror de 2017). Mas sempre há muito o que se salvar.

Então vamos com minhas escolhas absolutamente pessoais e inquestionáveis:


CLÍMAX

Filme Zé-droguinha do Gaspar Noé. Uma trupe de balé faz uma festa, alguém batiza o ponche com um ácido dos infernos e o inferno acontece. É um filme contemplativo para ver no cinema, para passar mal. Longos planos sequência. Quase um musical. Terror real. Eu AMEI. 



MIDSOMMAR

O terror da coletividade. Um grupo de americanos vai passar férias numa comunidade escandinava e descobre que a noção de coletivo deles vai um pouco além do que eles esperavam. Do mesmo diretor de "Hereditário" era um dos terrores que mais prometia, e entregou, mas também não chegou a oferecer nada além. Previsível e um pouco arrastado, é um ótimo terror que finge ser "incrível". 


BLISS

Uma pintora pau no cu precisa terminar uma obra e toma uma porrada de drogas para isso. No filme acompanhamos a viagem dela, que é mais interessante do que sua arte. Daqueles filmes lisérgicos, muito bem feitos, mas sem uma alma de "Mandy", por exemplo. De todo modo, é divertido, é louco, o que atrapalha é ter uma protagonista tão pentelha. 


MAL NOSSO

Belíssimo terror brasileiro de baixo orçamento que conseguiu alcançar os circuitos. Mistura snuff, possessão e assombração com estilo. Uma bela surpresa que me colocou o diretor Samuel Galli como "A" maior promessa do gênero no país. 


GRETA


Eu adoro esses filmes de sequestro, tortura, obsessão - daí colocam Isabelle Huppert como protagonista; como eu poderia não gostar? E ainda é dirigido pelo Neil Jordan. Dos filmes mais divertidos deste ano para mim. Amei. 


SUSPIRIA

O remake que ninguém queria fez bonito. Confesso que não sou grande fã do original. Na verdade, nem desse segundo. Mas cenas emblemáticas como a dança dos ossos quebrados fazem desse um filme importante. Eu gostei - não entendi quase nada, até porque metade do filme é em alemão e vi sem legendas, mas gostei. É um filme com cenas que seguem me impactando.


THE CLEANING LADY


Esse talvez seja o mais desconhecido e controverso. É um filme bem, bem B, mas acho que tem uma alma aí. É quase um Audition dos pobres. Uma mulher solitária, que vive um caso extra-conjugal, é stalkeada por uma faxineira com o rosto queimado. É creepy. É divertido. Não presta. Mas é divertido. 

MORTO NÃO FALA


Dennison Ramalho é dos nomes mais importantes do terror nacional - de curtas antológicos a séries na Globo e parcerias com o Mojica-do-Caixão. E esse é seu primeiro longa - de um coveiro que vai enlouquecendo ao ouvir a voz dos mortos. Tem uns efeitos bem diferentes e bem legais, e é um terror bem brasileiro. 

LUZ


Tão inventivo quanto teatro, esse filme de possessão se passa todo numa delegacia, reconstituindo um crime. Faltou uma cena de impacto,  com pouco mais de uma hora, parece mais um "demo" de filme (em todos os sentidos) do que um filme acabado. Mas é uma experiência. 

BOAR


Num ano com tubarões e jacarés, quem diria que o melhor filme de animal assassino seria com um JAVALI. Nada de extraordinário, mas bem divertido, com TODOS os personagens bem construídos, essa produção australiana também ganha muitos pontos por ter um monstro de animatronic.  



30/09/2019

A REAL DA LITERATURA FANTÁSTICA

Debate no Sesc Santo Amaro sobre literatura de horror no Brasil, com (a partir da esquerda) Santiago Nazarian, André Vianco, Marcos DeBrito e Raphael Fernandes
Eu, Vianco, DeBrito e Raphael Fernandes em debate mês passado . 
(Íntegra do texto que publiquei ontem na Folha, com minhas considerações e polêmicas abaixo:)



Nunca houve um momento tão bom quanto o atual para a literatura fantástica no Brasil. Festivais temáticos proliferam, autores emplacam sucessos de vendas, novas produções no cinema e na TV levam o terror e a fantasia para novos públicos. A despeito disso, o momento também nunca foi pior.

Acompanho a cena há quase 20 anos. Sempre há essa sensação de “agora vai” quando a Globo anuncia uma série de terror (como "Supermax", de 2016), quando um filme como um ator badalado estreia (como "Isolados", de Thomas Portella, com Bruno Gagliasso, de 2014), quando surge um novo autor sucesso de vendas (como André Vianco, na virada do século).

Entretanto, apesar de apelo comercial e sucesso relativo de público, a literatura fantástica brasileira permanece sempre à margem, não apenas desprezada pela crítica, mas incapaz de deixar uma marca na cultura nacional.

Recentemente estive em uma mesa com autores conhecidos do gênero —Marcos DeBrito, Raphael Fernandes e o próprio André Vianco— para debater algumas dessas questões, especificamente relativas à literatura de horror.

“Por que a literatura de horror permanece à margem?”, questionei. As justificativas correram em círculos: “não se dá espaço à literatura de gênero”, “é vista como algo menor”, “é relegada a um público infantil”. Tudo isso é verdade, mas essas são as consequências, não a causa. Por que essa literatura é vista como menor?

O Brasil não tem uma tradição no fantástico —e isso também não chega a ser uma explicação, é outra consequência. Enquanto na América Latina existem correntes importantes de realismo fantástico, no Brasil o “realismo concreto” sempre imperou. Arrisco uma razão: a extensão territorial e a miscigenação do nosso povo fez com que a produção cultural/artística nacional se sentisse sempre na responsabilidade de explicar nossa identidade, retratar nossa realidade.

Apesar de termos um folclore riquíssimo, a fantasia na produção artística foi vista como um exagero, destinada a entreter (e, por isso, seria voltada a um público menos sofisticado ou infantojuvenil).

Agora, enquanto temos uma diversidade enorme de formas de publicação (com os e-books) e mais espaço para produção audiovisual (com plataformas de streaming, YouTube, canais a cabo), também temos uma crise política e identitária que ressalta essa necessidade de retratar a realidade. Levar a literatura para o fantástico soa fútil num momento como este, mesmo que esteja a serviço de uma alegoria.

É triste que seja assim. Em países como a Argentina, autoras de minha geração, como Samantha Schweblin e Mariana Enriquez conseguem emplacar sucessos editoriais, com respaldo crítico e fortes elementos sobrenaturais (vide “Distância de Resgate” de Schweblin, e “As Coisas que Perdemos no Fogo” de Enriquez). Aqui até há bons autores que tentam, mas sempre se fica numa zona cinzenta.

Há dois anos, a produtora RT Features (que tem no currículo filmes importantes do universo fantástico, como "A Bruxa", de 2015) resolveu encomendar e investir numa coleção de livros de terror “literário” (ou o que foi chamado posteriormente de “pós-terror”), cujos direitos de adaptação audiovisual pertenceriam a ela.

Apenas três títulos saíram, publicados pela Companhia das Letras de forma isolada, sem a unidade de uma coleção —“As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, “Enterre seus Mortos”, de Ana Paula Maia, e o meu "Neve Negra". Arrisco-me a dizer que os livros tiveram recepção morna —vistos com desconfiança pelo meio literário, tampouco foram abraçados pelos fãs do gênero.

Talvez o mais bem-sucedido desses três tenha sido o livro de Ana Paula, não apenas pelo ótimo texto, mas exatamente por não conter elementos fantásticos e se afastar das convenções do que se chama terror (além, talvez, de carregar uma bandeira involuntária, por ter sido escrito por uma mulher negra).

Assim, o ciclo permanece, e a literatura fantástica que encontra espaço é voltada a um público mais jovem, uma literatura de entretenimento. E que mal há nisso?, perguntariam os autores que vendem bem e contestam a divisão entre “alta” e “baixa” literatura, levantando a bandeira da ficção comercial como uma forma de popularizar a leitura.


O problema é que a literatura de entretenimento é feita para ser de consumo fácil e rápido —comunica-se com o instante, mas não tem lastro para permanecer. Assim, nunca se cria um histórico do gênero fantástico no Brasil, porque os livros são perecíveis. Não deixam uma marca em nossa cultura.

É curioso notar que nosso cineasta mais bem-sucedido no terror (o único?), José Mojica Marins, o Zé do Caixão, tenha feito sucesso justamente com um personagem “de carne e osso” que nega a todo tempo o fantástico, que não acredita no “além”.

Talvez esteja aí uma fórmula mais viável, que não precisa necessariamente se ancorar no fantástico —a literatura de gênero pode ganhar relevância se encontrar formas de retratar nossa realidade de forma objetiva. Isso já acontece, por exemplo, na literatura policial, que de uma forma ou de outra sempre teve maior espaço.

***



Acordei, postei o texto nas minhas redes. Como sempre o povo é só elogios e comentários civilizados. Mas por trás, é claro, vem povinho esbravejar. Depois do almoço um amigo avisa: "Ó, tão te xingando lá no twitter."

O povo gosta de polemizar. Os contra-argumentos que li eram de que "tal autor está vendendo muito", "há todo um novo movimento da literatura fantástica", "eu vendi 200 livros em um mês!" (Oi? Isso não é o que se vende numa noite de autógrafos?).  Parece que o povo não leu o começo do texto que diz "Nunca houve um momento tão bom para a literatura fantástica". E que todo o texto aponta que, apesar de ter autores que vendem, apesar de até existir autores de qualidade, e de ter festivais temáticos, não se cria uma tradição de literatura fantástica, ela permanece à margem, uma subcultura desses nerds de twitter.

(Daí a gente vai ver, é gente que usa nick tipo "Cassandra Werewolf" e diz que é autoridade por ler Stephen King desde os 11 anos... Provavelmente desde quando eu já publicava e já traduzia literatura de horror. É por essas que acham que literatura fantástica é coisa de moleque...)

O pesquisador Bruno Matangrano foi mais elegante e fez boas contra-argumentações, mas a mim me parece a visão de alguém que está mergulhado num universo, e acha que o mundo todo está com ele, enquanto que a visão geral do meio literário permanece que "o Brasil só produziu literatura fantástica da pior qualidade", inclusive foi o comentário que li hoje de uma importante agente literária. 

Há promessas de mudança, como eu coloquei no texto, mas eu acompanho a cena há décadas e não consigo ser otimista, meus queridos. Os autores de ficção fantástica não estão representando o Brasil nos eventos lá fora, não estão na Flip, não são finalistas de Jabuti, ficam sempre restritos a esse nicho à parte (diferentemente de outros países, como coloquei, em que a literatura fantástica participa do mainstream), têm eventos próprios, prêmios próprios, não deixam sua marca.

O pessoal do Twitter veio protestar que eu "não sabia" o que acontecia no nicho, mas o texto era exatamente sobre isso, que permanecia um nicho que não se comunicava com o meio literário maior. 

Veio gente também dizer que era a MINHA literatura que não decolava, por isso eu me doía. Isso pode até ser, meu olhar pode estar meio viciado por isso - mas convém lembrar que meu livro de maior "sucesso comercial", "Mastigando Humanos", que vendeu algumas dezenas de milhares, pode se dizer que é um livro fantástico, mas que não contradiz o que eu disse - foi um livro que atingiu um público mais jovem, e não contribuiu para estabelecer uma nova corrente de fantástico no país.

(E concordo que talvez eu não devesse ter usado o exemplo do meu próprio livro, do "Neve Negra", no texto; mas é que era uma história de bastidores que eu conhecia bem, da coleção que não emplacou.)

Algumas pessoas se doeram também - não sei porque - pelo meu comentário sobre o livro da Ana Paula Maia, que eu adoro, que é minha amiga, e que inclusive fui eu a primeira pessoa a falar dela, lá em 2003 (e inclusive fiz a orelha e dei o título do segundo livro dela).

Então eu SEI do que estou falando - nem só pelo meu conhecimento do gênero, mas principalmente por ter uma visão mais ampla, do meio literário. E o texto foi fruto de uma discussão que tive com três dos maiores autores de fantasia/terror do momento. Mas, é claro, é uma opinião pessoal. E acho sempre válida a discussão. É só uma pena que o povo queira mais é atacar, e pelas costas, nos seus grupinhos, e a discussão, como a literatura fantástica, não avança...



20/09/2019

BEIJO GAY

So young.


A censura do prefeito Crivella ao beijo gay ilustrado dos Vingadores me fez lembrar da foto acima. Porto Alegre, 2001, 23 anos. O menino era só um menino com quem fiquei algumas vezes, e a foto não tem nenhuma grande história, nenhuma grande paixão por trás - provavelmente foi encenada para eu colocar no meu álbum (porque eu fazia álbuns analógicos e mostrava para os amigos bem antes do fotolog, e quando o fotolog surgiu eu já não estava mais nessa.) Muitos lembraram que parecia a foto da capa do primeiro álbum do Suede - realmente. Não lembro se foi essa a intenção (mas sendo o disco que mais escutei na vida, ao menos algo inconsciente veio daí).

Beijo gay? Beijo hétero? Beijo lésbico?

Achei bacana postar, porque muita gente "simpática" tem essa visão "recreativa" dos gays. São engraçados, fofos, não tenho nada contra, mas precisam ser assexualizados para serem aceitos. Não podem "demonstrar afeto em público." Lancei um desafio, para os amigos (gays) postarem fotos beijando em suas redes. Bem, não sou Felipe Neto, estou longe de ser influenciador, e ninguém postou. A foto bombou nos likes (para os meus padrões), muito apoio, nenhum ataque, mas ninguém postou. Acho que muita gente teve medo de assustar as tias, perder o emprego, afastar o crush. Muita gente que assume que é gay, mas não tem coragem de postar um beijo.

#fail

(É preciso admitir também que foto de beijo não é a coisa mais fácil de se tirar. A minha imagino que tenha sido feita com disparador automático, com certeza numa máquina analógica, que depois mandei revelar. Ter saído assim foi mais fruto de sorte. [A não ser que tivesse um TERCEIRO menino fotografando, o que eu não considero totalmente impossível... Mas realmente não lembro.])



O beijo dos Vingadores veio quinze anos depois. 

Dia desses um amigo postou pedindo para parar com essa de "beijo gay", "beijo hétero", que era tudo beijo, não havia diferença. Discordo. Lembro bem do meu primeiro beijo (gay). Eu já beijava meninas desde o primário, mas só aos 18 fui beijar um menino (mais precisamente no reveillon de 1995 para 96, numa boate da Bebete Indarte na Consolação- que eu tinha ido com uma "namorada" com quem eu tinha uma relação bem moderninha). A diferença foi brutal - a rigidez do corpo masculino contra a maciez do corpo feminino, ao que eu já estava acostumado. Na hora eu percebi do que eu realmente gostava (mas ainda segui alguns anos como "bissexual", porque embora as mulheres fossem um interesse bem menor, nunca foram um interesse nulo.)

Seguindo na minha frutífera vida afetiva, nunca fui de grandes demonstrações afetivas em público. Mas acho que ninguém é. A gente só beija apaixonadamente em público quando está se conhecendo (e os meninos a gente acaba conhecendo em lugares gays). Atualmente, na vida loka de solteiro, me encontro no dilema se devo beijar num café, num boteco de esquina, na catraca do metrô me despedindo do rapaz. É um novo tempo de resistência que encontro na terceira idade...

(Tá, meia idade...)

Tenho medo de uma nova epidemia de sapinhos.

Confesso que acho meio nojento dois barbudos se beijando; sim, assim como um barbudo com uma gorda; uma negra com um careca; duas sapas anoréxicas. Pro beijo ficar cênico, ficar bonito, é muito difícil, é preciso ser profissional. Então não sou contra, eu não mandaria a polícia descer o cacete, mas é melhor desviar o olhar e não ver...

E que não respingue saliva na minha coxinha!

(Se forem dois rapazes cênicos, tão mais pior...)


Minha sobrinha não sabe que sou gay. Aos 7 anos de idade, ela está começando a dar nome para isso. Mas me lembro de uns dois anos atrás, ela com 5, eu perguntei à minha irmã se ela não estranhava meu relacionamento com o falecido - com quem eu estava desde quando ela era bebê, frequentava sua casa, recebia ela nas férias, na nossa casa de praia.


Traumatizando uma criança. 


Minha irmã disse que ela não estranhava porque ela nasceu numa realidade em que isso era normal. Ela convivia com casais de homens, casais de mulheres, e casais héteros, como os pais dela. Para ela não havia nada de estranho ou diferente, cada um apenas vivia com quem gostava.



Mas pensar assim, viver nessa realidade, é uma grande ameaça, é uma grande safadeza...


Atualizado: (Este post foi censurado pelo Facebook, não consigo mais postar o link por lá - diz que viola os padrões da comunidade - talvez por ter dois homens beijando...)

 A foto original que gerou a capa do Suede: duas mulheres, uma delas cadeirante. 

08/09/2019

LITERATURA PARANDO O TRÂNSITO


Pela estrada afora...


Está acabando uma das Bienais mais intensas dos últimos tempos. 

Para os amigos (paulistanos) que eu disse que estava indo ao Rio no fim de semana, todos mandaram eu tomar cuidado, "não vai ficar circulando muito", como se São Paulo estivesse uma maravilha...

... ainda assim, parece estar bem menos pior. 

Não circulei. O esquema em que fiquei nessas últimas Bienais (nesta e de 2017), com um bom hotel literalmente colado no evento, favorece que eu fique só no evento, e acabei esticando só mesmo pelos bares-restaurantes-piscina do hotel. 

Mas o mínimo que tive de desbravar a cidade, não foi nada fácil...

Cheguei na tarde de sábado, num vôo com João Silvério Trevisan, e fui com ele num translado para o hotel. Depois de duas horas no trânsito, o Waze dava mais 1:30 para chegar de carro, e 40 minutos a pé. Como a mesa dele estava em cima, descemos do carro e andamos. 

Com Trevisan, on the road. (Foto de Marcelo Ferroni.)

O trânsito absurdo foi devido não só a falta de um programa eficaz da prefeitura para a Bienal, mas também do fluxo anormal que seguiu para o evento, depois de o "prefeito" mandar agentes recolherem obras com "conteúdo impróprio" (ou demonstrações de afetos entre personagens do mesmo sexo). 


A imagem "imprópria para menores" que gerou todo o "escândalo", em pleno 2019. 

Tiro no pé do prefeito. O youtuber Felipe Neto contra-atacou comprando mais de dez mil livros de temática LGBT, de diversas editoras, e distribuindo gratuitamente na Bienal. Fez bonito. Nunca gostei dos vídeos do Felipe, mas é preciso reconhecer que ele sempre foi crítico e político - recentemente fez uma declaração que "o mundo só melhora quando aqueles que detém o poder econômico abrem mão de alguns lucros em prol do planeta", e parece que ele tem aplicado isso lindamente. Podem chamar de oportunismo, jogada de marketing, mas precisamos (todos) de mais jogadas como essa. 

Ainda na estrada, com Trevisan. 

Voltando à minha jornada pessoal, esse caos na cidade do Rio, na Bienal de sábado (que teve protesto, beijaço, agentes indo recolher obras), fez com que chegássemos atrasados pra mesa do Trevisan (e no caminho eu ainda escorreguei e caí no meio de um MANGUE...), mas ele teve tempo de falar linda e oportunamente sobre esse clima em que estamos vivendo.  

A mesa de Trevisan, com Tobias Carvalho e Jaqueline Gomes de Jesus. 
Depois, a noite se estendeu pelo bar do hotel, em que encontrei tantos autores queridos, jovens, novos, e velhos amigos. 

Os jovens escritores com o tio Naza. 

Neste domingo tive minha mesa, no setor infantil, com o querido Tiago de Melo Andrade. O espaço era uma floresta, em que as pessoas ficavam circulando - e achei que não ia dar nada certo. Deu mais ou menos, tinha público - o pessoal foi chegando, se amontoando, fazendo perguntas, e acabamos tendo uma conversa divertida e meio caótica. 

O espaço...

Se Tiago falava da importância de ter a leitura "como um bicho de estimação", os livros como uma companhia, eu acrescentava: "E mesmo para quem não gosta de ler, os livros amontoados trazem bichos de estimação: as traças!"


Foi bonitinho ver as perguntas da plateia - depois pais que foram comprar os livros para os filhos. É um público novo para mim, que não estou acostumado a encontrar. Mas senti que comecei a encontrar formas de comunicação.

Novos leitores. 


De resto, ainda deu para pegar piscina, e tive ótimos papos de bastidores (o melhor da Bienal sempre é o networking). Pessoal da Melhoramentos foi muito querido, cuidou de tudo direitinho, e o Tiago é sempre uma ótima companhia. 


Com a querida Carol, do marketing da Melhoramentos. 

Posto agora do hotel, depois de ver a última mesa do evento, sobre literatura trans - com Luisa Marilac, Amara Moira, Pepita e mais; com discursos tão importantes, surpreendentes, articulados. Um tapa na cara do prefeitinho de merda.


Literatura trans com Luisa Marilac, Nana Queiroz, Natalia Travassos, Tarso Brant, Amara Moira e Mulher Pepita. 


Falando no prefeito,  dei minha opinião para uma matéria no Terra, que ecoou em vários veículos por aí. Abaixo:





Então seguimos escrevendo. Essa é nossa voz. E não vão calar tão facilmente.


Gente, tenho 1,80m, juro! (Quer dizer, quase, 1,80m com essa bota). O Tiago é que é mesmo gigaaante. 

25/08/2019

YOUNG

Agosto do ano passado, em Extrema. 

Perdemos Fernanda Young - aparentemente de uma crise respiratória decorrente de asma. Não posso dizer que éramos amigos próximos, mas nos encontramos meia dúzia de vezes e ela sempre foi muito carinhosa, dizia que eu tinha "nariz de bichinho."

O começo foi meio turbulento. Há uns quinze anos a encontrei na Loca, com amigos em comum, e ela veio perguntar: "Quero drogaxxx, quem tem drogaxxx." Anos depois, eu, sem noção, coloquei isso aqui no blog. Poucas horas depois, recebi esse email:


Ao que ela finalmente respondeu.



Como ela autorizou eu manter a versão que preferir, deixo a versão completa. E mais divertida.

Depois disso, nos encontramos outras vezes, em bienais; eu sempre lembrei da história das drogaxxx, e ela sempre disse que eu estava louco. Agosto do ano passado mediei uma mesa com ela no Festival Literário de Extrema, depois almoçamos juntos.

Com o querido Rodrigo Rosner, em Extrema. 
Pouco depois disso nos falamos ao telefone, para uma matéria sobre literatura pop que fiz para o jornal Cândido. A matéria completa está aqui:

http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1563


Triste perder uma colega que ainda tinha tanto a oferecer. Como escritora, Fernanda Young foi importantíssima abrindo uma literatura mais pop e uma imagem mais pop do escritor, que depois se estabeleceu na minha geração. Temos amigos em comum que devem estar devastados: o Rodrigo, nossas agentes Lúcia e Eugênia...

Para mim ficam essas boas lembranças (inclusive das drogaxxx) e os livros.


Na Bienal de 2017, ela estava gata, eu estava um buchinho. 

22/08/2019

COMEÇANDO O ANO...

Vianco, Fernandes, Nazarian e DeBrito.



Está acontecendo no Sesc Santo Amaro o festival "Tocando o Terror", com filmes, espetáculos e palestras sobre o gênero. Tem muita coisa legal. E tudo gratuito.

Eu estarei lá domingo agora, 25/08, 16h, como mediador, para discutir a produção de terror no Brasil com André Vianco, Raphael Fernandes e Marcos DeBrito. Gosto muito de mediar mesas; é a oportunidade de perguntar aos pares questões que me assolam - e acho que vai ser especialmente produtivo discutir sobre a produção de horror, com grandes nomes do gênero, num momento em que a "ficção pura" parece tão sem sentido.

Programação completa do festival está aqui:

https://www.sescsp.org.br/programacao/198913_TOCANDO+O+TERROR?fbclid=IwAR3dtPXjaSM8O2B7HaQ8UofzrEZ3-tPDYW_msfoFBNzy47n13Ymaazd48cM#/content=programacao

E isso é só o começo de um segundo semestre que, como sempre, parece bem mais movimentado do que o primeiro.

No fim de semana de 7 de setembro estarei na Bienal do Rio, lançando meu infantil "A Festa do Dragão Morto", pela Melhoramentos.

Domingo, dia 08, estarei às 13:45 no Pavilhão Laranja, num bate-papo com o querido Tiago de Melo Andrade. Aproveite, que é das minhas raras passagens pelo Rio. (A última foi exatamente há dois anos, na última bienal.)

E dia 11 de setembro, de volta a São Paulo, darei um workshop no Cinefantasy, "Narrativas Terríveis", sobre literatura de terror/suspense/thriller. Também é gratuito, mas tem que se inscrever antes, aqui:

https://poiesis.education1.com.br/publico/inscricao/cb9c528565c30d49b548831022bc9b32

Fora isso, o Cinefantasy vai ter muita coisa legal, como a mostra de curtas e longas (da qual fui jurado ano passado). Programação completa aqui: https://www.cinefantasy.com.br/

E vem mais coisa aí; conforme for confirmando vou atualizando a aba "Agenda" aí em cima.







14/08/2019

SOLO ÉS MÃE GENTIL



A Companhia das Letras está lançando em ebook a coleção "Contém um Conto",  com muita gente bacana. Eu estou lá com um conto avulso, inédito e indispensável.

"Solo És Mãe Gentil" é um almoço de família no Natal, em que os os irmãos discutem quem cuidará de um pai inválido. Tem muito a ver com os tempos atuais...

Dou um trecho aqui: 

Com três adultos discutindo como crianças ao redor da mesa, pensava em como minha mãe fazia toda a diferença. Família é mesmo isso, seres tão distintos unidos pelo respeito a uma autoridade em comum. E mesmo que ela fosse tão apagada, mesmo que não soubesse cozinhar, minha mãe era a peça que faltava para que nós nos encaixássemos numa unidade familiar. Meu pai nunca serviu de nada. E agora como um chefe inválido só servia para insistir, impedir cada um de nós de liderar.
Olhando agora meu irmão ao lado do namorado, não podia deixar de vê-lo tão frágil. Meu irmão caçula, o afeminado, como diria meu pai. Alguns diriam que ele precisava de uma dura, de uma surra, mas eu pensava que ele precisava exatamente do contrário. Uma mãe que o acolhesse. Uma mulher que fizesse esse papel. Como um menino tão delicado como ele foi jogado nesse mundo sem amparo, agarrando a mão de outro menino, um menino negro, ampliando o alvo? Meu irmão deveria ter sido protegido, camuflado, não exposto em meio à guerra. Um menino só precisa de uma mulher. Um homem tão delicado nunca deveria se relacionar com outro homem.
Olhei então meu irmão mais velho, que sempre tomei como exemplo. Eu agora como uma mulher adulta, uma mãe de família, o ultrapassava em maturidade. Se ele conquistou algo antes de mim, foi apenas o fracasso. Nunca terminou os estudos, saltou de trabalho em trabalho. Imaturo, manteve apenas a masculinidade, apenas para diminuir o irmão mais novo. Mas não foi capaz nem mesmo de dar netos à minha mãe. Perguntava-me o que ele deixava de exemplo. Não podia nem dar lição de moral.
Pensei no meu filho mais novo. Uma criança já nascida nesses tempos apocalípticos. Um menino tão bonito. Um pouco parecido com o tio... De que serve a beleza num menino? Um menino vegano, incapaz de matar uma vaca. De que serve um menino incapaz de matar? Um herbívoro, intoxicado por todos esses pesticidas. Pensei em qual seria o exemplo de meu pai.  Um capitão de exército, inválido. Serviria de exemplo aos netos como combatente ou derrotado?

O conto tem 30 páginas, custa R$3,90 e pode ser comprado aqui:

"Solo És Mãe Gentil" - Amazon

10/08/2019

"TRABALHA NA EMPRESA ESCRITOR"

Quando comecei minha carreira, no começo do milênio, a coisa que me dava mais orgulho era dizer que eu era ESCRITOR. Mesmo antes de publicar o primeiro livro, eu já dizia, e depois quando tinha um, dois, três romances por grandes casas. Hoje em dia o orgulho se intercala com certo... constrangimento. Primeiro porque não faço mais do que obrigação; se antes minha imagem de jovenzinho tatuado causava estranhamento no meio, hoje sou praticamente um estereótipo do escritor tiozão. Depois, porque escritor me parece que qualquer um é, qualquer um pode ser, qualquer alfabetizado (ainda mais hoje com a facilidade da auto-publicação); o conhecimento técnico é difícil de se precisar. Ser escritor é meio não saber fazer nada... (E acho mesmo que QUALQUER UM pode ser escritor – já se é um escritor bom ou ruim, é outra conversa).
Nos aplicativos de “paquera” (porque não uso mesmo para “pegação”), eu digo que sou tradutor; não é mentira, é meu trabalho diário, e dizer que sou escritor não apenas soa meio “poser”, como também abre a possibilidade de a pessoa descobrir imediatamente TUDO sobre minha vida. (Ela invariavelmente vai perguntar: “Escreveu o quê?” Ou pode simplesmente dar um Google em “Santiago” e “escritor” que vai acabar achando meu blog, minhas entrevistas, com quem fui casado... )
De toda forma, acho bonitinho esses jovens que se intitulam e continuam levantando a bandeira de “eu sou escritor”. O tradutor Ivo Barroso diz que “quando escrevemos versos aos vinte anos é porque temos vinte anos; quando escrevemos aos sessenta é porque somos poetas” (e ele coloca isso numa edição do Rimbaud, veja só); mas acho que o mundo não precisa de MAIS escritores tiozões. Eu só insisto porque não aprendi a fazer mais nada na vida. E tenho contas a pagar.

PESSOAS NORMAIS

Crítica que assinei na Folha em 03/12 Connel é o atleta popular. Marianne é a garota esquisita. Durante o ensino médio eles engatam...