26/02/2020

IMAGENS DO CARNAVAL

No alto do trio. 

Enfim, tive um carnaval de respeito.

Ano passado, lembro que fui almoçar com o Marcelino Freire, a gente saiu empanturrado do Planetas, eu imenso de gordo, e passou por nós um bloquinho repleto de jovens em plena forma. Nós nos olhamos e nos concluímos velhos. Achei que isso nunca mais seria para mim.

Eis que um ano depois, o projeto verão funcionou que é uma beleza.

O shape atual.


Foram-se trinta quilos (de 107 aos 77), e arrisco dizer que nunca tive o corpo tão em forma quanto agora. Já fui mais magro, claro, mas não tão sarado-definido. Continuo com dieta-academia, mas tenho perdido muito pouco nas últimas semanas. De toda forma, se der para manter assim já tá ótimo.

Deu até para recuperar o clássico vestido com que escandalizei a sociedade porto-alegrense, em 2001. 

Apesar da boa forma, não tive nada de praia, nada de viagem neste verão. Não pude parar com as traduções, teve a revisão do meu livro novo, e nenhum convite de fato. Reveillon foi (novamente) deprimente, passei sozinho, em casa. Não me chamaram para nada. Não fiz nada.

Então resolvi ser feliz em 2020.

(O escritor e editor) Alexandre Staut é meu vizinho, e um amigo querido que este ano me trouxe (aqui, com Rafaela).
Nas últimas semanas aproveitei o verão de São Paulo, nos parques, nos bares, com amigos. Consegui me bronzear, conheci pelo bairro muitos meninos que só via nos aplicativos; e no pré-carnaval me chamaram até para cima de um trio com a Gretchen e a Rita Cadillac. Bem divertido.

O DJ Rodrigo Borro é outro vizinho querido. 

Com a Rita, no trio. 

Gretchen cantou várias. 

E com Mansur, outro vizinho das letras e o Lufe (do cinema) ao fundo. 

O sábado de carnaval agora podia já ter começado em desastre. Saí de casa, encontrei Veronica Stigger e Eduardo Sterzi, e chegando na Roosevelt uma menina se esfregou em mim. Ela saiu, enfiei a mão no bolso e CADÊ CELULAR? Eu me virei na mesma hora e a menina simplesmente DEVOLVEU. Não sei se ficou com medo, se ficou com pena de eu ser tão coió (é um iPhone 6S, pô, não é tão porcaria...). Mas foi a melhor coisa, que fiquei esperto o resto do carnaval.

Com Staut e amigos. Segunda fui de chifrinhos e uma REGATA que passava por vestido (e cueca, só. Não me pergunte onde guardei o celular). 

Confesso que não comi ninguém, mas beijei bem. Foi um ritmo bem cansativo e não tive a pilha de trazer ninguém para casa. Em todos esses dias eu trabalhei, malhei, segui a dieta (ainda que tenha bebido), então fim do dia já tava morto.

(Basicamente ia dormir às 21h, daí acordava 5h da manhã, depois que passava o efeito do álcool e voltava o efeito dos energéticos. Daí ia trabalhar na revisão do meu livro até meio-dia; saía para malhar e à tarde seguia os bloquinhos. No fim das contas deu para emagrecer mais um pouquinho.)

Terça o visual foi "pai-de-coelha", mas ela deixei em casa, claro. 

De balada de noite mesmo fui só na mais infame... na DANDO, no sábado, aquela festa que o povo tem considerado super revolucionária, que rola nudez e tudo mais. Não achei nada de novo - um monte de cara fortão, sem camisa, um som meio The Week. Eu esperava algo mais alternativo. Mas também deu para encontrar amigos queridos.
Leandro Cunha é dos caras que mais me ensinou sobre música - a gente teve uma banda no final dos 90 (ele cantava, eu tocava teclado, e ainda tinha baixo, bateria e guitarra). Ficamos bons anos brigados. Mas o carnaval serviu para fazermos as pazes. 

Também encontrei o querido DJ Thy, que há anos mora em Paris.

Thiagx é um querido que eu só conhecia das redes. 

Marcelo Maluf e Daniela são outros amigos queridos das letras. 

Se tiver pós-carnaval no fim de semana, seguirei nos bloquinhos. Melhor coisa para mim hoje é essas festinhas durante o dia, que sou tiozinho e durmo cedo. Mas tá dando para ser feliz na terceira idade... ;)

Fim de festa, molhado de chuva, batucando na praça Roosevelt. 

19/02/2020

MINHA VIDA COM ZÉ DO CAIXÃO

(13/03/1936 - 19/02/2020)
Morreu nesta quarta o lendário cineasta José Mojica Marins, o (criador do) Zé do Caixão.

Eu só o conhecia como fã, vi algumas palestras, muitos dos filmes, li a biografia, mas nunca nem cheguei a conversar ou tirar uma foto com ele.

É das figuras mais importantes não só do cinema de terror nacional, mas do cinema nacional como um todo. Como bem lembra o jornalista e pesquisador (e amigo querido) Carlos Primati, apesar de muitos o considerarem "menosprezado", poucos cineastas brasileiros tiveram tanta repercussão (nacional e internacionalmente), receberam tantas homenagens, prêmios, mostras, foram fruto de tantos estudos acadêmicos quanto ele.

Muitos o consideram gênio, outros o relegam ao "trash"; pessoalmente acho que ele tem... tinha um pouco dos dois. Ele tinha o lado intuitivo, inventivo, de criar coisas geniais, inventar sua própria maneira de fazer cinema. Mas também tinha um gosto bem discutível e uma limitação no conteúdo (compensada pela inventividade na forma).

Eu adorava. Não tudo. Mas principalmente os três filmes da trilogia principal: "À Meia Noite Levarei Sua Alma" (1964), "Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver" (1967, meu favorito) e "Encarnação do Demônio" (2008) - esse último (seu último longa) foi uma grande surpresa quando assisti no cinema, um filme pesado, terror de verdade, em sintonia com o melhor do "torture porn" que estava sendo feito na época (um sub-gênero que ele ajudou a criar, e que eu adoro). Vários amigos participaram da produção.

Fico triste de não ter nenhuma história pessoal com ele, mas não se pode dizer que ele se vai cedo, aos 83 anos, há vários debilitado. É triste que não deixa herdeiros diretos, ao menos, não com a repercussão que teve. Como coloquei no meu (malfadado) artigo da Folha sobre literatura fantástica, do ano passado, é sintomático que o cineasta mais bem-sucedido de terror no Brasil tenha se tornado célebre com um personagem que a todo tempo nega o sobrenatural, como para reforçar que o fantástico não tem mesmo espaço entre nós.

Para encerrar, compartilho o pouco que cheguei a ele, quando o querido Eduardo Dussek (um ídolo um pouco mais próximo) foi no programa dele no Canal Brasil, e contou que eu o havia apresentado à Marchinha do Zé do Caixão (começa no minuto 3:20). Estamos no carnaval, dá tempo de ressuscitar a marchinha.






14/02/2020

MATADOR DE PASSARINHO



Na adolescência, descobrimos que havia um rato na nossa casa. Minha mãe comprou algo como um mata-mosca gigante, com uma cola para grudar o bicho. Colocou ração de cachorro. Ideia mais idiota possível. Acordei um dia escutando pios. Havia um passarinho, um sabiá, todo grudado na cola. Eu tentei soltá-lo, mas parecia que os ossos iam estalando, quebrando. Com lágrimas nos olhos, peguei uma telha e matei o bicho.

Na mesma casa, nossa gata deu cria. Passados alguns dias, a gata começou a jogar os filhotinhos na piscina. Matou alguns, tentou afogar outros. Minha mãe se desfez da gata. (Acho que depois disso é que tivemos ratos.)

Uma década atrás, eu estava num fim de semana depressivo, sem dinheiro, saí para dar uma volta numa noite de domingo. Na porta de casa, vi uma gata branca e estendi a mão para acariciá-la. A gata saiu correndo para a rua, passou um carro e eu virei o rosto. Dei alguns passos e, infelizmente, tive a ideia de virar o rosto de volta. A gata estava estrebuchando esmagada no asfalto. Nunca vou esquecer disso.

Já contei essa história aqui, mas quando minha primeira coelha morreu, coincidiu de ser o dia seguinte da eliminação do falecido no Masterchef Brasil. Saímos com ela numa caixa de sapato, procurando pelo bairro um veterinário para deixar o corpo. E as pessoas iam parando a gente pelas ruas, querendo tirar foto com o falecido, achando que ele estava chorando por ter sido eliminado.

Hoje fiz minha boa ação do dia. Morro de nojo de pomba, mas vi uma parada, com a cabeça presa num saquinho plástico. Pisei na ponta do plástico, pra ver se ela puxava, mas ela foi se enrolando mais. Tive de PEGAR a pomba (eca) e rasgar o saco da cabeça dela. "Agora voe, amiguinha, vá transmitir doenças a algum bolsominion..."




02/02/2020

COMO CRIAR UM COELHO


Gostosa. 

Minha coelha Gaia está fazendo 4 anos comigo. Chegou com três meses, para preencher o vazio deixado pela Asda, a primeira coelha, que viveu só um ano e meio.

A Asda, tão lindinha, aqui na sala. 

Eu não tinha essa coisa com coelhos - antes, tive um iguana. Mas um dia passei na Cobasi, vi os coelhinhos, estava em lua de mel, e pensei por que não? O atendente me convenceu que era o melhor dos bichos.

Asda.
Asda sempre foi doentinha - coelha de petshop, comprada por impulso, já veio com problemas de pele, depois passou por uma operação para retirar um nódulo, acabou tendo um sangramento que nunca soubemos o que provocou. (A morte dela foi até anunciada no site da Band, já que ela apareceu no Masterchef, com o falecido. Virou literalmente "estrelinha".)

Já a Gaia foi adotada de uma menina que tinha uma família de coelhos, e nunca teve problema algum. E ela passou bons meses em Maresias, com um quintal para correr, cavar, fazer tocas; terminava o dia coberta de terra. Eu tinha um pouco de medo por causa das cobras (cheguei a ver três cobras no jardim), mas ela foi feliz. Agora voltou a ser coelha de apartamento.


Gaia querendo colo. 

Ela vive solta pelo apartamento enquanto estou aqui. Quando saio ou vou dormir, eu tranco ela na área de serviço. Gaiola nunca usei. Não me arrisco a deixar ela solta sozinha, porque ela destrói o sofá - mas quando dou pequenas saídas, como ao mercado, já não preciso mais trancá-la.

Na terra, em Maresias. 

Durante o dia ela fica quietinha, sempre em algum canto por perto. Se eu desapareço da vista dela por mais de 5 minutos (se vou ao quarto, por exemplo), ela vai espiar onde eu estou. Quando começa a escurecer, ela vai para o sofá, para receber carinho e ver TV comigo. No dia que escureceu em SP no meio da tarde, ela já foi para o sofá esperar por mim.

Ela na porta do quarto esperando por mim. 

Nos dias mais depressivos, é ela quem me faz sair da cama, levantar para dar comida para ela . Faz a diferença ter um animalzinho ansioso esperando (e ela fica mais ansiosa para me ver e ir para a sala do que para comer). Coelho é um bicho bem carente, carinhoso (eu digo que mais do que gato, menos do que cachorro; demonstram o amor lambendo); para mim, é o bicho de estimação ideal.


Já postei algumas vezes aqui no blog as dicas para quem quer ter coelho em casa. Aproveito então este aniversário para reforçar/atualizar, com perguntas e respostas básicas:


O QUE COME?
Folhas escuras (escarola, agrião, couve, catalônia, almeirão, chicória) (rúcula também pode, mas a Gaia não gosta e não come de jeito nenhum, ela separa e bota fora). Alface falam que dá diarreia. Espinafre falam que tem ferro demais.

É bom complementar também com ração, em pequena quantidade (mas uma BOA ração, tipo Nutrópica ou Funny Bunny; tem muita ração que é pra engorda, pra coelho de abate.)

Feno também é indispensável, para ajudar na digestão e precisa estar sempre disponível. (E hoje já se encontra com facilidade nesses petshops grandes). Alfafa tem muito cálcio e não é bom dar sempre.

Frutas e cenoura podem ser dadas, mas em moderação, como um petisco, porque engordam muito o coelho e podem provocar diabetes. (A Gaia é mega gulosa, e eu posso ter acabado de colocar as verduras dela, se ela sente cheiro de fruta que eu esteja comendo, ela larga as verduras e vem pro meu pé querendo fruta).

ONDE FAZ XIXI/COCÔ?
Em bandeja. Igual gato. Depende um pouco do coelho, mas em geral aprende fácil. A Asda fazia xixi na bandeja, mas soltava uns cocozinhos pela casa. A Gaia NUNCA faz nada fora da bandeja. É uma lady. Uma dica é encher a bandeja com feno - ela reconhece como o único lugar na casa que tem um "matinho" e faz tudo lá.



Gaia na bandejinha. 
PRECISA PASSEAR?
Não. Muita gente recomenda até NÃO passear, porque coelho se assusta/estressa fácil. Certamente não dá para sair de coleira. Eu saio vez ou outra com ela até a feira da esquina, no colo.


"Tô suave."
ATENDE AO NOME/CHAMADO?
O coelho ENTENDE o nome, certamente, mas não necessariamente atende. Acho que depende do animal. A Gaia, se eu chamo na sala, ela vem quando quer, se eu chamo na cozinha ela sempre vem, porque sabe que vai ganhar comida. É mais ou menos como gato.




MORDE?
Essa eu coloquei aqui porque muita gente me perguntou, mas não sei de onde o povo tirou isso. Coelho não morde. Eu literalmente coloco o dedo na boca da minha coelha. Eles têm os dentes da frente e pouco mais do que isso. O que eles fazem principalmente de defesa é arranhar. Daí se você alopra com o coelho dá para furar umas roupas, mas também pouco mais do que isso; unha de coelho não é afiada como de gato.

PRECISA VACINAR?
Não. Não existe vacina pra coelho no Brasil. Na prática, coelho não precisa de veterinário, a não ser que seja doentinho como a Asda.

PRECISA CASTRAR?
Essa é controversa. Muita gente recomenda, não só pela procriação, mas por risco de câncer, porque o coelho fica mais calmo, etc. Mas a veterinária também já me falou dos riscos da cirurgia de castração em coelhas fêmeas - é um bicho muito frágil. Macho é bem mais fácil castrar (mas também não tem o risco do câncer de ovário). Então é algo a se ponderar. Eu não castrei.

COMO DAR BANHO?
Não se dá banho. Dizem que faz mal, cria fungos, problemas de pele e pode causar resfriados. O coelho se lava o dia todo se lambendo, como gato, e tem um cheirinho bem gostoso (de casaco de pele...). Eu NUNCA dei banho na Gaia, mesmo ela já tendo se coberto de lama.

PRÓS?
- É um bicho interativo, carinhoso. Não escala, como um gato (então não vai conseguir roubar comida da mesa), não faz barulho ALGUM (então não vai ficar latindo, miando enquanto você estiver fora); não tem altos custos mensais (porque come pouca ração, o principal são as verduras); não precisa de tanto espaço e atividade como um cachorro (mas não seja cruel de deixar numa gaiola); não fede (falam que xixi de coelho fede - mas a minha só faz na bandeja, que fica na área de serviço, então não sinto nada).

CONTRAS?
- Rói TUDO. É preciso deixar coisas para o coelho roer, porque o dente está sempre crescendo, mas mesmo assim, ele vai roer tudo o que estiver ao alcance dele (principalmente fios de eletrodomésticos); então é preciso meio preparar/blindar a casa. Também solta pelo - e tem períodos de troca que solta MUITO pelo. E é um bicho carente, que não pode passar um dia sem companhia, nem dá para deixar só ração pra ele e viajar (porque ele PRECISA de verdura fresca todo dia).

ONDE CONSEGUIR?
Os petshops vendem barato (por volta de R$100), porque é um bicho que se reproduz com facilidade. Mas NÃO compre, procure adotar. Entre em grupos de doação nas redes sociais - foi o que eu fiz com a Gaia. Os coelhos de petshops vêm com vários problemas, por essa procriação intensiva; são tirados muito cedo da mãe - quando comprei a Asda, me disseram que ela tinha três meses (porque é a idade recomendada para desmamar), mas ela era tão pequena e coelho cresce tão rápido, que hoje sei que ela era menor. E eu vejo tantos coelhos minúsculos em petshop, que sei que eles têm poucas semanas. NÃO compre. Espere um pouquinho mais e adote, que seu coelho vai viver bem mais.

A Asda veio desse tamanho, nem tinha desmamado. 

(E fico mega feliz que a menina que me doou, que era uma adolescente na época, hoje está se formando em veterinária, e me enche de orgulho com as postagens politizadas contra o governo que faz nas redes.)


Como não posso sensualizar passeando com coelho, só me restam as redes...

A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...