27/05/2019

MANUAL DA MALDIÇÃO



Eu detesto oficinas. Acho uma enganação. O escritor não consegue sobreviver escrevendo livros, então decide ganhar a vida ensinando outros a morrer escrevendo livros.  

Mas eu também preciso sobreviver...

Cinismos à parte, sempre falei aqui, repeti aqui sobre isso: como não gosto de oficinas, como não dou oficinas, sendo que já dei uma ou outra oficina, quando não pude escapar (e me senti uma fraude). Eu queria mudar minha opinião. O escritor precisa recorrer a tudo para sobreviver. Mas o que sempre disse, o que sempre acredito, é que se escrever não é algo inevitável para você, se a escrita não vem como algo natural, uma punção (ou “punição”, maldição), e um prazer, então para quê? Se é algo difícil, doloroso, vá fazer algo que dê mais retorno! Por que ensinar algo que não serve para nada?

Mas eu ainda preciso aprender...

Estou com dez livros publicados (além de um ou outro com pseudônimo). Sem contar mais de 60 traduções. Escrever hoje para mim é algo muito, muito fácil. Eu não tenho, nunca tive crise criativa. Se alguém me encomenda um livro hoje para entregar daqui a três meses eu entrego em dois meses e meio. Isso não quer dizer que escrevo bem. Isso eu não tenho como avaliar. Escrevo fácil, mas queria escrever melhor. E isso passa também por tentar dificultar as coisas – procuro sempre fazer o que não fiz; não por acaso este ano publiquei meu primeiro infantil e ano que vem lanço um romance histórico. Busco desafios. Mas como evoluir se não há de fato ninguém avaliando? As críticas são poucas e ligeiras (o que mais sai hoje é entrevista, release, o autor falando do próprio livro). Nos prêmios literários eu não estou... (significa?) A publicação em si, a aceitação por uma grande editora também é um termômetro. Mas é pouco.

O único modo de evoluir é seguir lendo, seguir fazendo.

Ou participando de oficinas literárias...

Então resolvi ler o manual da MAIS CELEBRE oficina literária do Brasil: “Escrever Ficção – Um Manual de Criação Literária”, do Luiz Antonio de Assis Brasil. Há mais de 30 anos ele ministra essa oficina em Porto Alegre, e por ela já passaram inúmeros autores de renome, amigos e queridos, que só têm elogios a lhe fazer. Eu, que sempre vi oficinas com cinismo, tinha suspeitas e curiosidade. E o livro as esclareceu.

O livro é exatamente o que eu esperava, para o bem e para o mal. Não que eu discorde dele, pelo contrário. Ele sabe do que está falando. Mas a maior parte do livro me pareceu puro... senso comum.  Pareceu. Talvez não seja senso comum para o público em geral; e talvez eu não seja o público. Mas quem é? (Aparentemente muita gente, porque o livro é um sucesso – assim como as oficinas.) Então volto à pergunta: por que esse povo quer tanto escrever?

(Me pergunto se a escrita pode ser levada como tocar violão, tocar piano, que se aprende sem pretensões de se tornar profissional... Tenho minhas dúvidas.)

O livro parece trazer consciência da utopia de sua missão de ensinar a escrever. Então, embora se declare (na capa) como um manual, não traz tantas respostas definitivas. Melhor assim. Para mim, trouxe algumas questões interessantes de terminologia, como a diferença entre cena e sumário – mas dessa parte técnica eu esperava mais, queria mais. Também traz bons (e bem poucos) exercícios de escrita. 

O grosso do livro é a análise de trechos literários de grandes autores. Daí para mim é como se explicasse a piada, revelasse o truque de mágica, como se tentasse entender a personalidade de um cachorro através de uma autopsia. Tira muito da magia de textos que eu já li, estraga o interesse por textos que ainda não. Sei que é uma visão pessoal, que eu prefiro ter uma relação mais afetiva com a leitura e mais intuitiva na escrita. Não à toa sempre fugi da vida acadêmica. (Eu cheguei a entrar em letras na USP, inclusive, em 2000, mas já estava me formando em comunicação na FAAP e desisti do curso...[Para fazer doutorado em Harvard, é o que dizem.])

Com essa missão de “manual”, Assis Brasil mira num grande público e cria uma moldura um tanto quanto... burguesa (que poderia assumir um tom dândi mais divertido, se investisse um pouco mais na afetação). A narrativa que permeia o livro, de um estudante tentando escrever seu primeiro romance, dá a impressão de que estamos lendo um texto “médio”, aprendendo a escrever um livro “médio”, porque o livro fala com um público médio.

Assim, acho que mais do que “aprender a escrever”, tirará proveito do livro quem curtir análise literária. Não é meu caso. (Não consigo nem ler as teses de mestrado feitas a partir da minha obra...).

(Oh, pensando agora.... Que visão tão negativa é essa? Por que ainda insisto? Eu deveria ter buscado outra carreira... Ainda há tempo de voltar atrás?)

Acho bonito quando vejo autores com origens humildes declarando como a arte/literatura foi uma forma de ascensão social/cultural (Ferrez, Marcelino, Henrique Rodrigues). Na minha família foi exatamente o contrário; tanto o lado do meu pai quanto o da minha mãe trazem histórias de decadência financeira ao se envolver com as artes. Eu devia ter aprendido e não cometer os mesmos erros. Talvez por isso eu veja a literatura como uma maldição...

(E hoje os livros proliferam pela minha casa como fungos, tomam todas as superfícies planas. Se quero trazer alguém para cá preciso perguntar antes: "Tem rinite, TOC?" Se tiver os dois a pessoa MORRE ao entrar aqui...)


Por fim, quando postei a foto desse livro, há algumas semanas, tive o comentário de um jovem escritor: “Queria [ler], mas resolveram vender essa coisa por um preço absurdo de 80 reais. Deixo pra outra encarnação.” Não acho que o preço chegue a ser absurdo, por um manual de 400 páginas, mas respondi com puro cinismo: “É um investimento. Depois de ler o livro você vai ganhar horrooooores como escritor.”

13/05/2019

4.2



42, corpinho de 46, espírito de 64. 


A sensação que eu tenho é que estou voltando de uma longa viagem, de uma terra estrangeira, de volta a São Paulo, cenários tão familiares, mas seis anos mais tarde.

Acabo de completar 42 anos – corpinho de 46, espírito de 64. Há anos que sinto que vivi mais do que o suficiente, mas insisto. Sem grandes vontades, é verdade; passei o último ano basicamente trancado em casa, só trabalhando para pagar as contas, deixando o tempo passar, os planetas se realinharem... Daí quando me dei conta estava tudo fora do lugar.

Estou solteiro de novo, depois de seis anos – a sensação que eu tenho é que estou voltando de uma longa viagem... O ex-cozinheiro soltou a mão e fugiu para o outro lado. Não era mais um relacionamento confiável; uma pessoa que só me colocava para baixo...

Mas o que não me deixa para baixo nos tempos em que vivemos?

Trevoso. 

Daí, estou tendo de me esforçar a sair mais de casa, voltar à academia, ver os amigos, conhecer pessoas. “Aproveite para se dedicar ao trabalho”, me disse uma. Eu só me dedico a isso - eu não saio, eu não transo, não vejo a família. Mas é uma fidelidade não-correspondida. O que eu tenho a oferecer as pessoas não valorizam... “A vida é muito maior do que a escrita”, dizem outros casados e com filhos. A minha vida não é maior do que nada.

É só a coelha que me faz levantar da cama todos os dias.



A sensação de retorno não é só pelo fim do relacionamento. O trabalho mais estável nos últimos meses me possibilitou ir colocando as coisas no lugar. O sofá destruído (pela coelha): vamos arrumar o sofá; as cuecas velhas de casado: troquei por novas da Calvin Klein; o celular... Passei um ano sem celular – e antes disso, pouco usava. Então com iPhone novo comecei a usar mais o Instagram, baixei Tinder, e Grindr, e Hornett, e Uber, e Whatsappp... nunca tive Whatsapp... Os aplicativos de pegação eu até já tive, 6 anos atrás, conheci o falecido assim, mas agora é um mundo novo, ou um mundo a que retorno, depois de uma longa viagem, ou de um coma, seis anos mais velho...

E que preguiça, meu deus...

Descamisado, bem padrãozinho, aos 33. 

Ao menos afastei a preguiça da academia. Quem me acompanha há tempos sabe como já fui rato, rato de tanquinho. O tempo passou e eu deixei passar. Já não sentia necessidade alguma de exercício físico. Tão bom poder ficar dias e dias sem ver ninguém, nem sair de casa... daí ir ao mercado e voltar. Mas o corpo cobra o preço. Voltei a malhar e fazer funcional há pouco mais de um mês, o peso vai diminuindo, e já consegui restaurar a vontade de malhar TODOS os dias – porque para mim as coisas só funcionam assim: se for para fazer, tem de ser para valer. Sou da escola da androginia, e sei que nunca mais serei um rapaz lânguido e esguio – até porque, nunca mais serei rapaz – mas com toda a MASSA que tenho, estou aprendendo a me aceitar como homão.

A foto atual padrãozinho na academia...

(Se eu posso dizer que há UMA coisa que eu gosto em mim hoje, uma ÚNICA coisa, deve ser exatamente o que você sugere que eu deva cortar: meu cabelo. Mesmo cada vez mais branco, é tudo o que me resta.)



 Então nesse aniversário de 42, resolvi chamar os amigos. Pensei primeiro nas amigas, as meninas – buscar um pouco de colo; passei Natal, reveillon e Páscoa sozinho, afinal. Agora, o dia das mães dificultou. “Aniversário não é importante”, “problemas todo mundo tem”, foi meio o que escutei ; “relacionamentos vêm e vão”, me disse uma quarentona que nunca teve um relacionamento estável. Lembrei porque nunca comemoro aniversário – parece um estorvo, que estou pedindo favor. Não é importante para mais ninguém  - mais ou menos como lançar livro. Nossa vida não é importante para ninguém. A gente morre e o pessoal corre para não perder o pilates.

Mas então os amigos, os meninos – que não tinham pilates – não me decepcionaram. Os meninos mais próximos toparam. Obrigado aos queridos que estiveram comigo nesse domingo.

No Badauê, o melhor restaurante de Maresias, agora em São Paulo. 

E que venham mais... 42? Não, 4.2 está de bom tamanho... Julho de 2023 já está mais do que bom.


(Enquanto isso, nos aplicativos...)










A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...