29/03/2019

COMO PUBLICAR SEU LIVRO E GANHAR MILHÕES

Conti em aula. 


Terminou ontem o curso sobre publicação/edição que fiz com André Conti, na Escrevedeira. Achei interessante ver um pouco a visão do editor, os processos editoriais - até porque, trabalho há mais de 15 anos com editoras, mas sempre de casa, nunca peguei o "dia-a-dia da empresa".

Conti é editor de primeira, ficou mais de dez anos na Companhia (saiu bem quando eu entrava) e hoje é um dos sócios da Todavia, que tem publicado só coisa fina. Muito das visões que ele aplicou nessa nova editora bate com o que eu acredito, de não domesticar as traduções, de fazer o livro já pensando que o leitor tem hoje a internet à disposição, não transformar aspas de diálogo em travessões (argh!). Sensacional também a ideia que tiveram de fazer edições que "mantivessem as páginas abertas" (fisicamente) - toda a parte prática da publicação do livro (que foi a primeira aula) foi a mais interessante (ou inédita) para mim.

Mas sempre é curioso ver grandes editores falando (e eu só sento para ouvir grandes editores), porque eles sempre passam uma visão bastante... idealizada do trabalho; o editor que lê e relê a obra, sugere mudanças, toma "oito cafés com o autor" (como Conti colocou ontem). Fiquei observando os outros alunos, que pareciam ter menos experiência na área; eu tinha vontade de dizer: "Gente, isso é exceção. Não é assim que (não) funciona o meio editorial; os editores mal leem seu livro." Com dez livros publicados, conto nos dedos (de meia mão) quais tiveram leituras-sugestões de editores. Nunca nenhum editor tomou OITO cafés comigo. E isso que comecei a publicar razoavelmente cedo - eu era iniciante e os editores eram mais velhos-experientes do que eu, podiam ter me direcionado. Só fui ter um trabalho maior de edição nos livros mais recentes... (que fizeram menos sucesso - rá!)

Mas também sinto mais falta hoje do que antes. No começo, não queria que ninguém mexesse nos meus livros. O primeiro livro que senti falta de um trabalho de edição foi "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego" (e deu no que deu). Hoje, acho fundamental a leitura da editora - até porque, não mostro os originais para quase ninguém. (Não por protecionismo, mas porque acho chato incomodar colegas escritores que têm tanta coisa [melhor] para ler.)

Todavia, é lindo ver que ainda há editores apaixonados, como o Conti, o trabalho dele com Joyce e, principalmente, alguém disposto a trabalhar com literatura, sem pretensão de se tornar escritor.

No mais, o curso serviu também para eu me familiarizar com o formato, ou formatos possíveis. Nunca fui aluno de oficinas de escrita literária. Já ministrei uma ou outra, com resultados sofríveis. (A pior delas foi em 2009, na Venezuela, uma oficina de uma semana em portunhol... Me convidaram e pensei: "bem, o que acontece na Venezuela fica na Venezuela". Serviu realmente para eu entender que eu não sabia fazer a coisa. E ficou por lá. [Bem, os alunos, se ainda estão vivos, nem devem ter mais acesso à internet...])

(Acho curioso os amigos que vivem de oficinas de escrita, mas não conseguem escrever seus próprios-próximos romances. Escrever para mim não é problema; ensinar já não me atrevo.)

Para mim, funciona melhor quando é algo pontual, de um dia (como há quinze dias, em Jacareí), daí eu dou a real do meio literário: "As formas de publicar são essas, você ganha isso, as tiragens são essas, as formas de divulgação são essas, desista de escrever." Na verdade, acho que escrever tem de ser inevitável. Se você não consegue, é difícil, doloroso, vai fazer outra coisa, que você ganha mais. Não quero estimular ninguém a se foder.



25/03/2019

SCOTT BRIGHT




Acordo com a notícia da morte do Scott Walker - um dos cantores que mais influenciou meus cantores favoritos. David Bowie, Brett Anderson, Susanne Sundfor sempre o tiveram como uma referência; Pulp chegou a ter um álbum produzido por ele. Walker (nascido Engel) começou a carreira ainda adolescente, nos anos 50, fez sucesso nos 60 com a boy band Walker Brothers, depois seguiu numa carreira solo cada vez mais cabeçuda. Nas últimas décadas, vivia recluso e fazia álbuns estranhíssimos. 

Aqui um documentário bacaninha sobre sua vida, com depoimento de vários fodões:




E deixo minha homenagem com minha playlist de favoritas, de todas as fases de sua carreira.

17/03/2019

PLIJ - PRÊMIO LITERÁRIO DE JACAREÍ



Na solenidade. 

Entregamos ontem o Prêmio Literário de Jacareí, uma iniciativa do jornal Semanário, da cidade, da qual tive a honra de ser curador, junto a Caroline Rodrigues e Ana Laura Estaregui.

Com Inez Valezi, dona do jornal que promoveu o prêmio. 

O trabalho de curadoria envolveu não apenas a seleção dos inscritos (como jurado), mas todo o processo, da criação do edital à entrega do prêmio. E foi um trabalho bem gratificante, tanto pela relação com o pessoal (as colegas da curadoria, o pessoal da organização), quanto pelo resultado das inscrições. Chegamos num consenso fácil de três ótimos representantes em romance, poesia e conto.

Os livros.
O romance vencedor foi "Quem tem Medo dos Lobos do Mal", de Giorgio Cappelli, voltado ao público juvenil.  Conta a história de três lobisomens adolescentes no Pantanal, com um humor rápido, inteligente e uma prosa muito bem estruturada.

Na categoria poemas, Rafael Quintiniano levou com "Elétrons no Céu de Netuno", uma escrita psicodélica, originalíssima, sem rédeas. Foi um autor que impressionou nós três.

E no conto/crônica tivemos uma prodígio de 16 anos, Larissa Bueno, com um texto fluído e gostoso, que se comunica muito bem com sua geração: "A Mudança que Eu não Vi."

Os três vencedores. 

Ficamos bem felizes com a escolha dos três, que além de vozes muito próprias são uns queridos. Cada um ganhou uma pequena tiragem de seus livros + 2 mil reais. Na solenidade, batemos um papo rápido com os três.

O queridíssimo Gustavo Valezi, que organizou tudo desde o início. 

Aproveitamos também a passagem pela cidade para dar um workshop de uma tarde. Eu dei uma geral-real sobre o meio literário (primeiros passos, formas de publicação, relação com as editoras, valores, etc) e Caroline deu exercícios para soltar o pessoal. Dia cheio. (Ana Laura não pode estar com a gente, porque acabou de ter bebê.)

O pessoal da oficina. 


Volto agora para casa, para as traduções, sem nenhum evento em vista. Para mim está um ano bem devagar de viagens e eventos literários, mas ao menos não falta trabalho (de tradução).
Todo evento literário tem um senhorzinho com livros debaixo do braço. Pois este teve um dos melhores: Carlos Bueno Guedes é um patrimônio da cidade, que não só trouxe livro meu para eu autografar, como me presenteou com essas duas pérolas. 





11/03/2019

A FESTA DO DRAGÃO MORTO




ENFIM saiu projetinho antigoooo, uma das minhas fábulas cínicas, que adaptei para a criançada. “A Festa do Dragão Morto” é meu primeiro primeiro livro para o público infantil, ilustrado pelo Rogério Coelho, saindo pela Melhoramentos. Ficou bem bonito. 



 Agradeço aos queridos da Melhoramentos, Leila Bortolazzi, o Tiago de Melo Andrade que me levou para lá, e minhas agentes Lúcia Riff e Eugênia Ribas Vieira, que cuidaram de tudo. (Não vou fazer noite de autógrafos, não, mas já tá chegando nas livrarias. E tem mais coisa vindo aí – inclusive romance novo, novamente pela Companhia.)

Conto com a força de quem tem filho pequeno, quem trabalha com escolas, etc. 



Aproveitei e atualizei também aqui a aba “obras”. Já passei de uma dezena (isso sem contar o que publiquei com pseudônimo...). Por enquanto, só os três primeiros estão fora de catálogo.

São meu maior orgulho, projetos tão pessoais, que sempre consegui viabilizar por grandes editoras. É o que sempre falo, já trabalhei em tantos projetos de cinema, TV, teatro, mas poucos vêem a luz do dia – quando depende de outras pessoas, de patrocínio, a coisa não anda. É frustrante fazer tantos projetos que são engavetados. Mas, em livro, é eu sentar para escrever que a coisa sai. 


 "Se não há santo que me salve, 
salve Jorge meu Dragão
Que em meus sonhos ele acorde,
e que coma na minha mão..."

- de uma letra minha... que nunca saiu. 

Meu dragãozinho, o Araki (que morreu em 2011), com minha tattoo de dragão (que permanece)





03/03/2019

LEMBRANÇAS DE CARNAVAIS PASSADOS


Com Renatinha Simões e Cris Lisboa, Jurerê 2011. 

Estou pulando o carnaval. Tenho de agradecer que este ano começou com muito trabalho, as contas em dia, então sigo como todos os dias, trancado em casa, alimentando a coelha, trabalhando numa tradução, me esforçando para manter a cabeça no lugar.  

Aproveitei também para fazer uma faxina, assisti a "Beautiful Boy" (bacaninha) e li "A Vegetariana" da Han Kang (começa bem, depois fica um pouco... "vulgar"... tsssss). Fiz uma tatuagem nova também, a vigésima: o escudo do brasão armênio com o Monte Ararat (sem a arca), uma marca de minhas raízes e de toda a pesquisa que tenho feito, começando com minha viagem para lá em 2015. 




Voltando ao carnaval, nunca gostei. Nunca soube sambar. Samba para mim, só de fossa, samba-canção, ou então aquelas marchinhas antigas. Afinal, sou mau sujeito, ruim da cabeça e doente do pé. Mas não me faltaram carnavais alternativos...

Dia desses, voltando do banco, encontrei o Thy, um querido amigo de "folias passadas", que mora há muito tempo na Europa e veio trabalhar como DJ no carnaval. Eu costumava virar noites com ele - e ele continua, porque trabalha com isso. Eu não teria sobrevivido...


Me trouxe lembranças de carnavais passados - impossível ser brasileiro e não ter histórias para contar. Pensei que poderia dar um bom post (este); pensei que já tinha escrito algo assim. E revirando os arquivos (por isso é bom ter um blog tão antigo), encontrei lembranças de carnavais passados, em 2013. Bom que reaviva minha memória e me dá menos trabalho. Requento essas lembranças com minha visão de hoje: 
 
Em 2013 (com Paulinho), a fantasia era de gripe suína. 


- Aos sete, oito anos, eu passava o carnaval com a família em Campos do Jordão, criancinha gótica, vestida de preto, fantasiada de vampiro. Naquela época já me incomodava a música "Cabeleira do Zezé", porque eu tinha um cabelo compridinho, achava que a música me denunciava, que todos olhariam para mim...

- Minha primeira paixão de carnaval aconteceu aos treze anos, num cruzeiro de navio para a Argentina. Conheci à bordo uma gaúchinha de Passo Fundo e ficamos juntos num namorico infantil em alto mar, muito antes do Titanic (do filme, né?). Mal sabia eu que NUNCA mais teria uma história de amor à altura...

Carnaval em Floripa lá por 2001...

- Quando eu morava em Porto Alegre, com uns 23 anos, decidi em pleno sábado de carnaval pegar um ônibus para Florianópolis. Achei um hotelzinho muquifo no centro, segui pra Praia Mole, e lá conheci um menino que me hospedou nos próximos dias. Os pais dele tinham uma cadeia de lojas de móveis, e a gente ficou numa das lojas. (Sim, nós usamos algumas camas de mostruário.)


- A maioria dos carnavais da década passada eu passei em São Paulo mesmo, me drogando loucamente, pulando de clube em clube, de menino em menino... Tenho flashes, mais do que lembranças...

No Glória, em 2003. 

- O único carnaval que passei no Rio foi em 2003, como se deve. Meu ex chefe de Londres (onde trabalhei como barman em 2002), resolveu conhecer o carnaval carioca e fez questão de que eu fosse com ele, como guia e intérprete, com tudo pago. Fomos nas festas, bloquinhos e ficamos hospedado no Hotel Glória (que já estava decadente, mas um decadente bacana, meio kitsch). 



- Falando em hotel decadente, também passei um carnaval no C'adoro, do baixo augusta, pouco antes de fechar, em 2009. Meu namorado da época trabalhava com a Cris Lisbôa na revista Simples, e eles armaram um ensaio fotográfico no hotel, que já estava fechado. Foi um carnaval meio surreal, tomando champagne na piscina de um hotel fantasma, aqui do lado de casa.


- Passei outro carnaval com a Cris em 2011 (de onde vem a foto que abre este post), em Florianópolis. Eu estava de rolo com um surfistinha ordinário que desapareceu durante o feriado, mas não deixei por menos. Eu morava numa casa ao lado da praia, com uma varanda ótima com vista para a folia da rua; então recebi a Cris, recebi o Paulinho; foi uma maratona de festas, drinques, champagne e ecstasy. Peguei de lá muito do clima para meu conto "Água Viva", que saiu na antologia "Um Ótimo Dia para Morrer", que fiz com Raphael Montes, Ilana Casoy e os alunos de nosso workshop sobre literatura de horror (de 2017). 




(Sim, não parece, mas é um conto de terror... ou "pós-terror", de umas trinta páginas. Dá para comprar a antologia em ebook aqui: https://www.amazon.com.br/%C3%93timo-Dia-para-Morrer-hist%C3%B3rias-ebook/dp/B07L9CYBBX)


Carnaval frígido na Lapônia. 


- Teve o carnaval de 2012, que estava morando na Finlãndia, e aproveitei para rodar pela Lapônia, para poder postar fotos gélidas e fazer inveja aos foliões daqui, que sofriam com o calor. 




Carnaletras com Rodrigo Lacerda, Joca Terron, Ivam Marques, Mutarelli, Ivana, Tati Bernardi, Bressane, Marcelino, Noemi, del Fuego, Xico Sá e mais uma porrada. 

- Num dos últimos anos, a Ivana Arruda Leite recebeu uma porrada de escritores em sua casa, para um carnaval literário. Eu postei essa foto, com uma  legenda de brincadeira, algo como "toda a cena literária contemporânea",e vieram os escritores desaplaudidos protestar...


- Desde então, tenho me comportado direitinho. Ano passado, eu estava em Maresias com o Murilo, e ele até saiu para as "baladas" - Deus me livre. Eu fiquei em casa, como boa esposa, esperando ele voltar, até o sol raiar ... 


Este ano, o mais perto que passei de um bloquinho foi com o Marcelino. Nos encontramos depois de aaaaanos para colocar o papo em dia; e saindo do restaurante fomos alcançados por um desses blocos do baixo-augusta, cheio dessa gente paulistana pálida, torso nu, uns pelos purpurinados, uma magreza desencaixada. Deu certa nostalgia, certa repulsa, certa vontade. Mas não tenho mais idade para ser feliz. 

Semana passada, folia só no copo. 

A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...