31/03/2008

ANIMAIS BONZINHOS


(Bastidores de Cymbeline)


Cristiane Lisbôa não come animais bonzinhos. Outro dia fomos jantar num restaurante chicoso e eu a ouvi dizendo isso ao garçom que oferecia cordeiro. Não come animais bonzinhos. Ela come carne, então não sei como pode achar que os bois são perversos. “As galinhas são más, elas nos perseguem”, me disse ela. Muito bem, as galinhas nos perseguem. Eu percebi que como apenas – APENAS – os animais bonzinhos. Hoje, numa peixaria, cresci os olhos para uma embalagem de cavalo-marinho - Quero cozinhar cavalo-marinho - Mas era só a marca na embalagem. Dentro havia polvo, ou lula, ou vôngole, esses animais sem coração...

Sou um magro de alma gorda.

Assim, encho a boca para falar dela, minha afilhada, que assim se tornou porque tinha muito, tanto, em comum.

O morto geme de dor. Está muito cheio de movimentos, de olhos bem abertos, implora, cospe, reza o Pai Noso em voz bem alta. Chora, bebe as lágrimas que o ruivo derrama. Que coisa desesperadora é ver alguém assim.

Trecho de seu novo livro: "Sylvia Não Sabe Dançar", um pulp fiction de costumes (adorei isso, "pulp fiction de costumes"), novela recheada de frases fabulosas, trama ironicamente sórdida, que eu tive orgulho de prefaciar. Pois é, Cristiane Lisbôa é da minha turma. E nos aproximamos como leitores-escritores, que agora podem se chamar de amigos. Assim me sinto mais próximo dela do que de qualquer outro autor na literatura contemporânea. Sabe como é, num mundo onde todo mundo diz que escreve, eu leio as frases dela e vejo na hora a diferença. A apresentação que eu assino do seu livro é essa aqui:

Após ter publicado belos volumes de contos, Cristiane Lisbôa estréia com esta novela rodriguiana, uma comédia de costumes bizarros, de humor cruel e ironicamente melodramático. Em 1929, uma jovem professora de balé mata o jornalista que a difamou. À partir desse assassinato, resgatamos a história de Sylvia, numa narrativa recheada de incesto, escândalos e relacionamentos sórdidos. Em resumo, uma delícia. Já há alguns anos vemos nos deparando com uma enxurrada de novíssimos escritores, sempre carregados de promessas e possibilidades. Nesse contexto, Lisbôa chega para deixar clara a diferença. É só ler as primeiras frases, as primeiras páginas, para evidenciar que encontramos uma escritora de fato, de talento inegável, lirismo e inteligência. No final, das centenas de frases brilhantes do livro, é possível encontrar uma conclusiva: “À partir de hoje, defendo que todos os bons escritores devam ter assassinado alguém a sangue-frio.”

E é isso. O livro virou um pocket fofíssimo (entregue aqui na minha casa com um camafeu de petisco). Ela lança na quinta-feira de noite, na Livraria da Vila da Alameda Lorena. Quem quiser mais detalhes, pode conferir o belo site: http://www.sylvianaosabedancar.com.br/

(você já viu site de livro melhor do que este? Se livro não fosse um produto cultural fantasma, todas as editoras fariam sites assim. )



Já eu, estou dando os últimos toques em "O Prédio, o Tédio..." depois nem sei mais. Andei conversando muito nas últimas semanas sobre teatro. Carl Grose, autor britânico que fez o texto de adaptação de "Cymbeline", me deu muitas dicas. Andei pensando muito nos últimos meses sobre outras possibilidades. Acho que vou dar um bom tempo para escrever outras coisas, talvez peças. Pensei até em adaptar "Mastigando Humanos" para o teatro, não sei. Só sei que não quero estacionar, fazendo sempre as mesmas coisas. E por aqui parece que não há muito além para evoluir. Quero dizer, a literatura, é tão restrita, tão pouco difundida. E os outros veículos são uma piada. Peças de teatro? Roteiros de cinema? Pfffffffff. Enquanto não morrerem todos os idiotas que ainda acham que é necessário mostar nossos serrados e nossas favelas, ou quaisquer outros cenários beges que eles acreditem que sejam mais NOSSOS do que qualquer cenário interno que se possa imaginar- porque eles NÃO podem imaginar - a gente vai continuar no brasil intelectual oficial. É isso, falta um pouco de imaginação. Mas essa é uma bandeira que eu carrego há tempos. E não sou de todo desesperançoso, porque parece que está surgindo uma geração (a minha geração) de cineastas muito mais interessantes. Gente como Esmir Filho, Felipe Sholl, Daniel Ribeiro e Marco Dutra. (E que morram de dengue todos os outros!!!)

Mesmo assim, é um pouco desestimulante pensar que, como escritor, o máximo que você pode ascender é a autor de outra coisa: autor de teatro, de cinema, não há como crescer como um mero autor por escrito. De Livros. Triste.

Por isso, quero experimentar outros veículos, ao menos como experiência, como já venho fazendo com o cinema. Porque também o meio editorial entupe minhas artérias.



Santiago Nazarian e Carl Grose nos bastidores de Cymbeline


Toda a equipe.


Então... sei lá... é por aí. É isso mesmo. Estou preparando o livro novo. Contando com todo o seu entusiasmo. E bastante amargurado de pensar que o máximo de sucesso que posso ter é vender 3 mil cópias (uma edição) nos primeiros meses, depois mais alguns milhares de gotas em gotas, e ainda ouvir cobranças e ataques como se uma vírgula errada pudesse provocar mais dano à cultura brasileira do que qualquer letra de Ivete Sangalo.

Entenda: é esse o Godzila que destrói nossas metrópoles, enquanto sou um micro aligator monologando nos esgotos...


Mas esta é uma alegoria antiga. Atualizando: são esses os zumbis que babam em nossas ruas, enquanto sou um simples assassino de criancinhas.

Bléh!

E devo discutir um pouco sobre isso com os alunos de letras do Mackenzie, numa palestra que vou dar esta semana. É bom conhecer gente nova que está estudando isso em dias atuais. Debater um pouco sobre as possibilidades. Pode parecer previsível um autor lamentar ter de migrar para o cinema ou a TV, mas não é. Sei que grande parte dos jovens autores que estão aí dariam tudo para ter essa oportunidade. Mas não é esse meu sonho, não é nisso que me especializei. Eu ainda preferiria ter tudo no papel, por escrito.

Anyway, terminou hoje a temporada de Cymbeline, com o Kneehigh Theatre, no Sesi. Para mim foi uma ótima oportunidade trabalhar com eles, traduzir, legendar, conversar. Todos foram muito queridos e muito profissionais. Vão deixar saudades.

UM ANO TREVOSO

Saindo do poço... Não foi fácil para ninguém, não se engane. Não foi fácil para mim. Estava revendo há pouco minhas retrospectivas de a...