06/03/2008

SHOW DE HORRORES

Trechos de "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego", meu novo romance:



O Homem-caranguejo agitava suas garras na praia, mas o meninos estavam longe dela, acima. Era noite, noite quente, e eles andavam pela cidade que parecia cheia de subidas – cheia de descidas – cidade querendo escorrer inteira para o mar, como se o mar fosse o esgoto que cheirava ser, como se a cidade inteira fosse lixo que pudesse ser despejado lá, biodegradável. Cidade biodegradável. Esgoto a céu aberto. Um dia tomariam providências, e todo o mar seria encanado. Esgoto a céu fechado.

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Douglas engoliu as pílulas de uma vez. Sentiu-se melhor na mesma hora. De repente não eram as pílulas. De repente eram as pílulas. De repente eram as pílulas que empurravam a cocaína para baixo e reforçavam a dose em seu organismo. Fez com que Douglas se calasse naquele exato instante. E naquele exato instante que se calou sentiu ânsias. As pílulas querendo voltar. As pílulas querendo sair. Então passou. Sentiu-me melhor. Sentiu-se ótimo. Sentiu-se incrível. Será que as pílulas já haviam surtido efeito? E se ainda fossem surtir? E se já tivessem surtido? E se já tivessem deixado de surtir?

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O monstro das neves... Um monstro polar. Um monstro pálido e escandinavo que, apesar de escandinavo, poderia ser chamado de monstro pelos pêlos que o incomodavam, pela barriga que lhe protuberava, pelo alcoolismo que o embriagava, tudo detestável, ainda que nórdico. Ele rugia. Rugia com a mulher. Rugia com o filho. Rugiria a tal ponto que os atacaria – ou seria o próprio rugido interpretado como ataque? Então delegacia da mulher. Vara da infância e adolescência. Mãe fugindo com o filho, se escondendo numa cidade litorânea, num prédio inclinado.

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Dentro da classe, da sala de aula, sentia-se como um mensageiro entregando seus próprios ossos. Um assassino, carregando seu corpo numa mochila. Os professores chamavam sua atenção, batiam na sua carcaça, e algo lá dentro dele despertava. Vítima ou culpado? Ele respondia tentando parecer natural, tentando parecer natural, tentando parecer ele mesmo, para que ninguém percebesse o crime que ocorrera dentro da casca. “Ninguém pode perceber que apodreço...” E todos os dias, em cada ocasião dessas, sempre nesse processo ele ansiava dolorosamente voltar para casa, voltar para cama, esquecer toda aquela besteira que chamam de educação.

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Lá fora, a vida avançava em piruetas, cambalhotas e fogos-de-artifício. O quê? Pensa que tudo neste romance é tédio e melancolia? As crianças sempre encontram uma forma de se divertir – jogue-as sobre cacos de vidro e elas brincarão com diamantes.


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“Esta não é uma mulher comum. Por trás de seu rosto angelical, de seu olhar enigmático encontra-se uma fera ancestral. Uma besta que varre a Terra há milênios, muitas vezes perseguindo o homem, muitas vezes por ele perseguida, mas por mais que seja caçada e destruída, a besta encontra sempre um refúgio. Pode ser uma caverna solitária nas montanhas, pode ser uma planície vasta e esquecida... Ou pode ser o interior mais soturno da alma de uma mulher.”

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O menino andrógino seria colocado em outro cômodo, em outra posição, e a nova inquilina sacudiria a cabeça. “Esse menino não combina com nada. Veja só, não casa com as cortinas, fica ruim no sofá. Melhor a gente se desfazer desses restos de antigos moradores.” Então o marido viria até o quarto, cuspindo caroço de ameixa nas mãos, engoliria a polpa da fruta e diria: “Não. Gosto dele. Vamos ficar com ele.”

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Enquanto o velho sussurrava, o menino pode ver de relance as veias inchadas do nariz dele. Pode ver os milhares de pêlos brancos que escapavam das narinas, tentando envolvê-lo, sugá-lo. Iriam aspirá-lo para dentro e ele também seria um animal preso em petróleo, sufocando, apodrecendo, aumentando o caldo grosso e negro que fazia a riqueza daquele ancião. Não! Não!

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"Oh, essas formigas são muito interessantes. Sabe que podem devorar um garoto vivo em minutos? Há casos... Houve um caso aqui na cidade, inclusive. Elas são vorazes por açúcar e atacaram um menino que...hum, estava em atividades libidinosas. Sim, sim, parece que é verdade. Ele fazia piquenique com a namorada, a coisa foi esquentando, esquentando, e quando o menino ejaculou, zapt!"

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A juventude é uma doença... Oh, meu colega, a juventude é uma doença.” – continuava o velho. “Acha que é o contrário? Não, é o câncer. A juventude é o câncer que nos mantém respirando. Como um tumor no cérebro, quando ela é extraída, tudo mais desaba. Como uma muleta, quando a retiramos, desabamos. A juventude é uma doença incurável, rápida, terminal. Eu poderia ser velho para sempre, mas são os vícios da juventude que me matam. É o câncer, o câncer que me faz sorrir...”

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Naquele momento, passavam por um dos pontos da cidade que era tomado por zumbis. Vinham babando, esfregando-se no carro, batendo no vidro, sedentos por carne humana, sem muita energia para pegá-la com as próprias mãos. Acabavam sendo mais inconvenientes do que perigosos, como pedintes no semáforo.

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O policial respirou fundo. O cheiro do morto voltou às suas narinas. “Sabe que tem um cadáver num dos quartos, né? Aquele outro... está morto.”
O menino tentou retrucar: “Elelele...” - enrolou a língua. Então bufou, tossiu e recomeçou a frase. “Ele está sempre assim...”
“Está sempre morto?”, perguntou o policial, contendo a irritação.
O menino suspirou, como se não quisesse passar novamente pelo esforço de formular uma frase. “Ele sempre exagera...”



Lançamento em breve...

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...