23/10/2008

EXISTENCIALISMO INÚTIL





Fui ontem na estréia da peça “Artistas!”, no Teatro Fábrica. É ÓTIMA, divertidíssima, e um pouco perturbadora.

É um “drama pequeno-burguês” (embora caia na comédia) de três jovens artistas que dividem apartamento, nunca conseguem pagar as contas e vivem de “orgulho artístico”. Sonham em ser capa da Bravo, em sair no Caderno 2, mas não produzem muita coisa. É uma peça com muito de auto-crítica - auto-paródia – com a qual todo mundo que produz por aí (e espera ser reconhecido) pode se identificar.

(Como a personagem cantora, que caminha para os trinta e se revolta que ninguém acessa o Myspace dela, enquanto Malu Magalhães é descoberta aos quinze... Haha.)


Eu me identiquei bastante. Ainda que não divida apartamento com ninguém, ouvia essas discussões no café da manhã desde criança. TODOS na minha família próxima são artistas. Entre meus irmãos (que são cinco comigo) tem palhaço, ator, dançarina de can can, "artista indefinido". E meu pai é artista plástico. E minha mãe é escritora, de família rica, mas que fugiu de casa para casar com meu pai, e que sempre teve de ralar em empregos paralelos para sustentar os filhos, enquanto meu pai "sorvia o ar da arte".



Entendo bem...

"Arte de papai".

"Arte de mamãe". (Ei, isso é um livro)


A peça me fez lembrar aquele meu post de “mendigos culturais”, artistas que imploram por público, por ouvintes, leitores... Todo dia aqui recebo dezenas e dezenas de emails, cartas, convites de gente lançando livro, divulgando blog, esperando fisgar um público mínimo e conquistar algumas estrelas na Folha.

Essas são as coisas que mais me desmotivam. Dá uma preguiça de ser mais um, de pensar em lançamento, noite de autógrafo, ficar mandando email, convite, esperando que as pessoas deixem o conforto de casa, a novela das oito, para ir a uma livraria, pegar uma fila, comprar um livro que – a grande maioria – não tem a menor vontade de ler.

É por isso que adiei tanto o lançamento do meu livro novo...

Tá. Mentira. O livro foi adiado por questões editoriais. Mas ainda assim, quando o livro novo sair (e VAI sair) vou pensar bem se me atrevo a uma noite de autógrafos. Não quero mais fazer noite de autógrafo. Não acho que ninguém goste de ir. Eu não gosto de ir. Não gosto de ser convidado. Não gosto nem de ir em aniversário de amigos (verdade que, quando eu vou, às vezes me divirto). Mas talvez seja importante para divulgação do livro - para a editora ficar feliz - para que movimente um pouco as vendas, para que possa continuar publicando por grandes editoras...


Sacrifícios...



Lançando o primeiro livro... (Oh, eu era tão jovem, tão tolo, tinha tantos sonhos...)




Isso não se restringe só a lançamentos de livro, não. Cada vez que alguém me convida para ver o show de sua banda, a discotecagem numa boate, eu estremeço. E penso comigo mesmo: "graças a Deus que não tenho mais de convidar as pessoas para essas coisas..."


Mas acho que já falei sobre isso...



Lembra?



Por que será que em peça de teatro eu gosto de ir? Ah, já sei... Não é por nenhuma razão muito cult, não. É simplesmente porque em peças eu posso escolher o dia que vou, não me sinto pressionado por um evento pontual, e assim às vezes até posso ir na estréia.



A peça de ontem também me fez pensar um pouco mais naquela velha questão, na função da arte. Recentemente, num debate, até ouvi uma colega escritora dizendo que “literatura é inútil, não serve pra nada.” Não concordo. Ou concordo? Não concordo. Acho que a literatura talvez seja inútil, sim, mas como quase tudo o que a sociedade humana criou.

Afinal, pensando racionalmente, tudo não passa de um jogo, de uma brincadeira. A gente tem de realizar provas para ganhar um papel desenhado – que deram o nome de dinheiro. Economistas, banqueiros e bancários vivem para entender e administrar as regras desse jogo – e não deixam de realizar um trabalho tão inútil quanto a arte.

Podemos cair naquela idéia básica, então, de que útil mesmo só os trabalhos de sobrevivência: a agricultura, a medicina (isso se nem considerarmos as religiões e as leis divinas), mas até aí, também há o seu grau de inutilidade. Para que, afinal, o ser humano precisa ser curado pelos médicos? Por que devemos viver mais do que a natureza determina? A sobrevida de um paciente não tem função nenhuma no ciclo da natureza (pelo contrário, só está colaborando para destruir o planeta). Se pensarmos na utilidade do ser humano, nascemos para chegar à puberdade, procriar e acabou.

E acabou?

Ainda não. Seguindo esse niilismo cíclico, é praticamente tudo inútil. Nem sei por que estou escrevendo isso. Papo sem sentido. Mas se a arte (e a literatura) é inútil como tudo, qual é o sentido que podemos dar a ela, assim como demos a todo resto?

Eu sempre tive a resposta.

A arte – como a medicina, a arquitetura, a economia – existe para expandir o mundo. Existe apenas para existir, ampliar as possibilidades, ocupar espaço e ampliar o universo. Vivemos neste mundo de chupacabras, papais noéis, tartarugas ninjas e suicidas seriais porque nós colocamos isso nele. O mundo é maior e tem mais possibilidades do que a natureza (ou Deus?) nos deu por causa do poder de criação humana. E esse poder as vezes explica, às vezes complica o mundo para nós, mas sempre ajuda a nos desenvolver, levando o ser humano para mais longe de suas raízes animais.

Mas para que serve nos afastarmos de nossas raízes animais?

Isso eu não sei, mas Jesus diz que é para conquistarmos o reino dos céus.

Claro que, nesse poder de criação humana, a arte ocupa um papel fundamental. E a literatura especificamente? Também. E talvez o papel específico que a literatura ocupe no poder de criação humana seja materializar (ou “tornar visível”) o universo de um indivíduo. No cinema, na TV, na música, esse universo está comprometido pelo “consenso” ou o “conjunto”, porque não são criações individuais (na maioria das vezes).

As artes plásticas também podem ter essa geração individualista, mas não têm tanta capacidade narrativa (tem bem mais capacidade imagética, entretanto).

Portanto, a função da literatura é expandir o mundo através da visão de um indivíduo, aumentando a comunicação entre as pessoas, libertando escritor e leitores das celas solitárias de suas mentes. Você pode espiar um pouco o que acontece aqui dentro, e você pode – quando se identifica – perceber que não está só.


Acho que é para isso que serve.

Fábio, ainda petiz, chegando até mim. (É pra isso...)

E isso possibilita um pensamento muitas vezes alienado, arrogante e elitista. Do artista que “só se preocupa com sua visão pessoal” de que “não pode se influenciar pelo mercado ou pelo público”. Acho isso discutível. Acho isso perigoso. Acho que em artes de fato elitistas, como a literatura, a visão pessoal do artista deve imperar, sim, mas não se pode esquecer de que, ainda assim, a arte é uma comunicação. Então o artista não apenas diz o que QUER dizer, mas deve pensar no que ele QUER QUE SEU PÚBLICO SAIBA.

Acho que literatura é comunicação, mas não é um diálogo. É um monólogo (eu nem permito comentários neste blog – hahaha). E poucas artes são assim.


Portanto há uma responsabilidade, há um papel político na literatura. Eu me preocupo com isso, conscientemente. Acho que não devemos de forma alguma ser panfletários, e podemos até defender uma idéia moralmente condenável, mas é importante trazermos novas idéias, questionarmos, fazermos as pessoas pensarem , confrontarmos idéias pré-estabelecidas. Se você defende, por exemplo, uma idéia condenável, faz com que o outro pense em contra-argumentos, tira o leitor do piloto-automático ideológico.

Essa é minha desculpa para a sordidez...



"Desculpe! Abri a boca sem pensar!"





Por fim, como monólogo, e como visão pessoal de um único indivíduo, é natural que atinja poucas pessoas. Ainda acredito que quanto mais pessoal a literatura, menos gente vai se identificar (comprar, ler). O que importa é COMO essas pessoas vão se identificar. E, há sempre a esperança, de que a sociedade se transforme, e que a visão pessoal do escritor possa, um dia, estar em sintonia com que a massa pensa.

Hoje a massa leitora está em sintonia com a verdade massificada de alguns escritores que pensam só no mercado... é verdade. Mas não se pode dizer também que a massa leitora está em sintonia com aquela verdade outrora tão própria, tão subjetiva, tão exclusiva de Machado?

Não tenho mais respostas.


Ops (o serviço da peça!): “Artistas!”, quartas e quintas, até começo de dezembro, no Teatro Fábrica (Consolação 1623), 21:30. (podem ir, que é divertido, não é todo esse papo cabeça, não, haha).

LEVE NEVE

Com minha herdeira, a Trevosinha Valentina.  Lançamento ontem em São Paulo. São Paulo é o que conta - é minha casa, minha base, daqui...