10/10/2008

A VOLTA DE J.T. LEROY

Ai, de novo essa história?


Savannah Knoop, a “dublê” de J.T LeRoy acabou de lançar “GirlBoyGirl”, um livro contando toda a história.

Quer dizer... nem toda. O livro é feito de episódios em que ela teve de interpretar o petiz literário, mas deixa muita coisa de fora (como a visita dele/dela ao Brasil).

Já contei a história dezenas de vezes aqui (e até traduzi uma entrevista), mas como sempre tem gente nova (e desinformada) chegando: J.T LeRoy é um autor que bombou no começo dos anos 2000, com dois livros em que contava sua história de vida, como garoto de rua, prostituto mirim, que foi abusado de todas as formas possíveis.

O lance era o garoto ter sobrevivido, escrito sobre tudo e ter se tornado um escritor celebrado, que só se apresentava publicamente de peruca e óculos escuros. Tornou-se, obviamente, uma celebridade cult, conquistando leitores como Gus Van Sant, Madonna, Billy Corgan e Shirley Manson (que até fez uma música para ele, aquela “Cherry Lips”, do Garbage).

Seu segundo romance, “Maldito Coração”, foi adaptado para o cinema pela (péssima) Asia Argento (isso, filha do Dario, diretor italiano lendário de filmes de terror). Tem pra alugar por aí, mas eu não recomendo. É bem chato.

O filme.



J.T LeRoy veio ao Brasil em 2005, lançar seu primeiro livro, “Sarah”. Como eu estava traduzindo o segundo (“Maldito Coração”) fui jantar com a editora e com ele. Achei um menino bem bonitinho, andrógino, que na época devia ter uns 23 anos.


Foto da época: "JT", minha irmã Nina e eu (ao fundo).



Só que poucos meses depois foi revelada a farsa: J.T LeRoy não existia. Toda a história havia sido criada por uma escritora balzaquiana, Laura Albert, e quem interpretava o petiz andrógino era sua cunhada, Savannah Knoop. Foi ela quem eu conheci. Os emails que troquei durante a tradução foram com a autora, Laura. E tem pitadas bem irônicas:

“Obrigado por ser eu... porque é o que um tradutor deve fazer.”


Laura (a autora) e Savannah (a dublê).



Apesar da farsa ter sido revelada por um repórter investigativo, Albert tentou capitalizar em cima da coisa. Criou até essa ótima camiseta:



Com o tempo, a história esfriou. Agora, Savannah Knoop lança um livro contando como foi montada a farsa. Isso, Savannah, a dublê, não a autora. E esse é o problema básico do livro. É escrito por uma não-escritora, e isso se torna visível (para não dizer “risível”) pela ruindade do texto.

Além disso, Savannah não parece saber a história toda. Quero dizer, a maioria das entrevistas e amizades de J.T LeRoy foram conduzidas pela própria Laura, por telefone (disfarçando a voz) e por emails. Muitas das celebridades que entraram em contato com J.T LeRoy nunca o encontraram pessoalmente, nunca encontraram com Savannah, então ela não tem muitas informações sobre a parte mais legal da história.

O livro tem algumas passagens divertidas, como um jantar com Gus Van Sant e Michael Pitt (tem várias fofoquinhas, inclusive). E é interessante ver como Laura Albert reagia a tudo, acompanhando J.T LeRoy como sua mentora, mas sem poder revelar que era ela a verdadeira autora de toda a história.

Mas, no geral, o livro é bem chato. Savannah é uma lésbica resmungona, que passa o livro inteiro contando seus problemas de bulimia, de auto-aceitação, meio para justificar ter aceitado o papel de J.T. E ela nem fala sobre a visita ao Brasil, apenas narra uma outra viagem que fez (por conta própria) ao Rio.

Li o livro a pedido de uma editora. E meu parecer foi negativo, claro. Mas continuo esperando por novos livros de Laura Albert, sendo como JT ou não, porque ela sim escreve, criou uma história fascinante que, ao meu ver, transcende os limites da literatura.
A bela edição brasileira da Geração Editorial. A tradução é minha.



Outro livro com uma história bem parecida é “The Night Listener”, do Armistead Maupin, também baseado em fatos reais.

Nesse, outro menino adolescente que foi abusado escreve suas memórias e manda para Maupin, que fica fascinado com o livro. Eles começam a conversar com freqüência por telefone, mas, com o tempo, Maupin começa a achar que a voz do menino e de sua assistente social são muito parecidas...

O livro rendeu um filme também, e apesar de ser estrelado pelo Robin Williams, é ótimo. Tem pra alugar, se chama “Segredos na Noite” aqui no Brasil:







Estou agora fazendo o parecer de um livro bem divertido, bem masculino, de um cara que viaja pelo mundo bebendo, jogando, trepando e realizando todas as fantasias masculinas (independentemente da sexualidade do macho em questão). Me deu saudades dos quartos de hotel, dos serviços de quarto, dos concierges que me recebiam com "welcome, young man", e pediam meu cartão de crédito....
Hotel...
Hotel...
Hotel...

Hotel...



UM ANO TREVOSO

Saindo do poço... Não foi fácil para ninguém, não se engane. Não foi fácil para mim. Estava revendo há pouco minhas retrospectivas de a...