24/01/2009

O APOCALIPSE ACOLCHOADO




Saiu hoje na Folha resenha que fiz do novo livro do Ballard, "O Reino do Amanhã". Gosto do Ballard, já tinha resenhado o anterior dele - "Terroristas do Milênio" - há uns 4 anos, também para a Folha. Gostei desse livro, apesar de achar que ele está se repetindo, e que a mensagem-manifesto do livro está muito flagrante, exposta de maneira didática. Mas é uma boa mensagem...

Interessante também ver as similaridades temáticas dele com meu próximo livro (principalmente no trecho que selecionei na matéria, que fala de apocalipse, crianças, tédio e férias prolongadas). Deve ser uma questão atual, esse "apocalipse acolchoado" (termo do próprio Ballard), o que me faz também pensar na questão de geração literária - se de certa forma autores com quase cinqüenta anos de diferença de idade (Ballard tem 78) não podem ser de uma geração comum, por estarem produzindo ao mesmo tempo, na mesma época.

Mas acho que não. Porque alguém que foi testemunha ocular da Segunda Guerra, que cresceu com outros valores e tem uma linha do tempo muito anterior à minha, vive, entende e encara o momento atual de outra forma, uma outra realidade. É como vivesse numa dimensão paralela, de certa forma, por mais que tenha temas e opiniões coincidentes.

Enfim... Devaneios. Vai aí a resenha:


O apocalipse está para a literatura atual assim como o mal-do-século está para a literatura romântica. Se para os autores do século XIX o indivíduo é quem era cerceado e combatido pelo resto do mundo, chegamos agora à constatação de que são os desejos individuais que estão pouco a pouco destruindo o mundo – gerando uma crise econômica, climática e ideológica.

James Graham Ballard entende o apocalipse como ninguém. Nascido em Xangai em 1930, filho de pais ingleses, foi prisioneiro durante a adolescência na Segunda Guerra Mundial, experiência que narrou no romance autobiográfico “Império do Sol” (levado às telas por Steven Spielberg). Também passou por tragédias pessoais como a morte por pneumonia de sua primeira esposa, que o deixou com três filhos pequenos, e atualmente luta contra um avançado câncer de próstata.

Com tudo isso, é especialmente curioso notar sua perspicácia em localizar o tédio e o consumismo como os principais vilões da atualidade, deixando de lado os confrontos militares e tratando de forma épica, com ares de ficção científica, dramas burgueses subjetivos.

Em “O Reino do Amanhã” (lançado originalmente em 2006), foca uma cidade suburbana nos arredores de Londres, que é dominada por um shopping center: o Metro-Centre. Richard Pearson é um publicitário recém demitido que chega a esse cenário para enterrar o pai, vítima de um possível ataque terrorista. Afastados há muitos anos, Pearson busca restos e respostas de seu pai no apartamento que herdou. Aos poucos, vai percebendo a aura de violência da cidadezinha, onde fascistas e consumistas, apocalípticos e integrados vão fermentando uma guerra crescente, encubada pelo Metro-Centre.

“Para a maioria das pessoas a vida é confortável hoje, e temos tempo livre para ser irracionais se quisermos. Somos como crianças entediadas. Estivemos de férias por um tempo longo demais, e ganhamos muito presentes. Qualquer pessoa que tenha tido filhos sabe que o maior perigo é o tédio. O tédio e um deleite secreto com a própria maldade. Juntos eles podem incitar a uma notável inventividade” – diz o psiquiatra do livro diagnosticando uma “loucura voluntária” na sociedade local. Depois que as drogas, o sexo e a guerra deixaram de surtir efeito, a loucura vem trazer a energia que falta ao homem moderno.

A ruína do consumismo e o fato do protagonista ser um publicitário desempregado dão um saboroso tom profético ao livro. O nacionalismo agressivo e as brigas de torcida são colocadas lado a lado como uma resposta fisiológica à confortável apatia mantida durante décadas e décadas de capitalismo selvagem. Mas ainda que seja atual, não é exatamente novidade. Especialista em ficção científica desde os anos 60, Ballard já fez isso antes. E talvez tenha feito melhor em “Terroristas do Milênio” (lançado no Brasil em 2005, também pela Cia das Letras), onde o mesmo manifesto e a análise sociológica estão presentes no texto de maneira menos didática. Ainda assim, a fina ironia e o humor niilista do autor suavizam o caráter panfletário do livro. E como diria o protagonista: “Violência? Que homem não gosta?” (Três estrelas).


(Agora acho que está na hora de eu receber uma proposta decente para uma coluna fixa num "jornal ou revista de respeito.... Eu nem preciso falar de literatura. Posso falar sobre... O DEUS PATO!)

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