08/08/2013

O GIGANTE INSONE

A mídia impressa está em crise há tempos, revistas são fechadas, não se paga mais por informação e a informação não é mais centralizada. Tenho observado tudo isso com muita curiosidade - obviamente um certo receio, e menos capacidade de tirar conclusões. O que pode ser positivo.

"Pobre dessa geração de hoje," comentou um amigo meu há algumas semanas, "que se informa por posts de Facebook e vídeos do Youtube."

Tive de discordar. Talvez fosse mais pobre a geração que recebia a informação "profissional" centralizada num grande irmão. Claro, eu tenho mais de 3 mil "amigos" no FB - e muitos são escritores, jornalistas, ou gente que me adicionou por gostar de ler e de escrever. Isso talvez já gere uma "qualidade de mural" acima da média, em termos de informação. Abrindo o Facebook todas as manhãs, tenho uma enxurrada de visões alternativas e links para as notícias do dia - algumas aprofundando pontos de vista, outras abrindo para o debate, muitas resvalando na teoria da conspiração.

O caso mais recente talvez tenha sido o da família de PMs morta esta semana em São Paulo, supostamente pelo filho de 13 anos. Em outros tempos, levantaria-se uma leve desconfiança que se sufocaria pela grande mídia e ação da polícia. Hoje, é possível ler posts e mais posts contra-argumentando como é praticamente impossível que o crime tenha acontecido da forma descrita oficialmente.

Posts de ateus contestando a verdadeira laicidade do estado também aparecem diariamente. E a cobertura individual de cada participante das manifestações atuais de rua (minha inclusive), com textos e vídeos multiplicam exponencialmente os pontos de vista e impedem a conivência com a ação violenta da polícia.

Discutiu-se muito tudo isso esta semana, com a entrevista do grupo Mídia Ninja no Programa Roda Viva. Ao meu ver, uma das colocações mais interessantes dos entrevistados - Pablo Capilé e Bruno Torturra - foi da hipocrisia das grandes (ou velhas?) mídias em se assumirem imparciais. Há anos escuto esse questionamento, de que todo jornalismo é parcial e que deveria ser assumido assim - e agora isso ganha força nesse neo-jornalismo feito de múltiplas visões simultâneas.

É um fenômeno tão curioso, que ao mesmo tempo que via os nobres combatentes Ninjas - defendidos por vários amigos meus - enfrentando os dinossauros, lia queixas de outros amigos sobre a falta de transparência na captação de recursos, desvio de verbas e falta de pagamentos do coletivo Fora do Eixo (do qual o Mídia Ninja faz parte e Capillé é um dos fundadores). Ninguém escapa ileso da vigilância atual?

Verdade que essa "vigilância" e essa contestação muitas vezes se torna uma patrulha pentelha - como um bando de marmanjos que se pôs a malhar a menina de 20 anos que tentou dar uma carteirada numa boate e postou no FB - ou então uma paranoia conspiratória: Dia desses um amigo questionava o vídeo de segurança que mostrava o salvamento da menina que foi atacada por um tubarão no Recife: "Repare no vídeo. Por que o salva-vidas pega primeiro uma outra pessoa e só depois vai atrás da menina atacada? Isso está estranho..."

Eu, como bom relativista, acho que, mais do que nos aproximar da verdade, essa nova era veio para deixar claro que a verdade não existe. E talvez fôssemos mais felizes quando aceitávamos uma verdade oficial. Mas eu também nunca fiz apologia à felicidade...

 A presença massiva do brasileiro nas redes sociais o está tornando um povo mais questionador, contestador e inconformista. Resta saber se há motivos para comemorar.

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...