11/07/2015

CRÍTICA PARA QUÊ?

Artigo que publiquei este mês no Suplemento Pernambuco, do Recife: 

O texto era para ser outro. O Suplemento Pernambuco me pediu a resenha de um clássico da literatura juvenil, que estava sendo reeditado. Por semanas o editor do caderno escreveu, ligou e relembrou a editora de enviar o livro, que teria apenas de me ser entregue num endereço central da cidade de São Paulo. Não veio. E não me surpreendeu.
 
Como autor, perdi a conta de quantas vezes tive de insistir com editora para que entregassem o livro a tal e tal jornalista, que seria garantia de resenha. Já ouvi da boca de assessoria que “resenha não vende livro”, para a editora é mais interessante matéria, entrevista ou o próprio release sendo reproduzido em jornal, coisa cada vez mais comum de acontecer, com redações preguiçosas e sucateadas. A opinião não importa.
 
Então a quem interessa a crítica literária hoje? O espaço nos jornais e revistas é cada vez menor. Cadernos literários (e revistas inteiras dedicadas à cultura, como a Bravo!) foram extintos nos últimos anos. A tiragem média da literatura brasileira contemporânea permanece nos três mil exemplares — é uma expectativa baixa de venda que muitas vezes não justifica o investimento no livro e o espaço dado a ele na mídia.
 
“Quem lê a crítica é o literato. A crítica serve para o livro ser conhecido entre os pares”, diz Paula Fábrio, 44, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 com Desnorteio, seu romance de estreia. Antes de ganhar o prêmio, seu livro praticamente não havia sido resenhado — o que desmistifica um pouco a ideia de que a crítica abre as portas para a premiação. “Comigo aconteceu o contrário. O prêmio me abriu para as resenhas,” diz ela “A forma como esses prêmios são estruturados garantem a leitura, mesmo sem um reconhecimento prévio.”
 
Andrea del Fuego, 40, tem experiência semelhante. Seu romance Os Malaquias, que recebeu o Prêmio Saramago em 2011, foi lançado por uma editora pequena (Língua Geral) e teve pouca repercussão de crítica antes do prêmio. Ainda assim, ela reconhece a importância da crítica para o autor. “Ela ajuda a situar o trabalho. Você percebe onde o livro se encaixa e onde não se encaixa. Sempre prefiro resenhas a matérias ou entrevistas. Prefiro o que não conheço.”
 
A crítica negativa nunca prejudicou as vendas — com a imensa maioria dos bestsellers sendo ou ignorados ou massacrados pela imprensa — e não impede nem mesmo que o livro seja premiado. Opisanie swiata, romance de estreia de Veronica Stigger, 41, não foi unanimidade nas resenhas literárias, ainda assim faturou o Prêmio Machado de Assis, o Prêmio São Paulo e o Prêmio Açorianos de Narrativa Longa em 2014. Stigger contesta a validade da crítica negativa. “Já não há muito espaço. Por que ocupar com resenha negativa?”
 
Del Fuego pensa diferente. “Na hora [em que se lê a resenha negativa] a dor é física. Mas depois eu prefiro [a não sair nada]. Gera uma discussão sobre o livro.”
 
Evandro Affonso Ferreira, 70, que ganhou o Jabuti em 2013 com o romance O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, vê com saudosismo a época de críticos como Alceu Amoroso Lima e Antonio Candido. “A importância do crítico antigamente era bem maior. A gente conheceu Raduan Nassar e João Antonio graças a essas pessoas.” Hoje ele acredita que a crítica ajuda a dar um pouco de visibilidade, em escala reduzida. “O prêmio e a crítica são importantes para a sobrevivência do autor, para ele ser chamado para eventos em que se recebe cachê”, completa Evandro. “Já a obra caminha independente disso. Nada é maior do que a obra.”
 
Mas se a literatura perdeu espaço na mídia impressa, proliferaram os blogs e vlogs sobre o tema. A maior parte é feita por leitores jovens, que oferecem uma visão menos embasada, porém mais apaixonada da literatura. “A crítica literária no Brasil sempre teve um tom de superioridade”, diz Raphael Montes, 24, autor revelação da literatura policial. “Isso é responsável por afastar o leitor da obra. Nos Estados Unidos, a crítica positiva gera frases de venda: ‘Melhor livro do ano’, etc. Aqui o crítico tem sempre um rebuscamento, parece que tem medo de elogiar.” Nesse contexto, ele aponta como a crítica de internet se aproxima mais do leitor médio.
 
Então qual é a função da crítica literária hoje? Não parece haver uma certeza nem um consenso. O que se conclui é que crítica não vende livro, não vende jornal, não leva aos prêmios. Mas contribui em mínima escala com tudo isso. Num meio tão limitado, é uma das ferramentas que o autor tem para tentar ocupar um pouco mais de espaço e ter um termômetro de sua própria produção. E, acima de tudo, é a satisfação de saber que o livro foi de fato lido, pensado, por um leitor especializado. É pouco. Mas o escritor brasileiro se acostumou a se contentar com pouco. Se abrirmos mão disso, estaremos desistindo do papel crítico da literatura em si.

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