26/06/2006

BARBADOS E BABADOS

Acabo de traduzir e formatar as legendas de mais um filme aqui. Às vezes é um pouco frustrante, porque por mais que você queira colocar exatamente o que foi dito, é obrigado a simplificar a linguagem para caber dentro do tempo da legenda. Precisa cortar pronomes, repetições, adjetivos. Ainda mais porque a quantidade de caracteres das legendas em português geralmente é menor do que as do inglês – e as palavras portuguesas são maiores.

A produtora para quem eu trabalho tem o ótimo padrão de não censurar as legendas. Palavrões são traduzidos. Isso geralmente não acontece nas produtoras que trabalham com filmes de circuito. "Shit" é traduzido como "droga". "Fuck you" como "dane-se". "Son of a bitch" como "Filho da mãe". Realmente não faz sentido. Se o filme original (geralmente americano) já tem a censura adequada para esse tipo de linguagem, por que as coisas tem de ser suavizadas por aqui?

Mas mesmo assim, muitas vezes eu tenho de cortar os palavrões, simplesmente para caber no tempo das legendas. Se fôssemos colocar exatamente tudo o que é dito, não daria tempo para ler.

Isso sem contar que muitas vezes os diálogos que vêm de fora não batem com os diálogos do filme e você tem de tirar muita coisa de ouvido, ou das legendas na tela, quando existem. Já fiz filmes inteiros tirando de ouvido, e não é nada fácil. Não é só questão de entender o idioma, algumas palavras são ditas muito baixo, se misturam com outros ruídos, há nomes próprios que você não sabe como se escreve.

Lembro de uma mostra do Godard que minha mãe traduziu e eu fiz as legendas. Sofri tanto com aquela verborragia. Tinha de ficar de ouvido atento e meter as legendas à velocidade da luz para conseguir passar tudo o que era dito. Acho que o povo do cinema não conseguia ler nem metade. Mas também, os produtores disseram que não eram filmes para serem compreendidos na íntegra, que valia mais pelo som do que pelo sentido...

De qualquer forma, traduzir é o trabalho que me dá mais prazer, depois da escrita literária. Não me considero um tradutor fodaço, já cometi grandes barbeiragens, mas é um desafio. Sinto que me desenvolvo, aprendo, melhoro cada vez mais. E é tão difícil isso num trabalho. Geralmente a gente faz coisas que só dão dor-de-cabeça, ou não apresentam nada de novo, não acrescentam porra nenhuma.

O livro que estou traduzindo agora, por exemplo, tem sido delicioso. Não é um livro muito difícil, a parte do inglês é tranqüila. Mas sinto uma conexão tão legal com a autora, parece que enxergo claramente os bastidores, o que ela está tentando fazer, como chegou a determinada passagem. Acho que isso faz parte tanto do amadurecimento como tradutor quanto de escritor...

E no meu livro novo preparei umas boas, uma boas para uma eventual tradução. Acho que os tradutores vão penar. Hehe. Confesso que algumas frases escrevi especialmente pensando em foder com quem fosse pegar para traduzir. Faz parte da gincana.

Ai, ok, mas esse papo deve estar chato pra você, né?

Semana passada foi das mais culturais – muito cinema, teatro, debates literários. Vi Marçal Aquino e João Carrascozqa debatendo na Rato de Livraria. Gosto muito das coisas que o Marçal fala. Os processos e as convicções dele são muito parecidos com os meus. E ele é ótimo. Só não digo que quero ser igual a ele quando crescer porque barba não faz meu tipo. Haha

E eu também vou participar de um debate lá, na Rato de Livraria, dia 5 de agosto, com o Daniel Galera. Mais pra frente dou o serviço direitinho.

Também fui a duas peças ótimas: "O que Você Foi Quando Era Criança" do Lourenço Mutarelli, encenada pela Cia da Mentira, e "De Profundis", do Oscar Wilde, em montagem do Satyros. Acho que as duas já saíram de cartaz, então tarde demais pra você, baby...

Mas você ainda pode ver os ótimos filmes que andei vendo: "A Profecia" (novo) e "Seres Rastejantes". Haha. Poesia fina. Vi também "Buenos Aires a 100km", mas não achei nada. Nada demais e nada de menos.

De livros, não tenho lido nada muito interessante. Mas acabei de escrever um conto longo, de umas trinta páginas, para uma antologia que sai em breve. Vou-me com um parágrafo dele:

Agora estou aqui, estudando as possibilidades, pacientemente, numa batida de maracujá. Vendo o mar ir e voltar, esperando você. Nós dois moramos no mesmo prédio, mas você nunca está em casa. Nós dois olhamos para a mesma praia, mas você faz parte dela. Nós dois queimamos sob o mesmo sol, mas você nem sente. Antigamente...

Ah, e ia esquecendo. Este blog saiu semana passada na Istoé Gente, tem fotinho de divulgação minha nova, novamente tirada pelo Sr. Luciancencov (que fez, entre outras, a capa do "Feriado"). Vai lá:

http://www.terra.com.br/istoegente/357/diversao_arte/internet.htm

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...