17/07/2008

A MORTE NÃO ME QUIS





Já sangrei de tantas formas, que nem sei como me matar hoje...


Mas bem que eu queria morrer. Um pouquinho só. Um desânimo que só. Me lembra aquela música da Ângela Maria: “hoje eu queria morrer... ou pelo menos chorar.” Acho que é uma coisa química, ou falta de química, ou TPM, ou falta de TPM. Falta de hormônios femininos sobre mim. Uma mulher para passar minhas roupas. Uma mulher para lavar minha louça... eu tenho, mas custa caro. E um homem para trocar meus pneus furados. Do meu carro roubado. Em frente às ruínas da minha casa. Com o encanamento enferrujado. O que fazer deste dente cariado? Ao menos as contas do mês estão pagas.


(Agora quando me ligam de algum banco, ou tentando vender alguma coisa, eu simplesmente respondo: "Santiago foi assassinado." Eles se desconcertam, me dão os pêsames e me tiram do cadastro.)

Tenho acordado bem tarde. Nunca é hora de acordar. E tenho dormido bem tarde, na madrugada, meu dia nunca quer acabar. E ler na cama me desperta sentimentos sórdidos. Ler me desperta e tenho vontade de escrever... Mas escrever tem me dado uma preguiça... Principalmente pelos percalços em publicar, publicar, publicar.

Minha editora foi comprar cigarros e nunca mais voltou. Eu torço com perversidade em vê-la voltando nas últimas, careca, em quimio, com câncer de pulmão. Então eu tiraria meus originais das mãos dela e apagaria uma bituca em sua testa. Assim seria feliz para sempre, no prédio, no tédio, com meus sete meninos cegos (que atualmente andam surdos e mudos também.)

Falando objetivamente do lançamento do livro: não sei. A editora parece estar afogada em burocracia e nunca me diz uma data, nunca me dá uma resposta. É bom para eu aprender. É bom para eu aprender como a literatura não é uma arte independente (toma, papudo!). Eu que sempre valorizei minha arte principalmente por isso. Eu que sempre valorizei minha arte por poder fazer exatamente do meu jeito, agora dependo de uma empresa carioca para dizer o quando de vermelho há em mim...
Ah, sim, ainda, sim.

(E enquanto o livro novo não sai, você pode ir lendo os outros, vai? Tem vários outros pra você ler.)

("Enquanto eu tiver estes dedos, enquanto eu tiver vontades, você vai ter de me ouvir...")

E não é só isso, claro que não. Eu também sofro pelos meninos que tem fome (“pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela”) e pela fome que os meninos me despertam; pelas balas perdidas, pelo leite derramado, pelo caminhão de lixo pedindo doação de sangue, por tudo que já joguei fora e não pode ser reciclado...

(Ah, tantas balas perdidas pelo Rio e nenhuma atinge o alvo certo. Nenhuma rompe a vidraça de meus editores. Nenhuma os desperta para o drama - o drama - para o drama que há em mim.).


Estou lendo Rubem Fonseca. Previsível, mas fazer o quê? É extraordinário. Mais do que extraordinário: é gostoso. Uma leitura gostosa, fácil, divertida, ainda que ainda, e ainda que extremamente literária.

Recentemente li um romance policial inglês, para dar o parecer a uma editora. Também achei gostoso, também achei divertido, mas o livro não chegava a avançar no gênero literário, não ia além da literatura de entretenimento. Rubem Fonseca sim, obviamente, sim...

(Mas eu odeio esta capa... Não, não odeio esta capa. Mas odeio essa história de editora ter capa padrão, ter padrão de capa. Quem tem de ter padrão é o autor, não a editora. É como se a Sony Music quisesse que Padre Marcelo, Michael Jackson, Kiss, Kings of Leon, Rod Stewart e Eliana tivessem capas de discos parecidas. Odeio isso... Ai, odeio isso!!! E odeio todas as editoras. E quero que as editoras tenham câncer, AIDS, lepra, que morram lentamente ao meu lado, entre minhas pernas, penetradas pela minha espada!)

Rubem Fonseca escreve fácil. E existe aquela máxima: “o difícil é escrever fácil”, mas não acho. Não quero. Quero cada vez mais caramelo no meu bolo. Quero sempre confeitar o meu sorvete. (Quero acidez no meus sonhos e morrer de diabetes.)
Tanta gente escreve fácil, mas não diz nada. O difícil é escrever bem, e ponto. Um bom exemplo é o novo romance do Noll, que eu também estou lendo. Noll não é um autor fácil. Noll não é exatamente “divertido”. É uma escrita sempre dolorosa, intricada, mas linda, poética, especialmente nesse livro novo, “Acenos e Afagos”. Uma coisa obsessiva. Uma coisa doente. Uma coisa exorbitante, que confirma Noll como meu autor contemporâneo favorito.

Sabíamos que o sexo deveria ser feito entre um homem e uma mulher e que dessa luta em meio aos lençóis se gestaria a criança, essas crianças correndo por tudo como nós. O nosso abraço belicoso fora uma situação que só poderia ter sido vivida porque se desgarrara da história principal. O vento acabou varrendo-a para o lixo. Éramos moleques que se reinventavam a cada sinal da puberdade. (Micro-trecho de tudo o que Noll pode te oferecer.)

E outro que estou lendo é o Maurício de Almeida. Marcelino (Freire) me chamou atenção sobre o livro de contos dele, “Beijando Dentes” e eu comprei. Bacana. Ganhou o Prêmio Sesc de Literatura. Então serve de dica para você. (Se você quer publicar) o Prêmio Sesc é uma boa opção, tem visibilidade, o livro sai bonitinho pela Record...


(Ó. Esta capa eu não odeio.)


Mas por que você quer publicar? Por que não fica em casa tranqüilo, quietinho, assistindo Smallville de madrugada?


Pode ser um traço de depressão, mas tenho sentido câimbras cada vez que me convidam para sair. Pânico! Pânico! Câaaaaaaaaimbra. Tenho sentido ódio de quem pede minha presença em eventos sociais. Ódio! Ódio! Câaaaaaaimbra... E recebo tanto spam de gente lançando livro, lançando peça, fazendo festa, fazendo show, que prometo a mim mesmo nunca mais fazer nada, nunca mais fazer festa de aniversário, nunca mais fazer noite de autógrafo. Nunca mais convidar ninguém para nada. É chato. Chato. Ódio! Ódio! Câaaaaaaaaaimbra... Dói ainda mais quando vejo essas colunas sociais alternativas na net, festas de modernos, inauguração de clube... Arrrrrrgh, câaaaaaaaaaaaaimbras. O que esse povo está fazendo na rua? Por que esse povo acredita que há felicidade lá fora? Lá fora há balas perdidas, gente com bafo, gente com bafômetro, gente medindo o bafo alheio e perdendo balas no chão da boate, na pista de dança. Não acham mais gostoso ficar quietinho em casa, morrendo aos pouquinhos? Comendo chocolate, assistindo Smallville?

(Ainda não comprei nenhuma temporada não... Acho mais bizarro esperar o SBT ser bacana comigo. Acho mais bacana o SBT ainda ter algo a me oferecer. Principalmente de madrugada, lá pelas tantas das três ou quatro, é bom saber que o Seu Silvio Santos ainda pensa em mim.)
Desânimo....
Deve ser químico, falta de química, câimbra, TPM, falta de hormônios femininos. Há tanto e tanto que não experimento. Quer ser minha namorada e ver Smallville comigo? Passar minhas roupas, amarrotar meus lençóis? Quer desenvolver câncer e me ver sorrindo?

(Na verdade, estou muito bem casado...)

(E estou feliz, satisfeito, contente, eufórico!)
(E tenho saído todas as noites. E defumado meu pulmão. E enxarcado meu fígado. E me esquecido.)

Dussek de louco, eu de bobo.

Para terminar em alto astral, dou a dica do show do Eduardo Dussek, no Bar Brahma. Fui ontem, e tem mais nas próximas duas quartas. Dussek é aquele mesmo, de “Doméeeeeeeeeestica, era empregada doméeeeeeeeeestica”, “Rock da Cachorra” e tantas outras. E cantou todas essas. E cantou muito mais. E continua com uma voz incrível, impecável. Também tem tiradas divertidas entre as músicas, deixando o show como algo entre o humor e o musical. Por mim, poderiam ser só as músicas. Mas foi bom para conhecer melhor o Dussek. Conversamos um pouquinho também, e ele foi muito simpático.
Pra você lembrar:


Doméstica (Brega-Chique)

Foi trabalhar recomendada pra dois gringos
Logo assim que chegou do interior
Era um casal tipo metido a grã-fino
Mas o salário era tipo um horror
A tal da madame
Tinha a mania esquisitona de bater
Lhe baixava a porrada
Quando a coisa tava errada
Não queria nem saber

Doméstica!
Ela era... Doméstica!
Sem carteira assinada
Só caía em cilada
Era empregada... Doméstica!

Nunca notou a quantidade de giletes
Não reparou a mesa espelhada do salão
Não perguntou o que que era um papelote
“Baixou os homi” e ela entrou no camburão
Na delegacia
Sua patroa americana ameaçou
Lembra que eu sou uma milionária
Eu fungava de gripada
Não seja otária, por favor

Doméstica!
Traficante disfarçada de... Doméstica!
Era manchete nos jornais
O casal lhe deu pra trás
Sujando brabo pra... Doméstica!

No presídio, aprendeu com as “cumpanhera”
A se dar bem, a descolar como ninguém
Ficou famosa no ambiente carcerário
Como a mulata que nasceu pra ser alguém
Pois não é que a... Doméstica!
Conseguiu uma prisão... Doméstica!
Saiu por bom comportamento
Mas jurou nesse momento
Vingar a raça das...Domésticas!

Então alguém lhe aconselhou logo de cara
Dá um passeio e vê se arranja algum barão
Porque melhor que interior ou que uma cela

É ter turista e faturar no calçadão
Até que um dia um Mercedinho prateado buzinou
Era um loiro alemão
Que lhe abriu a porta do carro
E lhe tacou um bofetão
Doméstica!
Virou uma baronesa... Doméstica!
Mesmo com as taras do barão
Segurou a situação
Levando uma vida... Doméstica!


Realizada em sua mansão em Stuttgart
Ouvindo Mozart e Beethoven de montão
Com um pivete mulatinho pela casa
Que era herdeiro e de olho azul como o barão
Precisou de uma babá
Botou um anúncio bilíngüe no jornal
Seu mordomo abriu a porta
Pruma loira meio brega
Uma yankee de quintal

Doméstica!
Era a americana de... Doméstica!
A nega deu uma gargalhada
Disse agora to vingada
Tu vai ser minha... Doméstica!

Doméstica!
Era a americana de... Doméstica!
A nega deu uma gargalhada
Disse agora to vingada
Tu vai ser minha... Domésticaaaaaaa!



Fábio, Eu, Luis Fernando e Marcelino, no Bar Brahma.

(Ai! Felicidade, tenha pena, que não agüento.)

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