02/12/2008

O EREMITA APOCALÍPTICO




Vai chegando essa época do ano - Natal e reveillon – vai aumentando a minha sede de sangue e a vontade de matar... matar.... matar...

Aborrecências a parte, sinto que está tudo se acabando, as formigas trancando suas portas e a cigarra ainda não encontrou sua chance de ser feliz. Sou feliz hoje. Sou praticamente exultante, mas não o suficiente, e não para sempre. Não para justificar esse final de novela, todos dando as mãos e cantando hinos nata-linos, não para a vida que se encerra e que ressuscitará sob sabe-se lá qual forma depois das férias...

A felicidade é insustentável.

Enfim, final de ano me deixa meio deprê por tudo isso. E tenho achado a vida muito difícil. Não só pela crise mundial, e a tragédia de Santa Catarina, nem pela pia que vaza quando desentupo a privada, e meu sapato que se gasta quando acabei de trocar de geladeira. O difícil é a independência em geral, sobreviver sozinho, fazendo e vivendo o que se acredita. E acreditando no que ninguém mais, apenas para deter uma verdade exclusiva.


É importante alimentar verdades exclusivas.



Um dos conceitos que mais me intriga e até que mais me ofende é o conceito de família. Dos discursos políticos aos religiosos, populares e jornalísticos, defende-se de forma quase sagrada a família.

E a família deve ser destruída.



Família é a desgraça do mundo, minha gente. Família é formação de quadrilha. Família produz gases, entope bueiros. Família lota as ruas e os supermercados, eleva o preço da sexta básica, castra bovinos e degola perus.

Sem querer dar uma de “rebelde porque o mundo quis assim”, acho ideologicamente maligno o conceito de família. É o conceito de “dois contra um” ou “todos contra mim”. Defende-se a família (um grupo) às custas do sofrimento do indivíduo. A vida do ser individual é prejudicada em favorecimento da família. E você acha que está certo, que a família deve ser protegida?

A proteção da família se dá, obviamente, por questões evolucionistas, em detrimento das questões “revolucionistas” (não “revolucionárias”). Protegendo-se a família, pretende-se proteger a prole, as novas gerações, a continuidade. Mas essa é uma questão paradoxal (ou “insustentável”) porque “a continuidade”, a rigor, será o que destruirá este planeta. É claro que a vida em família é ecologicamente mais correta do que a vida independente – sozinho o indivíduo ocupa mais espaço, provoca mais desperdício, consome mais do planeta – mas a vida em família também perpetua os valores (e os erros) que nos fizeram chegar onde estamos.

Em outras palavras, a transformação só pode nascer do indivíduo.




A gente só pensa sozinho.

De qualquer forma, quando se diz que “a sociedade está cada vez mais individualista”, pode-se até acreditar. Talvez ainda não individualista o suficiente, talvez não individualista de forma consciente, ainda não respeitando as diferenças individuais, mas certamente mais do que jamais fora, historicamente falando.


Qual será o equívoco em ver o individualismo de forma positiva? O individualista é aquele que enxerga profundamente o indivíduo ou que olha só para o próprio umbigo? É possível entender a si mesmo sem ver o outro, ou é possível entender o outro sem ver a si?



Oh!



O importante não é ter respostas, é continuar perguntando... E é nesse contexto que a literatura (e as artes em geral) ainda têm seu valor e têm a obrigação de trazer o novo, contestar a verdade pré-estabelecida. Não deve negar preconceitos, deve conceituá-los, seja contradizendo-os ou reafirmando, mesmo através de mentiras, para que a verdade seja exposta e fortalecida, para que a reflexão individual seja desperta.

Não quero (mais) um livro que defenda os mais fracos. Quero formas realmente inteligentes para se justificar a tirania.







Quando, há alguns anos, surgiu o movimento “Literatura Urgente”, de escritores reivindicando políticas públicas de incentivo à produção literária, alguns os acusaram de querer “mamar nas tetas do governo”. Eu cheguei a participar de algumas reuniões do movimento, questionando a mim mesmo sobre a coerência das propostas. Há incentivo ao cinema, ao teatro, à música, mas no caso da literatura os custos são menores e as ações de incentivo seriam destinadas pontualmente a indivíduos (a cada escritor). É exatamente o caso do favorecimento do indivíduo ao invés do favorecimento de um grupo (ou “a família”, no contexto artístico). Digo “ao invés”, mas de forma alguma “em detrimento”, porque acho que a sociedade toda ganha com uma boa produção individual.

Acho que, graças a esse movimento, tivemos alguns avanços. Graças também à visibilidade que a literatura contemporânea conquistou nos últimos anos, como há muito não se via (e isso devido ao trabalho e à batalha de gente como Marcelino Freire, Nelson de Oliveira e Claudinei Vieira, que organizaram antologias, eventos e valorizaram a cena. E também, claro, de escritores que deram as caras e abriram espaço em causa própria, me incluindo nessa.) Hoje temos alguns editais de patrocínio (como o PAC e o Petrobrás) e vários novos Prêmios em dinheiro (como o Prêmio São Paulo, Bourbon, Portugal Telecom e por aí vai).

É justo alguém ganhar 200 mil reais do estado por ter escrito um livro? Justíssimo. É um dos raros casos em que a escolha e a visão individual são valorizadas. Tem de ser valorizada. É preciso preservar esse espaço. É preciso lembrar o valor da produção individual. A seleção, o júri e o prêmio estão aí para avaliar qual escolha é mais significativa para a sociedade (segundo critérios literários, não podemos esquecer). E por mais que o resultado seja discutível (como todo resultado de prêmio) é digno.

Enfim, já escrevi diversas vezes coisas como essas aqui. Já escrevi diversas coisas como essas nos meus livros. Tenho um romance-estandarte ao individualismo (“Feriado de Mim Mesmo”, duh!) e vou continuar batendo nessa tecla, porque é parte da minha batalha pessoal.




Mas que irônico defender o indivíduo pensando no social...


Ou é o contrário?

"Nós não gostamos de gente"

Minha causa é essa, não fazer com que você siga minha causa, que saiba defender a sua, só a sua. Que separados possamos destruir a união.


Morri!

COELHA VAMPIRA

Ilustração de Marcos Garuti para meu conto, na Revista E.                  Na noite de 28 de março de 2017, o escritor gaúcho João ...