30/01/2009

POR ONDE ANDO

Nos trilhos.



Meu quinto romance está decantando. Entregue para Record, previsto para junho deste ano. Alguns dias acho que é a melhor coisa já escrita pela humanidade. Outros dias tenho vergonha, ódio, arrependimento. Espero que críticas negativas venham nos dias em que eu possa concordar. Ou que críticas positivas venham para eu pensar que "não é tão ruim assim". Não é tão ruim assim. Na verdade, é bom demais. Ou talvez seja as duas coisas, e a questão não seja meu ponto de vista, mas a página que examino. Ou talvez seja tão bom, e eu tenha me esforçado tanto para que ele ficasse melhor, que passou do ponto. Tanto tempo.... Ao menos é um romance intenso. E longo. Acontece coisas demais. Tem personagens demais. E, como sempre, é um exercício de excesso, excesso... Não sou um homem delicado....


Já estou escrevendo outro. Não é de se surpreender. Não precisa se surpreender. Não venha me dizer que escrevo rápido, ou muito, porque esse é apenas meu trabalho. Escritores escrevem. Não deviam esperar que eu tirasse meses e meses de férias do meu próprio ofício. Lentas são apenas as publicações. E não quero mais ter pressa. Lançar um livro por ano, nunca mais. Você não tem tempo de ler. Tanta gente que me cobra livro novo, mas que nem lê tudo o que me foi lançado... As árvores precisam de um tempo para respirar.


De qualquer modo, meu próximo será um livro de contos. Contos longos, de sexo e morte. Já tenho um nome, mas não vou dizer. Já tenho alguns contos. Estou pensando ainda se reciclo contos mais antigos, mas no momento abomino todos. E quero só contos longos. Quero só contos extensos. Quero só contos que possam forrar todo o chão da minha casa, quando eu for pintá-la, e quero estar morando numa mansão.


Micro-contos é para quem se contenta com uma kitinete.


Tem também um novo romance, um romance juvenil. Esse já está avançado, ao menos forra o terrário do meu iguana. Ele come meus acentos como grama, defeca no final dos meus parágrafos. Eram todas frases bem objetivas, mas quando ele passa por cima deixa para trás reticências...


E tem o roteiro de Feriado de Mim Mesmo, que será próximo, mas diferente do livro. Outro final, outro desfecho. Ou o mesmo desfecho, mas com uma explicação diferente. Vai surpreender quem já leu o livro, de qualquer modo. É bom hoje poder rever a história e fazer diferente.


A escrita há muito que não satisfaz minhas necessidades imediatas. Não satisfaz minhas necessidades, desde que se tornou um trabalho. Quando escrevo, não importa mais se estou triste, se estou feliz, se estou angustiado. Um livro demora meses e meses, e até um bom conto hoje me consome semanas. Não se comunica mais com meu estado de espírito. Escrevo o que penso, não o que estou sentindo. Se escrevo sobre tristeza, preciso manter esse clima por dias e dias, quando o tempo abre e quando o tempo vira. O desafio é manter essa unidade, é manter um tom coerente num livro que você começou antes dos trinta e segue chegando aos trinta e dois. Claro, eu escolho meus temas. Enfoco os problemas e as questões que me instigam, que me perturbam. Mas são questões maiores, da minha vida; na minha literatura não há mais espaço para meu momento atual.


Para isso ainda serve o blog.


É bom também poder fazer textos sob encomenda. Revistas que me pedem para escrever sobre quem eu nem penso, nem sei, e eu ter de sair com uma história por puro exercício. E pelo cachê. Faz parte do meu trabalho. É bom poder publicar em jornais e revistas reforçando a idéia de que a realidade nem sempre importa. Colocar ao lado da notícia uma história que não houve, que não aconteceu. O mundo é maior com a ficção. Ainda acho a criatividade mais nobre do que a informação.

E você me escreve - tanta gente me escreve - pedindo para eu ler seu conto, visitar seu blog, deixar um comentário. Mas isso faz parte do meu trabalho. Todo dia tenho de ler algo de contemporâneo. Faço leitura crítica para editoras, tradução, resenhas para jornais. Recebo textos de amigos, de parentes, de colegas. Me falta tempo para ler os clássicos. Me falta tempo para reler Oscar Wilde. Me falta cabeça para ler as coisas terríveis que eu gosto, histórias em quadrinhos e livros de terror.

Você não quer minha opinião.

Ano passado li pilhas e pilhas de romances inscritos no Prêmio Sesc, por que o seu não estava lá? Por que não inscreve seu livro num concurso - foi isso o que eu fiz - e de repente eu sou juri, de repente chega até mim. Chegará por certo a alguém disposto, preparado, que estará recebendo para isso e poderá ver seu trabalho com o profissionalismo que você merece. Eu não posso fazer isso de madrugada, depois de uma vodca, no meio de um parágrafo, antes do último chefe de Castlevania.

Esta semana não veio a faxineira, e ainda tenho de limpar a casa...

Se eu organizasse uma oficina literária, você iria? Não acredito em oficinas. Ainda sei trocar o pneu do carro, se for preciso, mas prefiro andar a pé. Acho estranho gente que escreveu meia dúzia de micro-contos e estão por aí, ensinando a escrever. Não, não acho estranho, acho curioso. Não, não acho curioso, acho engraçado. Não acho nada de errado, de repente é assim. O melhor professor de piano não é o melhor pianista, só alguém com didática.

E isso eu não tenho.

Me pergunto se há algum sobrevivente dos meus antigos alunos de inglês...

Mas preciso ir. Tenho um Pato descongelando na geladeira. Tenho um adolescente para alimentar.

Fábio e o Pato.

LEVE NEVE

Com minha herdeira, a Trevosinha Valentina.  Lançamento ontem em São Paulo. São Paulo é o que conta - é minha casa, minha base, daqui...