03/01/2014

GRANDE IRMÃO, GRANDE LIVRO.




Resenha minha na Folha, final de semana passado:

Após meia dúzia de romances publicados e duas décadas de carreira, Lionel Shriver finalmente conquistou sucesso como autora com Precisamos Falar Sobre o Kevin, misto de drama familiar e thriller, que lhe conferiu o prêmio Orange em 2005 e foi adaptado para o cinema em 2011.

O romance trazia uma atípica visão da maternidade, pelos olhos da mãe de um adolescente que provocara um massacre em sua escola.

A forma antissentimental com que Shriver expôs os laços familiares foi o verdadeiro trunfo do romance. E é uma marca que ela reafirma com sucesso em Grande Irmão. 

Pandora é uma empresária bem-sucedida, bem casada e com uma boa relação com os enteados. Porém, ao receber a visita do irmão músico, que não via há anos, o frágil equilíbrio de sua vida se desfaz completa e literalmente. Outrora bonito e efervescente, Edison se tornou um obeso mórbido, comedor compulsivo, que não consegue mais se apresentar nos palcos, perdeu todos os seus pertences e não tem mais onde morar. Sentindo-se responsável pelo irmão, Pandora coloca o casamento (e a própria saúde) em risco e adota como desafio pessoal resgatar a boa forma de Edison.

Num relato em primeira pessoa cheio de dúvidas, a narradora expõe pontos de vista muito particulares (e discutíveis) sobre laços fraternos, alimentação e carreira artística, que podem fazer parte de uma autoanálise da autora. (Além de ter passado por percalços como escritora e ser casada com um músico, Shriver também teve um irmão que morreu por complicações da obesidade.)

A forma como os temas são apresentados podem incomodar tanto obesos quanto artistas; em geral, nota-se uma opinião muito negativa da vida. Entretanto, é essa visão parcial que torna a protagonista tão humana e sua história mais rica e sujeita a interpretações. Muito mais do que um livro de autoajuda para gordos, Grande irmão é cruel, incorreto e fascinante, como um romance de peso deve ser.

Avaliação: Ótimo.


(Ao ler esse livro, desenterrei também a resenha de Precisamos Falar Sobre o Kevin - que escrevi para a revista Metáfora há alguns anos. Abaixo.)




Estreia nos próximos meses, nos cinemas brasileiros Precisamos Falar Sobre o Kevin, elogiado filme da escocesa Lynne Ramsay, que rendeu a Tilda Swinton uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz (que acabou sendo faturado por Meryl Streep em A Dama de Ferro). O filme é baseado no romance homônimo fictício de Lionel Shriver, que traz uma instigante premissa: a visão de um massacre numa escola, à la Columbine, pelos olhos da mãe do assassino.
No livro, Eva Katchadourian, uma americana de origem armênia, revê todo seu histórico de mãe, tentando compreender como o filho de quinze anos foi capaz de assassinar onze pessoas. Em longas cartas ao marido, Eva promove um acerto de contas com ele e consigo mesma, na esperança de identificar de onde surgiu “a gênese do mal”.
O livro traz uma visão bastante particular da maternidade. A protagonista é uma mulher eternamente resistente à ideia de ser mãe, que vê a chegada do filho primogênito (o “Kevin” do título) como uma invasão em sua relação com o marido – um ponto de vista ciumento, que talvez seja mais comum aos pais do que às mães. Mesmo ao pegar o bebê pela primeira vez no colo, Eva não é tomada de um amor “instintivo e incondicional”, do qual tanto se houve falar. O bebê desde o início lhe causa estranhamento.
Não é de se surpreender que a autora, Lionel Shriver, hoje com 54 anos, não tenha filhos e confesse que jamais desejou ser mãe. Precisamos Falar Sobre o Kevin é um corajoso debate feminino sobre esse tema.
Entretanto, se o ponto de vista materno é o grande diferencial do livro, a construção da identidade do filho psicopata deixa a desejar. Em grandes tragédias como essa, a pergunta que fica no ar é “por quê”. E por mais que um romance de ficção não pretenda cumprir a função de um tratado psicológico, provavelmente o leitor atraído pelo tema está em busca de possibilidades de uma resposta. Precisamos Falar sobre o Kevin não oferece isso. Não apenas não dá respostas e não cria uma empatia e compreensão sobre os motivos do assassino, como o caracteriza de maneira mais próxima aos filmes B de terror e suspense. Kevin está mais próximo de moleques diabólicos de filmes como Halloween, O Anjo Malvado e A Profecia do que da dupla de dupla de adolescentes do filme Elefante (de Gus Van Sant, 2003).
Isso faz com que pareça que a autora conseguiu cumprir 50% da proposta de seu livro. Consegue se aprofundar e dar uma visão diferenciada sobre a maternidade, mas foca de maneira terrivelmente superficial o massacre. Além disso, a estrutura da narrativa – toda baseada em cartas – por vezes parece falsa, recheada de detalhes e descrições que interessa ao público leitor, mas que seriam desnecessárias para um destinatário que viveu a história com ela – o pai. (Por que, contando sua versão dos fatos ao marido, ela precisaria, por exemplo, descrever com detalhes a casa em que os dois viveram juntos?)
De todo modo, Precisamos Falar Sobre o Kevin é uma leitura perturbadora, que mantém o ritmo e traz diversas surpresas em suas quase quinhentas páginas. Vendeu mais de um milhão de cópias lá fora e rendeu a Lionel Shriver, em 2005, o prestigioso Orange, prêmio britânico para mulheres escritoras. No Brasil, o livro foi publicado originalmente em 2007 pela editora Intrínseca, que agora lança uma nova edição com capa remetendo ao filme. 

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