12/04/2021

O APOCALIPSE NUNCA TERMINA


 

Avançamos para o segundo ano de quarentena. Será pouco tempo? Será só o começo? Esses dias minha mãe falava: “Pensa quando vocês contarem: ‘Imagina como foi ficar em quarentena?’” E eu tive de dizer: “Mais provável a gente dizer: ‘Imagina quando a gente ia em teatro ao vivo... com plateia... aglomerados!’” Já está me soando como leões no coliseu.

“Não quero terminar a vida assim”, minha mãe diz, lamentando o isolamento. Minha irmã lamenta o segundo aniversário que minha sobrinha vai passar sem poder fazer festa, e me parece mais grave. Dois anos na vida de uma criança – sem festa, sem escola, sem viagens – é muito tempo. A gente não tem esse termômetro...

Melhor do que passar por isso na velhice, na infância, talvez seja mesmo passar na meia-idade, como eu. Estou na idade perfeita do isolamento social. Já viajei muito, trepei muito, realizei praticamente todos os meus sonhos. Sinto que socialmente não tenho nem direito de querer nada além da morte.

Mas, como continuo respirando diariamente, o dia sopra pela minha janela um hálito de jasmim e me dá vontades...

Não tenho do que reclamar. Estou num ritmo de trabalho muito melhor do que há alguns anos, em que todos pareciam ricos e se eu me lamentava era porque EU era o fracassado. Por isso acho tão curioso essas correntes solidárias – se ficou miserável junto a todo mundo, está desculpado, entre na fila; se pede ajuda quando tá tudo mundo abastado: tu és o fracassado.

Como trabalho não é tudo (mas é 100%), o coração está tranquilo com um garoto formoso que vem aos finais de semana e me traz esse jasmim. O que mais eu poderia querer?

(o texto terminava com uma lista, mas, relendo, achei que o melhor é deixar tudo em aberto...)

A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...