| Literatura em Desacordo: Eliana Alves Cruz e eu, mediados por Diogo Borges. |
Foi-se mais uma Flip. Para mim, foi só a terceira. Estive na
primeira, de 2003, na programação principal, depois só em 2014, pelo Sesc. É
caro; entendo quem esteja disposto a pagar para chegar lá, mas, quando a gente
já foi nas condições ideiais, não acho que compense pagar. Fico sempre na
espera de um bom convite, de um marido rico; quem não tem marido ainda tem o
Sesc.
![]() |
| Beatriz Beá Rezende foi das primeiras que encontrei: foi jurada do Prêmio que me revelou em 2002. |
Tive uma mesa sábado, no Sesc Santa Rita, com Eliana Alves Cruz: “Literatura em Desacordo”. Só havia tido uma mesa online com ela, no Fliaraxá, durante a pandemia, e a gente havia se cruzado como jurados do Prêmio Sesc. Então li o romance mais recente da Eliana, “Meridiana”, já com o tema da mesa em mente. Encontrei LITERATURA, não encontrei Desacordo.
![]() |
| Bastidores. |
Belíssimo, “Meridiana” é narrado por diversos personagens de
uma mesma família, narrativas em paralelo avançando no tempo, como meridianos. Se
a estrutura é genial, o discurso não está de forma alguma em desacordo, pelo
contrário, está em total confluência com pautas atuais, com o bom gosto e o bom
senso. E como eu vim ao mundo para causar, resolvi direcionar a discussão da mesa
para isso: questionar se o bom senso não é o verdadeiro cognato do senso comum.
A plateia era da Eliana: divertia-se com meu atrevimento, mas
aplaudia das pérolas às platitudes dela. Considero que nós dois saimos ganhando,
porque nós dois fizemos o que viemos fazer. Ela questionou se eu, como
homossexual (ainda que não praticante), não sentia necessidade de me engajar
mais. Minha defesa foi que literatura não é lugar de levantar bandeiras, porque
estamos pregando a convertidos; quem vai ler um livro como “Veado Assassino” já
é a favor dos veados e contra o presidente de extrema direita. Eu questionei se
ela não sentia que só escrevia para quem já concordava com ela. Eliana disse
que não, e ilustrou com exemplos (e aplausos!). Talvez a conclusão seja que é
preciso dizer o óbvio para furar a bolha, como ela fura. Mas eu nunca quis
falar para o povo...
Tenho que agradecer ao Diogo Borges, ótimo mediador, que arquitetou tudo isso. E ao convite do Sesc, que ofereceu belo cachê, belo hotel, tudo do bom e do melhor. Só faltou o sol.
![]() |
| Jantando com dois dos meus autores favoritos que fiz leitura crítica: Maurício Mendes e Chico Leite. |
![]() |
| Eduardo Halfon foi meu colega de Bogotá 39, quando éramos os jovens autores mais destacados da América Latina. |
De resto, foi só amor. Encontrei muita gente querida, muitos
velhos amigos, velhos colegas, novos autores que só conhecia por leitura
crítica. Logo que os autores começaram a anunciar suas mesas, fiquei na dúvida
se eu não devia ter cavado mais na minha agenda, marcado mais participações.
Agora acho que fiz bem; consegui assistir a gente bacana, pegar piscina, ir a
festinhas, beber...
![]() |
| Afonso Borges (com Marcelo Moutinho, Cláudia Lamego e Myriam Scott) foi generosíssimo comigo (na mesa e na vida). |
![]() |
| No domingo, vi a mesa da querida Tracy Mann, com Angela Grillo, mediadas por Michel Alcoforado. |
(Mais fotos e registros no meu Instagram: @nazarians)
Lembro-me de que na última Flip em que fui (também pelo Sesc) tinha achado
o clima pesado, tinha saído carregado de energia ruim; dessa só saí carregado de
livros. Se não senti o hype que eu
tinha na primeira Flip, senti muito carinho, de colegas, de leitores; senti que
às pessoas já entendem e respeitam o que eu faço, um lado bom de não ser mais
novidade. Com quase 25 anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que
isso me acontece.





