28/03/2010

ANTÔNIA CONHECE O MAR



Antônia está na praia, dando o último mergulho. Estou na varanda da minha casa escrevendo, olhando para uma vaca. A vaca não me diz nada.

Há alguns meses em São Paulo, enquanto arrumava minha casa, minha faxineira Antônia deixou escapar: Nunca tinha visto o mar. 64 anos, nunca tinha visto o mar. Longe de ser uma restrição financeira – fazendo faxina em diferentes casas todos o dias, provavelmente ela ganha mais do que VOCÊ – era parte daquelas limitações auto-impostas, inércia, condicionar-se à vidinha de todo dia e não se permitir ir além. 64 anos, sem nunca ter visto o mar, tendo vindo do Ceará, morando em São Paulo, com finais de semana e feriados com Guarujá, Santos, Praia Grande logo ao lado...

Tornou-se minha primeira missão de 2010 levar Antônia para conhecer o mar.

As esotéricas e astrológicas diriam que eu, como taurino, deveria buscar constância e rotina. Até busco. Mas de tempos em tempos também me forço uma mudança, arranco-me da crisálida com asas murchas; não é à toa que tenho tatuado um símbolo de “Proibido Estacionar.” As pessoas são muito acomodadas. As pessoas são muito medrosas. E se a gente não ventila, não aprende, não evolui. Só se repete. Eu me repito demais... eu sei, eu me repito demais... Eu me repito demais, e se não tiro feriados de mim mesmo acabo mastigando sempre o mesmo prédio, no tédio, como um menino cego ou um narciso vesgo...

Mas estava falando de Antônia.

Antônia trabalha na minha casa desde a infância. Tenho total confiança. Já chegou inclusive a deixar, como quem não quer nada, uma nota de dez reais na minha cama, em períodos de vacas magras que eu mal conseguia pagá-la. Antônia tem filhos e filhas. Os filhos de Antônia nunca a levaram para a praia.

Então, neste momento definitivo de mudança, trouxe Antônia comigo, apenas para o final de semana. Antônia relutou - “Ah, eu já tinha combinado de ir pra Campinas...” Mas quando ameacei convidar no lugar a outra faxineira da minha mãe, Antônia cedeu, por ciúmes. Trouxe Antônia para Florianópolis – além das montanhas, depois da Lagoa, passando pela floresta, na praia da Barra.

Sábado de manhã, Antônia viu o mar. Primeira vez. Não estava um tempo lindo – mormaço – mas ok. Sentei-me nos degraus de um restaurante na praia e empurrei-a para a água. “Pode deixar que cuido das suas coisas. Sabe nadar?”

Antônia sabia. E foi andando desconfiada para a beira das ondas, sozinha. Aproximou-se de outra senhora por lá – a senhora não sabia nadar. Antônia ficou ao longe conversando. Se eu fumasse, estaria sentado fumando. Depois de alguns minutos, Antônia deu um pulo e desapareceu no mar.

Ficou saltando onda após onda, dando cambalhotas de costas, mergulhando como uma criança, fazendo inveja pra senhorinha no raso, que não sabia nadar. Eu, ainda sentado na escada, confesso que não consegui tirar um sorriso do rosto.

Uma hora depois, Antônia ainda estava saltitante na água. Eu ainda a sorrir.

Uma hora e meia depois... Eu deixei de olhar Antônia e fiquei mais interessado nos surfistas. Só espiava de vez em quando para ver se ela não se afogava.

Duas horas depois, eu estava sentado numa cadeira de praia, bebendo caipirinha com uma petizada; Antônia ainda saltando no mar.

O resultado foi que saí com minha primeira queimadura séria de sol em Florianópolis. Devia ter levado mais a sério aquele mormaço.

De tarde, comemos sequência de camarão. Depois, fui arrumar a casa – desfazer as malas. Antônia não estava entendendo direito que não tinha de trabalhar para pagar a passagem/hospedagem. Fomos ao supermercado (acho que vou ter problemas com os mercados daqui: não há maçã verde, não há filé de peito de peru, e uma vodca Smirnoff custa 30 reais). De noite, sugeri que fôssemos até a Lagoa jantar. Antônia preferiu ficar na frente da televisão, vendo novela e Big Brother. Não insisti.

Neste domingo acordei cedo, ela já tinha saído. Trabalhei num conto chamado “Trepadeira” (do meu próximo livro, stay tuned) e Antônia voltou da praia. Levei-a para a Praia Mole e Galheta, como sempre estavam vazias, só nós e os surfistas. Na volta – viemos a pé – Antônia viu os patos na Lagoa: “Eu acho que esses patos não são de verdade...” Não me arrisquei a explicar para ela que patos de borracha dispersos numa lagoa seriam chamados de “instalação artística” e que aquilo seria um pouco sofisticado demais para Florianópolis. De almoço fiz risoto de funghi e frango semi-Thomas (sem o curry-schmidt, porque ia matar o sabor do risoto). Depois Antônia saiu de novo para a praia aqui ao lado, enquanto eu rumino com as vacas...

Hoje de noite Antônia vai embora, volta para São Paulo, eu fico. Agora é com ela ir além, exigir dos filhos (e do namorado) que a leve para a praia no final de semana, nos feriados. Soltei uma pequena bomba para explodir longe de minhas mãos. Nessas horas eu entendo como a ignorância pode ser uma benção e como a inércia do povo preserva antigas formas de poder.

Antigas formas de poder...

Antônia na trilha para a Galheta olha para o mar quebrando nas pedras e diz: “Que coisa mais linda. Isso é prova de que Deus fez tudo isso.” Eu, no sarcasmo relativista tive de contestar: “Olha... Na verdade, isso tudo aqui é obra do Dr. Roberto Marinho.”

26/03/2010

BARULHINHO BOM



Ok, essa é velha, mas tá valendo. Dia desses lembrei que o Fischerspooner tinha um terceiro álbum, que eu ainda não tinha ouvido, e resolvi conferir. Agora "Entertainment" já entrou para os favoritos do meu Ipod.

Esqueça "Emerge", que já saturou há tempos - eles já tinham se distanciado bem do elektroclash com "Odissey", o segundo disco (que tinha ótimos rockzinhos como "Never Win" e "We Need a War"). "Entertainment" segue nessa linha elektrorock, com melodias consistentes e barulhinhos deliciosos. Escute "Infidels of the World Unite" (minha favorita), mixada para apertar os botões certos de quem jogou muito videogame. "Money Can't Dance" está mais próxima do elektro bizarro do primeiro disco, mas ainda é bem divertida. E eu ainda destaco "We Are Eletric" (bem década passada, mas ok), "In a Modern World" (um elektro funk deliciosamente kitsch) e o technopop "To the Moon", ou seja, mais da metade do disco é bem legal.

O primeiro single foi o do clipe acima, que eu também adorei.

Mudando de assunto, hoje fui visitar o grande (ator-escritor-crítico-professor) Alberto Guzik no Hospital Santa Helena. Ele foi submetido há mais de um mês a uma cirurgia de retirada do estômago, que teve complicações. Assustou os amigos, mas agora já está se recuperando. Quem não foi visitá-lo ainda logo-logo tromba com ele pelo baixo-augusta, tenho certeza. EU é que não estarei mais aqui.

Hoje volto ao exílio.

23/03/2010

PETISCOS FINOS

Nesta quinta, o queridíssimo Thiago Pethit lança seu segundo disco, primeiro álbum, Berlim, Texas, no Sesc Vila Mariana. Thiago é talentosíssimo, suas músicas são uma delícia e trazem toda a sofisticação de que o baixo augusta estava precisando. Acompanho desde o início. (Tudo bem que até hoje ele não compôs a melodia da letra que entreguei pra ele... mas logo logo vou repassar....)

As informações deste show, e dos próximos, estão aí em cima.

Estou querendo juntar meus amigos cantores numa releitura dandy dos Doces Bárbaros, que poderia chamar como? "Petiscos Finos"! Lembra muito Biscoito Fino? Então "Petiscos Chiques?" Ou "Os Petit Fours?" Aliás, acho que o Thiago já devia batizar sua banda: "Thiago Pethit e os Petit Fours."

Meus Petiscos Finos teriam, além do Thiago, a Vanessa (do Ludov), o Dan Nakagawa e o Filipe Catto.

Se eu morrer, for atropelado, levar um tiro, sofrer um terremoto ou precisar levantar fundos... já tenho meu show de homenagem. Pronto! Já criei meu auto-tributo póstumo!

No mais, esta sexta volto pra Florianópolis com um "plus a mais"... Antonia, minha faxineira, vai passar o final de semana por lá e vai... CONHECER O MAR PELA PRIMEIRA VEZ, aos 64 anos.

20/03/2010

"EU SOU A MENINA DESTE NAVIO "


No centro do convés, o menino...


Sebastião há muito não pisava num navio. Tentou calibrar os olhos, calibrar os pés, sentir o mar movimentando-se lá embaixo e deter a oscilação de seu próprio corpo ancorado. Mareado. O velho pescador subiu no navio e avistou sua casa tão pequena, sua ilha tão perdida. Seus sonhos à deriva e, no centro do convés, o menino.

Miranda Poente há muito estava encalhada na mancha negra do mar. Sem peixes nem possibilidades. O barquinho pesqueiro de Sebastião atracado a cracas. Sua barraca à vista de vista nenhuma. Ele e sua esposa vendendo cerveja, vendendo torresmo, vivendo de um bar pequeno quase sem clientes, praticamente sem peixes, sem camarões consistentes nem iscas de mariscos para servir aos turistas. Sem temporadas. A riqueza do petróleo, as promessas de outrora se dispersaram numa mancha ocre por toda baía. Ninguém entrava, ninguém saía.

Até a visita de um navio fantasma.


Trechinho de conto do meu próximo livro, para você ver que minha ilha interna continua a mesma...


- Estou em SP, mas já saí de São Paulo. Fui pro interior, para a casa de campo dos Nazarian. Veja só, agora tenho uma casa de campo, uma casa de praia e uma casa de zona!

- Fico no estado até o final da próxima semana - arrumando malas, transferindo correspondência, tentando cancelar a Net... Daí volto pra Santa Catarina.

- Os trabalhos continuam por aqui e continuarão por lá. Aliás, estou traduzindo um romance bárbaro do Ali Shaw - um jovem autor britânico - "The Girl with the Glass Feet," para a Leya.

- O ritmo de tradução, pareceres e resenhas vai ter de continuar intenso, mesmo à beira-mar. Afinal, não estou tirando feriado de mim mesmo, nem posso me dar ao luxo de viver tirando cracas dos pés. A riqueza do petróleo permanece como uma promessa futura. Espero que próxima.

- O melhor ovo de páscoa deste ano, até agora, é o Branco com Damasco do Pão de Açúcar (isso, a marca do supermercado), e olha que já comi alguns ovos de páscoa... O preço é bem ok. R$30, meio quilo.

- Esses dias descobri o Chris Corner, do Sneaker Pimps e IAMX. Muso instantâneo. Me esforcei para gostar do som... mas não consegui. Então fica valendo só pelas fotos.

Manda um desses lá pra Barra!

16/03/2010

I BOUGHT THE MISSISSIPI RIVER

Lindas alemãs no churrasco de ontem.


Em frente à minha nova casa há uma vaca. Ao lado, fica o mar. Me parece uma idéia quase surreal ter mudado tanto assim de um dia para o outro . Ou me parece absurdo ter ficado tanto tempo sem mudar.

A vaca vizinha.


Aqui é uma vila de pescadores, e eu tenho me dedicado a ser simpático e dizer bom dia, boa tarde e cumprimentar as pessoas nas ruas. Por enquanto está fácil; afinal, é algo que eu já exercitava na vila do baixo-augusta...

A casinha (o andar de cima todo é meu.)

Sala com varanda.

Cozinha e uma área de serviço lá atrás.

Tem feito bastante sol e há três praias num raio de meia hora da minha casa, incluindo uma de nudismo. E as praias estão vazias – fora de temporada, as praias estão vazias. Dá para entender um pouco melhor como Florianópolis sobrevive paradisíaca. Não há ninguém aqui. Tirando as férias, ninguém aqui. Sábado de sol, ninguém nas praias. Me deu aquela “impressão-Sparks” de ter comprado o Rio Mississipi. Você aluga uma casa por um ano e pode dizer que a cidade toda é sua, as praias, a ilha. Acho que é essa a sensação que eu buscava, querer pertencer – possuir ou entender um pouco mais o lugar...

É estranho morar numa ilha.

Galheta a 20 minutos, Mole a 30, Barra da Lagoa a 5.

Minha casa é longe de tudo... ou de todo o resto, mas não faltam mercadinhos, restaurantes, sequência de camarão... Aliás, engraçado que os supermercados aqui ficam abertos até as 23h. Em São Paulo, depois das 22h só no Pão de Açúcar da Angélica...

Dá para ir até o centrinho da Lagoa à pé, leva uma hora e meia subindo morro, descendo morro, e é um trajeto que já sei que vou me acostumar (não treinei na lomba da Augusta?). Sábado peguei uma tempestade de lá até aqui. Fui batizado.

Ontem comecei minha nova rotina. Trabalhei até as 5 da tarde, depois fui correr na praia. Tem uma academia fuleira aqui perto, que também deve servir.

É um pouco estranho morar numa casa mobiliada, claro. Meu apartamento em São Paulo é aquele excesso de mim mesmo, que vai continuar por lá. A casa daqui tem uma decoração duvidosa... mas é decoração de praia. Eu não vou redecorar. Apenas me permiti tirar um arranjo de flores de plástico da mesinha, esconder dentro de uma gaveta...

Minha "familinha verde."

Ontem o pessoal da pousada fez um “churrasco de despedida” para mim – ou seria de boas-vindas? Amanhã volto a São Paulo só para fazer as malas.

Trisha parece menina de filme. Mas ficou ruiva assim "comendo camarão do pé".

Ida prepara o churrasco.

Hoje está mais um sol daqueles. Eu ainda tenho dez páginas de tradução para fazer, mas escrevo da varanda, olhando as vacas, com areia entre os dedos e o mar a uma contagem de laudas.

12/03/2010

NÃO VÁ PELO CAMINHO DA FLORESTA...

Minha casa.

Dia desses, noite dessas - 1 da manhã - estava escrevendo e resolvi dar um pulo até a praia. Perigo? Se vou morar aqui, é pra isso - não passei incólume por sete anos no baixo-augusta? Me lembrei que a dona da pousada me disse que o caminho pela rua de baixo era mais rápido, e fui seguindo, seguindo, seguindo...


Errei o atalho. Andei quase uma hora por uma estrada que não dava em nada, só cortava uma floresta com corujas, cigarras, cadáveres... Nem carro passava.


É num lugar assim que eu quero morar.


Então achei. Depois de uma semana de peregrinação por Florianópolis, encontrei minha casinha. Fui vacilando da Barra para a Lagoa, da Lagoa para a Barra, pensando que eu devia morar ao menos perto de um caixa eletrônico, de um quiosque do Bobs, mas... afinal, prefiro morar perto de um caixa eletrônico ou do mar? Fiz a minha escolha. Longe da civilização.


"Você é escritor? Olha, aqui maconha é droga..."- me disse um simpático proprietário. Nem todos foram com minha fuça. Ou com minhas tatuagens. Mas uma senhorinha hospitaleira me alugou por um ano um apartamento enorme ao lado da praia - dois quartos, todo mobiliado, varanda, um histórico de suicídios...

Segunda já estou lá. Volto a SP só para fazer malas, desatarrachar lâmpadas e fechar as comportas.


Não será uma mudança definitiva ou radical - manterei três patas aqui em Floripa, uma em SP. Meu apartamento lá ficará montado, mobiliado, operacional, para sempre que eu precisar. Mas a idéia é ir o mínimo possível. Ainda que seja uma idéia ousada manter duas casas, é menos corajosa do que uma mudança definitiva, deixar uma vida toda para trás - mas agora minha vida já está sedimentada e não posso mais brincar de "cidade nova, carreira nova."


Dos amigos próximos, ninguém ficou muito entusiasmado com a idéia. Acho que não foi questão de inveja nem saudades - talvez eles tenham necessidade de uma hiper-urbanidade que eu já carrego comigo. Não há ser mais urbano do que eu, não há alguém mais paulistano. Agora pós-urbano, eu diria, não preciso mais estar em São Paulo... ao menos não o tempo todo. Posso fazer todos meus trabalhos por aqui. A cidade não tem mais nada a me ensinar. Não preciso mais desse imperativo constante de "SCORE!" "SCORE!" ou ao menos preciso (e posso) dar um tempo. Este é o momento.

07/03/2010

DA NOSTALGIA E ALÉM...

Taina, Renata, eu, Letícia e Duda em Porto Alegre.


Há exatamente dez anos eu saía da casa da minha mãe, ia morar sozinho em Porto Alegre, uma escolha basicamente intuitiva. Não conhecia ninguém, não tinha amigos lá, apenas fiz uma mudança completa e esperei começar uma nova vida. Procurei emprego. Arrumei emprego. Acabei ficando dois anos, morando num apartamento no Floresta, trabalhando como redator publicitário na Escala, escrevendo no tempo vago meus dois primeiros romances...

Agora estou saindo de novo de casa, agora estou voltando pro sul, procurando uma casa em Florianópolis, começando por um final de semana em Porto Alegre.

Com o príncipe da canção, Filipe Catto.


Há dez anos, quando eu me mudava para Porto Alegre, fui lendo no ônibus “Rastros do Verão,” do João Gilberto Noll, primeiro romance que li dele, e uma ótima introdução àquela nova vida. Agora, quando cheguei a Porto Alegre, saindo do hotel, a primeira pessoa que encontro caminhando na rua é o próprio Noll. Achei um bom presságio.

Taina, a irmã de Thomas Schimidt.


Estou hospedado no “hotel canibal,” na antiga Rua do Arvoredo. Desde que a Taina me falou que foi nessa rua que aconteceram os crimes – as salsichas feitas de carne humana no final do século XIX - só fico hospedado aqui. O hotel é antigo. Os quartos são enormes. E a geladeira solta um ruído como uma respiração, ofegante por salsichas...


Lara, Letícia, Taina e eu, empanturrados no Baalbek, que fica do lado, do lado, do meu antigo apartamento.

Vim à Porto Alegre ver os amigos, meio fingindo que “é no caminho de Floripa.” Amanhã de noite sigo para lá, procurar uma casa (ei, me ajude!), e espero só voltar a SP para fazer as malas.




Eu achava que não havia gaúcha mais bonita do que a Letícia...

03/03/2010

MOMENTO ESQUIZOFRÊNICO


Resolvi virar carroceiro e viver na estrada, por isso comprei um Ipod novo e meti quase todos meus cds lá dentro...

(O próximo passo vai ser um Kindle... Minha mãe diz que essas coisas "fazem a gente perder o gesto", o que quer que isso queira dizer...)

O shuffle esta noite está esquizofrenia pura:

Nina Simone, Elefant, Neubauten, Alcione, Saint Saens, T.Rex, Rocky Horror Picture Show, Elefant de novo (não sou fã não), Eurythmics, Jingle (meu) pra Telefônica, Mika, Luiz Miguel (mirim, com aquela musiquinha "Somos dos, dos enamorados/ de un amor /dulce livre e claro..."), Eurythmics de novo, Madonn...(ops, pula), Elvis, Eurythmics (ui, tá mal balanceado isso), trilha do musical "Annie", McAlmont & Butler, Michael Jackson, Peter Murphy, Kelly Key (hahah), Eduardo Dussek, David Bowie, Björk (nossa, não conheço essa música), Hanson, Françoise Hardy, Tetine, Traci Lords, Jingle do DD.Drim ("a pulguinha dançando o Iê Iê Iê"), Dani Umpi, Cesária Évora, Pulp, Nick Cave, Beth Gibbons, Brett Anderson, Morrissey, Nina Simone, Libertines, Catatonia, PJ. Harvey, Prodigy, Bernard Butler, Françoise Hardy, Scott Walker, Hanson (éeee...), Suede (até que enfim), Meat Loaf, Xavier Cugat, Cardigans, Pato Fu, Neubauten, Ludov, Him, McAlmont & Butler, Placebo, Marina, Peter Gabriel, Japan (nossa, esta semana tenho achado Japan a melhor banda do mundo), Grace Jones, Khan, Suede, Cure, Radiohead, Blur, Strokes, Pulp, Suede (olha, tá rocker agora), Blondie, Blondie, Karine Alexandrino, Franz Ferdinand, David Bowie, Roÿksopp, Rufus Wainwright, Jingle (meu) pro Zero Hora, Lori Carson, Pullovers, Belle & Sebastian, Radiohead, Pulp, Michael Jackson, Saint Saens, Rocio Jurado, Siouxsie, Mika, Suede, Zé do Caixão (a marchinha!), Liszt, Nara Leão, Bauhaus, trilha do "My Fair Lady", Xavier Cugat, Les Rita Mitsouko, aquela música (cafonérrima) do U2 com o Pavarotti, Prodigy, 10.000 Maniacs, Santa Esmeralda, Cure ("The Love Cats", que fofinha essa música...), Eurythmics, Cibo Matto, Nelson Ned (o gigante da canção!), Blondie, Tetine, Antony and the Johnsons, Adriana Calcanhotto, Sinéad O'Connor, Stone Roses, Adriana Calcanhotto, Oingo Boingo, Blondie, Frank Sinatra, Eduardo Dussek, Brian Eno, Michael Jackson, Scott Walker, Adriana Calcanhotto, Rufus, Erasure, Rufus, Cachorro Grande, Pretenders, Gene, Lori Carson, Liszt, Jordy... (pronto, vou parar por aqui).

(Aproveito o momento de merchan espontâneo para dizer que vale bem à pena comprar Ipod ao invés de um MP3 player genérico. Tenho um Nano de 4G há três anos que já caiu duzentas vezes no chão, no mar, na areia, está todo riscado mas funciona perfeitamente, nunca deu chabu, usando diariamente. Só fone de ouvido que tem de ser visto como uma coisa descartável mesmo... Para mim, costuma durar uns 3 meses. Acho que com o Ipod também as pessoas passaram a ouvir mais música. Ficou mais fácil carregar toneladas. Eu mesmo estou esses dias revirando cds que não ouvia há milênios e passando para o Ipod, e agora as músicas vão voltar a circular na minha cabeça com o Shuffle.)

28/02/2010

LONGA VIDA ENTRE LIVROS

Com José Mindlin (1914-2010)

Faleceu neste domingo o queridíssimo José Mindlin, empresário e bibliófilo, que formou a maior coleção particular de livros raros do Brasil. Estava com 95 anos, e há mais de um mês internado, com uma série de problemas decorrentes da idade.

Mindlin foi patrão e amigo de muitos anos de minha mãe, que trabalhou na biblioteca dele até 2008. Comigo, sempre foi muito carinhoso, atencioso e prestigiou quase todas minhas noites de autógrafo aqui em São Paulo.

Em 2007 fiz um longo perfil dele para a revista Joyce Pascowitch (que inclusive já reproduzi aqui.) Aproveito então para colocar de novo, como uma homenagem.


UMA SELVA DE PRATELEIRAS

Confesso, na primeira vez em que estive na biblioteca de José Mindlin, há uns sete anos, minha vontade foi de abrir todas as gaiolas e deixar os pássaros voarem livres pela vizinhança. Ok, talvez nem todos fossem pássaros, talvez algumas jaulas guardassem tigres, rinocerontes, quem sabe tiranossauros rex? Que engolissem os vizinhos então, animais só se justificam em liberdade. Como eu poderia entender a vida selvagem observando-a num zoológico?


No prêmio fundação Conrado Wessel (2003), que me revelou, com Tânia Franco Carvalhal e Beatriz Resende.


Mas estamos falando de livros. E de uma biblioteca. A maior biblioteca particular de livros raros do Brasil. E a alegoria não é tão descabida quando percebemos que a fauna da literatura nativa vem, cada vez mais, sendo impiedosamente assassinada para dar lugar a bestsellers (ou melhor, pastos para criação de gado). Eu mesmo sempre achei que os livros deveriam estar nas ruas, no metrô, na vida das pessoas, e não catalogados como espécies raras numa biblioteca. Entretanto, esse é um pensamento restrito, de quem acredita que o zoológico existe para tirar o animal da selva. Observando com um pouco mais de cuidado, percebemos que o papel é outro: proteger a criação, preservar as origens, e contribuir com a reprodução dessas espécies raras. Como fazem as melhores bibliotecas.


Isso só percebi ao me aprofundar um pouco mais no universo, no trabalho e nas paixões de José Mindlin. “Todo livro que se procura e não consegue se encontrar é raro”, coloca ele em seu segundo livro de memórias Uma Vida Entre Livros (Edusp-Cia das Letras, 1998). Sua biblioteca não representa, de forma alguma, a reta final de obras que foram esquecidas ou fossilizadas, mas sim um local onde, exatamente por serem procuradas, essas obras ganham um novo status. Ela cumpre um papel de resgate e revitalização, para que o livro possa ser preservado, lembrado, lido. Podemos observar isso facilmente dando uma rápida olhada em suas prateleiras, que guardam não apenas livros há muito fora de catálogo, mas também versões preciosas de obras obrigatórias, como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ambos em originais datilografados e corrigidos a mão pelos autores.


Mas como obras iguais a essas vieram despertar o interesse de um industrial filho de judeus russos?


Num lançamento de Elisa Nazarian, minha mãe.

Observando a longa história desse homem de 92 anos é possível entender: ele nunca foi um industrial apaixonado por livros – como ele mesmo ressalta - foi sempre um bibliófilo que, em certo momento da vida, atuou na indústria.


Sua convivência com os livros, inclusive, começou bem antes de suas atividades profissionais. Em sua família, sempre se deu valor à leitura, embora as artes plásticas fossem a maior paixão de seu pai. Mindlin acredita ter herdado esse gosto pelas artes, mas com foco nos livros: é um grande admirador do aspecto visual e gráfico das publicações, admiração essa que direciona parte das escolhas de sua coleção.


Entre suas obras raras só em raras exceções adquiriu exemplares em mau estado, e esses foram restaurados por sua esposa e grande companheira, Guita Mindlin, falecida em junho do ano passado, após 68 anos de casamento.


Apesar de suas origens judaico-russas, José Mindlin nunca teve um interesse específico por esse tipo literatura. “Eu li os bons autores russos – como Tchekov – não por serem russos, mas por serem bons”. Afinal, nascido e criado aqui, nada mais natural que ele quisesse se aprofundar na pátria que seus pais lhe ofereceram.


Uma grande influência em suas primeiras leituras foi o seu irmão mais velho, Henrique. “Com doze anos eu lia os livros que ele lia com dezesseis, então me tornei um leitor precoce”. Tão precoce que, aos treze anos, começava sua coleção de livros raros adquirindo sua “moedinha número um”, o livro Discurso Sobre a História Universal de Jacob Benigno Bossuet, em edição portuguesa de 1740. Começava aí uma paixão que duraria a vida toda.


Pelo fato de ter se interessado desde cedo por livros, pergunto se ele não era um daqueles garotos introvertidos, isolados, que é caçoado pelos colegas. Ele nega. “Sempre fui muito falador, tinha amigos.” - Mas e quanto às piadas, os garotos não tiravam sarro por seu hábito de colecionar livros? “Bem, isso foi a vida inteira. Até hoje. As pessoas sempre tiram sarro de quem dá tanto valor à leitura”, relembra. Observa, inclusive, como coleções de pintura e obras de arte em geral sempre tiveram mais status do que as bibliotecas. Talvez por isso sua atividade como industrial da Metal Leve tenha parecido algumas vezes mais significativa do que a de bibliófilo.


José Mindlin se formou na Faculde de Direito do Largo de São Francisco na década de 30. Afirma ter aprendido mais literatura do que Direito na faculdade. “Eu me sentava no fundo da classe para ler literatura durante as aulas. Em casa, eu lia as apostilas do curso.” Na faculdade, conheceu também uma outra grande paixão, sua mulher Guita, com quem se casou ainda durante o curso.


Além de advogar, trabalhou como repórter de O Estado de S. Paulo (em 1930, ainda antes da faculdade) e em 1950 fundou, em parceria com colegas, a Metal Leve, pioneira fábrica de pistões. Destacou-se ainda como editor - ajudando a divulgar obras importantes e, em alguns casos, quase esquecidas - Secretário de Cultura de São Paulo e, obviamente, escritor .


Hoje, tem em sua biblioteca cerca de 35 mil títulos, que somam mais de 60 mil volumes (pois muito dos títulos são encontrados em diversas edições, como no caso de Os Lusíadas, de Luis de Camões, cujos diferentes volumes ocupam uma estante inteira). Desses, acredita por sua última estimativa, já ter lido em torno de 8 mil, e que levaria cerca de 300 anos para ler toda a sua biblioteca. “Existe sempre a ilusão de que se vai conseguir ler mais do que na realidade se consegue. Depois vem o desejo de se ter à mão o maior número possível de obras de um autor de quem se gosta.” – explica ele em seu livro de memórias.


Obviamente, sendo um bibliófilo há quase oitenta anos, há décadas escuta que “o livro vai desaparecer”, que vai ser substituído por outras artes ou versões digitais, mas não acredita nisso. “Ao menos, não no quadro que existe hoje. Ainda não existe nada para substituir o livro.” Pelo contrário, ele acredita que as novas tecnologias de publicação ajudam a tornar o livro mais bonito e mais barato. A tecnologia vem a serviço do livro. Ressalta que, hoje em dia, as edições brasileiras são mais caprichadas, mais bonitas do que há cem, cinqüenta anos. “O livro bonito não é necessariamente mais caro que o livro feio, e ajuda a vender” – relembra Mindlin, que aponta que esse pensamento só começou a ser adotado no Brasil à partir da década de 50, quando se retomou um cuidado com o aspecto gráfico do livro.


Mas se é otimista em relação ao presente e futuro do livro impresso, é mais crítico quanto ao futuro das livrarias. Percebe o fim das livrarias menores, mais íntimas, onde se conheciam os livreiros e esses realmente sabiam o que estavam vendendo. Essas lojas pouco a pouco vão sendo engolidas por grandes redes. “Mas isso não acontece só com as livrarias”, aponta. “É o mesmo com pequenas vendas que entregavam em casa e marcavam as contas de seus fregueses, e hoje são substituídas por redes de hipermercados.”

E quanto aos bons escritores, esses pássaros raros que cantam em gaiolas cada vez menores? Eles seriam preservados pelo tempo?


Na biblioteca dele.


Em 2004, num debate sobre literatura no Itaú Cultural, o escritor Ignácio de Loyola Brandão respondendo à pergunta sobre “Quais são os bons escritores que estão surgindo hoje” soltou a velha máxima: “O futuro é que dirá. Os bons ficarão”, o que me fez contestar, na ocasião. Agora tenho a oportunidade de inverter a pergunta ao maior colecionador de livros raros do Brasil. Os bons ficam realmente? No seu garimpo por livros raros, não são descobertos muitos ótimos autores que hoje estão esquecidos? Mindlin assente, e explica que muitos ótimos autores não são reeditados por razões comerciais, porque não vendem, acabam sendo esquecidos. Outros por motivos pessoais, por não formarem boas relações no meio editorial, acabam gerando dificuldades em continuar publicando. Se os maus tendem a desaparecer, também não se pode garantir a sobrevida dos bons.


Então este é um pouco do papel de sua biblioteca e do que toda boa biblioteca deve ter. A preservação da memória. Pensando nisso, sua Brasiliana (livros sobre assuntos brasileiros) foi doada para a USP e será transferida para lá em dois anos. Assim ele assegura a continuidade de seu legado.


O próprio José Mindlin também já tem sua imortalidade assegurada. Em maio do ano passado, convidado sem campanha numa quase unanimidade, foi eleito Imortal da Academia Brasileira de Letras.


E como autor? - Mindlin publicou dois belos volumes contando sua história de vida e sua relação com os livros, registrando também a história por detrás de sua biblioteca. - Como autor, desejaria que suas obras permanecessem acessíveis por anos a fio ou desejaria que se tornassem elas próprias obras raras, cobiçadas por colecionadores?


“As duas coisas. Quero que estejam sempre disponíveis em edições atuais” (holográficas, brinco eu )“mas que sua primeira edição seja cobiçada como uma obra rara” – sorri.

Eu, como ave tropical, também não poderia querer outra coisa.

CARAMELO LANÇADO

Na Martins Fontes.  Livro novo, vida nova... ou aquela velha vida reciclada. Estou em plena agenda de lançamentos, mesas e eventos, descobri...