13/02/2007

ARTE CARA E VIOLÊNCIA GRATUITA



( Eu, minha mãe -Elisa Nazarian - e José Mindlin, há quinze dias. Foto: Cris Von Ameln)


José Mindlin é tema de uma grande matéria (em todos os sentidos) que fiz para a revista da Joyce Pascowitch de fevereiro. Para quem não sabe, Mindlin é o maior colecionador de livros raros do Brasil, com uma importantíssima biblioteca - recentemente doada à USP - e um Imortal da Academia Brasileira de Letras. Aos 92 anos de idade, é uma figura histórica da literatura do Brasil, não apenas pelos livros que adquiriu, mas pelas histórias que viveu e os escritores que conheceu. Algumas das histórias estão na matéria. Trecho:


Pelo fato de ter se interessado desde cedo por livros, pergunto se ele não era um daqueles garotos introvertidos, isolados, que é caçoado pelos colegas. Ele nega. “Sempre fui muito falador, tinha amigos.” - Mas e quanto às piadas, os garotos não tiravam sarro por seu hábito de colecionar livros? “Bem, isso foi a vida inteira. Até hoje. As pessoas sempre tiram sarro de quem dá tanto valor à leitura.”


Mindlin sempre foi queridíssimo comigo. Claro, minha mãe trabalha com ele em sua biblioteca, mas ele sempre prestigiou meus lançamentos, me recebeu com carinho, elogiou meus livros, e afinal de contas eu poderia ser apenas um "filho de uma funcionária". Fico mais do que feliz de fazer uma matéria com ele. Ainda mais para a Joyce, que sempre dá tanta força para minhas sugestões de pauta e está criando uma revista realmente glamurosa, pelos motivos certos.




(Eu, Tânia Franco Carvalhal, José Mindlin e Beatriz Resende, no Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura, que ganhei em 2003 [Diabos, estou sempre segurando um copo ao lado do homem?])

Agora, vocês querem que eu comentem o caso João Hélio? Muito bem, uma tragédia glaceada de sensacionalismo. Porque é claro que é uma notícia chocante. Claro que os assassinos merecem a pior das penas. Mas claro que ninguém quer ver a inevitabilidade de casos como esses. Inevitável porque:

1) Não é um caso de requintes de crueldade. É um caso diferente de queimar uma família dentro de um carro. Os assaltantes não pensaram em arrastar o menino. Queriam roubar um carro, se apavoraram, fizeram a maior merda possível. Sim, podiam saber que arrastavam um menino, mas, no pânico, não tiveram o menor discernimento. Não que não seja crueldade, mas foi principalmente idiotice.

2) Penas mais rígidas, aplicadas de antemão, não teriam o menor efeito para inibir um caso desses.

3) Arrasta-se pessoas, mata-se a pedradas, joga-se na fogueira desde os primórdios da humanidade...

Ok, então minha terceira justificativa soa um tanto cínica, concordo. O que quero dizer é que nesses casos procura-se sempre uma resposta maior, mais definitiva, que não existe. Os culpados diretos estão presos. O que os levou a isso todo mundo sabe: pobreza, falta de educação, de perspectiva e a SORDIDEZ DOS VALORES humanos. Claro, porque a culpa está sempre - e apenas - no governo, num poder maior, mas o marido que espanca a mulher está tão chocado com essa história quanto você. E está "cobrando repostas do governo" também.

Isso quase me obriga a fazer um paralelo com a "cândida" história, também ocorrida terça passada, do avô que salvou o neto da sucuri. Viram essa? Essa é de cinema (cinema B). Um garoto de 8 anos que foi atacado por uma sucuri de 5 metros no interior de SP. A bichana já tinha enrolado o menino, estava apertando-o e prestes a devorá-lo (pedófilos, controlem-se), então o avô entra em ação, mostra o pau e mata a cobra.

Tudo certo, tudo bem, todo mundo diverte-se com a história e o final feliz.

E se a cobra tivesse engolido o menino?

Alternativa mais do que surreal, mais que poderia muito bem ter acontecido! E, ao meu ver, que não conheço o menino, seria uma irônica e rara vitória da natureza. Só imagino então que pipocariam protestos, processos e denúncias que "a polícia florestal já tinha sido avisada da cobra andando por lá, e não fez nada", "a negligência do avô em deixar uma criança de oito anos brincar sozinha num sítio", "o abuso dos fazendeiros sobre o meio-ambiente, porque normalmente um animal daqueles não ataca seres-humanos, mas com a falta de alimento, etc. etc".

O que quero dizer é que as pessoas simplesmente não aceitam as tragédias, mesmo quando não há mais nada a fazer. "E não vamos fazer nada?", diz a capa mais do que sensacionalista da Veja sobre o caso João Hélio. Bem, faremos protestos, passeatas, andaremos de luto, e isso pode trazer pequenas melhorias, mas vai mudar algo substancial enquanto continuarmos votando no Clodovil "porque é engraçado", enquanto continuarmos comprando cd pirata "porque é mais barato" e enquanto continuarmos ouvindo funk "porque é arte popular"?!

Eu realmente acho que, antes de tudo, a culpa está em você.

O maior absurdo que eu vi foi o Datena falando ao vivo (!) com um dos assassinos do garoto (!) direto da delegacia. Ele pedia para o delegado colocar o ponto no rapaz (!) e ficava ao vivo acusando-o de assassinato! Que idéia imbecil é essa? Desde quando um apresentador de TV tem direito de interrogar um preso recém detido? Não é isso que chamam de poder paralelo? É por isso que esse país inteiro continua se arrastando...

Bem, bem, não serei eu que vou insistir em polêmicas sobre esse caso. Não ganho nada com o aumento da audiência nesse blog...

O que tenho ouvido:

- Peter Murphy (principalmente o último álbum, "Unshattered", um dos mais acessíveis dele, depois de toda uma onda "cold wave" que lembrava um pouco até as coisas recentes do Scott Walker - a voz absurdamente impostada. Peter Murphy está voltando a ser meu herói. Até comprei um DVD do Bauhaus, para lembrar meus tempos "Edward".)
- David McAlmont (que eu toquei no "Le Kitsch" desta semana)
- Prodigy (como eu disse, para me pilhar nesses momentos de solidão)


UM ANO TREVOSO

Saindo do poço... Não foi fácil para ninguém, não se engane. Não foi fácil para mim. Estava revendo há pouco minhas retrospectivas de a...