17/03/2007

"COMO É CRUEL CANTAR ASSIM..."
(Santiago Nazarian - alucinado - e Cauby Peixoto, em foto de Cris Ameln. Aguardem, em abril na revista da Joyce Pascowitch)

Noite de sexta, abandonado por tudo e todos, bebo Red Bull e me ponho a traduzir uma versão juvenil de “Oliver Twist”.

Se um romance nasce da experiência, latência e universo interno do escritor, tenho percebido que com a tradução é o contrário. O tradutor passa tanto tempo com um universo alheio, trabalhando numa escrita que não nasceu dele, que pouco a pouco vai absorvendo idéias, ou contaminando-se com elas.

Há alguns meses, quando traduzi um romance de um cara que abre uma loja de donuts, fui acometido de um desejo quase obstétrico por essas guloseimas, que ameaçou destruir toda a silhueta de Thomas Schimidt (que cultivo com mais amor do que a minha literatura). Mas felizmente já passou. Quando traduzi JT LeRoy despertou-se em mim um apetite por jovens junkies andróginos que... hum, um dia passa.

Agora traduzo um livro mais do que dândi, de escritores ricos, vazios e bem-sucedidos, vivo essa vida de opulência e me sinto esvaziando a cada gole que dou nessa Absolut Vanilla.

Para o escritor que fala bem uma segunda língua, recomendo enfaticamente o trabalho de tradução. Já falei várias vezes isso aqui, e repito que nada é mais instrutivo e enriquecedor para quem escreve do que traduzir. É como ler, só que numa profundidade muito maior. É ler e escrever ao mesmo tempo – e escrever além das suas capacidades (o que o obriga a pesquisar, pensar, reavaliar).

Depois de traduzir mais de dez livros, considero que ganhei até mais como escritor do que como tradutor. Assim, quem sabe, um dia poderei me considerar um tradutor de respeito.

No momento, além de Oliver Twist, traduzo mais dois romances... e ainda faço dezenas de outros roteiros e freelas, o que está me garantindo a Absolut Vanilla das sextas-feiras. (Oh, mas neste momento bem que eu queria um milkshake de ovomaltine)

As formigas podem vir nos buscar, as baratas podem nos condenar, mas não prive meus lençóis de sua calda – Ah! A lavanderia, um dia, há de nos salvar.

Só minha vida amorosa que está uma bagunça; isso vocês já repararam não?

Bem, vamos ao “Le Kitsch C’est Chic”: Se Bowie quiser, tudo vai dar certo esta semana e teremos um programa inédito, só de musicais – Cats, Fantasma da Ópera, Mágico de Oz e por aí vai. A convidada será Bianca Tadini, grande atriz e cantora, especializada em musicais, que atualmente está em cartaz com “My Fair Lady” (cuja estréia fui conferir semana passada).

(Oh, agora estou pensando; será que essa nova tradução de Oliver Twist me anuncia tempos de mendicância?)
Agora, chega, que é sexta-feira e vou rejuntar as fendas que deixaram em meu banheiro.

Quando restar apenas o pó, e quando apenas o pó puder nos despertar, feche os olhos comigo e esqueça, esqueça, nunca tivemos motivo para nos inspirar...

VOTUPORANGA, SÃO PAULO, SÃO ROQUE E FIM!

Quinta agora, com Reynaldo Damázio. Se há algo de que não posso me queixar este ano é dos eventos. Antes mesmo de lançar o livro novo o...