28/01/2010

CRÍTICA MORDAZ

A arte de Damien.

Há alguns meses eu zapeava quando vi uma interessantíssima entrevista na Globonews sobre o vazio do mercado de arte contemporânea.
Já conhecia o entrevistado de algum lugar. Quando apareceu a legenda, vi que era Luciano Trigo, jornalista que me entrevistara recentemente para sua coluna no G1 (Dá pra ler minha entrevista aqui: http://colunas.g1.com.br/maquinadeescrever/2009/08/09/um-romance-sobre-adolescentes-e-zumbis/ ) e ele falava sobre A Grande Feira, recém-lançado livro de sua autoria que traz “uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea,” num longo ensaio sobre o tema.

Comprei pra mim. Comprei pro Fábio. E fui ler só agora, nas minhas férias em Parati. (E furou a fila do seu, ok? Seus originais ainda estão na mesa para eu ler...)

É um livro bastante curioso e corajoso por expor os mecanismos de especulação que dominam o mercado da arte atualmente. Aquela coisa de, com o fim da pintura, o fim da escultura, qualquer coisa pode ser arte, basta a intenção do artista (que não precisa nem ser realizada com sua própria mão), e assim perde-se parâmetros de valor estético e mercadológico, deixando a arte sujeita à total especulação, as relações de poder e inserção social do artista.

Bacana. A crítica.

Sou um semi-leigo, estou longe do mercado de artes plásticas, mas próximo de alguns artistas. Filho de um, inclusive; meu pai é um artista plástico que já teve seu boom nos anos 70/80 e hoje está praticamente fora do mercado.

Arte de papai.


O principal problema do livro, ao meu ver, é sua visão excessivamente parcial, à serviço da crítica. Luciano chega a escrever: “Hoje não há criação que não seja determinada pelo circuito institucional-mercadológico de consumo, numa redução total da arte à condição de mercadoria.” Aí, além do problema da generalização, há a hipervalorização do mercado, que acaba sendo contraditória com a crítica do livro em si.

Luciano ataca o mercado, mas dá valor excessivo a ele, como se não fosse possível ao artista viver e criar fora dele. É o que eu sempre digo aqui: a escolha do objeto da crítica já confere uma importância a ele. Eu não perderia tempo aqui chochando o Big Brother, porque simplesmente não me interessa, não assisto, para mim é irrelevante e eu nem teria o que dizer. Se muitos artistas que Luciano coloca lá são irrelevantes... são irrelevantes, e ele acaba dando mais força a eles colocando-os como a única força no mercado.

Já o mercado de arte é importante, claro, mas talvez não tanto hoje em dia. Luciano trata tudo como se ainda vivêssemos sobre o domínio supremo da cultura de massa; e se há uma coisa que os artistas conquistaram de dez anos para cá foram possibilidades.

Os canais a cabo, a Internet e o caralho criaram novos nichos. Acho que os jornalistas foram os principais afetados com isso (para o bem ou para o mal), mas também repercutiu em diversas artes - como os escritores com o blog, fotógrafos com Fotolog e, claro, os artistas plásticos. Hoje em dia, qualquer um pode divulgar seu trabalho, não apenas colocando sua obra na rede, mas avisando através dela quando se dará determinado evento, determinada exposição (que pode acontecer numa galeria badalada, na garagem do artista ou no salão de festas do Mcdonalds). Não há mais esse poder centralizador da “mídia de massa” de informar, divulgar, propagar.

Pode-se colocar então que o artista pode se promover fora do mercado, mas não pode sobreviver muito tempo sem ele.

Isso também não é verdade. Ao meu ver, hoje os artistas plásticos sobrevivem da mesma forma que sobrevivem os escritores. O mercado de literatura pode ser dominado por esoterismo e auto-ajuda, mas ainda publicamos nossos livros, e isso gera convites para palestras, para fazer traduções, críticas em jornal, textos em revistas. Eu vivo há alguns anos de literatura – mas não necessariamente dos meus livros – e não me lamento, acho que essas outras atividades são prazerosas e importantes inclusive para meu desenvolvimento como escritor. Estou falando de mim, mas assim vivem também quase todos os outros escritores que conheço, vivem de literatura e seus derivados (Marcelino Freire, Ana Paula Maia, Ronaldo Bressane, Cristiane Lisboa, Índigo, Andrea Del Fuego, João Paulo Cuenca, Daniel Galera, Joca Terron, Nelson de Oliveira...)

O mesmo acontece com os artistas plásticos. Ao contrário do que diz Luciano, os meninos ainda estão pintando, os meninos ainda estão esculpindo, os meninos também criam instalações, happenings e sobrevivem, independentemente do mercado. Todos os jovens artistas plásticos que eu conheço sobrevivem fazendo ilustrações (para livros, jornal, revista, publicidade) ou trabalhos de design. Eles precisam ter técnica para fazer isso, e acredito que, por mais sacais que esses trabalhos possam ser às vezes (eu também traduzo muita porcaria), eles aprendem muito sobre arte em si.

Inclusive, talvez o artista aprenda mais realizando trabalhos encomendados do que guiado apenas por sua “arte pessoal.” (Eu com certeza aprendo muito sobre escrever traduzindo, lendo, tendo de fazer pareceres de livros horríveis.)


Arte de Alê.


Os jovens artistas com que eu mesmo trabalhei - na ilustração dos meus livros e matérias que escrevi para revistas e jornais – eu conheci através de trabalhos na internet (Marco Túlio, Alexandre Matos e... LeStrange, com quem pretendo trabalhar num próximo). Eles já tinham seu público lá - admiradores, seguidores e fãs - mesmo que não estejam presos dentro das grandes engrenagens da arte. E eles me conquistaram simplesmente pelo trabalho (Marco Túlio, inclusive, que ilustrou “Mastigando,” mora em Ribeirão Preto, e nos encontramos pessoalmente duas ou três vezes) e receberam pelas ilustrações que me fizeram. Com o Alê eu inclusive fiz uma instalação na Mostra SESC de Artes 2008, veja só (e recebemos por isso). Como se pode dizer então que tudo é ditado e condenado por um grande mercado?

Arte minha e dele.


Em A Grande Feira há um negativismo inflexível. Luciano Trigo critica, e apenas critica, praticamente não há ressalvas. Por exemplo na passagem: “A própria contestação se transformou em mercadoria, como na moda e na música pop.” Seria essa uma realidade necessariamente negativa? Penso se quem viveu períodos de repressão não pode ver essa como uma situação dos sonhos – contestar, e ainda ser muito bem pago para isso? Concordo que vivemos tempos cínicos, e que se pode ganhar dinheiro diretamente das mãos de quem pretendemos atingir, mas eu não vejo isso de forma exatamente negativa.

Basta lembrar que eu passei a ser convidado a palestrar em universidades, ser tema de teses e trabalhos de conclusão de curso exatamente quando... passei a chochar descaradamente o mundo acadêmico (em “Mastigando Humanos” – o lançamento do livro no Rio de Janeiro foi inclusive na PUC, dentro de um seminário sobre realismo.)

Ok, admito, sou um cínico.

Mas isso não é hipocrisia, é uma característica da arte e do mercado atual aceitar a auto-crítica (e até a auto-depreciação), e eu não acho isso nada negativo. (Luciano Trigo não deu uma entrevista criticando o mercado na Globonews? Não tem uma página dentro do portal da Globo na Internet?)

As análises do livro também são feitas por um prisma que considero bastante antigo. “Artista de esquerda”, “artista de direita”, isso ainda existe? Não é questão de ser niilista ou apolítico. Acho que o relativismo em que a arte mergulhou dos anos 80 para cá não permite mais enquadrá-la nesses termos. Trabalha-se mais no terreno das POSSIBILIDADES do que no das CERTEZAS e isso permite que a arte seja mais pessoal, mais íntima, menos coletivista (o que não significa “apolítica”).

Luciano Trigo aponta que determinadas idéias, como valem apenas como idéias, nem precisariam ser executadas, o artista poderia apenas escrever sobre elas. Bem, talvez isso aconteça, e talvez alguns desses artistas se tornem... ESCRITORES, ou talvez algumas performances (ou happenings) sejam transformadas em espetáculos teatrais. Se essa definição de “o que é arte” não é mais possível, também não se pode limitar o mercado da arte como sendo apenas o mercado de artes-plásticas de elite – o mercado da arte também está na Rede Globo, nas editoras de livros, nos teatros de shopping ou na Praça Roosevelt, e por que não na internet?


Arte de Michel.


Outro problema do livro – esse mais de edição – é que o texto se torna repetitivo e redundante, não só pelas idéias (resgatadas de forma exaustiva), mas pela repetição até de frases inteiras (Luciano apresenta e reapresenta algumas obras de arte - por exemplo A Thousand Years, de Damien Hirst - diversas vezes, usando as mesmas palavras.) O livro merecia ter sido revisto e editado com bem mais cuidado.

Dito tudo isso, é um livro interessantíssimo. Aliás, que livro que li recentemente que me provou tamanha reação aqui no blog? A Grande Feira cumpre muito bem seu papel, gerar uma reflexão, uma discussão, seja concordante ou discordante, com a coragem de gritar “O Rei está nu!”




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