02/08/2010

DA FELICIDADE DAS FORMIGAS


A Cigarra foi feliz para sempre. Eternamente, cantou, dançou, viveu o sonho de verão e desdenhou daqueles que lhe ofereciam abrigo. Tinha asas para isso. Ria das lagartas que rastejavam, que se fechavam em casulo. Desdenhava do passo das lesmas. Caçoava dos caracóis, cuspia nas formigas. E com seu sorriso e seu talento comprou uma casa de veraneio, de frente para o mar.

Dona Baratinha lhe alertava: o verão não duraria para sempre; e se a Cigarra investisse numa felicidade perene, acabaria seca em sua casca, oca, vazia. Mas a Cigarra não se importava, empanturrava-se da flora, enquanto Dona Baratinha vivia de migalhas. “O que ela sabe sobre ser feliz?”

Logo o verão foi embora. Em menos de um ano, em alguns meses, em poucas horas o inverno soprava as migalhas para longe e todos se trancaram com os seus, em suas próprias vidas. Estavam preparados. A Cigarra também estava, cansada, e achou que seria bem vinda uma pausa. Silenciou seu zumbido. Dobrou suas asas. Abrigou-se do inverno, em sua nova casa.

Mas no inverno a casa estalava. E até mesmo a bela paisagem que se podia ver de sua janela agora estava estática, congelada, lhe parecia mais como uma pintura impenetrável, natureza morta. A Cigarra percebeu que não fazia muito sentido olhar para dentro, mas também não tinha coragem de sair lá fora.


De outra janela, a Cigarra via a felicidade das formigas, dos besouros, até dos três porquinhos: jantares e vinhos em dezenas de comentários calorosos; tricotagens no twitter, polegares positivos no Facebook. Todos se aqueciam e se esqueciam dela. Sua temporada passara.


Então rastejando em si mesma, revolvendo-se em veneno, sofrendo em silêncio, a Cigarra percebeu que não, não se arrependia. Percebeu que o inverno – e que seu sofrimento – , assim como o verão, faziam parte de sua melodia. E que só assim, sozinha, com frio e faminta, recheava a sua casca vazia. Só assim, conhecendo o inverno, reencontraria o verão como nenhum outro: ainda desdenhando das lesmas, ainda cuspindo nas formigas. E como nenhum dos outros, seria, como nunca, eternamente feliz.

Vivendo o frio sem disfarces... (Para ficar no universo das fábulas - chega uma hora que não dá mais para ser Peter Pan, até porque, é mais interessante dar de Capitão Gancho.)

E a trilha sonora perfeita para esse clima... Uma das melhores músicas do mundo:

REVEILLON DE MIM MESMO

40, hoje.  Não é o fim do mundo, mas é o começo. Hoje faço 40, e não me sinto nada jovem. Acho meio risível. Esse povo de...