15/06/2012

PÍLULAS MALDITAS




– Uau! Ludovique, né? Ou Lu-do?
– Ludo, pode ser.
– Uau! Bonitão você. Vai fazer sucesso com as gatcheeeenhas daqui, hahaha. Peraí...
A diretora pegou meu histórico e deu uma olhada. Fiquei olhando para ela, não querendo olhar, meio assustado. “Uau”? “Gatcheenhas”? Não que o jeito de animadora de palco dela me impressionasse tanto, me impressionava mais o decote, e os peitos que pareciam ter cinco litros de silicone em cada. Aquele cabelo descolorido, escorrido, chapinhado. Cara de plástica, botox e uma vida na indústria pornográfica. Essa era minha diretora no Colégio Pentagrama? Dona... Samanta... Era isso, dona Samanta?
– Samantha, só, não precisa de “dona”, mas com agá, hein? – cacarejou minha diretora.
– Certo. – Segurei o riso.






Quando você já está morto, e pode atravessar paredes, possuir corpos e assombrar a galera em geral, por que vai querer uma mãe por perto te atazanando? Por que um fantasma seria carente a esse ponto?
Era o que eu me perguntava, assistindo ao final de um filme de terror japonês no meu celular, enquanto esperava com a minha mãe na sala da diretora.
– Detesto esses filmes de terror emque o fantasma é bonzinho, que o fantasma só é mal compreendido e precisa de amor. Fantasma tem de ser mau! Fantasma tem de ser mau! – deixei escapar.
Minha mãe puxou o fone do meu ouvido.
– Desligue isso, Ludo. Não precisa ficar assistindo essas coisas até aqui, a essa hora da manhã.
Ah, “essa hora da manhã.” Muito cedo para ver filmes de terror, né? Mas o horário perfeito para aprender sobre equações exponenciais. Bem, eu não estava aprendendo muita coisa naquele colégio, isso é certo, e também por isso minha mãe estava do meu lado, esperando para falar com a diretora, que estava demorando horrores.






– Sonhei com você ontem – me disse ela.
– É? – Fiquei meio sem graça. E acabei dizendo o que não devia. – Também sonhei com você outro dia...
– Sério? O que você sonhou?
Ai, pamonha. E agora o que eu ia dizer a ela, que tive um sonho bizarro dela e do Lupe querendo me levar para o Inferno?
– Diz você primeiro: o que sonhou?
Camila riu.
– Não, diz você, perguntei primeiro...
– Mas você já começou contando...
– Está com vergonha de me dizer o que sonhou, Ludo?
Fiquei todo vermelho.
– Ah... não, tipo, não foi nada demais... A gente estava numa floresta...
Ela ficou me encarando, assentindo com a cabeça, encorajando:
– E..?
– E nada, tinha um... lobisomem atrás de você, e eu te salvava. Só isso.
Camila riu.
– Que fofo, Ludo!
Er... hum, “fofo”. Me saí bem?
– E você, o que sonhou?
Ela então ficou mais séria.
– Ah, nada demais também, foi só um sonho erótico.




– Então, você é virgem?
Pffffff, o mesmo papo de sempre. Agora eu até acreditava que era realmente aquela caveira quem falava comigo, aquela caveira era meu psicólogo, o dr. Yorick. Mas que papo era aquele? Por que ela ou ele estava tão interessado na minha vida sexual?
– Olha, eu vim aqui para falar sobre minha transformação em lobisomem, se sou virgem não é problema seu.
– Hum, estou achando então que é sim, é virgem sim, não quer admitir.
Afe, agora essa, a caveira tirando onda com a minha cara.
– Você não me escutou? Eu não quero falar da minha vida sexual.
– Virgem-em-em, virgem, lalalá – cantarolou ela. Que coisa infantil. Era de se esperar que uma caveira, ainda mais de um psicólogo, fosse mais madura.
– Eu não sou virgem, já falei!
– Sexo oral não conta.
– Mas não sou virgem de jeito nenhum! – Oops! Não, não era bem assim. – Quero dizer, já transei com mulher sim, eu tinha namorada no colégio anterior.
– Acho que está é querendo contar vantagem... – A caveira continuava aloprando comigo. Que raiva.
– Que contar vantagem, cabeça oca? Que contar vantagem? Tinha namorada sim.
– Virgem-em-em, lalalá.

[Trechinhos de Garotos Malditos, meu primeiro romance juvenil, contemplado no programa Petrobrás Cultural. Lançamento em agosto, pela Record. Ilustrações de Lestrange.]

ESTRADA

Não sei porque colocaram só meu sobrenome, mas achei chique.  Finalmente o ano está começando para mim. Já voltei para São Paulo e sem...