15/01/2021

O ESCRITOR É UM CAÇADOR SOLITÁRIO




O lobo-guará é um caçador solitário. De pernas longas, orelhas compridas, chega a cerca de um metro de comprimento, quando adulto. Com hábitos crepusculares, não sai quando está muito quente, nem quando está muito frio. Animal onívoro, vive em savanas e cerrados da América do Sul, mas não sabe jogar futebol. Tampouco sabe jogar xadrez, paciência ou carteado. Não frequenta bares nem bibliotecas. Não vai a estádios. Não promove aglomerações. Nem é de jogar conversa fora. O lobo-guará só se aproxima de outros indivíduos de sua espécie quando é para se acasalar. Isso se tiver sorte.

Sorte nenhuma teve o lobo-guará-sépia...


Comecinho da minha "Fábula do Lobo-Guará", que saiu este mês na Máquina de Contos, projeto com curadoria do Tiago Velasco, apenas para clientes Nextel e Algar Telecom. Apesar de não ter sido uma cessão exclusiva, pagaram um bom cachê, então por enquanto vou deixar só por lá. Mais pra frente de repente publico em outro veículo... ou em livro. Eu até quero publicar outro livro de contos (até hoje só tive o Pornofantasma) e já tenho uma boa dúzia reunida - alguns que saíram aqui e ali, outros tantos inéditos. Mas é aquela coisa, já não tem muita gente lendo meus livros... e livro de contos povo lê menos ainda...

A verdade é que me parece cada vez mais difícil escrever algo relevante hoje em dia. Não sou daqueles pau-no-cu que diz que a realidade é mais louca-importante-interessante do que a ficção (essa é a ideia mais sem imaginação que conheço), mas sei bem o espaço cada vez menor que a ficção literária recebe neste mundo pós-apocalíptico. 

E depois de tratar do tema provavelmente mais importante que eu pessoalmente poderia tratar como escritor (o genocídio armênio), o que mais posso fazer? Mais um livrinho de terror? 

"A irracionalidade toda berra ao redor: eu estou morrendo! Vivendo! Gozando! Eu estou me desperdiçando e ninguém está prestando atenção!" (do meu "BIOFOBIA"). 

Não. Não tenho escrito nada, livro nenhum, desde que entreguei Fé no Inferno, há um ano. Por isso sempre gosto de encomendas como essa, da Máquina de Contos, alguém me pedindo um texto. Ao menos sei que tem alguém esperando do outro lado...Esse formato de fábula/conto de fadas é algo que adoro fazer, e até tenho outro livro infantil para sair, já vendido para a Melhoramentos (que atrasou horrores pela pandemia, mas talvez ainda saia este ano...). 

Mas romance, que é o que importa, não tenho nada, nem na gaveta, nem na cabeça, nem na vontade...

Voltando aos contos, esse projeto do Velasco também está abrindo espaço para novos autores. É uma forma de começar a formar um público-currículo, e também tem um cachezinho decente. Se você ainda tem a ilusão de que a carreira literária vai te fazer feliz, dá uma olhada: 


Boa sorte!



A CALÇA DOS MORTOS

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