24/02/2005

COMO ESCREVER BESTSELLERS, GANHAR PRÊMIOS E INFLUENCIAR PESSOAS

Eu não tenho idéia. Hehe

Dia desses eu estava lendo uma entrevista com o ótimo Daniel Galera (ótimo pelas coisas que ele fala e pelo que conversamos rapidamente, porque ainda não li nada dele, mas quero). Era uma entrevista antiga, em que ele falava sobre a criação da sua editora, "Livros do Mal", sobre as dificuldades de publicação e a Internet como veículo de novos autores.

Admiro a iniciativa dele e de outros escritores que arregaçam as mangas, criam suas próprias editoras, publicam na net. Na verdade, essas pessoas estão abrindo espaço inclusive para mim. São escritores como o Galera que abrem espaço no mercado para jovens autores. São escritores como o Marcelino que fazem com que a "nova literatura" seja discutida, ganhe projeção.

Mas eu acho esses dois trabalhos (o de escrever e de criar movimentos) tão dispares, tão distantes um do outro. Para mim, o trabalho de escrever é algo tão associado à individualidade, que se torna quase paradoxal esses "movimentos", agrupamentos. Fora que essa coisa de amigos que se reúnem para trocar textos, produzir fanzines, ai! Não, parece coisa de quem escuta Legião Urbana. Tudo bem fazer palestras, participar de debates, todas essas coisas para divulgar seu trabalho. Mas não dá pra transformar literatura em criação coletiva. Se é pra formar grupos, monte uma banda de rock.

Aliás, eu sinto que é isso o que a maioria dos jovens escritores queria. Eles queriam mesmo ser rockstars (e muitos têm bandas paralelas). Parece que são escritores apenas enquanto não alcançaram o estrelato. Se tivessem um clip de sucesso na MTV, deixariam de fazer livros. Então, talvez muitos dos "escritores promissores" que temos por aí, muitos daqueles que até escrevem bem mesmo, com o tempo acabem largando a escrita por "realizações maiores".

Comigo eu já acho o contrário. Larguei a música pela falta de talento e, principalmente, para me dedicar a uma arte mais autoral, mais individual. O poder de poder criar um universo sozinho, sem depender de ninguém, é o que mais me motiva. E, felizmente, nenhum dos meus três romances publicados sofreu alteração alguma por parte dos editores.

Conversei sobre isso com a Eliane Caffé, quando estávamos fazendo o roteiro de "Feriado de Mim Mesmo". Eu assino o roteiro sozinho, mas a Eliane me deu várias dicas e me sugeriu diversas mudanças. Achei um trabalho interessante de se fazer, faria de novo (principalmente pela grana), mas não chegou nem perto do prazer que me dá escrever um livro. Isso porque o livro é meu, o filme não. O filme nem mesmo é dela, pois envolve um trabalho de muitas outras pessoas. Eu jamais deixaria de escrever livros se fizesse sucesso com cinema. Aliás, quero usar o cinema para divulgar meu trabalho de escritor, e não usar meus livros para virar roteirista.

Entendo menos ainda as pessoas que querem escrever livros mas não os escrevem. A questão não é querer, é precisar! Do que essas pessoas precisam? Apenas sentar e escrever. Se escrever não é um prazer, vá fazer música. Se é de fato um prazer, sempre se arruma tempo. É só ir menos a botecos. Ah... mas já falei sobre isso aqui...

O que parece é que as pessoas querem mais "publicar livros" do que escrever livros. Não acho que ninguém deva ficar tão ansioso para ver seu nome numa lombada. Você vê tanta gente aí reunindo meia dúzia de contos, fazendo um voluminho e já chamando isso de "obra". Pra mim, me parece um pouco de pressa. Parece que a pessoa sente mais prazer na conclusão do que no processo.

Mas talvez esse seja um pensamento um pouco hipócrita da minha parte, porque só tenho 27 anos, 3 livros publicados e não passei pele maratona de bater em porta de editora. Não me esqueço de quantos romances escrevi apenas por prazer (e depois os joguei fora). Não me esqueço que escrevi "A Morte Sem Nome", depois "Olívio", sem pretensões de publicar, e os deixei quietinhos na gaveta por dois anos, até experimentar me inscrever no Prêmio Fundação Conrado Wessel. Nunca abri meus processos pra ninguém. Eu, por exemplo, acabo de escrever um quarto romance, sim, que ainda não mostrei pra ninguém, nem vou mostrar tão cedo, nem vou dizer o título, nem a idéia, nem nada.

Ai, mas chega dessa história.

Se fosse pra eu dar algum conselho a alguém, eu diria: "Para ligar para o Brasil e para o mundo, faz um 21." Não, eu diria apenas para escrever, escrever. E esperar. Não mostre a ninguém se você tiver dúvidas. A opinião dos outros não importa no processo. Os outros estão sempre errados. Até a pessoa que você mais admira pode detestar seu sapato favorito. Só mostre aos outros quando VOCÊ tiver certeza, assim você pode até aceitar uma crítica, mas não deixará que ela interfira no trabalho já pronto. Literatura não é telenovela.

Agora, se você quer escrever um folhetim... sei lá, não entendo nada disso.

A internet como meio de divulgação pode funcionar. Tem muitos escritores comentados por aí que surgiram por esse meio. Mas talvez o meio já esteja um pouco saturado. Eu não entendo muito como funciona essa bagaça, criei este blog há pouco mais de seis meses, para divulgar meus livros e manter um canal aberto com os amigos e leitores. Tô gostando.

E não se assustem com essa minha "bandeira da individualidade", faz tudo parte da ação institucional para o lançamento de "Feriado de Mim Mesmo", um livro sobre o individualismo ao extremo.

O que eu queria mesmo era ter um amor pirata, com navios, papagaios e tesouros.

LEVE NEVE

Com minha herdeira, a Trevosinha Valentina.  Lançamento ontem em São Paulo. São Paulo é o que conta - é minha casa, minha base, daqui...