02/11/2005

O CALDO RALO DA MELANCIA


Amanhã termina a Mostra. Consegui ver filmes divertidos de canibalismo, aborto, pedofilia e putaria.

Ontem fui ver "Nuvens Carregadas", do Tsai Ming-Liang, diretor de Taiwan que é um dos meus favoritos. Seus filmes são extremamente silenciosos, com planos longuíssimos em quadros fixos. Ele estaciona a câmera e deixa a ação acontecer, passar, descansar e só então muda para outro plano.

Há dois anos, vi o filme que considero seu melhor, "Adeus Dragon Inn". É apenas a última sessão de um cinema clássico de Taiwan, que se tornou decadente com o tempo. O que assistimos é um filme sobre pessoas assistindo um filme. Olhamos para uma platéia que olha para nós, num exercício extremo de metalinguagem. O filme também tem planos dentro da sala de projeção, no banheiro do cinema e nos corredores, quase como uma câmera de segurança. E é isso. Duas horas de uma sessão de cinema, que formam a nossa. Genial.

O clima da Mostra tem um pouco disso. É gostoso. As pessoas parecem mais dispostas a conversar umas com as outras, com desconhecidos, comentar dos filmes. Outro dia conversei com um advogado de Fortaleza que estava me comentando sobre isso. Que a Mostra tem um pouco desse ritual, de ver as pessoas, a sala, como nos antigos teatros. É exatamente isso que Tsai Ming-Liang tentou resgatar em "Adeus Dragon Inn".

Entretanto, "Nuvens Carregadas" vai numa direção bem diferente. Conta a história de uma seca em Taiwan, que faz com que as autoridades recomendem à população beber apenas suco de melancia, para economizar água. Nesse contexto, um casal se conhece e passa a dividir seus "fluídos". Ela só não sabe que ele é ator pornô.

Ao contrário dos outros filmes de Tsai-Ming Liang - que se passam sempre debaixo de uma chuva severa, mas são bem mais secos no tom – "Nuvens Carregadas" é uma comédia, muitas vezes caindo no besteirol, o que me faz considerar esse seu pior filme, ainda que seja divertido. Há diversos números com figurinos e coreografias extremamente kitsch, coisa que eu gosto; mas ele já havia feito isso em seu filme "O Buraco", que é mais denso, mais sério e que tira melhor proveito das músicas para romper com a aridez da narrativa.

Ainda assim, eu daria nota 7, pois é bom ver que ele não se leva tão a sério e é capaz de fazer auto-paródia.

Para terminar, dei uma entrevista para o site do Eric Novello. Foi centrada no mercado literário atual e na relação com outras artes, não nos meus livros, o que achei positivo. Um trecho:

Acho que há mais espaço, tanto físico quanto midiático, para o escritor brasileiro do que demanda. Quero dizer, cada vez mais se vê discussões sobre literatura, escritores na mídia, eventos sobre o tema, mas isso não é acompanhado do crescimento no número de leitores, pelo menos não na mesma base. Então é natural que não haja espaço para a literatura brasileira nas livrarias. As pessoas não estão comprando. E, ao meu ver, isso não é culpa do governo, do preço do livro, nem de coisa alguma, é reflexo simplesmente dos tempos, das pessoas não terem tempo, disposição e hábito de ler.

Vocês podem ler a entrevista completa aqui: http://www.ericnovello.com.br/entrevistas_santiago.php

Valeu.

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