16/05/2007

SÍNDROME DE MACAULAY

(Vista da janela pela qual eu fugi...)

Voltei a Santiago. Vina del Mar me pareceu uma festa de verao encerrada - bem higienizada, é verdade, toalhas retiradas, pano úmido passado nas mesas, mas um ou outro copo descartável usado ainda visível pelos cantos. Além do mais, estava me dando aquela "Síndrome de Macaulay Culkin", sabe? Daquele "Esqueceram de Mim" que ele vai para Nova Iorque e fica num hotel chicoso e o concierge está sempre com olhar suspeito sobre ele? É assim que eu me sinto nesses lugares "coquetel de camarao". Deve ser um sentimento comum, talvez uma síndrome que acometa a todos, já que, no fundo, ninguém acredite que pertenca ao luxo asséptico de lugares como esses. Eu já estava acostumado a me sentir assim quando me hospedava num hotel como convidado de um evento literário; talvez os adolescentes sintam-se assim quando se hospedam num hotel com seus país; mas agora eu estou pagando, pelo amor de Deus! Já sou gente grande! Nao importam minhas tatuagens! Nao importa minha excentricidade! O que preciso fazer para me sentir digno deste hotel?!
Cada vez que eu entrava, me perguntavam: "o senhor está hospedado aqui?"

Entao fugi de Vina del Mar. Deixei um bilhete para o pessoal do translado, que vinha me buscar e peguei um onibus comum, rodoviário, de volta ä capital.

Aqui, no hotel chicoso de Santiago, a síndrome nao me ataca. Eles me olham estranho, mas com uma certa simpatia, meio sorrindo, e até me chamam de "young man", veja que lindo. Me dao amor e carinho.

Entao, como terapia alternativa que aprendi com os Nazarian, para aumentar minha auto-estima, tomei providencias e fui ä Providencia fazer compras.

Primeiro alguns livros de autores chilenos: "Mala Onda", do Alberto Fuguet, que eu já li em portugues (chama-se "Baixo Astral", em edicao da Record), mas fiquei com vontade de ler de novo, agora que estou no Chile, e aproveitar para treinar o castelano. Depois, os dois jovens autores chilenos que estao no "Bogotá 39", do qual eu faco parte: Álvaro Bisama ("Caja Negra") e Alejandro Zambra ("La Vida Privada de los Árbores"). No Zambra eu já dei uma espiada e me pareceu bem interessante. Saca o primeiro parágrafo (numa traducao relampago minha, sem acentos):

Julian distrai a menina com "A Vida Privada das Árvores", uma série de histórias que inventou para faze-la dormir. Os protagonistas sao um álamo e um baobá que durante a noite, quando ninguém os ve, conversam sobre fotossíntese, sobre esquilos ou sobre as numerosas vantagens de ser árvore, e nao pessoas ou animais ou, como eles dizem, estúpidos pedacos e cimento.


Vou aproveitar agora para ler mais em espanhol, principalmente pelas viagens que estao acontecendo e por já estarmos conversando sobre minha primeira edicao em espanhol... É um mercado imenso. E nós, que falamos portugues, ficamos meio que ilhados...

Além dos livros, comprei o DVD do filme "Snakes on a Plane, o cd novo do Rufus (ok, eu já tinha gravado, mas gosto de ter o original, quando gosto do disco) e do Patrick Wolf, "Magic Position". Esse último é interessante, gostosinho, mas me parece mais pretensioso do que sofisticado. Nao sei, preciso ouvir mais. Ouvi enquanto fazia a academia aqui do hotel (claro, claro, sou obsessivo, acha que férias me fazem largar algo como academia, cafeína ou blog?). De qualquer forma, Patrick é gatcheeenho. Dá uma olhada (anota aí pra saber do que eu gosto e me reserva um, para quando eu voltar ao Brasil):



E como minha vida continua se derramando lá fora, posso contar que domingo tive uma noite das mais intensas aqui em Santiago. Um barman de cabelos verdes me levou para a balada mais surreal da minha vida, uma boate mista de karaoke, música gótica e show de sexo explícito. Sim, existe isso por aqui. E num domingo. (Acho que o Grind está precisando aprender algumas coisas...).


Em Vina del Mar e Valparaiso, nada demais. Fui num cassino. Me senti num Bingo.

COELHA VAMPIRA

Ilustração de Marcos Garuti para meu conto, na Revista E.                  Na noite de 28 de março de 2017, o escritor gaúcho João ...