05/03/2009

O LOBO DA ESTEPE


Os injustiçados Índigo e eu, na Bienal do ano passado.


Quanto mais eu escrevo, mais eu escrevo.

Estou numa semana insana de textos, projetos, livros e roteiros, e isso só me incita a escrever mais.

Numa tarde dessas, estava aqui com uma tradução para revisar, uma crônica para entregar e meu próprio livro juvenil, que precisa de cuidados, quando me peguei escrevendo um conto de lobisomem... Horas e horas... A tarde toda.... Quando vi já era noite (e lua cheia, buuuuuuuu! Naaaaaah...) e eu tinha atravessado a tarde fazendo um texto que ninguém pedira, que sei lá se algum dia vai ser pago, nem sei se alguém vai ler, mas que ainda assim eu posso considerar mais meu trabalho do que qualquer outra coisa que faço.

É assim.

Dia desses também estava conversando com a (grande escritora) Índigo, que a nossa é uma carreira muito ingrata, muito pouco gratificada, que a gente não tem reconhecimento financeiro, nem apoio de editora, nada, mas que o que me levanta é quando eu me sento para escrever, que daí não tenho dúvidas de que é a melhor coisa que posso fazer, que é o que me dá mais prazer, e que fundo do poço seria se eu tivesse crise criativa, não conseguisse mais escrever, não soubesse mais que caminho seguir na minha vida e no meu texto. Isso eu não tenho.

Índigo é uma escritora de indubitável talento. E, assim como eu, acaba de ter seu livro “A Maldição da Moleira” vendido para o Governo, no PNBE. São onze mil livros distribuídos no ensino médio, dela e do meu “Mastigando Humanos”. Contando o que eu já havia vendido (o livro estava na segunda edição) são mais de QUINZE MIL LIVROS vendidos, só do meu jacaré. É legal tanta gente lendo, mas então penso que eu deveria estar rico. Penso que quinze mil, em matéria de livro, é muito. Mas fazendo as contas (do preço de capa, venda especial pro Governo, porcentagem, etc...) não é lá grande coisa. Nem vai pagar todas minhas dívidas...

Por isso eu penso em como este mundo é injusto.

Mas vamos sair da crise, porque há muito trabalho a fazer. Aliás, fico espantado em ver como está aparecendo trabalho este ano, desde o comecinho, eu nem preciso correr atrás, porque toda hora surge algo na minha caixa de email. Assim que eu gosto. Acho que o povo ficou com medo de tirar férias e ficou nas redações dos jornais, nas editoras, pensando em novas propostas, resgatando seus colaboradores. Tudo bem que os pagamentos estão flutuantes, os vencimentos são todos adiados, mas o que importa é que, gota a gota, a grana vem.




Ainda estou pensando se coloco aqui o conto de lobisomem. Acho que vocês não merecem. E é um pouco grande – menor do que meus contos atuais, mas maior do que qualquer coisa publicável em revista – e ainda quero trabalhar nele. Para quem gosta dessas lupices, recomendo a antologia “Homens, Lobos e Lobisomens”, publicada pela Marco Zero em 2004. Tem contos, entre outros, de Dumas, Maupassant e Saki, que se tornou um dos meus autores favoritos – tenho as obras completas dele aqui, num volume da Penguin. Como eu poderia não gostar de alguém que escreve uma coisa dessas?

“O rapaz girou o corpo à velocidade de um relâmpago, mergulhou na lagoa e num instante emergiu com o corpo molhado e reluzente na margem onde se achava Van Cheele. Para uma lontra tal movimento não se afiguraria notável, mas Van Cheele teve de considerá-lo surpreendente num rapaz. Ao realizar um movimento involuntário de recuo, um dos pés de Van Cheele deslizou e, em alguns segundos, ele se viu estendido sobre a margem escorregadia, assim tornada devida à presença das algas; seus olhos fitavam, a pouca distância de si, os olhos áureos e animalescos daquela criatura decididamente perturbadora. Quase que instintivamente ele levou uma das mãos à garganta. O rapaz riu de novo, desta vez com uma risada na qual o rosnado quase que eliminara por completo o tom rouco; em seguida, graças a outro daqueles seus movimentos extraordinariamente ágeis, mergulhou numa lagoa num intricado de ervas daninhas e fetos. – Que animal selvagem!” - Gabriel Ernest, de Saki.




Lee Williams no (péssimo) filme de lobisomens gays, "Wolves of Kromer", de 1998.

VOTUPORANGA, SÃO PAULO, SÃO ROQUE E FIM!

Quinta agora, com Reynaldo Damázio. Se há algo de que não posso me queixar este ano é dos eventos. Antes mesmo de lançar o livro novo o...