16/05/2009

MARSHMALLOW QUEIMADO





Tenho aprendido muito com Neil Gaiman.

Estou traduzindo umas coisas dele aqui – que ainda não posso dizer o que é – e estou, como sempre, encantado com as possibilidades de criação que são dadas para o povo lá de fora.

Digo “como sempre” porque sempre me parece que nos países de língua inglesa há espaço para você fazer o que quiser fazer, e ainda ser razoavelmente bem remunerado e reconhecido por isso.

Mas pode ser besteira minha. Talvez eu pense isso porque só vejo os que se destacam dentro de uma minoria. (E eu não poderia reclamar, porque me destaco dentro de uma minoria aqui. Meus livros sobre jacarés assassinos no esgoto de São Paulo são comprados aos milhares pelo governo – vide “Mastigando Humanos @ PNBE”, que pagou as champagnes do meu aniversário - e eu estou soterrado de trabalho... O problema é que escrevo em português e ganho em reais.)



Mastigando Humanos, por Marco Tulio.

Voltando ao Gaiman, é interessante notar toda sua paixão pela literatura, pelas histórias, que parece que acabou se manifestando quase que incidentalmente nos quadrinhos. Ele é um escritor. Fez fama em comics talvez por ser o veículo mais fértil às suas idéias tresloucadas. Mas essa não é uma possibilidade oferecida aos brasileiros. Aqui, o criador não tem a alternativa dos quadrinhos (vendem menos do que literatura), nem a alternativa do cinema (pffff). Que alternativa temos? Me pego pensando que o “contador de histórias” brasileiro tem apenas a opção da televisão... E da literatura.

Talvez por isso ambas andem tão mal das pernas...



Meu "Artur Alvin" por J Lestrange.

Comecei a achar que a literatura anda mal das pernas. Comecei a achar que a literatura anda capenga. Comecei a achar que não há nada de novo sendo escrito neste país, após anos e anos glorificando minha própria geração e exaltando “como a nova literatura brasileira anda avançada”.

Anda nada.

Alexandre Matos em O Prédio, o Tédio e o Menino Cego.

Fico pensando que talvez seja culpa da TV, talvez seja culpa do cinema. Talvez seja a falta de efeitos especiais que mina a imaginação como um todo, de técnicos, diretores e roteiristas, e acabe contaminando os escritores. Onde estão os navios piratas? Ainda estamos muito condenados à realidade. Escritor brasileiro escreve sobre problemas amorosos, as contas a pagar, a violência das cidades, mas não sobre a praga de zumbis que subcutaneamente assola todos nós. Falta imaginação.

Ao menos, ninguém escreve à sério, com imaginação.

Santiago Nazarian por Jotapê Pabst/Estadão.

Já disse isso aqui, na verdade. Já falei muito sobre isso. Agora apenas constato (novamente) que é verdade. Como não podemos ser fabulosos, fabulares, formidáveis e formicidas. Como não podemos colocar explosões, nem contidas entre páginas. Como são limitadas e infantis as divisões entre literatura séria e literatura infantil. A literatura infantil não pode amadurecer e a literatura adulta está caducando. Não é preciso dizer que, entre elas, praticamente não existe literatura juvenil neste país.

Mas talvez seja apenas eu o caduco. Talvez eu esteja só ranzinza. Talvez o Brasil tenha sim, sua tradição narrativa – como todo país tem – e essa seja mais calcada na crônica do cotidiano; natural. Eu, como fantasioso antipático ao tema, talvez vá contra a corrente e tenha me sentido excluído. Mas é assim mesmo...

(Marco Tulio @ Mastigando Humanos)
Também não deixo de ser cronista do cotidiano em coisas como "Feriado de Mim Mesmo" e "Olívio". Talvez esses livros sigam bem essa tradição brasileira, ainda que involuntariamente. Não dá para escapar totalmente disso.

E preciso dizer que não li o seu livro. Tenho lido praticamente só a trabalho (o que não é pouco – considerando 4 livros que tenho para traduzir, fora os pareceres semanais para editoras). As coisas que tenho lido em juvenis têm me entusiasmado mais do que romances adultos. E tenho me inspirado muito em videogames – embora não tenha tido mesmo muito tempo para jogar. Acho muito interessante esse foco narrativo fracionário dos games- fase 1: floresta, fase 2: mar, fase 3: caverna no gelo - esses cenários arquetípicos bem definidos e separados. Tenho tentado trabalhar com isso em literatura. Pode parecer meio tolo um escritor se inspirar em videogames, mas é apenas porque esta é uma referência narrativa recente. E acho bem natural que gente que nasceu dos anos 80 pra cá, que cresceu jogando videogame, acabe incorporando isso também como um repertório a se manifestar nas letras. Lá fora isso já acontece, sem medo.
O contrário seria delicioso também, hein? Como eu gostaria de ter um jogo de "Mastigando Humanos" no meu DS. Sebastian Salto seria o chefão final.

Voltando à literatura, estou mergulhado no processo de criação do meu livro novo. Um livro de contos – sim – mas gosto de considerá-lo diferente desses livrinhos de contos que todo escritorzinho jovem publica, que tem meia dúzia de observações sobre seu cotidiano, ok? Tem uma dúzia de observações sobre meu cotidiano, mas estou me esforçando. Estou me esforçando para colocar navios piratas, zumbis, lobisomens, estou me esforçando para que seja um cotidiano enriquecido pela imaginação mais fabulosa a nos libertar.



"Lorena" de André Coelho.

Não é fácil.


O conto em que trabalho atualmente (cada conto tem me tomado meses, já que são mini novelas), por exemplo, é um conto onde todos os personagens dos outros contos do livro aparecem como crianças assando marshmallow na fogueira, contando histórias de terror que narram seus próprios pais, irmãos e professores sendo mortos violentamente.

O título para esse conto eu já tenho: “Marshmallow Queimado”. Falta desenvolver. É que você estava me detendo aqui.

Tem também um livro (assumidamente) juvenil, que a Editora anda me cobrando. Este deve sair ano que vem. Mas é quase diversão pura.

Ilustração de André Tanaka. Um dos meus presentes desta semana.

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Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...