05/08/2012

INVASOR DE MIM MESMO


Voyeur de mim, mesmo, assistindo a um espetáculo por uma fenda...


Hoje teve a estreia do espetáculo Feriado de Mim Mesmo aqui em São Paulo (ou próximo). Um espaço distante, difícil, não esperava que os amigos fossem mesmo, nem fiz força nem pressão. Já falei disso aqui há alguns anos, sobre os "mendigos culturais", essa coisa de escritor, ator de teatro, ficar mendigando público, implorando para que as pessoas assistam, leiam, comprem, compareçam. Os amigos prestando um favor, felizes quando têm uma boa desculpa para não ir - "vou viajar", "tenho aula nesse horário", "meu cachorro ficou  doente"...

Então divulguei aqui no blog e no FB, chamei os que gostam de teatro, ninguém quis ir. Eu tive uma semana   emocionalmente pesada (bem, meu dia-a-dia tem sido emocionalmente pesado - sinto atualmente que abrir um vidro de maionese já me requer uma preparação emocional - ah-ha) e não sabia bem se eu ia. Fui. Sozinho. Peguei metrô. Peguei táxi. Cheguei no Armazém XIX, local da peça, quinze minutos antes de começar, ou era o que eu achava...

Leia com muita atenção os detalhes do flyer.


20:45 eu estava do lado de fora de um casarão, numa vila totalmente deserta, no Belém, que parecia outra cidade, uma cidade fantasma, escutando ecos de mim mesmo (no passado). O Armazém fica numa vila fechada, então não há carros, não há pessoas, não há nada (pelo menos as 20:45 de um sábado). E eu fiquei contornando aquela casa, ouvindo aquelas vozes, percebendo aos poucos que eu estava escutando o meu próprio texto...

Ligou o aparelho de som para que preenchesse a casa. Sentou-se na frente do computador para mais uma vez vasculhar seus arquivos. A tradução de um livro. Um livro infantil. A história de um grilo - um grilo não - uma cigarra, uma cigarra e uma formiga. Já não a lera em algum lugar? 

Será que estão ensaiando a peça? Passando o som? Poucos minutos antes da estreia? Contornei todo o armazém/casarão e não encontrei nenhuma entrada, nenhum bilheteiro. Nos fundos, uma porta encostada. Entrei. Um salão escuro. Roupas. Um sofá com uma caixa de pizza. Me sentei e liguei o Iphone. Verifiquei. A peça começava às 20h. Eu jurava que começava às 21h (como toda peça aos sábados). Já havia começado há um bom tempo. Eu errei de horário.

Sei que foi das experiências mais surreais, chegar até um casarão no Belém, entrar escondido pelos fundos, e ficar lá, sozinho, no escuro, ouvindo meu próprio texto na boca de atores que estavam sei lá onde. Em determinado momento, uma porta interna se abriu, os atores voltaram ao camarim para buscar a pizza...


Estava com fome. Chamou uma pizza. Não queria correr o risco de ingerir seu próprio veneno. Do jeito que as coisas estavam, cada gole era fatal, cada passo, em falso. Olhou para si mesmo e notou um sorriso diferente. Olhava para si mesmo e notava um sorriso que não deveria estar lá. Cínico. Como seu próprio eu desafiando-o para um duelo. Não poderia ser. Não poderia ser tudo uma alucinação. Não poderia ser ele mesmo o invasor de seu cotidiano.

Foi um momento mágico. Haha. Os atores vieram até o sofá buscar a caixa de pizza da cena, e eu estava lá, de preto (claro), sentado no escuro. Um deles deu um grito. Eu me desculpei, tentei explicar rapidamente porque havia chegado atrasado, eles pegaram a caixa e voltaram em cena. Deixaram uma porta da coxia semi-aberta para eu poder espiar (de onde tirei a foto acima). E por lá meio que assisti o terço final da peça.


Quebro em caquinhos, acerto meu próprio rosto. Me quebro em pedaços e não sinto dor alguma. Cato os pedaços com minhas próprias mãos. Vejo minhas mãos segurando o espelho. Em cacos, eu escorro... 

Enfim, foi daqueles momentos mágicos. Terminou a peça, os atores me chamaram ao palco e eu vi que havia um bom público e que havia alguns (poucos, raros) amigos. Eu já vi o espetáculo inteiro convencionalmente no Rio de Janeiro, gostei muito, já comentei muito aqui, então para mim foi especial e inesquecível ter visto dessa forma.

E comento sem pudor: O Feriado de Mim Mesmo que o Fabiano de Freitas e sua trupe fizeram está muito longe do que eu imaginava. Você sabe, no meu mundo, todos os rapazes são andróginos. Na primeira vez que vi as fotos de divulgação com esses barbudos, pensei: "Que porra é essa?" Acontece que a beleza está aí. Se fosse eu a levar esse texto para o teatro, se materializaria numa coisa falsa, fake, poser, artificial. Um livro permite leituras e visualizações diferentes a quem lê. Esses meninos deram a visão deles do meu texto, com tamanha honestidade e talento que eu pude me maravilhar vendo projetada uma visão que eu jamais teria dessa obra. É uma experiência rara de um autor vendo como um leitor apaixonado visualiza seu livro. Lindo.

Acho que agora eu tenho mesmo de espiar sempre por uma fenda, entrando pelos fundos...


Com Daniel e Mariana, após os aplausos. 

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