VERÃO NOS PULMÕES
Ai, ai, meu "sonho de uma noite de verão" já começou. Minha mãe mora no interior, mas tá vendendo uma casa com piscina no Jardim Paulistano, aqui em São Paulo (oh, pros endinheirados...). Eu fiquei lá no final de semana tostando feito um tomate assassino. Mas agora que o hidratante sossegou minha cutis, o cheiro dele me traz lembranças mais dolorosas...
"daquele cheiro,
daquele pandeiro,
daquele Rio de Janeiro,
daquele seu verde olhar brasileiro, que era meu."
Ahah, ok, isso é Eduardo Dussek. "Olhar Brasileiro". Ele é genial. Só não entrou no meu TOP 10 nacional porque eu só descobri isso semana passada.
Mas, voltando ao verão, vai dando uma melancolia... Essa coisa de final de ano, reveillon, verões mais felizes (porque sempre parece que o verão passado foi mais feliz... Bem, no meu caso, o retrasado, faz tempo que não tenho verão).
E eu que estou queimadinho, malhadinho, cabelinho compridinho, cheio de tatuagens (isso é o início de um classificado) e nem tenho praia. Não que praia seja minha praia, mas a gente também tem inveja da felicidade dos outros, não é? Acho que foi minha irmã que disse que adoraria gostar de panetone. E eu queria aproveitar mais o salgado... do mar.
O melhor do verão mesmo são as noites.
Tive dois reveillons tão legais em Santa, em 2001 e 2002 na casa da minha queridinha Letícia Peroni. Dois carnavais em Floripa também, um deles numa casa que aluguei com os guris de Porto Alegre, Fernando e Otávio. Teve o carnaval de 2003 no Rio, em que meu ex-patrão de Londres, o Tommy, pagou tudo, inclusive o hotel. E desde então é só fumaça nos meus pulmões.
Hum, é, dei umas escapadinhas para o apartamento do Daniel no Guarujá.
Agora estou tão pobre, tão pobre, tãaaaaaaaaaao pobre, que nem sei se vou poder pagar o ingresso para 2005. Preciso arrumar um trabalho urgentemente. Meu reveillon está em aberto, sim. Eu pensei em fazer uma festa lá na casa vazia da minha mãe, já que tem piscina e nada pra roubar/quebrar/queimar/derreter/absorver. Mas sei lá, todo mundo vai viajar. E eu precisava juntar uma galera para agilizar a festa (oh, aqui tem uma proposta implícita).
Vai então um som tradicional de ano novo:
"In case I stand a little chance
here comes the jackpot question in advance,
what are you doing New Year’s, New Year’s Eve?
What are you doing in New Year’s Eve?"
Só sei que até o carnaval eu vou ser feliz! Vou fazer que nem fiz no meu primeiro verão em Porto Alegre. Mandei email para todo mundo do meu trabalho dizendo que cada um teria a obrigação de me levar para conhecer uma praia do sul a cada final de semana. Deu certo (tudo bem, não foi todo mundo). Ah, mas agora eu nem tenho trabalho...
Que post inútil.
Bem, eu tenho um conto chamado "Verão nos Pulmões", que escrevi há um bom tempo, mas ainda gosto bastante. Só que não vou colocar aqui. Vou tentar vender pra algum lugar e pagar uma viagem pra praia. Não foi o Allen Ginsberg que escreveu um poema sobre ter sido roubado em 60 dólares e recebeu $400 por ele? Haha! Quero uma queimadura de terceiro grau!!!
14/12/2004
13/12/2004
MALDIÇÕES DE BERÇO
Já podem ir marcando na agenda. O lançamento do meu terceiro romance, "Feriado de Mim Mesmo" (Ed Planeta) está marcado para dia 29/03/05, na Casa do Saber, em SP. E em maio na Bienal do Rio.
Aqui em SP, farei o lançamento com a minha mãe, Elisa Nazarian, que estará lançando "Resposta", seu primeiro livro, pela Atelier Editorial. O livro dela é um longo poema em prosa poética sobre as contradições de um relacionamento homem-mulher. Eu assino a orelha. Mais pra frente eu coloco o texto aqui.
Por enquanto, vai a minha lista dos "favoritos do terror e suspense":
"Halloween" de John Carpenter (EUA) -1978
Um clássico. É o filme que deu sequência a "Jasons", "Freddys" e outros monstros mascarados. É lento, meio sem sentido, mas com um clima todo especial. Trama: assassino mascarado mata mulheres gostosonas na noite de Halloween. Só isso. E já tá ótimo. Eu tenho o cd com a trilha aqui, que tem quase todo o áudio do filme, as falas, os gritos e tudo mais. Ótimo para os vizinhos ficarem com suspeitas em relação a mim.
"A Nightmare on Elm Street" de Wes Craven (EUA) -1984
O filme que criou Freddy Krueger! E que me criou na adolescência também. Eu adorava. Ainda adoro. Ainda quero uma luvinha decente do Freddy (vocês podem colocar na lista de compras de Natal). A idéia do monstro que ataca nos pesadelos é simples e ótima, não é a toa que gerou 7 continuações. E eu torci pro Freddy quando ele lutou com o Jason.
"Rosemary’s Baby" de Roman Polansky (EUA) -1968
O filme que criou Charles Manson! Sataníssimo, maleficíssimo, funestíssimo! Nunca mais comi uma mousse de chocolate da mesma forma (e também aprendi a expressão "undertaste" com esse filme). O mais legal foi uma versão dublada em francês e legendada em espanhol (ou ao contrário?) que eu vi em Paris, numa noite escabrosa...
"Tesis – Morte ao Vivo"de Alejandro Almenabar (Espanha) -1996
Parece que o Almenabar dirigiu esse filme quando tinha 22 anos, ou algo assim. Depois ficou famoso, rico, foi pra Hollywood, mas não perdeu a mão (dirigiu "Os Outros", com a Nicole Kidman). Este filme é uma peróla sobre produções "snuff" (aquelas em que se tortura e mata pessoas de verdade). Uma garota que faz uma tese de faculdade sobre "violência nos meios de comunicação" acaba descobrindo um fita dessas e investiga de onde veio. Um grande filme de suspense, em que você fica até o fim na dúvida sobre "quem é o culpado".
"O que Aconteceu com Baby Jane" de Robert Aldrich (EUA) - 1962
"Misery", o filme baseado no livro de Stephen King, parece uma nova versão desse, não? A história de duas irmãs que foram atrizes famosas, uma na infância e outra mais recentemente, mas que se encontram decadentes, morando juntas e combatendo seus fantasmas. Bete Davis está magnífica como a pré-Macaulay Culkin, haha. Show de bola.
"O Chamado" de Gore Verbinski (EUA) - 2002
Ah, todo mundo sabe que sou fã desse filme. Aliás, sou fã do Verbinski também. Aquele outro filme dele, "Os Piratas do Caribe", também é divertidíssimo, lindíssimo, tudo o que se espera de um filme de pirata. Este é mais do que eu esperava de um filme de terror. Trouxe novas imagens para o gênero, a essa altura do campeonato. A figura da menina com o cabelo cobrindo o rosto já está sendo copiado em outros filmes. Tudo bem que é uma refilmagem de um filme japonês, mas eu prefiro mesmo essa versão americana, que é mais racional, mais assustadora e com uma direção de arte mil vezes superior.
"O Massacre da Serra Elétrica" de Tobe Hopper (EUA) - 1974
Filme totalmente insano sobre uma família de canibais. Tem uma refilmagem de 2003, mas ainda não estreou no Brasil e eu nunca vi. O original é antológico, podreira mesmo. Ainda assim, não apela para a escatologia nem para cenas de gore explícito. Tá tudo na loucura da trama, como no personagem do "vovô" que é praticamente uma múmia e se alimenta de sangue humano.
"The Evil Dead" de Sam Raimi (EUA) - 1981
Um dos mais assustadores que eu já vi. Foi feito de maneira amadora, por um grupo de amigos de vinte e poucos anos. A história é das mais banais. Jovens numa cabana no meio da floresta são possuidos por demônios e começam a se matar uns aos outros. Mas o filme é tão escabroso, tão sangrento e tão neurótico que se torna obra de arte. E hoje em dia o diretor está fazendo "homens-aranhas" e afins.
"Audition" de Takeshi Miike (Japão) - 1999
Ah, já falei demais desse filme. Taí: mezzo-comédia romântica, mezzo-terror terrível medonho. Um cineasta viúvo faz testes com atrizes para um suposto filme, mas na verdade ele procura uma esposa, e acaba encontrando uma garota linda, tímida e disponível. Conforme o romance vai avançando, a menina se revela uma louca psicótica que corta membros (línguas, dedos, pés) de seus amantes e os mantém presos dentro de um saco. Cenas explícitas, sim, de arrepiar.
"Funny Games" de Michael Haneke (Áustria) – 1998.
Esse filme é outro chumbaço. Poderia entrar na minha lista dos mais pesados. É só sordidez, violência e desesperança. Dois jovens torturam uma família, de todas as formas possíveis, durante um final de semana. O filme ainda tem toques de metalingüagem e ironia. E sei lá mais o que. Ah, vou alugar "A Pequena Sereia".
Já podem ir marcando na agenda. O lançamento do meu terceiro romance, "Feriado de Mim Mesmo" (Ed Planeta) está marcado para dia 29/03/05, na Casa do Saber, em SP. E em maio na Bienal do Rio.
Aqui em SP, farei o lançamento com a minha mãe, Elisa Nazarian, que estará lançando "Resposta", seu primeiro livro, pela Atelier Editorial. O livro dela é um longo poema em prosa poética sobre as contradições de um relacionamento homem-mulher. Eu assino a orelha. Mais pra frente eu coloco o texto aqui.
Por enquanto, vai a minha lista dos "favoritos do terror e suspense":
"Halloween" de John Carpenter (EUA) -1978
Um clássico. É o filme que deu sequência a "Jasons", "Freddys" e outros monstros mascarados. É lento, meio sem sentido, mas com um clima todo especial. Trama: assassino mascarado mata mulheres gostosonas na noite de Halloween. Só isso. E já tá ótimo. Eu tenho o cd com a trilha aqui, que tem quase todo o áudio do filme, as falas, os gritos e tudo mais. Ótimo para os vizinhos ficarem com suspeitas em relação a mim.
"A Nightmare on Elm Street" de Wes Craven (EUA) -1984
O filme que criou Freddy Krueger! E que me criou na adolescência também. Eu adorava. Ainda adoro. Ainda quero uma luvinha decente do Freddy (vocês podem colocar na lista de compras de Natal). A idéia do monstro que ataca nos pesadelos é simples e ótima, não é a toa que gerou 7 continuações. E eu torci pro Freddy quando ele lutou com o Jason.
"Rosemary’s Baby" de Roman Polansky (EUA) -1968
O filme que criou Charles Manson! Sataníssimo, maleficíssimo, funestíssimo! Nunca mais comi uma mousse de chocolate da mesma forma (e também aprendi a expressão "undertaste" com esse filme). O mais legal foi uma versão dublada em francês e legendada em espanhol (ou ao contrário?) que eu vi em Paris, numa noite escabrosa...
"Tesis – Morte ao Vivo"de Alejandro Almenabar (Espanha) -1996
Parece que o Almenabar dirigiu esse filme quando tinha 22 anos, ou algo assim. Depois ficou famoso, rico, foi pra Hollywood, mas não perdeu a mão (dirigiu "Os Outros", com a Nicole Kidman). Este filme é uma peróla sobre produções "snuff" (aquelas em que se tortura e mata pessoas de verdade). Uma garota que faz uma tese de faculdade sobre "violência nos meios de comunicação" acaba descobrindo um fita dessas e investiga de onde veio. Um grande filme de suspense, em que você fica até o fim na dúvida sobre "quem é o culpado".
"O que Aconteceu com Baby Jane" de Robert Aldrich (EUA) - 1962
"Misery", o filme baseado no livro de Stephen King, parece uma nova versão desse, não? A história de duas irmãs que foram atrizes famosas, uma na infância e outra mais recentemente, mas que se encontram decadentes, morando juntas e combatendo seus fantasmas. Bete Davis está magnífica como a pré-Macaulay Culkin, haha. Show de bola.
"O Chamado" de Gore Verbinski (EUA) - 2002
Ah, todo mundo sabe que sou fã desse filme. Aliás, sou fã do Verbinski também. Aquele outro filme dele, "Os Piratas do Caribe", também é divertidíssimo, lindíssimo, tudo o que se espera de um filme de pirata. Este é mais do que eu esperava de um filme de terror. Trouxe novas imagens para o gênero, a essa altura do campeonato. A figura da menina com o cabelo cobrindo o rosto já está sendo copiado em outros filmes. Tudo bem que é uma refilmagem de um filme japonês, mas eu prefiro mesmo essa versão americana, que é mais racional, mais assustadora e com uma direção de arte mil vezes superior.
"O Massacre da Serra Elétrica" de Tobe Hopper (EUA) - 1974
Filme totalmente insano sobre uma família de canibais. Tem uma refilmagem de 2003, mas ainda não estreou no Brasil e eu nunca vi. O original é antológico, podreira mesmo. Ainda assim, não apela para a escatologia nem para cenas de gore explícito. Tá tudo na loucura da trama, como no personagem do "vovô" que é praticamente uma múmia e se alimenta de sangue humano.
"The Evil Dead" de Sam Raimi (EUA) - 1981
Um dos mais assustadores que eu já vi. Foi feito de maneira amadora, por um grupo de amigos de vinte e poucos anos. A história é das mais banais. Jovens numa cabana no meio da floresta são possuidos por demônios e começam a se matar uns aos outros. Mas o filme é tão escabroso, tão sangrento e tão neurótico que se torna obra de arte. E hoje em dia o diretor está fazendo "homens-aranhas" e afins.
"Audition" de Takeshi Miike (Japão) - 1999
Ah, já falei demais desse filme. Taí: mezzo-comédia romântica, mezzo-terror terrível medonho. Um cineasta viúvo faz testes com atrizes para um suposto filme, mas na verdade ele procura uma esposa, e acaba encontrando uma garota linda, tímida e disponível. Conforme o romance vai avançando, a menina se revela uma louca psicótica que corta membros (línguas, dedos, pés) de seus amantes e os mantém presos dentro de um saco. Cenas explícitas, sim, de arrepiar.
"Funny Games" de Michael Haneke (Áustria) – 1998.
Esse filme é outro chumbaço. Poderia entrar na minha lista dos mais pesados. É só sordidez, violência e desesperança. Dois jovens torturam uma família, de todas as formas possíveis, durante um final de semana. O filme ainda tem toques de metalingüagem e ironia. E sei lá mais o que. Ah, vou alugar "A Pequena Sereia".
10/12/2004
POR QUEM OS GATOS MIAM
Meu conto "Quasímodo"já está no ar no "Portal Literal", num especial de 2 anos do site. Dá pra ler no:
http://portalliteral.terra.com.br/index.htm
Voltando às listas, vai agora a dos meus filmes favoritos. Não coloquei nenhum nacional. E fiz uma lista separada só para filmes de terror, ehehehe, porque os critérios são outros. Primeiro vai essa:
"Adeus Minha Concubina" de Chen Kaige (China) -1993
Esse é provavelmente meu filme favorito DE TODOS OS TEMPOS. Eu até tenho a fita aqui em casa, aquela da Videoteca Folha. É a história de dois meninos que são criados desde pequenos para serem atores da Ópera de Pequim, um interpretando o rei e o outro a concubina. Claro que eles vivem em conflito de identidade com seus personagens e têm uma relação doentia um com o outro. É tudo tão bonito, a fotografia, as roupas, a história. O filme é longuíssimo e acompanha também a história da china no século vinte. Fora que eu acho o idioma uma graça, a coisa mais parecida miados de gato que há. Haha.
"Aconteceu na Suite 16" de Dominique Deruddere (Bélgica) -1996
Esse é pouco conhecido. Eu também tenho aqui em fita, mas comprei direto de uma distribuidora quando eu trabalhava numa livraria. E não é fácil de achar pra alugar. É um filme bem "wildeano", a história de um michê cafajeste que espanca e rouba mulheres. Um dia, numa fuga, ele se esconde num quarto de hotel (a suite 16), onde mora um velho paraplégico. O velho inicialmente é feito de refém, mas aos poucos vai virando a situação e dominando o petiz, que não tem lá muito cérebro. Um filme sobre a beleza e a juventude, e suas obsessões.
"Ed Wood" de Tim Burton (EUA) -1994
Ah, do Tim Burton eu gosto de vários (e desgosto de alguns). Eu poderia colocar também "Big Fish", que é lindinho e fabulesco. Mas esse eu acho que é mais representativo. A biografia do cineasta trash Edward D. Wood Jr, conhecido como "o pior diretor de todos os tempos". O papél título é de Johnny Depp. Martin Landau faz o Bela Lugosi. O filme todo é rodado em PB. O que mais eu poderia querer?
"Não Viver" de Hiroshi Shimizu (Japão) - 1997
Já falei desse aqui, não? É aquele dos japoneses que decidem morrer para as famílias ganharem o seguro de vida. Então armam uma viagem na qual o ônibus despencará de um penhasco no terceiro dia. Só que uma japonesinha serelepe teen entra no ônibus por engano e quer curtir a viagem. Eles não avisam nada, para usá-la de álibi na companhia de seguro – a única que não tem motivo para morrer – mas, ao mesmo tempo, ela vai mostrando a eles "belas razões para se viver". Não é piegas não. Tem um certo humor negro.
"Morte em Veneza" de Luchino Visconti (Itália) -1971
Ah, Tadzio. Acho que essa é a melhor adaptação de uma obra literária para o cinema. É bem fiel. As pequenas modificações não alteram em nada a essência da obra. O Tadzio das telas é exatamente o que você imagina do Tadzio das páginas. E toda aquela melancolia, aquela lentidão. É um filme para ser visto exatamente como faz o personagem principal, por fetiche, admirando a beleza, a fotografia, sem pressa de nada acontecer, mas com um certo desespero...
"O Anjo Exterminador" de Luis Buñuel (México) -1962
A idéia do filme é simples, maravilhosa e arquetípica: convidados não conseguem ir embora de uma festa. Nada os prende, não há barreira alguma ou coação, apenas um bloqueio psicológico que os mantém por dias e dias na mesma sala, sem conseguir sair de lá. Claro que é uma história absurda, claro que é uma obra surrealista, mas foge à lógica fragmentária do gênero. É comum nas obras surrealistas jogarem-se muitos elementos desconexos, como citações imagéticas, para se criar o estranhamento. Nesse filme isso é mais sutil, e eu considero isso um grande mérito. Do Bunuel eu também adoro "O Obscuro Objeto do Desejo".
"Amores Expressos" de Wong Kar Wai (Hong Kong) - 1993
Hum, também é difícil escolher um filme do Wong Kar Wai. Apesar dele não ter muitos, são todos lindos, modernos e poéticos. Esse foi o primeiro que eu vi. Talvez não seja o melhor, mas é o mais "meigo". Todos os personagens são ternos, bonitinhos, e ainda assim melancólicos, solitários. São duas histórias que semi-interagem. Não têm muito a ver uma com a outra, mas acontecem na mesma região de Hong Kong, na mesma época, divindo cenários.
"Adeus Dragon Inn" de Tsai Ming Liang (Taiwan) - 2003
Tsai Ming Liang é dos meus diretores favoritos. Talvez este seja o filme mais "difícil" dele. Nunca entrou em cartaz. Também não tem em vídeo, e PRECISA ser visto no cinema. Retrata a última sessão de um cinema decadente de Taiwan, que já teve seus dias de glória. Na platéia, circulam prostitutas, crianças, gays a caça e velhos atores. Os planos são longuíssimos. Muitas vezes estamos sentados no cinema olhando para a cara de atores que também estão sentados. Assistimos a eles assistindo um filme. É um exercício extremo de metalinguagem. Genial. Mas cansativo.
"Dogville" de Lars Von Trier (Dinamarca) - 2003
Esse todo mundo conhece, não? Acho que tem o melhor final que já vi num filme. Satisfez todos os meus desejos. E toda a estrutura do filme, aquele cenário, o tom de fábula, é muito inteligente. Eu gosto de todos os filmes dele que vi, mas acho que esse é mesmo meu favorito.
"O Processo" de Orson Welles (EUA) 1962
Já que tem de colocar Orson Welles, né? haha. Ok, deste filme eu gosto bastante. Tem um clima de pesadelo bem próximo do livro, apesar de tomar várias liberdades na trama. Na verdade, eu vi uma versão ainda melhor, na TV Senado, acreditem ou não. Era uma montagem meio teatral, com atores de verdade, mas todo o cenário feito em computação. O cenário se movimentava, girava, rodava, enquanto os atores ficavam parados. Os atores eram multiplicados na tela, cada um dizendo uma parte do texto. Era uma coisa como eu nunca vi igual, super diferente e bem oportuna para a trama. Mas eu perdi o começo, nunca mais vi, nem sei de quem é, nem se tem para alugar. Se alguém souber...
Ah, o Jaspion, aquele japa-gaúcho falseta que foi meu namorado, foi para o Paraguai e para quem eu dediquei "A Morte", criou uma comunidade "Eu Amo Fazer Listas" no Orkut. Ele é o rei de fazer de fazer essas listas. Quero dizer, o príncipe herdeiro... de Nick Hornby.
Meu conto "Quasímodo"já está no ar no "Portal Literal", num especial de 2 anos do site. Dá pra ler no:
http://portalliteral.terra.com.br/index.htm
Voltando às listas, vai agora a dos meus filmes favoritos. Não coloquei nenhum nacional. E fiz uma lista separada só para filmes de terror, ehehehe, porque os critérios são outros. Primeiro vai essa:
"Adeus Minha Concubina" de Chen Kaige (China) -1993
Esse é provavelmente meu filme favorito DE TODOS OS TEMPOS. Eu até tenho a fita aqui em casa, aquela da Videoteca Folha. É a história de dois meninos que são criados desde pequenos para serem atores da Ópera de Pequim, um interpretando o rei e o outro a concubina. Claro que eles vivem em conflito de identidade com seus personagens e têm uma relação doentia um com o outro. É tudo tão bonito, a fotografia, as roupas, a história. O filme é longuíssimo e acompanha também a história da china no século vinte. Fora que eu acho o idioma uma graça, a coisa mais parecida miados de gato que há. Haha.
"Aconteceu na Suite 16" de Dominique Deruddere (Bélgica) -1996
Esse é pouco conhecido. Eu também tenho aqui em fita, mas comprei direto de uma distribuidora quando eu trabalhava numa livraria. E não é fácil de achar pra alugar. É um filme bem "wildeano", a história de um michê cafajeste que espanca e rouba mulheres. Um dia, numa fuga, ele se esconde num quarto de hotel (a suite 16), onde mora um velho paraplégico. O velho inicialmente é feito de refém, mas aos poucos vai virando a situação e dominando o petiz, que não tem lá muito cérebro. Um filme sobre a beleza e a juventude, e suas obsessões.
"Ed Wood" de Tim Burton (EUA) -1994
Ah, do Tim Burton eu gosto de vários (e desgosto de alguns). Eu poderia colocar também "Big Fish", que é lindinho e fabulesco. Mas esse eu acho que é mais representativo. A biografia do cineasta trash Edward D. Wood Jr, conhecido como "o pior diretor de todos os tempos". O papél título é de Johnny Depp. Martin Landau faz o Bela Lugosi. O filme todo é rodado em PB. O que mais eu poderia querer?
"Não Viver" de Hiroshi Shimizu (Japão) - 1997
Já falei desse aqui, não? É aquele dos japoneses que decidem morrer para as famílias ganharem o seguro de vida. Então armam uma viagem na qual o ônibus despencará de um penhasco no terceiro dia. Só que uma japonesinha serelepe teen entra no ônibus por engano e quer curtir a viagem. Eles não avisam nada, para usá-la de álibi na companhia de seguro – a única que não tem motivo para morrer – mas, ao mesmo tempo, ela vai mostrando a eles "belas razões para se viver". Não é piegas não. Tem um certo humor negro.
"Morte em Veneza" de Luchino Visconti (Itália) -1971
Ah, Tadzio. Acho que essa é a melhor adaptação de uma obra literária para o cinema. É bem fiel. As pequenas modificações não alteram em nada a essência da obra. O Tadzio das telas é exatamente o que você imagina do Tadzio das páginas. E toda aquela melancolia, aquela lentidão. É um filme para ser visto exatamente como faz o personagem principal, por fetiche, admirando a beleza, a fotografia, sem pressa de nada acontecer, mas com um certo desespero...
"O Anjo Exterminador" de Luis Buñuel (México) -1962
A idéia do filme é simples, maravilhosa e arquetípica: convidados não conseguem ir embora de uma festa. Nada os prende, não há barreira alguma ou coação, apenas um bloqueio psicológico que os mantém por dias e dias na mesma sala, sem conseguir sair de lá. Claro que é uma história absurda, claro que é uma obra surrealista, mas foge à lógica fragmentária do gênero. É comum nas obras surrealistas jogarem-se muitos elementos desconexos, como citações imagéticas, para se criar o estranhamento. Nesse filme isso é mais sutil, e eu considero isso um grande mérito. Do Bunuel eu também adoro "O Obscuro Objeto do Desejo".
"Amores Expressos" de Wong Kar Wai (Hong Kong) - 1993
Hum, também é difícil escolher um filme do Wong Kar Wai. Apesar dele não ter muitos, são todos lindos, modernos e poéticos. Esse foi o primeiro que eu vi. Talvez não seja o melhor, mas é o mais "meigo". Todos os personagens são ternos, bonitinhos, e ainda assim melancólicos, solitários. São duas histórias que semi-interagem. Não têm muito a ver uma com a outra, mas acontecem na mesma região de Hong Kong, na mesma época, divindo cenários.
"Adeus Dragon Inn" de Tsai Ming Liang (Taiwan) - 2003
Tsai Ming Liang é dos meus diretores favoritos. Talvez este seja o filme mais "difícil" dele. Nunca entrou em cartaz. Também não tem em vídeo, e PRECISA ser visto no cinema. Retrata a última sessão de um cinema decadente de Taiwan, que já teve seus dias de glória. Na platéia, circulam prostitutas, crianças, gays a caça e velhos atores. Os planos são longuíssimos. Muitas vezes estamos sentados no cinema olhando para a cara de atores que também estão sentados. Assistimos a eles assistindo um filme. É um exercício extremo de metalinguagem. Genial. Mas cansativo.
"Dogville" de Lars Von Trier (Dinamarca) - 2003
Esse todo mundo conhece, não? Acho que tem o melhor final que já vi num filme. Satisfez todos os meus desejos. E toda a estrutura do filme, aquele cenário, o tom de fábula, é muito inteligente. Eu gosto de todos os filmes dele que vi, mas acho que esse é mesmo meu favorito.
"O Processo" de Orson Welles (EUA) 1962
Já que tem de colocar Orson Welles, né? haha. Ok, deste filme eu gosto bastante. Tem um clima de pesadelo bem próximo do livro, apesar de tomar várias liberdades na trama. Na verdade, eu vi uma versão ainda melhor, na TV Senado, acreditem ou não. Era uma montagem meio teatral, com atores de verdade, mas todo o cenário feito em computação. O cenário se movimentava, girava, rodava, enquanto os atores ficavam parados. Os atores eram multiplicados na tela, cada um dizendo uma parte do texto. Era uma coisa como eu nunca vi igual, super diferente e bem oportuna para a trama. Mas eu perdi o começo, nunca mais vi, nem sei de quem é, nem se tem para alugar. Se alguém souber...
Ah, o Jaspion, aquele japa-gaúcho falseta que foi meu namorado, foi para o Paraguai e para quem eu dediquei "A Morte", criou uma comunidade "Eu Amo Fazer Listas" no Orkut. Ele é o rei de fazer de fazer essas listas. Quero dizer, o príncipe herdeiro... de Nick Hornby.
08/12/2004
O BOZO QUE VEIO DO INFERNO
A caravana da alegria já passou. Foi só um ataque de serotonina.
Para resgatar as trevas em meu coração, me lembrei dum filme que aluguei outro dia com o Daniel (ok, EU aluguei e o obriguei a assistir). É o “Palhaço Assassino” (“Clown House”) do Victor Salvia.
Calma, calma, leia até o fim, vai ficar bom.
Tudo bem, não é um filme bom (se bem que é capaz de entrar na lista do Carlão Reichenbach como um dos “melhores filmes de todos os tempos”, haha), mas tem algo de bem bizarro nele. A história é aquela coisa que você imagina, um bando de psicopatas vestidos de palhaços invadem uma casa onde moram três garotos adolescentes. A tosqueira é tanta que os garotos se livram dos palhaços em “grand clown style”, ou seja, eles usam truques idiotas de circo para vencer os psicos.
Mas o filme tem um leve toque surreal-onírico que o torna interessante. Eu não sabia exatamente o que era, até ler a biografia do diretor...
Victor Salvia foi preso logo depois de lançar esse filme. Foi descoberto que ele abusou sexualmente dos meninos e filmou tudo. Ou seja, a história dos palhaços em parte era verdadeira. Isso torna “Palhaço Assassino” praticamente um “snuff” lançado comercialmente!
Agora quer o endereço de onde eu aluguei? Haha. Não sei se é fácil de achar. Aqui numa locadora da Peixoto Gomide tem – VHS, claro.
Victor Salvia saiu da cadeia anos depois e voltou ao estrelato com “Olhos Famintos” (“Jeepers Creepers”), filme de terror que foi produzido por Francis Ford Copolla. A metade inicial do filme até que é boa, depois vira uma tosqueira. Ele se esforçou muito para criar um super-vilão como o Freddy, Jason e afins.
Esse filme também é protagonizado por um rapazola petiscável. Depois de amargar na cadeia Victor Salvia passou a trabalhar com “barely legal”.
Sabendo dessas histórias do diretor, os filmes deles ganham uma nova visão. Parecem todos uma grande alegoria de seus próprios desejos, fetiches e perversões. Não que se tornem filmes bons, mas com certeza se tornam mais assustadores.
Nessa etapa da “cruzada da sordidez”, quais são os filmes/livros mais pesados que vocês conhecem?
Filmes é fácil: “Saló” – do Pasolini (que também abusou de jovenzinhos, e foi assassinado por isso), é o principal, não dá para contestar. O filme é um terror terrível medonho, apesar da soberba cinematografia. Vocês sabem, é aquele sobre um grupo de fascistas que leva adolescentes para um castelo e os tortura de todas as formas, de maneira explicita.
Pior que eu fui assistir com uma menina em Porto Alegre que ficou o filme inteiro falando no celular...
Outro é “Requiem para um Sonho”, do Darren Aronofsky Foi o filme que me fez passar mais mal. Ele tem um efeito entorpecente impressionante (ou então eu tive alguma crise psíquica no meio da sessão). É um filme que reproduz no espectador o efeito avançado de drogas como heroína no cérebro.
Em terceiro deve vir “Audition”, do Takeshi Miike (que, ALIÁS, ei vi numa sessão do Carlão Reichenbach, no Cinesesc). Já falei deste filme aqui, não? Durante uma hora e meia o filme é uma comédia romântica super fofinha, depois entra num clima de pesadelo impressionante, daqueles que abre portas do seu inconsciente e coloca um gato miando lá dentro. Eu nunca vi nenhuma obra “carinhosa” ter esse poder.
Será mesmo que só é possível causar um impacto dessa magnitude no espectador com fontes funestas? Ou eu que sou insensível ao canto das cotovias?
Não, eu nunca chorei com E.T.
A caravana da alegria já passou. Foi só um ataque de serotonina.
Para resgatar as trevas em meu coração, me lembrei dum filme que aluguei outro dia com o Daniel (ok, EU aluguei e o obriguei a assistir). É o “Palhaço Assassino” (“Clown House”) do Victor Salvia.
Calma, calma, leia até o fim, vai ficar bom.
Tudo bem, não é um filme bom (se bem que é capaz de entrar na lista do Carlão Reichenbach como um dos “melhores filmes de todos os tempos”, haha), mas tem algo de bem bizarro nele. A história é aquela coisa que você imagina, um bando de psicopatas vestidos de palhaços invadem uma casa onde moram três garotos adolescentes. A tosqueira é tanta que os garotos se livram dos palhaços em “grand clown style”, ou seja, eles usam truques idiotas de circo para vencer os psicos.
Mas o filme tem um leve toque surreal-onírico que o torna interessante. Eu não sabia exatamente o que era, até ler a biografia do diretor...
Victor Salvia foi preso logo depois de lançar esse filme. Foi descoberto que ele abusou sexualmente dos meninos e filmou tudo. Ou seja, a história dos palhaços em parte era verdadeira. Isso torna “Palhaço Assassino” praticamente um “snuff” lançado comercialmente!
Agora quer o endereço de onde eu aluguei? Haha. Não sei se é fácil de achar. Aqui numa locadora da Peixoto Gomide tem – VHS, claro.
Victor Salvia saiu da cadeia anos depois e voltou ao estrelato com “Olhos Famintos” (“Jeepers Creepers”), filme de terror que foi produzido por Francis Ford Copolla. A metade inicial do filme até que é boa, depois vira uma tosqueira. Ele se esforçou muito para criar um super-vilão como o Freddy, Jason e afins.
Esse filme também é protagonizado por um rapazola petiscável. Depois de amargar na cadeia Victor Salvia passou a trabalhar com “barely legal”.
Sabendo dessas histórias do diretor, os filmes deles ganham uma nova visão. Parecem todos uma grande alegoria de seus próprios desejos, fetiches e perversões. Não que se tornem filmes bons, mas com certeza se tornam mais assustadores.
Nessa etapa da “cruzada da sordidez”, quais são os filmes/livros mais pesados que vocês conhecem?
Filmes é fácil: “Saló” – do Pasolini (que também abusou de jovenzinhos, e foi assassinado por isso), é o principal, não dá para contestar. O filme é um terror terrível medonho, apesar da soberba cinematografia. Vocês sabem, é aquele sobre um grupo de fascistas que leva adolescentes para um castelo e os tortura de todas as formas, de maneira explicita.
Pior que eu fui assistir com uma menina em Porto Alegre que ficou o filme inteiro falando no celular...
Outro é “Requiem para um Sonho”, do Darren Aronofsky Foi o filme que me fez passar mais mal. Ele tem um efeito entorpecente impressionante (ou então eu tive alguma crise psíquica no meio da sessão). É um filme que reproduz no espectador o efeito avançado de drogas como heroína no cérebro.
Em terceiro deve vir “Audition”, do Takeshi Miike (que, ALIÁS, ei vi numa sessão do Carlão Reichenbach, no Cinesesc). Já falei deste filme aqui, não? Durante uma hora e meia o filme é uma comédia romântica super fofinha, depois entra num clima de pesadelo impressionante, daqueles que abre portas do seu inconsciente e coloca um gato miando lá dentro. Eu nunca vi nenhuma obra “carinhosa” ter esse poder.
Será mesmo que só é possível causar um impacto dessa magnitude no espectador com fontes funestas? Ou eu que sou insensível ao canto das cotovias?
Não, eu nunca chorei com E.T.
06/12/2004
CARAVANA DA ALEGRIA
Outro dia eu estava em casa às 4:30 da manhã ouvindo ABBA atentamente...
Ah, pára com isso, ABBA é legal. Eu nem sou de "Disco", mas quando você conhece um pouco a cultura escandinava, ABBA faz muito mais sentido, haha. Toda essa coisa "kitsch higiênica" – ou um "proto-almodovarismo ingênuo", haha. Aliás, ABBA é uma banda sueca, mas tem uma banda Finlandesa chamada Ultra Bra que vai pela mesma linha, e é das poucas que canta em finlandês que eu gosto.
Mas eu estava escutando ABBA naquela madrugada para descobrir se "Dancing Queen" era a música mais alegre do mundo. É que eu estava nessa pilha da "arte carinhosa", com a revelação que tive na Bienal e postei aqui no post passado, coisa e tal.
Também estava chocado com minha mãe, que havia dito que "Dance Me to the End of Love", do Leonard Cohen era a "música mais feliz que ela já tinha escutado". Leonard Cohen? Pode? Eu gosto, mas aquela música é uma depressão só...
Daí entrei nessa cruzada da bondade e comecei a escavar os discos, os livros ("Pequeno Príncipe"? Claro que não!) gentis. O mais preocupante é que não consegui encontrar nenhuma obra essencialmente sorridente. Mesmo "Dancing Queen" do ABBA tem umas quedas de acordes depressivas... Talvez um "drama" que a impeça de salvar Maysa, haha.
Daí lembrei que o Cardigans (outra banda sueca) disse a mesma coisa sobre sua própria música, "Carnival", quando contestados sobre sua "alegria excessiva". Eles diziam que "no fundo, há um acorde depressivo".
Aliás, essa foi também uma questão que o Marcelo Rubens Paiva me fez, quando me entrevistou pra (resenha da "Morte" na) Folha.
"Depressão virou a regra nos tempos de hoje?"
Minha resposta (integral) foi a seguinte:
"Na Literatura? Acho que sempre foi. A arte sempre se alimenta dos conflitos, né? Não consigo lembrar de nenhum grande livro "alegre". Pessoalmente, (hoje em dia) eu não sou uma pessoa deprimida. Um pouco melancólico, entediado talvez. Mas é só bater alguma crise para eu enfiar o dedo na ferida, e tirar um conto, ou um romance... "
E agora eu persigo a felicidade, veja só.
Me lembrei também de uma aula teórica de acordes que fiz quando estudava piano, em que o professor explicava a reação que cada tipo de acorde provocava (alegria, tristeza, medo, etc, mas eu não me lembro mais de nada). É interessante isso, hein? O que faz um som ser percebido como "triste" ou "alegre"? É uma questão cultural ou instintiva? Preciso que um antropólogo/psicólogo visite meu "Vermelho" e explique.
Voltando aos "mais alegres do mundo", tiro ABBA e coloco "Alright" do Supergrass. Essa música não tem nenhum traço de depressão... mas tem ironia, daí não vale. Sambinhas? Todo samba parece ser a celebração da fossa. Aliás, se pensarmos bem, toda celebração parece ser um ato de desespero perante a constatação da inevitável condenação humana (ui!).
Talvez a alegria só esteja com a Xuxa Meneguel (mas eu ainda prefiro ela dançando de ursinho com o Nobuyoshi Araki em "Amor Estranho Amor", haha).
Em livro, sei lá, "O Manual do Escoteiro Mirim" serve?
Bem, bem, eu não vim para responder nada. Para alegrar seus corações, mando o link de www.roqueealfredo.com.br. Esqueça Simpsons, "Happy Tree Friends", South Park e todas essas bobagens. "Roque e Alfredo" é o melhor desenho animado já criado! E é Made in Brazil! Meu episódio favorito é o da estrelinha, "Insanus". Vocês podem assistir no site, é levinho.
Também podem opinar aí embaixo. Quais são "as obras mais alegres criadas pela humanidade"?
Outro dia eu estava em casa às 4:30 da manhã ouvindo ABBA atentamente...
Ah, pára com isso, ABBA é legal. Eu nem sou de "Disco", mas quando você conhece um pouco a cultura escandinava, ABBA faz muito mais sentido, haha. Toda essa coisa "kitsch higiênica" – ou um "proto-almodovarismo ingênuo", haha. Aliás, ABBA é uma banda sueca, mas tem uma banda Finlandesa chamada Ultra Bra que vai pela mesma linha, e é das poucas que canta em finlandês que eu gosto.
Mas eu estava escutando ABBA naquela madrugada para descobrir se "Dancing Queen" era a música mais alegre do mundo. É que eu estava nessa pilha da "arte carinhosa", com a revelação que tive na Bienal e postei aqui no post passado, coisa e tal.
Também estava chocado com minha mãe, que havia dito que "Dance Me to the End of Love", do Leonard Cohen era a "música mais feliz que ela já tinha escutado". Leonard Cohen? Pode? Eu gosto, mas aquela música é uma depressão só...
Daí entrei nessa cruzada da bondade e comecei a escavar os discos, os livros ("Pequeno Príncipe"? Claro que não!) gentis. O mais preocupante é que não consegui encontrar nenhuma obra essencialmente sorridente. Mesmo "Dancing Queen" do ABBA tem umas quedas de acordes depressivas... Talvez um "drama" que a impeça de salvar Maysa, haha.
Daí lembrei que o Cardigans (outra banda sueca) disse a mesma coisa sobre sua própria música, "Carnival", quando contestados sobre sua "alegria excessiva". Eles diziam que "no fundo, há um acorde depressivo".
Aliás, essa foi também uma questão que o Marcelo Rubens Paiva me fez, quando me entrevistou pra (resenha da "Morte" na) Folha.
"Depressão virou a regra nos tempos de hoje?"
Minha resposta (integral) foi a seguinte:
"Na Literatura? Acho que sempre foi. A arte sempre se alimenta dos conflitos, né? Não consigo lembrar de nenhum grande livro "alegre". Pessoalmente, (hoje em dia) eu não sou uma pessoa deprimida. Um pouco melancólico, entediado talvez. Mas é só bater alguma crise para eu enfiar o dedo na ferida, e tirar um conto, ou um romance... "
E agora eu persigo a felicidade, veja só.
Me lembrei também de uma aula teórica de acordes que fiz quando estudava piano, em que o professor explicava a reação que cada tipo de acorde provocava (alegria, tristeza, medo, etc, mas eu não me lembro mais de nada). É interessante isso, hein? O que faz um som ser percebido como "triste" ou "alegre"? É uma questão cultural ou instintiva? Preciso que um antropólogo/psicólogo visite meu "Vermelho" e explique.
Voltando aos "mais alegres do mundo", tiro ABBA e coloco "Alright" do Supergrass. Essa música não tem nenhum traço de depressão... mas tem ironia, daí não vale. Sambinhas? Todo samba parece ser a celebração da fossa. Aliás, se pensarmos bem, toda celebração parece ser um ato de desespero perante a constatação da inevitável condenação humana (ui!).
Talvez a alegria só esteja com a Xuxa Meneguel (mas eu ainda prefiro ela dançando de ursinho com o Nobuyoshi Araki em "Amor Estranho Amor", haha).
Em livro, sei lá, "O Manual do Escoteiro Mirim" serve?
Bem, bem, eu não vim para responder nada. Para alegrar seus corações, mando o link de www.roqueealfredo.com.br. Esqueça Simpsons, "Happy Tree Friends", South Park e todas essas bobagens. "Roque e Alfredo" é o melhor desenho animado já criado! E é Made in Brazil! Meu episódio favorito é o da estrelinha, "Insanus". Vocês podem assistir no site, é levinho.
Também podem opinar aí embaixo. Quais são "as obras mais alegres criadas pela humanidade"?
04/12/2004
O PROFESSOR DE ARTE
Hum, não falei do novo cd do Rufus Wainwright, falei? Baixei semana passada.
"Want Two" é mesmo um b-side de "Want One", o album que ele havia lançado no ano passado. Esse novo vem também com um DVD ao vivo, mas eu ainda não vi porque só tenho minha cópia em CD-R. Quem quiser me dar um oficial de Natal será recompensado com meus serviços... Ops! Mas aviso que o album não é barato... Meus serviços tampouco.
Enfim, "Want Two". Tem faixas ótimas como "The One You Love", "The Art Teacher" e "Old Whores Diet". Muitas delas eu já tinha em versões ao vivo, também baixadas da net. Destaque para "Little Sister", que no album ganhou arranjo "renascentista" de cordas.
A última faixa, "Old Whores Diet" tem praticamente só uma frase que se repete na música inteira (e a música tem uns 8 minutos). O arranjo lembra um pouco "David Byrne" (que ALIÁS, eu encontrei uma vez na rua, em Londres, quando eu estava quebrando o pau com o Patryk. Nós literalmente caímos sobre ele. Coisas de UK...).
Acho que minha favorita do album é mesmo "The Art Teacher", que ele já tinha lançado em single. A letra é bem Rufus, mas parece mais prosa do que poesia. Vai aí um trecho:
There I was in uniforms
Looking at the art teacher
I was just a GIRL then
Never had a love since then
He was not that much older than I was
He had taken our class to the Metropolitam Museum
He asked what our favorite work of art was
I never could have tell him it was him...
Professor de arte? Sei, sei...
Isso me lembra da Bienal, que eu fui semana passada, finalmente. Na verdade, ainda não vi nada direito. Eu estava num estado de perturbação mental – que seria descrita pelo meu professor de finlandês como possessão demoníaca – então varri o prédio inteiro em pouco mais de uma hora. Do que lembro? Um tigre subindo num elefante, tambores, a família do Chucky... Tinha também um professor de arte mostrando as obras para seus alunos, sim. Mas os alunos eram bem mais interessantes do que ele...
Ah... Ah...
Mas processando toda essa pós-modernidade no meu moedor mental, o saldo foi positivo. Eu sempre saía das Bienais tão deprimido, achando tudo tão perverso. Queria ver passarinhos voando - e dessa vez eu vi! Quero dizer, achei as obras menos perversas, mais doces, bem-humoradas. Será que isso significa que a arte moderna se curou do mal de século? Há esperança para nós? Os artistas (plásticos ou não) que me respondam.
Hum, não falei do novo cd do Rufus Wainwright, falei? Baixei semana passada.
"Want Two" é mesmo um b-side de "Want One", o album que ele havia lançado no ano passado. Esse novo vem também com um DVD ao vivo, mas eu ainda não vi porque só tenho minha cópia em CD-R. Quem quiser me dar um oficial de Natal será recompensado com meus serviços... Ops! Mas aviso que o album não é barato... Meus serviços tampouco.
Enfim, "Want Two". Tem faixas ótimas como "The One You Love", "The Art Teacher" e "Old Whores Diet". Muitas delas eu já tinha em versões ao vivo, também baixadas da net. Destaque para "Little Sister", que no album ganhou arranjo "renascentista" de cordas.
A última faixa, "Old Whores Diet" tem praticamente só uma frase que se repete na música inteira (e a música tem uns 8 minutos). O arranjo lembra um pouco "David Byrne" (que ALIÁS, eu encontrei uma vez na rua, em Londres, quando eu estava quebrando o pau com o Patryk. Nós literalmente caímos sobre ele. Coisas de UK...).
Acho que minha favorita do album é mesmo "The Art Teacher", que ele já tinha lançado em single. A letra é bem Rufus, mas parece mais prosa do que poesia. Vai aí um trecho:
There I was in uniforms
Looking at the art teacher
I was just a GIRL then
Never had a love since then
He was not that much older than I was
He had taken our class to the Metropolitam Museum
He asked what our favorite work of art was
I never could have tell him it was him...
Professor de arte? Sei, sei...
Isso me lembra da Bienal, que eu fui semana passada, finalmente. Na verdade, ainda não vi nada direito. Eu estava num estado de perturbação mental – que seria descrita pelo meu professor de finlandês como possessão demoníaca – então varri o prédio inteiro em pouco mais de uma hora. Do que lembro? Um tigre subindo num elefante, tambores, a família do Chucky... Tinha também um professor de arte mostrando as obras para seus alunos, sim. Mas os alunos eram bem mais interessantes do que ele...
Ah... Ah...
Mas processando toda essa pós-modernidade no meu moedor mental, o saldo foi positivo. Eu sempre saía das Bienais tão deprimido, achando tudo tão perverso. Queria ver passarinhos voando - e dessa vez eu vi! Quero dizer, achei as obras menos perversas, mais doces, bem-humoradas. Será que isso significa que a arte moderna se curou do mal de século? Há esperança para nós? Os artistas (plásticos ou não) que me respondam.
02/12/2004
PEQUENAS HISTÓRIAS DE OLHO GRANDE
Semana passada dois sites me pediram contos. Mandei "O Pequeno Conto que Sorri" para o Patife e "Quasímodo" para o Portal Literal. Assim que estiverem no ar eu coloco os links aqui.
Não tenho muitos contos circulando, também é raro me pedirem. Estava fazendo um inventário do que foi espalhado.
Em livro, tenho o "Pó de Vidro e Veneno de Cobra", que saiu na Ficções-12, um conto sobre "o efeito da cocaína na fosseta loreal das serpentes", ou algo assim. Tem "A Mulher Barbada", escrito em Parati para o "Parati Para Mim", que teve uma divulgação maciça na época e sobre o qual a Beatriz Resende escreveu no JB: "Nazarian faz uma experiência radical de escrita literária. (...) Terminado o conto me ficou um conto travado, mas muito forte, de ter saboreado esse fruto incomum, que é o literário em estado puro."
Tem também o "microconto" dos "Cem Menores Contos do Século". É assim: "Só tiro o dedo da boca para furar seus olhos". Só isso. Pra falar a verdade, eu não gosto muito. Eu tinha mandado outros dois para o Marcelino, mas por alguma razão ele escolheu esse. Os outros eram:
"Esqueça a poesia. Ela vai me matar. Chame a polícia."
E
"Em poucas palavras, o poeta vira publicitário."
Ahaha, ok, esse último eu confesso que escrevi de sacanagem.
Fora isso, parece que o Bruno Saito (Folha) colocou um conto meu, "Garotos Podres", numa revista da USP há milênios, mas eu nunca vi. É um conto quase da minha "pré-história constitucional", 1998, na verdade, mas eu ainda adoro, então ACABEI DE COLOCAR LÁ NO LINK "FORMIGAS NO AÇÚCAR".
Tenho também o "594 Formigas no meu Açúcar", que estava num site gótico (e talvez ainda esteja), que também é bem antigo... e não tão bom.
Mas o estoque de contos aqui de casa é imenso. 46, na verdade. Daria um livro com mais de duzentas páginas. Eu estou juntando, e quando der um livro com mais de 300, eu publico. : ) Vira e mexe eu os reuno e os registro.
Aliás, uma das perguntas que fizeram no "Encontros de Interrogação" do Itaú foi sobre isso, o espaço do conto e do romance na cena contemporânea brasileira. Eu continuo achando que romance tem mais mercado. É tanto escritor novo lançando coletâneas de contos, que acabam passando despercebidos. Romance tem mais impacto. Fora que escrever romance é muito mais gostoso, você carrega a história, os personagens com você por muito mais tempo...
Mas já li vários livros de contos maravilhosos. "Os Famintos", do Thomas Mann, é uma antologia com coisas que ele produziu durante toda a vida. Tem contos que ele escreveu ainda bem jovem, como "O Pequeno Sr. Friedmann", "O Caminho do Cemitério" e "O Menino Prodígio". Todos eles têm aqueles valores Mannianos, que podem ser encontrados nos romances mais famosos dele, como "A Montanha Mágica" e "Morte em Veneza". E ainda têm um clima mais romântico e ingênuo que ele foi perdendo com a idade (ou talvez com o Nobel, haha).
Outro que gosto bastante é o Saki (pseudônimo de Hector Hugh Munro). Não sei se ele tem alguma coisa em português. Eu tenho as obras completas em inglês. São contos curtíssimos, sátiras da sociedade inglesa no começo do século vinte, com um humor "dandy" bem wildeano. Ele também tem algumas coisas de terror/fantasia, mas sempre com esse olhar "glam".
Dos nacionais, (o livro de contos) "Morangos Mofados" do Caio Fernando Abreu já é um clássico. Outro dia estava conversando com o Ismael sobre isso. Não dá para ignorar "Pela Passagem de Uma Grande Dor", "Aqueles Dois" e mesmo "Sargento Garcia". Mas eu não sou fã incondicional do Caio, não. Nesse mesmo livro tem o conto "Diálogo", que eu acho uma idiotice. E o romance "Onde Andará Dulce Veiga", cá entre nós, eu também não agüento...
Recentemente comecei a me aprofundar na obra da Clarice. Descobri "Felicidade Clandestina", "A Quinta História", "O Crime do Professor de Matemática" e outros contos delicados e importantes. Mas é por causa de coisas como "Aniversário" (que eu coloquei aqui no site) ou de "O Primeiro Beijo", que a imagem dela nunca será imaculada para mim. Clarice tambem pisa na bola e deixa pra história. No cômputo total da obra, prefiro a Lygia, "As Formigas", "Verde Lagarto Amarelo", "Seminário dos Ratos"...
Tem também o "Noite na Taverna", do Álvares de Azevedo, que nenhum gótico pode desprezar; "Contos Novos" do Mário de Andrade; alguns contos do Moacyr Scliar. Mas talvez o meu livro de contos nacionais favorito seja "O Cego e a Dançarina" do João Gilberto Noll, especialmente "Alguma Coisa Urgentemente", "Miguel, Miguel, Não Tens Abelhas e Vendes Mel" e "O Meu Amigo", esse último talvez seja MEU CONTO FAVORITO DE TODOS OS TEMPOS.
Bem, o livro está esgotado há tempos, mas pode ser encontrado dentro do volume "Romances e Contos Reunidos" do Noll, lançado pela Cia das Letras, e quem estiver muito curioso consegue ler numa livraria, porque esse conto é curto. "O Meu Amigo".
Outro dos meus favoritos é o conto do Paulo Henriques Britto – "O Companheiro de Quarto", que pode ser lido no site da Editora 7 Letras.
Dos mais atuais, o Marcelino Freire, com seus "Balé Ralé" e "Angu de Sangue" faz a diferença. Eu prefiro o "Angu", mas os dois livros tem uma linguagem bem interessante, sonora, um ritmo dinâmico. Parecem mesmo contos para se ler em voz alta.
Que mais de novo? Teve a revista "Ácaro", do Paulo Werneck e do Chico Mattoso, que trouxe contos ótimos da "minha geração", contos para ser lido em revista mesmo, mas só durou dois números. De qualquer forma, elas ainda podem ser encontradas pelas FNACS por aí. A primeira tem um conto que eu adoro do Antônio Prata, chamado "Flexibilidade".
Hum, muitos outros. Sempre chegam livros aqui em casa. E eu comento quando é oportuno. O último que ganhei foi o "Pequeno Dicionário de Percevejos" das mãos (e da autoria) do Nelson de Oliveira, mas não li ainda. Estou lendo o romance "Boquinhas Pintadas", do Manuel Puig, que ganhei do Donizete Galvão, além de me aprofundar nos estudos de herpetologia e finlandês.
Ah, e ainda quero encontrar as páginas para ser feliz...
Semana passada dois sites me pediram contos. Mandei "O Pequeno Conto que Sorri" para o Patife e "Quasímodo" para o Portal Literal. Assim que estiverem no ar eu coloco os links aqui.
Não tenho muitos contos circulando, também é raro me pedirem. Estava fazendo um inventário do que foi espalhado.
Em livro, tenho o "Pó de Vidro e Veneno de Cobra", que saiu na Ficções-12, um conto sobre "o efeito da cocaína na fosseta loreal das serpentes", ou algo assim. Tem "A Mulher Barbada", escrito em Parati para o "Parati Para Mim", que teve uma divulgação maciça na época e sobre o qual a Beatriz Resende escreveu no JB: "Nazarian faz uma experiência radical de escrita literária. (...) Terminado o conto me ficou um conto travado, mas muito forte, de ter saboreado esse fruto incomum, que é o literário em estado puro."
Tem também o "microconto" dos "Cem Menores Contos do Século". É assim: "Só tiro o dedo da boca para furar seus olhos". Só isso. Pra falar a verdade, eu não gosto muito. Eu tinha mandado outros dois para o Marcelino, mas por alguma razão ele escolheu esse. Os outros eram:
"Esqueça a poesia. Ela vai me matar. Chame a polícia."
E
"Em poucas palavras, o poeta vira publicitário."
Ahaha, ok, esse último eu confesso que escrevi de sacanagem.
Fora isso, parece que o Bruno Saito (Folha) colocou um conto meu, "Garotos Podres", numa revista da USP há milênios, mas eu nunca vi. É um conto quase da minha "pré-história constitucional", 1998, na verdade, mas eu ainda adoro, então ACABEI DE COLOCAR LÁ NO LINK "FORMIGAS NO AÇÚCAR".
Tenho também o "594 Formigas no meu Açúcar", que estava num site gótico (e talvez ainda esteja), que também é bem antigo... e não tão bom.
Mas o estoque de contos aqui de casa é imenso. 46, na verdade. Daria um livro com mais de duzentas páginas. Eu estou juntando, e quando der um livro com mais de 300, eu publico. : ) Vira e mexe eu os reuno e os registro.
Aliás, uma das perguntas que fizeram no "Encontros de Interrogação" do Itaú foi sobre isso, o espaço do conto e do romance na cena contemporânea brasileira. Eu continuo achando que romance tem mais mercado. É tanto escritor novo lançando coletâneas de contos, que acabam passando despercebidos. Romance tem mais impacto. Fora que escrever romance é muito mais gostoso, você carrega a história, os personagens com você por muito mais tempo...
Mas já li vários livros de contos maravilhosos. "Os Famintos", do Thomas Mann, é uma antologia com coisas que ele produziu durante toda a vida. Tem contos que ele escreveu ainda bem jovem, como "O Pequeno Sr. Friedmann", "O Caminho do Cemitério" e "O Menino Prodígio". Todos eles têm aqueles valores Mannianos, que podem ser encontrados nos romances mais famosos dele, como "A Montanha Mágica" e "Morte em Veneza". E ainda têm um clima mais romântico e ingênuo que ele foi perdendo com a idade (ou talvez com o Nobel, haha).
Outro que gosto bastante é o Saki (pseudônimo de Hector Hugh Munro). Não sei se ele tem alguma coisa em português. Eu tenho as obras completas em inglês. São contos curtíssimos, sátiras da sociedade inglesa no começo do século vinte, com um humor "dandy" bem wildeano. Ele também tem algumas coisas de terror/fantasia, mas sempre com esse olhar "glam".
Dos nacionais, (o livro de contos) "Morangos Mofados" do Caio Fernando Abreu já é um clássico. Outro dia estava conversando com o Ismael sobre isso. Não dá para ignorar "Pela Passagem de Uma Grande Dor", "Aqueles Dois" e mesmo "Sargento Garcia". Mas eu não sou fã incondicional do Caio, não. Nesse mesmo livro tem o conto "Diálogo", que eu acho uma idiotice. E o romance "Onde Andará Dulce Veiga", cá entre nós, eu também não agüento...
Recentemente comecei a me aprofundar na obra da Clarice. Descobri "Felicidade Clandestina", "A Quinta História", "O Crime do Professor de Matemática" e outros contos delicados e importantes. Mas é por causa de coisas como "Aniversário" (que eu coloquei aqui no site) ou de "O Primeiro Beijo", que a imagem dela nunca será imaculada para mim. Clarice tambem pisa na bola e deixa pra história. No cômputo total da obra, prefiro a Lygia, "As Formigas", "Verde Lagarto Amarelo", "Seminário dos Ratos"...
Tem também o "Noite na Taverna", do Álvares de Azevedo, que nenhum gótico pode desprezar; "Contos Novos" do Mário de Andrade; alguns contos do Moacyr Scliar. Mas talvez o meu livro de contos nacionais favorito seja "O Cego e a Dançarina" do João Gilberto Noll, especialmente "Alguma Coisa Urgentemente", "Miguel, Miguel, Não Tens Abelhas e Vendes Mel" e "O Meu Amigo", esse último talvez seja MEU CONTO FAVORITO DE TODOS OS TEMPOS.
Bem, o livro está esgotado há tempos, mas pode ser encontrado dentro do volume "Romances e Contos Reunidos" do Noll, lançado pela Cia das Letras, e quem estiver muito curioso consegue ler numa livraria, porque esse conto é curto. "O Meu Amigo".
Outro dos meus favoritos é o conto do Paulo Henriques Britto – "O Companheiro de Quarto", que pode ser lido no site da Editora 7 Letras.
Dos mais atuais, o Marcelino Freire, com seus "Balé Ralé" e "Angu de Sangue" faz a diferença. Eu prefiro o "Angu", mas os dois livros tem uma linguagem bem interessante, sonora, um ritmo dinâmico. Parecem mesmo contos para se ler em voz alta.
Que mais de novo? Teve a revista "Ácaro", do Paulo Werneck e do Chico Mattoso, que trouxe contos ótimos da "minha geração", contos para ser lido em revista mesmo, mas só durou dois números. De qualquer forma, elas ainda podem ser encontradas pelas FNACS por aí. A primeira tem um conto que eu adoro do Antônio Prata, chamado "Flexibilidade".
Hum, muitos outros. Sempre chegam livros aqui em casa. E eu comento quando é oportuno. O último que ganhei foi o "Pequeno Dicionário de Percevejos" das mãos (e da autoria) do Nelson de Oliveira, mas não li ainda. Estou lendo o romance "Boquinhas Pintadas", do Manuel Puig, que ganhei do Donizete Galvão, além de me aprofundar nos estudos de herpetologia e finlandês.
Ah, e ainda quero encontrar as páginas para ser feliz...
30/11/2004
HORA EXTRA DE MIM MESMO
“Feriado de Mim Mesmo”, meu próximo romance, já foi revisado e diagramado. Ficou com 160 páginas (maior do que “Olívio”, menor do que “A Morte”), achei um tamanho bom para um romance contemporâneo, apesar dele ter uma estrutura mais próxima de novela (narrado linearmente – quase em tempo real – durante um curto espaço de tempo).
Como eu já falei, a foto de capa é assinada pelo Daniel Luciancencov e eu. Mas ainda não posso dizer o que é.
A orelha também já está pronta, mais uma vez escrita por mim mesmo (não me sinto confortável com alguém enfiando o dedo na minha orelha, heheeh). Ela já está há algum tempo aqui no site. Vocês podem ler, e ter mais detalhes do livro no link “Feriado de Mim Mesmo”, aí do lado.
Como eu sempre busco desafios pessoais ao escrever um romance, minha tentativa nesse foi de limpar um pouco o estilo, o exagero, e trabalhar mais os detalhes da trama. “Feriado de Mim Mesmo” tem um personagem só e se passa todo dentro de um apartamento. Ainda assim é um thriller, um livro de suspense, daqueles com final surpreendente.
O filme baseado no livro ainda não tem previsão de lançamento. Nem começou a ser rodado. Está em captação de recursos. Na verdade, a Eliane Caffé tinha lido “A Morte Sem Nome” e me chamou para escrever um roteiro original com ela. Eu já tinha escrito o “Feriado” e achei que daria um bom (e barato) filme. Dei os originais para ela ler e ela se empolgou em fazer a versão para cinema.
Tanto o livro como o roteiro foram escritos em cerca de vinte dias cada. Foi meu recorde de velocidade (“A Morte” foi escrita em quase um ano. “Olívio” levou 3 meses). Escrevi rápido por ser um livro linear de suspense, e eu queria saber o que iria acontecer.
O lançamento está previsto para março do ano que vem em SP e em maio na Bienal do Rio. Talvez eu faça Porto Alegre também.
E estou escrevendo um QUARTO romance sim, está bem avançado. Mas não vou dizer nada. Na melhor das hipóteses, ele será lançado em 2006.
Mas coloco novos contos por aqui ainda esta semana.
“Feriado de Mim Mesmo”, meu próximo romance, já foi revisado e diagramado. Ficou com 160 páginas (maior do que “Olívio”, menor do que “A Morte”), achei um tamanho bom para um romance contemporâneo, apesar dele ter uma estrutura mais próxima de novela (narrado linearmente – quase em tempo real – durante um curto espaço de tempo).
Como eu já falei, a foto de capa é assinada pelo Daniel Luciancencov e eu. Mas ainda não posso dizer o que é.
A orelha também já está pronta, mais uma vez escrita por mim mesmo (não me sinto confortável com alguém enfiando o dedo na minha orelha, heheeh). Ela já está há algum tempo aqui no site. Vocês podem ler, e ter mais detalhes do livro no link “Feriado de Mim Mesmo”, aí do lado.
Como eu sempre busco desafios pessoais ao escrever um romance, minha tentativa nesse foi de limpar um pouco o estilo, o exagero, e trabalhar mais os detalhes da trama. “Feriado de Mim Mesmo” tem um personagem só e se passa todo dentro de um apartamento. Ainda assim é um thriller, um livro de suspense, daqueles com final surpreendente.
O filme baseado no livro ainda não tem previsão de lançamento. Nem começou a ser rodado. Está em captação de recursos. Na verdade, a Eliane Caffé tinha lido “A Morte Sem Nome” e me chamou para escrever um roteiro original com ela. Eu já tinha escrito o “Feriado” e achei que daria um bom (e barato) filme. Dei os originais para ela ler e ela se empolgou em fazer a versão para cinema.
Tanto o livro como o roteiro foram escritos em cerca de vinte dias cada. Foi meu recorde de velocidade (“A Morte” foi escrita em quase um ano. “Olívio” levou 3 meses). Escrevi rápido por ser um livro linear de suspense, e eu queria saber o que iria acontecer.
O lançamento está previsto para março do ano que vem em SP e em maio na Bienal do Rio. Talvez eu faça Porto Alegre também.
E estou escrevendo um QUARTO romance sim, está bem avançado. Mas não vou dizer nada. Na melhor das hipóteses, ele será lançado em 2006.
Mas coloco novos contos por aqui ainda esta semana.
28/11/2004
A MULHER QUE EU NÃO FUI.
"A leitura angustia, levanta dúvidas. Mas, ao mesmo tempo, sublima sentimentos e cumpre bem o papel dos livros significativos - chegam na hora e libertam o inenarrável vazio preso no calabouço de cada alma." - A Voz Feminina de Nazarian, por Vivian Rangel
Resenha que saiu este sábado de "A Morte Sem Nome", no Jornal do Brasil. Veja só, seis meses depois do lançamento, a divulgação continua. Fora o JB, esta semana também saiu uma resenha do livro no Capitu, além da minha foto na matéria sobre os debates do Itaú, na Folha. E eu ainda descobri uma série de notas sobre o livro no Jornal do Comércio de Pernambuco. Bom saber que Lorena está indo longe.
Mas a crítica do JB sobre o livro não é inteiramente positiva. Ou eu não entendi direito: "O autor, com sua voz narrativa feminina, não se sai tão bem assim - Lorena oscila entre o masculino e o feminino e parece insatisfeita com a obrigação de escolher entre arquétipos delimitados pelo sexo."
Hum, isso é verdade, mas eu não vejo como um aspecto negativo. De qualquer forma, é uma crítica válida.
O que eu mais gostei mesmo foi de: "Apesar das inovações, o livro conserva uma atmosfera romântica - morte, bebida, solidão, depressão estão presentes."
Vocês podem ler a resenha inteiraaqui
"A leitura angustia, levanta dúvidas. Mas, ao mesmo tempo, sublima sentimentos e cumpre bem o papel dos livros significativos - chegam na hora e libertam o inenarrável vazio preso no calabouço de cada alma." - A Voz Feminina de Nazarian, por Vivian Rangel
Resenha que saiu este sábado de "A Morte Sem Nome", no Jornal do Brasil. Veja só, seis meses depois do lançamento, a divulgação continua. Fora o JB, esta semana também saiu uma resenha do livro no Capitu, além da minha foto na matéria sobre os debates do Itaú, na Folha. E eu ainda descobri uma série de notas sobre o livro no Jornal do Comércio de Pernambuco. Bom saber que Lorena está indo longe.
Mas a crítica do JB sobre o livro não é inteiramente positiva. Ou eu não entendi direito: "O autor, com sua voz narrativa feminina, não se sai tão bem assim - Lorena oscila entre o masculino e o feminino e parece insatisfeita com a obrigação de escolher entre arquétipos delimitados pelo sexo."
Hum, isso é verdade, mas eu não vejo como um aspecto negativo. De qualquer forma, é uma crítica válida.
O que eu mais gostei mesmo foi de: "Apesar das inovações, o livro conserva uma atmosfera romântica - morte, bebida, solidão, depressão estão presentes."
Vocês podem ler a resenha inteira
26/11/2004
PORQUE EU SOU POBRE, BALAS DE URSINHO ME PERTENCEM
Acabei de traduzir mais um livro para a Planeta, "When I Was Cool", do Sam Kashner. Ainda vamos definir o título em português. Ele deve ser lançado em março/abril.
É um livro de memórias "Beat". A história verdadeira de um garoto que foi estudar numa faculdade aberta por Allen Ginsberg, no final dos anos setenta. É bem interessante para quem gosta dos beatniks ou mesmo para quem quer conhecer mais. Ele dá um panorama da cena e da vida de seus professores, William Burroughs, Gregory Corso, Peter Orlovsky e o próprio Ginsberg.
Não sei se é anti-ético eu dizer isso, mas o autor é um nerd de marca maior, haha. Bem, ele faz questão de passar essa imagem. Um nerd que era fascinado pelos Beats e foi estudar com eles para tentar ser "cool". Logicamente, não conseguiu. Mas a grande graça do livro é essa, o contraste entre um adolescente tímido e sem talento com poetas gays malditos em final de carreira, que também não tinham idéia de como "ensinar poesia" e tentavam levá-lo para a cama.
Dessa leva "Beat", o meu favorito é o Burroughs mesmo. "Naked Lunch" é uma viagem psicodélica, quase incompreensível, mas ainda assim muito estimulante. "On the Road" do Kerouac eu acho "divertidinho". E aquela máxima dele "por eu ser pobre, tudo me pertence", praticamente criou o movimento hippie.
Eu me lembro de ter visto a encarnação viva desse espírito em Bremerhaven, uma cidadezinha no Norte da Alemanha, onde tive um namorado, Patryk Recovsky. Conhecemos uma mendiga que comeu todas as nossas balas de ursinho, hahah. Fiquei conversando com ela sobre Herman Hesse, Robert Musil e outros escritores alemães (sim, ela falava inglês, eu nunca consegui aprender uma palavra de alemão). E ela vinha com esse papo de que não precisava comprar cds, que ela andava na rua e de repente ouvia uma música que ela gostava tocando. Que tinha vontade de comer balinhas, e de repente aparecíamos nós com um saco. Hahah, cara de pau. O Patryk em si tinha um pouco esse espírito. Queria andar pelas ruas de Londres descalço. E, imagine só, um alemão de 17 anos levar para casa dos pais um brasileiro de 25 (eu), que ele mal conhecia. Afinal, eu também vivi esse clima "On the Road " durante meu longo mochilão. E dependi muito da bondade de estranhos...
Mas agora eu poderia colocar: "porque eu sou escritor, nada me pertence." Ah, sim, estou sempre no desespero atrás de freelas. Agora que terminei essa tradução, volto a mendigar balinhas de ursinho (e elas não são tão baratas no Brasil...). Este ano inteiro eu sobrevivi de brisa, do adiantamento dos meus livros ("A Morte Sem Nome" e "Feriado de Mim Mesmo"), traduções pra Planeta e freelas que fiz para Editora Abril, pra F Nazca e pra Eliane Caffé. O dinheiro de portugal e do roteiro ainda não entrou, talvez demore. E todo mês acho que a corda vai apertar no meu pescoço...
Se eu pudesse manter meus dedos parados, comeria os fungos que cresceriam entre eles. Hahah.
Acabei de traduzir mais um livro para a Planeta, "When I Was Cool", do Sam Kashner. Ainda vamos definir o título em português. Ele deve ser lançado em março/abril.
É um livro de memórias "Beat". A história verdadeira de um garoto que foi estudar numa faculdade aberta por Allen Ginsberg, no final dos anos setenta. É bem interessante para quem gosta dos beatniks ou mesmo para quem quer conhecer mais. Ele dá um panorama da cena e da vida de seus professores, William Burroughs, Gregory Corso, Peter Orlovsky e o próprio Ginsberg.
Não sei se é anti-ético eu dizer isso, mas o autor é um nerd de marca maior, haha. Bem, ele faz questão de passar essa imagem. Um nerd que era fascinado pelos Beats e foi estudar com eles para tentar ser "cool". Logicamente, não conseguiu. Mas a grande graça do livro é essa, o contraste entre um adolescente tímido e sem talento com poetas gays malditos em final de carreira, que também não tinham idéia de como "ensinar poesia" e tentavam levá-lo para a cama.
Dessa leva "Beat", o meu favorito é o Burroughs mesmo. "Naked Lunch" é uma viagem psicodélica, quase incompreensível, mas ainda assim muito estimulante. "On the Road" do Kerouac eu acho "divertidinho". E aquela máxima dele "por eu ser pobre, tudo me pertence", praticamente criou o movimento hippie.
Eu me lembro de ter visto a encarnação viva desse espírito em Bremerhaven, uma cidadezinha no Norte da Alemanha, onde tive um namorado, Patryk Recovsky. Conhecemos uma mendiga que comeu todas as nossas balas de ursinho, hahah. Fiquei conversando com ela sobre Herman Hesse, Robert Musil e outros escritores alemães (sim, ela falava inglês, eu nunca consegui aprender uma palavra de alemão). E ela vinha com esse papo de que não precisava comprar cds, que ela andava na rua e de repente ouvia uma música que ela gostava tocando. Que tinha vontade de comer balinhas, e de repente aparecíamos nós com um saco. Hahah, cara de pau. O Patryk em si tinha um pouco esse espírito. Queria andar pelas ruas de Londres descalço. E, imagine só, um alemão de 17 anos levar para casa dos pais um brasileiro de 25 (eu), que ele mal conhecia. Afinal, eu também vivi esse clima "On the Road " durante meu longo mochilão. E dependi muito da bondade de estranhos...
Mas agora eu poderia colocar: "porque eu sou escritor, nada me pertence." Ah, sim, estou sempre no desespero atrás de freelas. Agora que terminei essa tradução, volto a mendigar balinhas de ursinho (e elas não são tão baratas no Brasil...). Este ano inteiro eu sobrevivi de brisa, do adiantamento dos meus livros ("A Morte Sem Nome" e "Feriado de Mim Mesmo"), traduções pra Planeta e freelas que fiz para Editora Abril, pra F Nazca e pra Eliane Caffé. O dinheiro de portugal e do roteiro ainda não entrou, talvez demore. E todo mês acho que a corda vai apertar no meu pescoço...
Se eu pudesse manter meus dedos parados, comeria os fungos que cresceriam entre eles. Hahah.
24/11/2004
SE EU NÃO TE AMASSE TANTO...
Dobrando a esquina hoje vi essa placa na entrada da minha rua. "Se eu não te amasse tanto." Só isso, sem dedicatória nem assinatura. Claro que foi escrita para mim. Para quem mais seria? Minha rua só tem uns 15 prédios, 30 casas e algumas centenas de corações partidos...
Haha, mas eu cheguei a pensar... Não foi ninguém que passou por aqui não?
Falando em EGO de escritor, foi algo impressionante nas palestras do Itaú. A gente fica quietinho escrevendo em casa e nem percebe que essas doenças não são só nossas. Que há muitos outros com "seis dedos", escritores com as mesmas questões, as mesmas pretensões, os mesmos problemas. Por isso sempre acho tão interessante esses debates...
Ouvi coisas ótimas, outras nem tanto. É uma bobagem achar que os escritores só têm coisas interessantíssimas a dizer. Escritor só tem obrigação de ter coisas interessantíssimas para escrever ( e ainda assim, não me sinto com esse compromisso num blog, haha).
Acredito eu que a série de debates do Itaú Cultural não tinha a intenção/pretensão de trazer respostas, apenas de estimular a conversa entre escritores. Foi uma iniciativa maravilhosa e me senti honrado com o convite. Os temas expostos ganham uma dimensão única analisados por quem escreve, mas não é uma dimensão absoluta.
O tema da minha mesa, por exemplo – Cadê a Nova Clarice? Cadê o Novo Rosa? – certamente poderia ser discutido por críticos e acadêmicos que dariam um panorama mais verdadeiro da produção e da importância da literatura atual. Para falar da Clarice e do Rosa em si, há muitos especialistas maiores do que nós. Estamos trancados em casa, preocupados com nossa própria produção, não devemos olhar muito para os lados nem para trás. O peso do passado e a situação do presente devem ser observados, claro, mas pelo retrovisor, sem tirarmos o olho da estrada à frente.
Uma das perguntas que fizeram à minha mesa era de nossas "pretensões como escritores". Respondi que devem ser as maiores, obviamente. Devemos acreditar que poderemos ser os maiores, melhores, únicos, e trabalhar para isso. Eu deixei de tocar piano exatamente por isso. Meu sonho era ser maior do que Liszt, haha. Mas talvez ele tenha um peso muito grande sobre mim, e eu nunca me considerei minimamente talentoso como pianista.
Como escritor, acredito (e tenho de acreditar) que posso fazer algo realmente expressivo, mesmo que o tempo não esteja a meu favor, mesmo que a literatura hoje em dia não tenha o alcance que teve em outros dias...
Aliás, nenhuma arte tem. Isso eu também expus na minha mesa. Não surgirá outros Beatles, outro Picasso, porque o tempo não é para isso. O tempo é para verdades relativas, heróis segmentados, não absolutos. Com certeza muitas bandas tocam e compõem melhor do que os Beatles hoje, mas a oportunidade social que eles tiveram para transformar o mundo não irá aparecer tão cedo.
E eu me contento em ser o Guimarães Rosa de quem me ama : )
Quanto à Clarice, fiz questão de relativizar sua genialidade. Eu me esforcei muito para gostar dela. Hoje tem coisas que eu acho fabulosas, mas vai aí um motivo para odiá-la:
ANIVERSÁRIO - Clarice Lispector
Amanhã faz dez anos. Vou aproveitar bem este último dia de nove anos.
Pausa, tristeza:
- Mamãe, minha alma não tem dez anos.
- Quantos tem?
- Só uns oito.
- Não faz mal, é assim mesmo.
- Mas eu acho que se devia contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com vinte anos de alma, mas era com setenta anos de corpo.
Arggggggggh! Esse é o conto todo. Haha. E foi esse conto que eu li na mesa. Veja só, se Clarice tivesse blog ela podia estar se queimando muito mais do que eu... Hahaa.
Para terminar meu "Relatório Itaú", coloco uma questão que fiz diretamente para o Ignácio de Loyola Brandão, na última mesa do encontro. Ele dizia que "o tempo é o senhor dos críticos", aquela história de que "os bons de hoje só serão conhecidos amanhã", etc etc. Mas a minha pergunta foi: "E os bons de ontem? Será que todos são conhecidos hoje? Não se suspeita de que muitos foram esquecidos para sempre, por falta de sorte, de oportunidade, de compreensão? E os bons de hoje, será que todos ficarão? Será que muitos não se perderão por aí?"
Nenhuma resposta concreta foi obtida, também nem era minha intenção. Mas gostei do Luís Vilela, que disse observar dezenas de "bons escritores" desaparecerem todos anos, sempre que há concursos de contos, de romances, e tem de se escolher apenas um vencedor. "Eu me lembro de livros maravilhosos que julguei em concursos anos atrás, mas que acabaram não ficando com o primeiro prêmio. Sempre procuro esses livros pelas livrarias, esperando que de alguma forma eles conseguiram ser publicados", disse ele.
E muitos escritores sem sorte acabam desistindo, se tornando políticos, traficantes, sendo atropelados pelo trem. Mas, também segundo Luís Vilela, "a vida pinça aqueles que ela quer que sejam sublinhados."
Dobrando a esquina hoje vi essa placa na entrada da minha rua. "Se eu não te amasse tanto." Só isso, sem dedicatória nem assinatura. Claro que foi escrita para mim. Para quem mais seria? Minha rua só tem uns 15 prédios, 30 casas e algumas centenas de corações partidos...
Haha, mas eu cheguei a pensar... Não foi ninguém que passou por aqui não?
Falando em EGO de escritor, foi algo impressionante nas palestras do Itaú. A gente fica quietinho escrevendo em casa e nem percebe que essas doenças não são só nossas. Que há muitos outros com "seis dedos", escritores com as mesmas questões, as mesmas pretensões, os mesmos problemas. Por isso sempre acho tão interessante esses debates...
Ouvi coisas ótimas, outras nem tanto. É uma bobagem achar que os escritores só têm coisas interessantíssimas a dizer. Escritor só tem obrigação de ter coisas interessantíssimas para escrever ( e ainda assim, não me sinto com esse compromisso num blog, haha).
Acredito eu que a série de debates do Itaú Cultural não tinha a intenção/pretensão de trazer respostas, apenas de estimular a conversa entre escritores. Foi uma iniciativa maravilhosa e me senti honrado com o convite. Os temas expostos ganham uma dimensão única analisados por quem escreve, mas não é uma dimensão absoluta.
O tema da minha mesa, por exemplo – Cadê a Nova Clarice? Cadê o Novo Rosa? – certamente poderia ser discutido por críticos e acadêmicos que dariam um panorama mais verdadeiro da produção e da importância da literatura atual. Para falar da Clarice e do Rosa em si, há muitos especialistas maiores do que nós. Estamos trancados em casa, preocupados com nossa própria produção, não devemos olhar muito para os lados nem para trás. O peso do passado e a situação do presente devem ser observados, claro, mas pelo retrovisor, sem tirarmos o olho da estrada à frente.
Uma das perguntas que fizeram à minha mesa era de nossas "pretensões como escritores". Respondi que devem ser as maiores, obviamente. Devemos acreditar que poderemos ser os maiores, melhores, únicos, e trabalhar para isso. Eu deixei de tocar piano exatamente por isso. Meu sonho era ser maior do que Liszt, haha. Mas talvez ele tenha um peso muito grande sobre mim, e eu nunca me considerei minimamente talentoso como pianista.
Como escritor, acredito (e tenho de acreditar) que posso fazer algo realmente expressivo, mesmo que o tempo não esteja a meu favor, mesmo que a literatura hoje em dia não tenha o alcance que teve em outros dias...
Aliás, nenhuma arte tem. Isso eu também expus na minha mesa. Não surgirá outros Beatles, outro Picasso, porque o tempo não é para isso. O tempo é para verdades relativas, heróis segmentados, não absolutos. Com certeza muitas bandas tocam e compõem melhor do que os Beatles hoje, mas a oportunidade social que eles tiveram para transformar o mundo não irá aparecer tão cedo.
E eu me contento em ser o Guimarães Rosa de quem me ama : )
Quanto à Clarice, fiz questão de relativizar sua genialidade. Eu me esforcei muito para gostar dela. Hoje tem coisas que eu acho fabulosas, mas vai aí um motivo para odiá-la:
ANIVERSÁRIO - Clarice Lispector
Amanhã faz dez anos. Vou aproveitar bem este último dia de nove anos.
Pausa, tristeza:
- Mamãe, minha alma não tem dez anos.
- Quantos tem?
- Só uns oito.
- Não faz mal, é assim mesmo.
- Mas eu acho que se devia contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com vinte anos de alma, mas era com setenta anos de corpo.
Arggggggggh! Esse é o conto todo. Haha. E foi esse conto que eu li na mesa. Veja só, se Clarice tivesse blog ela podia estar se queimando muito mais do que eu... Hahaa.
Para terminar meu "Relatório Itaú", coloco uma questão que fiz diretamente para o Ignácio de Loyola Brandão, na última mesa do encontro. Ele dizia que "o tempo é o senhor dos críticos", aquela história de que "os bons de hoje só serão conhecidos amanhã", etc etc. Mas a minha pergunta foi: "E os bons de ontem? Será que todos são conhecidos hoje? Não se suspeita de que muitos foram esquecidos para sempre, por falta de sorte, de oportunidade, de compreensão? E os bons de hoje, será que todos ficarão? Será que muitos não se perderão por aí?"
Nenhuma resposta concreta foi obtida, também nem era minha intenção. Mas gostei do Luís Vilela, que disse observar dezenas de "bons escritores" desaparecerem todos anos, sempre que há concursos de contos, de romances, e tem de se escolher apenas um vencedor. "Eu me lembro de livros maravilhosos que julguei em concursos anos atrás, mas que acabaram não ficando com o primeiro prêmio. Sempre procuro esses livros pelas livrarias, esperando que de alguma forma eles conseguiram ser publicados", disse ele.
E muitos escritores sem sorte acabam desistindo, se tornando políticos, traficantes, sendo atropelados pelo trem. Mas, também segundo Luís Vilela, "a vida pinça aqueles que ela quer que sejam sublinhados."
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ALA-LA-Ô
No bloco com Danilo Grangheia e seus twinks. Chega de ser feliz! Lellis é amiga de escola (a outra não lembro quem é). Sobrevivi a mais um...