03/06/2014

PRIMEIRO CAPÍTULO




Era a casa da mãe, não a sua casa. Ele nunca morara

lá. Não brincara em suas escadas, não crescera entre

aquelas paredes. Não esfolara o joelho em seu chão

nem contemplara o teto em noites de tempestades,

em madrugadas insones. Ainda assim, não deixava de

ser estranhamente familiar. Estranho, mas familiar.

A mesa em que estudara, na sala; uma quina em que

tantas vezes topara; móveis da sua infância, talheres

de vidas passadas, estantes, lombadas, lembranças dispersas

reorganizadas num novo espaço, sob um novo

teto. Era o que a mãe realmente fora, ou aquilo que

se tornara, longe dos filhos, em sua verdadeira casa.

E era tudo o que sobrara.



O que fazer com tudo aquilo? O que fazer com o

cadáver de uma casa, uma vida, a mãe morta? Enterro

ou cremação? Criogenia ou canibalismo? Incêndio

e demolição. Cortar seu corpo em pedaços e servir

ao cachorro. Entregar peça por peça aos parentes e

amigos — distribuir os livros, os vestidos. Vender tudo.

Derrubar a casa. Instalar-se lá e tentar começar uma

nova vida, recomeçar a vida, retomar a vida da mãe,

adotar sua identidade, seus vestidos ou seu cenário,

construir um personagem. Ele não era capaz.



Ele era um incapaz. Mas sua mãe havia sido bem

específica. Instruções para o funeral. Que música

tocar. Que passagem ler. O que fazer com o corpo. O

que fazer com a casa. Para quem distribuir os móveis,

os livros; por que se preocupar? Depois de morta,

para quê? Para que os filhos não se preocupassem.

Independência e morte. Independente mesmo após.

Tudo sob controle. Ela fizera suas próprias escolhas,

não havia nada que ele pudesse fazer.



“André...” O advogado o recebeu no portão com

um aperto no ombro e um sorriso paternal. Um sorriso

paternalista. Um sorriso cansado. Talvez qualquer

homem que pudesse ser seu pai já estivesse cansado

naquele ponto. Qualquer homem que pudesse ter sido

seu pai já estaria numa idade avançada, velho, cansado,

desiludido, decepcionado. Bastardo. Também

havia o abatimento pela perda da amiga, e por pensar

que ele estava a caminho. O advogado já respirava

naquela realidade em que amigos começam a morrer

por todos os lados.



Seguiram até a casa. “Você veio caminhando?”, o

advogado o percebeu semiofegante, suor escorrendo

da testa. André assentiu, sorrindo. Sorriso triste. Mais

do que demonstrar ao velho que ainda era jovem o

suficiente para subir dois quilômetros a pé por uma

estrada de terra, demonstrava que isso o esgotava.

O advogado devia olhar para seus olhos e ver como

aquele menino, que conhecera ainda nas fraldas, já

estava murcho, exaurido, ressaltava-lhe ainda mais a

própria velhice. O advogado poderia ser o próximo da

fila, mas André não tardaria a acompanhá-lo.



Entraram na casa e ele viu a mãe por todos os lados.

Os restos da mãe. Os livros. O pêndulo do relógio

batendo. Era como uma prova viva de que ela existia.

Não mais viva, insistia por todos os lados. A mãe

materializada em muito mais do que uma carcaça.

Dizendo muito mais do que um epitáfio. Toda uma

vida, em cada centímetro daquela casa. “Deixa só eu

lavar o rosto.” André se dirigiu ao banheiro.



Uma viagem de sessenta minutos, de ônibus. Daí

descia na estrada, quilômetro 59, e subia a pé por

dois quilômetros de terra. Mochila nas costas. Tênis

gastos nos pés. Camiseta do Suede. Indo para a casa

da mãe. A mãe se escondia. Dificultava as coisas

para quem não tinha carro, como o próprio filho.



Um refúgio, para escrever, já na terceira idade, na

última curva, longe da cidade. André compreendia

e apreciava aquele surto bucólico. Mas, para ele, era

apenas um surto. Nunca conseguira passar mais de

uma noite naquela casa, subindo pelas paredes. O

tédio o consumia, o ar puro o intoxicava. Precisava

gastar energia, sedando-se com as cachaças da mãe,

as histórias da mãe. Precisava sair dali.


Por isso, a subida a pé fazia sentido. Era um processo.

Mais do que um ritual, deixando a cidade para trás,

a estrada para trás, o ônibus e a civilização,

intoxicando-se com os gases rodoviários, André ia se

amaciando, queimando combustível, preparando-se

para se apresentar como o filho dócil, faminto por

comida caseira. Preparando-se para se apresentar como

filho, corado, saudável e em forma. A quem queria

enganar? Chegou à casa e ao advogado como um

ex-fumante de meia-idade, cansado, exaurido, que

não sabia dirigir e mal conseguia respirar. Tatuagens

desbotadas. Camiseta puída. Suado, desgrenhado e

fedido, foi ao banheiro. Ao menos lavar o rosto.



Sobre a pia, encontrou os cremes da mãe, óleos,

hidratantes, antirrugas. Não fizeram muita diferença

num corpo cremado, a não ser que a pele hidratada

tenha levado mais tempo para queimar. Restos de

vaidade virando fumaça. André levantou o olhar para

o espelho e se viu melhor do que esperava — ainda

um pouco menino. Poderia ser por se olhar no espelho da

mãe, pela lembrança de que, na casa dela, ele seria

sempre o caçula. Provavelmente era mais pelo efeito

das bochechas coradas pelo exercício, a má iluminação

do banheiro, a boa iluminação do banheiro,

a iluminação indireta, vinda da janela, filtrada pelo

boxe, sombreando-lhe olheiras e as crescentes rugas de

expressão. Seu cabelo também estava num bom dia.

Untado pelo suor. A franja longa, escura. Era apenas

obra do acaso. O acaso às vezes o favorecia.



Voltou à sala e encontrou o advogado conversando

com a empregada. “Quer um café?”, ofereceu-lhe.

André assentiu novamente. O advogado o recebia

como visita em sua própria casa — não, na casa da

mãe. A casa não era dele, não era do advogado. A

casa não era de ninguém. Era a casa de uma mulher

morta. André sentou-se no sofá em frente à lareira

apagada, o advogado na poltrona ao lado. Passou-lhe

os papéis. “Esses são os que você precisa assinar

agora. E esses eu vou deixar também para a sua irmã;

quando ela vem?”




“Amanhã de manhã.” André passou os olhos por

cima dos papéis e se concentrou em fazer a assinatura

correta. Como a morte era burocrática. Um cadáver

que se arrastava em tantos detalhes, toda uma vida,

um legado, uma casa. O coração parava de bater, mas

as unhas continuavam crescendo, o cabelo crescendo,

os dentes amarelando, a pele se ressecando à espera de

Lancôme. Sua mãe podia ter acabado com a vida, mas

para dá-la por encerrada ele ainda teria muito a assinar,

contas a fechar, flores a comprar, arregaçar as mangas

e cavar ele mesmo uma sepultura. Depois cobri-la pá

a pá, bater a terra, fazer uma missa e rezar para que a

mãe não desse nem mais um suspiro. Fogo-fátuo. Um

gás que escapava.



André levantou os olhos e encontrou os do advogado,

que o examinava. Diabos, esse moleque não é

capaz nem de assinar os documentos da mãe morta,

pensou que o advogado pensava. A mãe cuidara de

tudo. A mãe cuidara de se matar para que ele mesmo e

sua irmã não tivessem de cuidar dela mais tarde. Fora

cremada para que não houvesse nem sepultura a ser

visitada. Nada de missa, nenhuma flor a murchar. Ele

não era capaz nem mesmo de assinar os atestados de

óbito. “Você tem firma em algum outro cartório? Os

dois que você me indicou não estão reconhecendo”,

dissera o advogado há alguns dias pelo telefone. Ele

tentou se convencer de que aquilo era perfeitamente

natural, ou de que o advogado acharia perfeitamente

natural; acabara de perder a mãe, normal

que o corpo tremesse, a mão vacilasse, assinatura

irreconhecível. Já ele mesmo não podia se enganar.



Há um bom tempo que isso acontecia. Ele tentando

assinar como ele mesmo; tentando provar por escrito

ser alguém que ele não era mais. “É melhor você ir lá,

ao cartório, fazer uma nova assinatura”, lhe recomendavam.

Porém não havia assinatura nova. André não

se reinventara. Seria incapaz de assinar duas vezes da

mesma forma, de uma nova forma. De qualquer forma,

o jeito era tentar imitar o melhor possível a antiga

grafia; era difícil, mas às vezes ele conseguia. Talvez

numa assinatura mais despreocupada. Talvez quando

o tabelião estivesse distraído... Diabos, será que não

podia simplesmente manchar o dedão e deixar sua

impressão digital? Cogitava perguntar.



André repassou os papéis ao advogado, não totalmente

seguro de que acertara sua assinatura. “Estamos

quase terminando aqui, André”, disse o advogado,

como quem lhe pedia um último esforço. Ele

se esforçava. E gostaria de acreditar que o advogado

acreditava que o esforço era apenas enterrar a mãe,

vencer sua morte, superar o luto; André sabia que o

advogado sabia além. O esforço era viver. E viver com

a morte da mãe era algo-demais-além-do-demasiado.

Estavam quase terminando, e depois? Estavam quase

terminando o quê? Talvez estivessem terminando os

dois. Vamos lá, eu te ajudo com essas últimas pás de

terra, depois é com você. Você não é mais um menino,

e eu não tenho mais nada com isso. Minha amizade

era com a sua mãe; é hora de você se virar sozinho.

Pelo amor de Deus, acerte essa assinatura e damos por

encerrado! Era isso o que o advogado dizia?



Ele abusara, sabia bem. Abusara dos serviços do

advogado, da amizade daquele homem com a mãe,

buscara seu socorro mais de uma vez, tarde da noite.

Buscara socorro algumas vezes de manhã também,

lembrava-se. Amizade é uma forma de se permitir

abusos, afinal. “Queria agradecer novamente por tudo

o que fez pela minha mãe... por nós”, André comentou.

Precisava deixar clara sua gratidão ao velho. O advogado

fez sinal com a mão como quem diz “deixe disso”,

e André sabia que não era um sinônimo de “não foi

nada”, e sim uma maneira de acabar logo com aquilo.

“Vamos acabar logo com isso. Daí não precisarei nunca

mais te socorrer. Agora você está nessa sozinho.”



André ressentia a gratidão que sentia. Acostumara-se

a tomar tudo aquilo como natural. Era fruto de seu

talento, sua voz, seu rostinho bonito. Porém talento,

voz, rosto, tudo murcha com o tempo, e precisava

agradecer pelo que ainda tinha. O advogado à sua

frente. O trabalho que era poupado diante de todo

trabalho que o outro já tivera — que trabalho ele teve?

Será que ninguém percebia que trabalho era respirar

todos os dias? Arrastar-se a cada manhã para fora da

cama, na hora do almoço, de tarde, antes que escurecesse?

O trabalho que era conseguir chegar ao final

da noite e apenas dormir? Ninguém tinha nada com

isso. As pessoas conseguiam. As pessoas se levantavam

de madrugada, pegavam ônibus, pegavam outro ônibus,

trabalhavam, faziam fila com bandeja tentando

encaixar no mesmo prato salada de batata, coxinha

de frango, macarrão ao alho e óleo, bife de contrafilé,

voltavam ao trabalho, pegavam um ônibus de volta

para casa, pegavam outro, tropeçavam, levavam um

tiro, eram atropeladas e continuavam se arrastando. Ele

era um adulto, e deveria ser fácil. Se tinha insônia, se

tinha pesadelos, se os lençóis estavam imundos ou não

tinha onde dormir, era problema apenas dele. A mãe

não estava mais lá e o advogado já estava indo embora.



E não era só um advogado, diabos. Eram médicos,dentista,

uma empregada. Era um marceneiro, uma

loja de móveis, uma fiadora. Quantos contatos, amigos,

favores perdia com a morte da mãe? Quantos

restavam a seu lado? Um mundo todo que morria.

Não podia empurrá-lo mais um pouco, ressuscitá-lo,

invocá-lo dos mortos com as palavras certas, a assinatura

errada?



“Está tudo certo com a venda da casa?”, o advogado

perguntava como quem lia seus pensamentos.

Quem sabe um último favor, ajudar a vendê-la. Não

era necessário. André assentia. “Acho que sim, minha

irmã é quem está cuidando disso.” A irmã. A irmã não

estava do seu lado. A irmã tinha sua própria família,

marido, filhos. Ele estava sozinho. Há muito que estava

sozinho. E só agora, com a morte da mãe, percebia

como nunca se solidificara em adulto.



O advogado tocou novamente seu ombro, apertando-

o. Um pouquinho mais de compaixão. Paciência.

Vamos lá, André, você consegue.


André sorriu. Claro que ele conseguia. Ontem à

noite mesmo se sentia confiante, num gole de vodca.

Droga, ele era um astro. Tinha uma história. E a

história não acabara. Ele perdera a mãe, como todos

perdem. E o que conquistara não era pouca coisa.

Agora era se reerguer, vender a casa, fazer bom uso

do dinheiro, investir na carreira, apostar no talento.

O talento ainda estava lá — desengasgue e cante! E o

nome ele ainda tinha. Fora só uma sucessão de erros,

azares, vícios, a morte da mãe. O resto estava todo no

lugar. O lugar era feito de restos.



A empregada veio com a bandeja do café. O advogado

lhe agradeceu. Tudo muito civilizado. Essa era

outra relação que morria. Relação servil, patrão-empregada.

André não conseguiria mantê-la. A empregada

também já estava em idade avançada. “A

ascensão da classe C.” Aquela mulher dentro de casa,

limpando suas pegadas de barro, era algo que ele não

encontraria mais.



“Meu caseiro deve estar chegando para levar o

sofá”, prosseguiu o advogado, “e as camas do quarto

de hóspede. Não tem problema para você, não é?”

André balançou a cabeça. Não teria onde colocar

todos aqueles móveis. E a irmã já tinha uma casa toda

mobiliada. Era coisa demais para uma só mulher. Era

coisa demais para ninguém. Era uma vida inteira, coisa

demais para uma mulher morta. A mãe quis que seus

bens fossem distribuídos entre os amigos, e o advogado

mais do que merecia. O que não fosse levado provavelmente

seria entregue junto com a casa.



Num gole, André já havia bebido e servia-se de

mais café. E mais um. O advogado levantava-se e lhe

estendia a mão. André teve de se levantar antes de

acreditar que o café realmente fizera efeito. Apenas

cafeína, que efeito ele esperava? Acompanhou o advogado

até a porta. Agora era ele o dono da casa. Ao

menos até o dia seguinte, era ele quem mandava. Rei

por um dia de uma única casa — era bem mais do que

havia sido ultimamente. E seguindo atrás do advogado,

não podia deixar de se fortalecer diante da velhice do

homem, da gordura do homem, sua postura curvada

e sua baixa estatura. É, apesar dos excessos, de uma

vida de vícios, André ainda era jovem, ainda homem,

ainda podia. Seria Rei! O peso dos anos é mais forte

do que tudo, e André ainda tinha certa leveza a seu

favor, pelo menos diante daquele velho. André não

era mais menino, mas ainda era um homem, ainda

conseguiria, ainda tinha sua chance.



E na capa de O Globo de hoje... Entrevista na íntegra no site, aqui: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/santiago-nazarian-muita-gente-me-considera-um-babaca-12693375

26/05/2014

RESENHANDO AS RESENHAS

Foto: Karime Xavier/Folha de S.Paulo.

Dia desses meu editor enviou uma matéria de página inteira sobre o livro, de um jornal da Amazônia. "Dá os parabéns para o povo aí da Record, porque eles que escreveram", tive de responder. Era uma cópia do release, palavra por palavra.


Tem sido uma boa divulgação. O livro saiu há quinze dias, mas já dei diversas entrevistas, alguns programas de TV, rádio. Já a "recepção" é impossível dizer se está sendo boa ou não, porque sou sempre eu mesmo falando sobre o livro, muita vezes para gente que ainda não leu. Das lendárias "resenhas", ainda nada. Sintomático. Há cada vez menos espaço para resenhas nos veículos, e eu tenho de agradecer que ao menos o povo se interessa pelo que eu tenho a dizer.

Para o autor, é sempre mais interessante as resenhas, as impressões. Ver como a obra está sendo recebida, percebida. E hoje em dia, mais do que os grandes veículos, as resenhas estão a cargo dos próprios leitores, nas redes sociais, em seus blogs e murais.

A impressão mais bacana que já recebi do livro foi de um jovem mestrando que estuda minha obra na UFRJ, Rodrigo Lopes da Fonte. Reproduzo aqui:

“Mastiguei. Engoli. Fiz ótima digestão...”

Com "Biofobia" Santiago Nazarian retoma, com toda a força narrativa, os aspectos ficcionais que marcaram seus romances anteriores. E com algumas novidades.
O aprofundamento nas neuroses, nas psicoses, na solidão, no "existencialismo bizarro" que promove a desorientação social e os pequenos e grandes vícios humanos - tudo isso está lá - com o plus de uma dose generosa de ironia cáustica (sem dúvida herança benéfica de "Mastigando Humanos" e "O prédio, o tédio e o menino cego", erroneamente interpretados como “livros juvenis").
Temos, assim, uma obra de ficção enxuta, visceral, bem formatada, construída, pois, com uma consciência profissional extrema. Apesar de não compartilhar do lugar-comum crítico que aponta essa ou aquela obra de um autor como "produto de uma maturidade estética", é preciso reconhecer que dessa vez estamos diante de um livro ligeiramente mais austero. Sem dúvida Nazarian já surgiu maduro na literatura – não por acaso estreou já premiado, em 2003, com "Olívio" – porém todo e qualquer traço estilístico invariavelmente se desdobra e melhora. Amadurece, enfim. E “Biofobia” registra esse momento.
Ao contrário de André, o protagonista, que se aloja num entre temporal (a casa de campo da mãe suicida) para revisitar o passado venturoso e renegar as forças perturbadoras da natureza que lhe impõem um futuro incerto, a linguagem do novo romance inicia um processo paulatino de desligamento da antiga coloquialidade pop e inaugura a nova fase ficcional do autor. Aqui, portanto, o domínio de Nazarian sobre as características peculiares a todas as suas narrativas se solidifica e confere ao romance o ajustamento pleno entre a sua mundividência autoral e a proposta da obra criada até agora.
Alguns outros traços dos três primeiros livros – sobretudo os de "Feriado de mim mesmo" – são retomados em "Biofobia". Um deles é o jogo de verdade e mentira na personalidade do protagonista e, claro, na própria voz narrativa perspectivada (o que aproxima o leitor do personagem e o prende no puro suspense do sentido – o suspense que acontece não na ação propriamente, mas no seu significado amplo dentro do enredo, gerado pela incerteza quanto aos fatos). Um segundo traço interessante é o clima de terror estabelecido a partir do cenário: a casa na qual André se asila por um final de semana a fim de retirar os objetos da mãe, ao mesmo tempo em que se esvazia e vira palco de alucinações, crimes e cenas pitorescas, torna-se refúgio contra a “natureza cruel”, faminta, do terreno em declive sobre o qual fora construída. Essa relação dentro/fora, que só exacerba o conflito entre o Eu e o Outro, trabalhada, aliás, por Nazarian em “Olívio”, “Feriado de mim mesmo”, “Mastigando humanos” e “O prédio, o tédio e o menino cego”, em “Biofobia” traz um detalhe diferente: o protagonista não se sente, como os precedentes, nem um pouco atraído pelo mundo “de fora”. E quem se atreve a invadir o seu interior é imediatamente ceifado.
Vale ainda citar as referências cômicas inseridas aqui e ali na narrativa – a maioria inspirada em obras e figuras da literatura, embora o protagonista seja músico e nada adepto a leituras. A cena em que ele e seu amigo dão combustão à lareira com livros (e nessa leva vai a Revista Granta, famosa no meio acadêmico, e até “Feriado de mim mesmo”) é hilária. Só perde em comicidade para a interseção de uma fala conhecida de Clarice Lispector, retirada de uma entrevista para a TV, com a da mãe do protagonista, também escritora famosa e convidada de um programa de entrevista.
Em suma, “Biofobia” não só marca o retorno de Santiago Nazarian à narrativa “adulta”, após cinco anos, como também evidencia a reconfiguração estética de um jovem (ou não mais tão jovem) escritor que, ao apresentar a crise existencial e profissional de um roqueiro quase quarentão e decadente, passa ao largo de qualquer possível conflito: traz a lume um romance extraordinário e de quebra cala a boca (e os dedos) dos que não creem em seu potencial artístico.


A bela escritora Simones Campos também deixou lindamente suas impressões no Facebook. Aqui: 


"Biofobia: livrão do Santiago Nazarian. O estilo dele está todo lá, mas mais depurado: as associações originais de ideias, as alfinetadas na vida real, o gore. Pense em "A morte sem nome" com um protagonista masculino e mais focado, ainda que seja em consumir drogas e retomar o sucesso da juventude. O roqueiro padezeiro André me conquistou. Tudo no livro é muito convincente, de maneira mais emocional que racional - as questões existenciais de quem já fez 40 anos, a forma como a mãe de André se mata e ninguém nem tenta elaborar muito sobre isso, a rapa que os parentes fazem na casa, e todos os mistérios que surgem naqueles dois ou três dias em que se passa o livro. Recomendadíssimo."


Já Luciano Trigo, que tem um belo blog no G1 sobre literatura e arte, fez a entrevista mais profunda até agora. Reproduzo um trecho: 


"Já se fala muito sobre a força do amor, quero falar sobre a perversidade das relações amorosas. Como o amor muitas vezes é uma hipocrisia. Trabalho o texto não de forma a defender nada; a negativa não é assertiva, é uma forma de questionar, de criar dúvidas. Isso pode ser notado até no estilo do texto. Frequentemente encadeio frases de sentidos opostos, porque ambas fazem sentido."
Dá para ler inteira aqui: http://g1.globo.com/pop-arte/blog/maquina-de-escrever/post/nazarian-quero-falar-sobre-perversidade-das-relacoes-amorosas.html


A Folha de S. Paulo deste final de semana trouxe uma espécie de... perfil, escrito pelo Cadão Volpato. Ele me entrevistou e disse que adorou o livro, mas não fica claro em seu texto. Não achei ruim, mas bom também não é. Fala muito pouco do livro. E é frustrante não ter resenha nem na Folha. 


Dá para ler aqui:  
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/05/1459291-obra-de-santiago-nazarian-prega-existencialismo-pop.shtml


O Globo deu uma boa entrevista no dia do lançamento no Rio, no site. Que dá para ser lida aqui: http://oglobo.globo.com/rio/bairros/santiago-nazarian-lanca-biofobia-em-botafogo-nesta-quinta-feira-12495972


No Rio, o site da Heloisa Tolipam também deu uma boa entrevista:
http://www.heloisatolipan.com.br/gente/santiago-nazarian-lanca-biofobia-e-volta-ao-mundo-dos-suspenses-adultos/

Também no Rio, antes do lançamento,saiu uma matéria de página inteira em "O Fluminense": http://www.ofluminense.com.br/editorias/cultura-e-lazer/com-aversao-ao-que-e-vivo

Para o lançamento de SP, falei ao Glamurama: http://glamurama.uol.com.br/santiago-nazarian-lanca-biofobia-neste-sabado-na-livraria-da-vila/

À Mari Moon: http://www.marimoon.com.br/lancamento-do-livro-biofobia-de-santiago-nazarian/

E ao André Pomba: http://www.andrepomba.com.br/?p=3929

Teve também uma entrevista no Vírgula, com o lançamento do trailer: http://virgula.uol.com.br/diversao/literatura/nao-ha-espaco-para-literatura-pop-no-brasil-diz-santiago-nazarian-que-lanca-novo-livro

E ontem dei uma entrevista para os queridos André Fischer e Juliano Dipp, na CBN: http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-mix-brasil/2014/05/25/PROPAGANDA-INOVA-E-PROMOVE-PRIMEIRO-BEIJO-GAY-DA-PUBLICIDADE-BRASILEIRA.htm

E aqui para Renatinha Simões, na Oi FM: http://oifm.oi.com.br/site/#!/noticia/oifm/-gps-entrevista-santiago-nazarian

Tem mais coisas gravadas para sair por aí, como o programa do Dr. Kurtzman (Canal Brasil) e Arte 1, mas espero ansioso mesmo as impressões de leitores, colegas (já que da "imprensa", está difícil). 

Enfim, ainda estou só começando... E, preparado para o pior, já fico agradavelmente surpreso. 




23/05/2014

MELHORES DO ANO

Royksopp & Robyn


Esta semana baixei três álbuns novos de algumas de minhas bandas favoritas. E já começou a se desenhar para mim a lista dos melhores do ano.

Röyksopp é uma dupla norueguesa de produtores de música eletrônica que tem a Escandinávia na veia. Sou apaixonado por aquela região - que já visitei várias vezes e morei alguns meses (a foto de capa aí do blog é na Noruega, por sinal) - e não poderia deixar de ser fã da música. Acho que reconhecer a Escandinávia nesse som é como um estrangeiro reconhecer o Brasil ouvindo samba.

Os meninos do Royksopp têm discos que vão do dance à new age, às vezes assumem vocais, mas geralmente contam com vocalistas convidados. Agora acabam de lançar um "mini-álbum" (ou EP) com a Robyn, uma cantora pop sueca que eu detesto. Ainda assim, tinha grandes esperanças de que ela só entraria como coadjuvante.

O disco abre com "Monument", uma faixa de dez minutos que tem tudo o que Röyksopp faz de melhor. Começa lenta, com camadas de teclados espaciais e uma batida ambient, com o vocal de Robyn. Parece que vai crescer para um épico dance com batidas eletrônicas, mas com a genialidade de Royksopp acontece exatamente o oposto. A música se dissipa em teclados etéreos, para ressuscitar com um saxofone e batidas acústicas. Foda. Minha música do ano passado foi "Running to the Sea", também do Royksopp com a norueguesa Susanne Sundfor nos vocais. É bem mais melódica e emotiva do que "Monument", mas também mais óbvia. A nova faixa traz um grau de experimentalismo que reafirma o talento dessa dupla. Forte candidata à música deste ano. Se alguma vez eu tomar ácido novamente nesta vida, quero que seja com essa trilha.

Infelizmente, as faixas seguintes estão milênios, milênios aquém da abertura. Só posso acreditar que foi Robyn quem as trouxe, e os meninos do Roy só deram um tapa, porque, tirando a faixa final instrumental, que é Ok, o EP é uma merda. Felizmente, já tinha ouvido (e me decepcionado) com coisas como Do it Again, uma dance music vagabunda, porque se tivesse ouvido "Monument" antes teria expectativas bem maiores.

Eles ainda prometem lançar um álbum inteiro no final do ano, com uma releitura de Monument. Esse sim é para se esperar ansiosamente. O EP já pode ser ouvido na íntegra clicando aqui (mas sugiro parar na primeira).



Nova do Blondie. 

E o Blondie é uma banda que gosto desde a adolescência, que continua na ativa mesmo com sua vocalista Debbie Harry chegando aos 70 anos. Lançaram há poucas semanas Ghosts of Download, décimo álbum de estúdio, que é divertidíssimo. Tem todo uma pegada latina, com batidas eletrônicas. Eles faziam isso desde o início (vide "Attack of the Giant Ants", do disco de estreia, de 1976), mas parece que nos últimos anos eles foram deixando o lado punk rock de lado, e assumindo de vez essa coisa tecnobrega. Eu gosto, mas parece mais Debbie Harry solo do que uma banda. Tosco, mas divertido.

O disco contém diversas participações especiais, como os venezuelanos do Systema Solar na faixa de abertura, "Sugar on the Side", que é ótima; e Beth Ditto (Gossip) no single de estreia, "A Rose by Any Name", que é ok. Minha favorita é "Make a Way", que apesar de ter essa coisa latina, tem um refrão meio 60's que remete ao Blondie dos velhos tempos. Enfim, longe de ser genial, é um disco bem divertido, embora um pouco longo e redundante (as edições especiais tem 16 faixas!). Pode se ouvir o disco inteiro clicando aqui.



Outro forte candidato a disco do ano é a estreia do Plaza Francia, projeto dos caras do Gotan Project com a francesa Catherine Ringer, ex-vocalista do Les Rita Mitsouko. Catherine é das minhas favoritas de todos os tempos, e continua com uma voz absurda e uma presença estonteante. O disco é todo em espanhol, naquela coisa tango eletrônico. É uma delícia; disco para se deixar tocando em festinhas em casa. Acho inteiro bom, mas minha favorita é essa aqui:



E já que estou falando dos favoritos, não poderia deixar de colocar o Suede, a minha banda número um da vida. Eles não lançaram nada novo este ano - estão compondo o próximo álbum que só deve sair em 2015 - mas já tocaram em alguns shows uma música fodástica que remete ao que eles têm de melhor. Escuta só (gravação de show, mas com som ok; já toca direto aqui em casa):




16/05/2014

LANÇAMENTO NO RIO


(Foto: Gustavo Fonseca)

O Rio foi lindo! Eu não esperava tanto, sinceramente. É uma cidade a que vou pouco, tenho poucos amigos, não sabia se podia contar apenas com leitores e conhecidos. Mas o pessoal se superou. Meu lançamento e debate com o Marcelino foi lotado, carinhoso, prestigiado, perfeitinho. 

Gostei mais do que o de São Paulo, na verdade (apesar de que, claro, SP vendeu mais). Porque moro em São Paulo, tenho família aqui, amigos aqui e contatos diários, então você sempre espera que vá mais gente, fica chateado com tanta gente próxima que falta. No Rio foi só surpresa e satisfação. 



Já no aeroporto encontrei Marcelino e Laub, Cardoso, Pellizzari e Ludemir, que estavam voando para outros destinos literários. Esta é a literatura ostentação!

A ideia foi minha. Os leitores cariocas sempre me cobram, é uma cena importante e eu estava devendo um devido lançamento. Insisti com a Record que deveríamos fazer e eles toparam. Pensamos em algum autor da casa e da cidade para fazer um debate, para chamar mais gente, mas resolvi propor ao bróder Marcelino e ele embarcou em lançar seu Nossos Ossos por lá. Viajamos os dois para o lançamento. 

A Vitrine da Travessa! Só dá nós. 


Com meus queridos editores - Lucas, que leu desde a primeira versão e deu todas as sugestões - e Livia, que está cuidando da minha carreira na Record. 



Só para ver o nível da coisa, Antonio Cícero foi o primeiro a chegar. 



Mariana é editora querida da Rocco com quem já trabalhei em muitas traduções e ainda faremos um livro juntos. 


Meninas lindas. 

Luzia e Nathalia conheci por lá.  


Marcos descobriu o lançamento pela vitrine!

Fofa!
Tonico é amigo virtual das antigas e compareceu com minha obra toda. 


Gatas!
Rodrigo está estudando minha obra no mestrado da UFRJ.

Vanessa e Adriana, lindas leitoras. 


André também é dos amigos do FB.


A escritora Tammy Luciano e Fabiano, que dirigiu o fodástico espetáculo de Feriado de Mim Mesmo. 



Simones Campos é a escritora mais gata do Brasil. 


Plateia para ver o debate. 

Lendo trechos. 

Grandes parças. 

Ida é minha querida mãezinha postiça de Floripa - e o filho dela é o fotógrafo da capa de BIOFOBIA. 


Leitores queridos, Daniel e Alexandre. 

E Marcos, mais do que querido. 

Gustavo e Felipe já são de casa.


Leitores fodas. 




A Thais é de se levar para casa. 


Tatiana é Suedehead como eu. 

Gatas. 
A gata Ingrid com Rafael Sperling, jovem escritor. 

Gatcheeenho que me entrevistou pro JB. 


Pedro Neschling e Vítória, casal 20 do lançamento.

Filipe e os camaradas fizeram a trilha do trailer.


Pardal é o escritor mais gato do Brasil. 


Gatinha Laiane. 


Grande Scott! E Marcelino. 

Ana Maria Santeiro, das agentes mais poderosas do Brasil.

Maurício e Evee.
Gatin Vitor. 

E o menino prodígio, querido, irmãozinho, Raphael Montes. 

Gata!

Quem ficou até o final do lançamento seguiu com a gente para os bares de Botafogo. Acho que a energia estava tão boa que a ressaca nem pesou, porque eu bebi... bebi...

Lucas, Raphael, Marcelino, Simone, Scott. Mas a mesa era bem maior. 


 Escritores boêmios... ou bêbados: Botika (que esqueci de fotografar no lançamento), Pardal, Marcelino, Lucas, Raphael.


 E ainda encontrei o Xico Sá no aeroporto, na volta. 

Mas foram praticamente 24 horas no Rio; já estou em SP. Não deu para aproveitar muito, alongar com tanta gente querida, trabalhar mais o livro. As entrevistas que dei foram por email ou telefone. Mas tenha certeza de que não demorarei tanto tempo para voltar ao Rio. Até porque só consegui pegar uma horinha de praia.


O Rio continua o Rio. 




13/05/2014

GATA VELHA

Regina Duarte, Rafael Primot, Bárbara Paz (O Globo)

Fui hoje à pré-estreia de Gata Velha Ainda Mia, filme do querido Rafael Primot, estrelado por Regina Duarte, Bárbara Paz e Gilda Nomacce.

Já tinha assistido uma primeira versão - ano passado - mas  mantive a mesma impressão. É um grande, grande thriller psicológico louquíssimo, com pitadas de humor absurdo.

O filme traz Regina Duarte como uma escritora decadente que concede uma entrevista à jornalista interpretada por Bárbara Paz. Contar mais do que isso já é entregar parte das surpresas, mas o filme se desenvolve assim, com as duas num apartamento, apoiadas muito no texto, que tem algo de Deus da Carnificina. É curioso ver um autor-diretor razoavelmente jovem (nos meados dos trinta) escrever tão bem sobre o envelhecimento feminino.

O filme tem um tom muito particular. Nos primeiros minutos talvez o espectador fique meio perdido com o registro não-realista, meio teatral, meio literário, com algo até de trash. Mas quando se percebe a pegada de humor do texto, se embarca no jogo delicioso que Primot arma com as duas protagonistas, no texto afiado, nas ousadias cinematográficas tão raras de ver em nosso cinema.

Certamente está entre meus favoritos, talvez "O" meu favorito filme nacional. E fiquei feliz e aliviado da primeira vez que vi, pois o Rafael, além de amigo querido, está com os direitos para cinema de Feriado de Mim Mesmo, que deverá ser seu próximo longa.

Ao meu ver, se Gata Velha Ainda Mia tem um grande defeito é esse: o título, que remete a pornochanchada, parece comédia tosca, e não faz jus ao conteúdo. Mas coisa pequena. O filme é imperdível, e estreia nesta quinta, nas principais capitais do Brasil.

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 Tem sido difícil atualizar o blog com a concorrência de todas as outras redes sociais. Eu acabo usando como um apanhado de momentos especia...