29/04/2008

O MEU CARBURADOR NÃO FUNCIONA





Ah... Como eu amo este homem...


Ok, voltei ao Brett Anderson. Parece que agora ele quer entrar nessa onda de cantores melancólicos pianistas, né? No estilo Rufus, Anthony... Será que dá? Tudo bem que ele não anda na fase mais inspirada, nem com a melhor das vozes, mas alguém que compôs uma música como essa está eternamente abençoado.

E pra rever os tempos áureos do moço:





Tenho ouvido bastante Siouxsie também. O cd solo dela é ótimo. Aliás, todas as coisas mais recentes dela (incluindo o DVD e o último álbum do Creatures, “Hail”) são ótimas. Esses dias até resgatei o álbum “Anima Animus”, do Creatures de 99, que eu tinha comprado naquela época e nunca tinha ouvido realmente. Também é ótimo. E o último álbum de estúdio dos Banshees, “The Rapture” (que já é bem velho) é outro ótimo. Então tudo da Siouxsie é ótimo? Nem tanto. O DVD “The Seven Year Itch”, de 2003 é meio chato. Vi esses dias. E olha que eu ESTAVA LÁ, exatamente no show em que foi gravado, em Londres, e na época também não gostei. Melhor foi o show que ela fez por aqui, em 95, no Olympia.

Então vai lá, clipe do álbum novo da Sioxsie. Pesadona:




(Tá, tô gostando dessa coisa de colocar clipe aqui. Hehe)


Hoje tive debate com o Daniel Galera no “OBarco”, para os alunos de uma oficina do Marcelino Freire. Legal falar com esse tipo de público, gente que também escreve, que realmente lê e que está interessada em saber sobre os processos, os meios... o mercado editorial.


Marcelino, Galera e eu: "Triclópes em terra de cego" ou "Geração Lagostim".


Aliás, é sobre isso o mais novo livro do Nelson de Oliveira, “A Oficina do Escritor”. Eu já comprei e já li. Me interessam bastante as questões que ele aborda, até por ele ser um escritor contemporâneo, de geração próxima a minha, que acompanha de perto nosso meio. Eu discordo de muitas das respostas dele – aliás, discordo de já se ter uma resposta em si, procuro continuar fazendo as perguntas. Mas por isso mesmo, é bom saber a opinião dos outros, a opinião dele sobre os rumos da literatura.


Lembro que uma das discussões que eu levantei no Mackenzie, na palestra que dei lá há algumas semanas, era como (e se era possível) tornar a literatura mais próximas das pessoas atualmente. Um dos alunos me trouxe uma resposta bem interessante, que a literatura não deveria procurar se facilitar, que ela exigia esforço e que não poderia abrir mão disso, senão se ralentava como muitas outras artes. Eu concordo com ele em parte, acho que a literatura não se deve superficializar, mas talvez os novos escritores possam encontrar temas, meios, formatos de tornar a verdadeira literatura mais próxima do público atual. É isso que eu tento fazer – e confesso que não acho que tive bons resultados ainda, porque não conquistei um enorme público, mas também não faço literatura para literatos, então fico com um pé em cada barco.


Voltando ao Nelson, me incomoda um pouco (felizmente) a concepção dele (que não é só dele) que se deve desprezar o grande público e que quem deseja fazer literatura deve considerar apenas esse meio literário já estabelecido (ou sobrevivente?). E digo que me incomoda (felizmente) porque eu ainda continuo (ou quero continuar) acreditando que é possível fazer as duas coisas: literatura e conquistar um certo público. Fazer LITERATURA para quem NÃO gosta de literatura. Não digo conquistar a MASSA e tornar-se bestseller, mas ir além do público que comumente compra literatura de ficção no Brasil (que é, basicamente, ninguém). Por exemplo, tem muita gente inteligente, consistente, que assiste filmes de arte, que vai ao teatro, ouve boa música. Mas esse povo não compra literatura, muito menos literatura contemporânea. Por quê? Isso deveria mudar...

Daí eu me pego pensando naquela máxima: “é preciso se criar o hábito de leitura”. É? Não sei. Não sei como. Como se cria o hábito de leitura? Ah, as pessoas lêem. Lêem sim. MESMO. Lêem Harry Potter, Código da Vinci, Paulo Coelho. E elas gostam. Então se elas já perceberam que a leitura pode ser uma atividade prazerosa, por que não prosseguem? Por que não continuam lendo em QUANTIDADE (e daí, no bolo, talvez peguem um ou outro livro de qualidade)?

Essa é só uma pergunta. Uma dúvida mesmo. E eu ensaio uma possível resposta: Porque o prazer – e o esforço – da leitura de um bestseller está mais próximo de outras formas de cultura de massa – como a TV, o cinema comercial, etc – do que da leitura de um livro realmente de literatura. Então ler um Harry Potter aproxima o adolescente de... FILMES DO HARRY POTTER, não de livros de outros autores.

Outra questão que Nelson de Oliveira coloca em seu livro (e que eu concordo) é de que “não se pode ensinar alguém a escrever bem, mas se pode ensinar alguém a não escrever mal.” É também por isso que eu nunca aceitei ministrar oficinas. Por mais que você assuma isso (que não pode ensinar alguém a escrever bem), se você organiza uma oficina, você alimenta falsas promessas. Eu me sentiria um charlatão. Além do mais, é claro, eu não considero que tenho um método e um processo formado para escrever meus próprios livros, não poderia ensinar ninguém. Não acredito em fórmulas universais. E acho que cada um deveria buscar seus próprios métodos. De repente oficinas são boas para alimentar exatamente essas discussões, mas, de novo, no fundo você estaria alimentando falsas promessas para gente que só foi lá para aprender a escrever bem. Ou ao menos que foi lá para aprender a escrever como você...

Não quero que ninguém escreva como eu.

Anyway... quando a gente sai de todas essas discussões, e vai para o mundo real, vê que é tudo tão sem sentido, tudo tão abstrato. Quem realmente detém o poder, quem realmente está ganhando grana, quem está vendendo o peixe e convencendo as pessoas com seu discurso é gente que ainda está num pensamento tão básico, que não faz perguntas, que não procura respostas, que prefere não saber, só seguir com a programação. Não está preocupado com nada disso, nada além, nada além do jardim.

E nesta terra de cego, quem tem ao menos um olho... é caolho.

Vou pingar colírio. E dormir.

23/04/2008

ALEGORIAS APOCALÍPTICAS


Foto by Veronica Stigger.


Ah! Ah! Ah! Agora é todo dia esse terremoto que não pára, esse terremoto que me sacode, que não me acode e que me agita! Ah! Ah! Pára que eu vou vomitar!!!

Se fosse uma vez só, assim, de vez em quando, pra dar um calafrio, até que seria gostoso. Mas agora os tremores não param mais...

E está tudo previsto no meu livro novo: crianças sendo jogadas pela janela, prédios sacudindo, o novo namorado da Cláudia Gimenez... Sério. Eu já tudo previra. Vê como estou em sintonia com os tempos apocalípticos?

Na verdade, minhas imagens armagedônicas são mais alegorias dos tempos atuais. Sabe como é, quando coloco Godzilla destruindo a cidade, e um pequeno jacarézinho escrevendo num quarto de hotel, é meio uma forma de mostrar nossa insignificância - nós, escritores - como ínfimos répteis tentando conquistar alguma atenção, provocar alguma mudança, ao menos alguma reflexão, com palavras entre os dedos, com sangue entre os dentes (ou seria o contrário?); enquanto monstros gigantes, sem nenhuma delicadeza e nenhuma suavidade, estão sacudindo toda a cidade. E esses monstros podem ser os craques de futebol, os galãs de TV, as modelos de ocasião, os funkeiros e as popozudas, e as cachorras e a Madonna... Ou até mesmo as placas tectônicas, por que não?

Mas enfim, é legal ver a terra tremer.

Minha nova alegoria apocalíptica preferida eu já disse, é os zumbis, aqueles sem cérebro e sem repertório, que não parecem muito ameaçadores com seu passo lento, mas quando se juntam em milhares (e sempre se juntam em milhares) acabam fazendo um estrago. Mais ou menos como... todo o povo brasileiro.

Anyway...

Estou às voltas novamente com a adaptação de "Feriado de Mim Mesmo" para o cinema. Algumas pessoas perguntaram do projeto, eu resolvi rever o roteiro e estou novamente conversando sobre ele com a Eliane Caffé. Não sei se ela vai dirigir, o projeto nasceu com ela, há 4 anos, mas acabou se perdendo. Na verdade, eu nem sei que diretor no Brasil combinaria com isso, eu fiz o roteiro pensando mesmo no Tsai Ming-liang, hahaha. Era pra ser um filme beeeeeeeeem lento, sem diálogos, um ator só e só uma locação. E isso porque é um thriller!!! Difícil. Mas barato. Baratíssimo. Enfim, se o cinema já tivesse engrenado mesmo no Brasil o projeto poderia andar - é meu livro que mais vende até hoje. Mas eu também confesso que tenho certo ciúmes das minhas obras, e sempre examino com muito cuidado, e certo receio, qualquer possibilidade de adaptação.

Então estou relendo meu roteiro (que eu não pego desde 2005) e retrabalhando. Agora que já trabalhei mais com cinema, vejo que tecnicamente tem vários problemas (na maneira como foi descrito; roteiro tem de ser um manual de instruções, né?), mas continuo achando a proposta ótima, ousada, diferente...

Olha só um trechinho do começo...


1 – QUARTO. INT. DIA.

Silêncio. Quarto semi iluminado pela luz que entra pelas persianas fechadas. Há um armário, montes de roupas espalhadas pelo chão, uma cômoda com televisão e um colchão de casal no chão, com lençóis revoltos. Sob o colchão está MIGUEL - rapaz branco de aproximadamente trinta anos - usando uma cueca e uma camiseta. Ele se vira de um lado para o outro, enrolado nos lençóis, tentando continuar a dormir. O leve sol que entra pela persiana bate em seu rosto. Por fim ele se levanta, esfrega os olhos, se espreguiça e sai do quarto.

2 – CORREDOR PARA BANHEIRO. INT. DIA.

Miguel caminha até o banheiro. Entra e, sem fechar a porta, vai até a privada. Urina longamente de costas para a câmera. Ouve-se as gotas caindo.

3 – BANHEIRO. INT. DIA

Close do chuveiro, que também pinga levemente. Ainda se ouve em off a urina de Miguel.

De costas, Miguel continua urinando. Ouve-se ao longe sons do prédio, portas fechando, crianças brincando....


Dá pra ter uma idéia? Não, né? Hohohoho. Então leia o livro, mané. Porque o que eu queria é que o filme fosse o mais fiel possível ao livro.

E ainda quero também adaptar um dos meus livros pro teatro. Provavelmente "Mastigando Humanos". Quem sabe no futuro eu não possa relançar os livros com esses extras: "Feriado" + o roteiro de cinema, "Mastigando" + a peça de teatro. Seria legal. Mas ando com uma preguiça do meio editorial... Por isso quero trabalhar mais nesses novos formatos, cinema, teatro... Embora as histórias escritas sempre acabem me seduzindo mais e no meio do processo eu caia num novo romance... Porque o meio literário/editorial é bem frustrante, mas a literatura em si não. Só na literatura o autor tem completo domínio da obra. E deve ser bem frustrante você criar uma história, imaginar um personagem, uma narrativa, e vê-la na tela ou nos palcos de forma totalmente equivocada, na visão de outro diretor, outros atores... Enfim, é o processo, faz parte. Deve ser mais ou menos como ter filhos e querer que eles sigam nossos passos, e que torçam pro nosso time, e que nos dêem netos... É, também deve ser uma experiência frustrante...

Falando em filhos, meus meninos vão bem. Meu trabalho em "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego" está praticamente concluido, as ilustrações do Alexandre Matos também. Agora é definir com a editora exatamente quando ele será lançado, e como será lançado. Está previsto pra agora, começo do segundo semestre.

Hoje vi uma notinha bem bacana sobre o livro no site da Vogue RG.

De trabalhos, estou traduzindo um livro meio freakshow - mágicos, gigantes e mulheres-barbadas - bacana. Saiu também - e está sendo bem elogiado - o livro da Claire Messud que traduzi pra Nova Fronteira: "Os Filhos do Imperador". Eu confesso que ainda não vi o livro pronto, ainda não chegou na minha casa.

Chegou um dos juvenis que traduzi pra Record, "Pão de Mel", da Rachel Cohn, que é bacanérrimo, principalmente pras meninas. Aliás, a Record vem publicando coisas beeeeeeeeem bacanas em juvenis - juvenis de fato - modernos, soltinhos, extensos. Recentemente li "Tão Ontem", do Scott Westerfeld, sobre uma dupla de detetives fashion contra terroristas de tendências. O livro tem uns valores capitalistas meio nojentinhos, e o protagonista é gay demais em comportamento para ser heterossexual (ou pelo menos para não ter sua sexualidade questionada em momento algum do livro), mas de qualquer forma, é um livro instigante, bacana, que se comunica de fato com os jovens, e isso tá muito em falta. (A tradução desse não é minha, é do Rodrigo Chia, mas tá ótima. Só discordo - e não sei se é questão de padrão da editora- quanto a alguns termos muito cariocas da versão em português, como traduzir "cool" por "maneiro". "Maneiro" é carioca demais, eu manteria "cool" mesmo, qualquer adolescente que lê um romance desses, de mais de 300 páginas, sabe - e usa- muito bem o termo cool. E qualquer paulista não acha nada "cool" qualquer coisa que seja "maneira").

Veja só, os passarinhos já estão cantando.

Vou nessa. Nem comentei o filme novo do Wong Kar Wai, "Um Beijo Roubado", que vi há tempos. Achei bonitinho. É engraçado como um filme dele falado em inglês e rodado com atores ocidentais vira uma comédia romântica low-profile. Não tem a imponência dos anteriores. Mas deve ser psicológico. E o filme é bem bom.

Ah, sim, e ingresso pro show do Rufus já comprei, claro, há tempos também. Mesa encostada ao palco.

Beijos.

PS - Hum, já disse. Senti mesmo o terremoto. Foi bem louco (sinistro, irado, maneiro). Fiquei esperando em seguida os rugidos de algum monstro que pisoteava a cidade. O que, para minha decepção, obviamente não veio.

21/04/2008

PREVIOUSLY ON SUPERNATURAL...


Os amigos Fábio Jr. e Saint Jimmy se aventuram numa excursão ao interior.




O clima é fresco (ui!) e bucólico, e Fábio Jr. aprecia as belezas da natureza.




Ao chegarem na cabana abandonada na floresta -onde serão esquartejados - eles percebem algo de estranho...






... Já há alguém por lá...





"Ah! É apenas um velho espantalho..." - diz St. Jimmy.
"Ele que não venha comer meus fandangos" - diz Fábio Jr.




Os garotos [garotos?] acendem a lareira. Fábio Jr. quer aquecer as mãos, mas St. Jimmy acha que ele está é invocando espíritos do além, principalmente pelas palavras em latim que diz, enquanto acena para o fogo.




"Essa porra de fantasma queimou meu marshmallow" - brinca St. Jimmy, alheio aos verdadeiros espíritos malignos que estão à espreita.


Dona Marta, uma antiga moradora do local tenta alertá-los...




Mas os garotos (hihihi) não dão ouvidos. St. Jimmy sai para buscar mais lenha. Fábio Jr. vai tomar um banho para tirar a nhaca da viagem....






Alguém está querendo tirar algo mais do que a nhaca...




!!!!!!!!




Ao retornar, St. Jimmy não encontra seu amigo. Ele busca por todo lado...



Um tiozinho estranho - que lembra muito o vocalista do Bauhaus - avisa St. Jimmy da lenda local: "Segundo a lei de Murphy, seu 'amigo' foi morto por um espírito maligno...."


"Bobagem", diz St. Jimmy, "fantasmas não existem." Mas ele mesmo começa a duvidar do que vê... "Sabia que aquele shitake que eu comi estava estranho..."

Sozinho e amargurado, St. Jimmy se entrega ao mé...

De noite, o espírito de Fábio Jr. surge para o amigo. "Este local antigamente era um cemitério indígena... Não, esse é outro filme. Este local antigamente era a fazenda de Jananias Matoso, que foi assassinado para que se construísse este condomínio no local. Nós o despertamos por acidente ao assar o marshmallow na lareira. Agora o espírito dele está de volta por vingança..."






Bêbado e sozinho, St. Jimmy pensa em usar o espantalho como boneco inflável....


Porém Jimmy percebe que há algo estranho... O espantalho parece ter vida própria... E não está muito a fim de fuc-fuc... O espantalho!!! O espantalho é que estava amaldiçoado com o espírito de Jananias Matoso!!!




St. Jimmy, que não é chegado em necrofilia, desiste de usar o espantalho fantasma e o dá de comer ao cachorro Tomé ["Tomais", para as finas]. O perrito espanta a maldição a dentadas.



O plano de Jananias Matoso foi frustrado. Ele volta às profundezas do sertão, para estrelar mais um filme bege brasileiro... Digo, volta às profundezas do do inferno.





FIM!!!


PS - A trilha sonora, que vocês não puderam ouvir, é o cd de retorno do Bauhaus: "Go Away White", lançado há pouco tempo. Impressionante como eles conseguiram soar novamente como Bauhaus, voltando com o primeiro álbum inédito em quase 25 anos. "Go Away White" é bem parecido com os dois primeiros da banda, com o que isso tem de bom e o que tem de ruim. Parece um pouco cru para os padrões atuais - principalmente depois de todo o trabalho solo do Peter Murphy e mesmo em comparação ao último álbum do Bauhaus, de 83 - mas ainda tem bons momentos como as faixas "Adrenalin", "Black Stone Heart" e "Mirror Remains", um rockzinho assim, entre o grunge, o punk e o experimental (todos estilos que, afinal, eles influenciaram, décadas atrás).
Mas eu ainda prefiro o último do Peter, "Unshattered". E quanto a albuns de retorno, ninguém bateu ainda o excelente "No Exit", que o Blondie lançou em 98. Eles sim, voltaram melhor do que foram.

16/04/2008

REVIRANDO ORWELL E ORWELL SE REVIRANDO

Que bicho é esse indo pro Masp?


Cansei de Sim City. Principalmente porque dias desses me rendi ao Google Earth. Para quem não sabe, é um programa que permite você visualize o globo inteiro, o mundo inteiro, desde o espaço sideral, aproximando até ver as ruas, as casas, a configuração de cada cidade, em fotos reais de satélite. É incrível, um Atlas da novíssima geração (eu nem imagino como seja o ensino de Geografia agora nas escolas, uma vez que os alunos podem pesquisar a configuração de cada cidade do mundo em detalhes). Madrugada dessas, localizei minha casa, a casa onde morei na infância, o prédio de Porto Alegre, onde passei o reveillon em Floripa, a casa da minha mãe, o cemitério onde dormi em Helsinque, o lugar exato onde tirei essa foto em Copenhague:


Também dei uma olhada em ilhas remotas do Pacífico. Lugares perdidos no meio do nada, onde dá pra avistar uma vilazinha, casinhas, alguns barcos... Dá uma vontade tremenda de viajar.

Agora eles podiam fazer um cruzamento de Google Earth com Sim City, né? Assim a gente poderia interagir com cenários reais, de repente encontrar uma solução para o trânsito de São Paulo, de repente implantar o meu prédio numa ilha do Havaí. Eu queria abrir minha janela e ver os vizinhos dançando ula-ula.



Aproveitando que estou no mundo mágico de telas e janelas, digo que vi umas coisas bem interessantes na TV aberta ultimamente.

A melhor delas – sempre e sem dúvida – é “Casos de Família”, no SBT. Sério. O programa tem tudo para ser aquele barraco, onde famílias lavam roupa-suja e se estapeiam. Mas do jeito que é conduzido pela (Deusa) Regina Volpato, o programa termina bem charmoso, tranqüilo, totalmente do bem. É um encontro de famílias discutindo seus problemas, sim, mas o posicionamento professoral da apresentadora, seu tom suave e seus conselhos, não permitem nunca que a coisa vira barraco. Ela é a anti-Márcia Goldsmith (eca!). Aliás, Márcia junto com o Datena, o Tom Cavalcante e o João Kleber (ele ainda existe?) são o que há de mais nojento na TV Brasileira.



E viva a Regina!

Outro programa pretensamente trash que eu gosto é o “Troca de Famílias” da Record. Também é um reality show do bem. Duas mães trocam de família uma com a outra e têm de conhecer a rotina da casa, dos filhos, do marido e depois cada uma decide como a outra família vai gastar o dinheiro do prêmio. É um programa delicado, afetivo, que faz com que se enxergue os problemas do outros.

(Chuif!)

E outro belo programa que assisti pela primeira vez foi “CQC – Custe o que Custar” na Band, capitaneado pelo Marcelo Tas. É uma espécie de “Pânico” mais politizado ( e nem pode ser acusado de cópia, uma vez que foi o próprio Marcelo Tas que inventou o tom da entrevista terrorista, há muito mais tempo, com seu repórter Ernesto Varella) .


Mas Marcelo, pra mim você vai ser sempre o Professor Tibúrcio...


Eles vão até Brasília, fazem perguntas capciosas aos políticos, fazem teste de QI com pseudo-celebridades e elegem as pérolas da TV Brasileira. Tudo assim, muito crítico, muito divertido e muito pertinente. Mais o mais engraçado foi ver de surpresa, no final de tudo, meu primo Rafael, como um dos repórteres.

Agora, das piores coisas que assisti estes dias foi uma atriz escrota, que sempre foi conhecida como lésbica, aparecer num programa de entrevistas com um namoradinho mais novo, também ator, e que tem mais cara de viadinho do que eu! Puta merda, não entendo. Tudo bem que tem gente que não quer assumir. Até posso tentar entender que, para galãzinhos, assumir a homossexualidade pode interferir na carreira, mas não dá pra ficar quietinho então? Precisa mesmo desses namoros de fachada? E quem acha que isso não é problema, que é apenas um joguinho sem conseqüências negativas é porque não se dá conta de quanto existe de preconceito ainda, quantos homossexuais ainda morrem vítimas de ataques homofóbicos, quantos adolescentes vivem em crise, se suicidam, sem poder se aceitar porque não têm modelos positivos. Qualquer um que circula um pouco no meio artístico e no meio gay, sabe quantos ídolos estão aí posando do que não são. De novo, ninguém é obrigado a se assumir, mas esse povo devia pensar no mal que fazem em se omitir. Pense em que ídolo o adolescente gay, que está se descobrindo, pode ter para se espelhar, para ter como modelo ou mesmo como símbolo sexual viável. (Ai, se você falar meu nome, apanha). Daí fica todo mundo achando que só existe um tipo de gay - o afetado, o escandaloso - simplesmente porque esse é o que não consegue esconder, e isso impede que uma imensa maioria de outros jovens se identifique com o esteriótipo gay que se vê na mídia de massa.

E é até burrice, porque na internet, por exemplo, já se vê claramente muita gente assumida, e que tem enorme número de acessos em seus blogs, fotologs, orkut. Era só a televisão querer, que o povo aceitaria muito melhor a homossexualidade alheia. Não teve um vencedor do BBB assumidamente homossexual? Não foi eleito vencedor pelo público?

(Ui, ui, ui, hoje a coisa está política).

Enfim, dá nojo ver uma gorda de meia-idade que já tem seu respeito como atriz e não tem motivo nenhum para pagar de gatinha sex-simbol se prestar a esse papel.

Talvez no fundo eu só queira sair na capa da Caras como o novo namorado de algum galãzinho global. Hohoho.
Ele não é bem meu tipo, mas quem sabe eu não sou o dele?
(Afe, tô o rei das montagens toscas hoje....)


Muito bem, chegamos a mais um feriado. Trabalhei muito nos últimos finais de semana, fiz o Cymbeline, o roteiro do Prêmio Abril de Jornalismo com o Pazetto. E depois desse Google Earth todo, vou viajar. Ao menos para o interior. Queria voltar a fazer a rota do chupacabra (passei duas semanas viajando, no final de 2006, pesquisando onde aconteceram os ataques), vou me programar para isso. (Ao menos queria voltar para Rafard e Joanópolis, duas cidadezinhas bem gostosas, bem interioranas, vazias, meio fantasmas, melancólicas. Coisa inspiradora.) Mas acho que neste feriado agora, vai ser só a casa da minha mãe no meio do mato.

Well, well, então deixa eu ir que tô com peixe no forno. Por aqui, ouvindo Roxy Music, "Mother of Pearl".

11/04/2008

I WAS A TEENAGER FREDDY KRUEGER



Ok, ok, sei que esse é o Jason.

Fim de semana passado foi dos mais produtivos, consegui assistir Sexta-feira 13 parte 2, 3, 6 e 7, e bem acompanhado.

Revendo os filmes agora, é impressionante como os melhores são os piores. Quero dizer, todos os filmes são uma bomba, mas os melhorzinhos - com um certo clima, história, suspense - acabam sendo os piores. Porque você já sabe o que vai acontecer, já sabe quem é o assassino, já sabe que a graça é só ver as formas que o Jason vai usar para matar a petizada, então por que se importar? Os melhores filmes são os mais toscos, aqueles que não têm enrolação e já partem direto para a carnificina.

Nesse quesito, "Sexta-feira 13 - Parte 6" é imbatível. É, de longe, o melhor de todos. É tosco, não tem história, não dá medo, mas ao menos tem um certo humor, atores regulares (não péssimos, como nos outros), um roteiro divertido, bons ângulos de câmera e assume a tosqueira a que se propôs. E o Jason da parte 6 é o Jason mais Jason de todos.

Para quem passou a adolescência vendo essas merdas, como eu, e quer se lembrar, a "Parte 6" é aquela que começa com o Jason recebendo uma descarga elétrica no caixão, daí entra uma abertura tipo 007.

Para quem quer ver algum Sexta-feira 13, veja o 6. Sério. É dos raros casos em que o sexto é melhor do que o primeiro (até porque, o primeiro era tosco e o Jason só aparece no final).

Quando eu era moleque, minha mãe não deixava eu alugar filme de terror toda semana. Tinha de ser semana sim, semana não (porque ela achava que ia me influenciar negativamente). Mas como a memória dela é a pior do mundo, eu sempre a convencia de que era "semana sim". Por isso acabei estragado assim.

Tenho revido muita dessas tosqueiras ultimamente. Nem todas são tosqueiras, claro. Dia desses estava revendo "O Bebê de Rosemary", outro dia "Psicose". O melhor de ver essas coisas em DVD são os extras, alguns são verdadeiras aulas de cinema (como os de "Psicose" e - especialmente - os de "Tubarão"), usei muita coisa que aprendi lá no roteiro do "Chupacabra" (que ainda não tem nem sombra de previsão para ser filmado, obrigado por perguntar). E se quer uma lista dos meus filmes de terror preferidos de todos os tempos, vai aí (em ordem aleatória)... também é uma lista bem padrão:

The Evil Dead
O Massacre da Serra Elétrica
A Hora do Pesadelo
Audition
O Chamado
O Bebê de Rosemary
Psicose
Tubarão
Halloween
Funny Games

Dos mais recentes, que estão na minha prateleira mental para serem catalogados, ressaltaria: "Hard Candy" (pessimamente traduzido como "Menina Má.com"), "Cloverfield", "Viagem Maldita", "Alta Tensão", "Wolf Creek" (esses três últimos são bem parecidos aliás), "Creep" e "Abismo do Medo".

Apesar da promessa de renovação dos filmes orientais, nenhum deles me empolgou - The Eye, Dark Water, Espíritos, Visões, O Grito - todos os fantasmas parecem bonzinhos e previsíveis. Fica a exceção para Takashi Miike (de "Audition"), que trabalha em outro campo de psicose. Mesmo "The Ring" eu prefiro bem mais a versão americana (e tenho as duas aqui em casa). Aliás, o diretor do "Ringu" japonês, Hideo Nakata , dirigiu "O Chamado 2" americano e enterrou a franquia - não poderia ter feito um filme pior. (Ok, preciso dizer que tenho O Chamado 1, 2, o japonês, o romance e os mangás).

No mais... que mais? Hum, comprei a revista Júnior deste mês (pois é, não mandaram nenhuma pra minha casa, até hoje) e achei bem boa. Não tô falando dos boys, não, tô falando das matérias em si. Tem umas coisas interessantes sobre a vida gay no Irã, nos presídios, em NY, na China (interessante saber o efeito que a política do filho único teve sobre o mundo gay chinês por exemplo. Todo filho acaba sendo pressionado pela família e pela sociedade a dar prosseguimento ao legado.)

Também li a Rolling Stone (que eu sempre leio, admito, embora eu não colabore com ele há meses - e eles mesmo tenham feito uma resenha cuspindo em "Mastigando Humanos") e achei bem impressionante a história do Yoñlu. Quero dizer, não é uma história nada inédita - mais um adolescente existencialista que se suicida. Mas o texto tem aquela qualidade de aproximar você da realidade, da pessoa, que faz com que você reconheça o verdadeiro drama e a verdadeira história por trás de um acontecimento corriqueiro. Por isso mesmo é louvável que um veículo pop como a Rolling Stone tenha esse espaço para texto, para matérias em profundidade. Faz a gente pensar que não está tudo perdido. Legal.

(você não quer que eu fale sobre a guriazinha que foi jogada do prédio, quer?)

Hum, por tudo isso você deve achar que estou num ócio só, né? Sem nada pra fazer. Haha. Não, até que estou trabalhando bastante, traduzindo um livro, revisando o meu e fazendo roteiros de vídeos e eventos, mas faz alguns meses que não uso drogas. Hohoho. Faz alguns meses até que não saio na noite. Então posso ocupar minhas madrugadas com Jason... Jason salva. Jason salva. Se minha mãe soubesse disso na minha infância...

04/04/2008



ANIMAIS CRUÉIS


Fábio, Cris e eu, no lançamento dela, ontem.



A aula-palestra que tive esta semana no Mackenzie foi bem proveitosa. Queria preparar algo diferente, uma discussão, para não ficar como de costume uma entrevista coletiva, com o autor falando dos seus livros e de seu processo de criação, especialmente por se tratar de uma turma de alunos de letras.




Então apresentei um pequeno panorama dessa "Geração 00", e como ela está ligada à internet: Com a popularização da rede, no início dos anos 2000, houve o primeiro boom de produção do internauta, com os blogs. E esse veículo possibilitou que escritores jovens, que ainda não tinham sido publicados em papel, se auto-divulgassem. Nessa primeira leva de blogs, alguns escritores se destacaram, tiveram um enorme número de acessos, e as editoras começaram a pensar que poderia ser interessante ter esses nomes (e essa audiência) em seu hall de autores.



Eu não tive meu início na internet. Só abri este blog (meu primeiro blog) depois de ter publicado dois romances. Mas cheguei na hora certa, ganhando o Prêmio Fundação Conrado Wessel na época em que as editoras estavam de olho nos autores jovens. Do contrário, eu não teria migrado da Talento, a pequena editora que publicou "Olívio", para a multinacional Planeta, que estava chegando ao Brasil.


Acredito que esse boom passou rápido, porque as editoras perceberam que esses autores não vendiam tanto quanto se esperava (e não tanto quanto o número de acessos de seus blogs). Essa aposta em autores jovens, que teve seu pico em 2003 e 2004, agora deu uma acalmada (a Planeta mesmo, agora investe em bestsellers como Paulo Coelho). Quatro anos depois, permaneceram os autores mais consistentes... ou persistentes. (Já na internet, também passou há muito a febre dos blogs. Houve em seguida a febre dos fotologs, dos sites de MP3, de relacionamento - como o Orkut - e mais rececentemente de vídeo, como o YouTube.)




Depois de apresentar esse panorama aos alunos do Mackenzie, abri uma discussão, perguntando a eles qual seria a importância de ler literatura contemporânea, quais são os problemas que afastam as pessoas da literatura, quais alternativas poderiam difundir mais o hábito de leitura e outras questões do tipo.



Eu tinha algumas suposições já preparadas, algumas respostas. Mas os alunos acrescentaram coisas bem interessantes. E eu acho que toda aula deveria ser assim, com o professor mais propondo questões/discussões do que apresentando sua própria verdade.



Então, aproveitando, coloco aqui o link de uma ótima página para conhecer um pouco mais os jovens autores desta geração. O jornalista Ramon Mello entrevistou vários deles, desde bestsellers como Bruna Surfistinha até gente como eu, você, Simone Campos, Ana Paula Maia, Botika, Marcelino e etc. Vê lá:


http://wwwb.click21.mypage.com.br/myblog/visualiza_blog.asp?site=clickinversos.myblog.com.br





Falando em novos autores, esta semana consegui ler inteira a antologia "Contos Cruéis", organizada pelo Rinaldo de Fernandes para Geração Editorial. Tinha recebido o livro há uns dois anos, quando saiu, mas só agora consegui pegar para valer. E achei bem, bem, bem interessante. Hum, ok, acho que uso esse adjetivo - "interessante" - demais, e ele não quer dizer exatamente nada - nada positivo, nada negativo, mas é que se aplica bem a coisas assim, que são... interessantes. Pois a antologia tem contos ótimos, e contos muito ruins, de qualquer forma, é um panorama... interessante sobre o tema "violência urbana". Acho que está longe de ser "as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea" (como explica o subtítulo), é um livro muito focado em violência social e sexual, e tudo muito calcado na realidade brasileira objetiva (e eu sempre levanto a bandeira da realidade subjetiva). Mas se era essa a proposta, mostrar nossa realidade urbana crua, o livro cumpre muito bem seu papel e além de ótimos contos de consagrados como Lygia, Loyola e Rubem Fonseca, me introduziu autores como Geraldo Maciel, Maria Alzira Brum Lemos (que eu só conhecia pessoalmente) e Carlos Ribeiro. Só o fato de ser uma antologia extensa (são 47 contos), já a torna um ótimo registro.



Para terminar, quer espiar mais um pouco o meu livro novo?


(lustração de Alexandre Matos)




O verão acabou logo. Menos de um ano depois já havia ido embora completamente para tornar tudo o que incomodava mais risível e tudo o que prometia mais desejável. Na verdade, foi-se em poucos meses, em poucas horas, segundos, e quando os meninos abriram e fecharam os olhos, um vento frio já varria a areia para dentro do mar e os turistas para fora, devidamente agasalhados, de volta para seus ônibus e para longe da cidade. Todos se foram.

Graças a Deus, diriam meus eleitos.



A mudança dos tempos e dos ventos sentia-se também pelos estalos do prédio, a estrutura se conformando a novos climas, novos sentidos, que às vezes pareciam não fazer sentido algum. As aulas não voltaram, a greve não acabou. O que quer que os professores tenham decidido na assembléia, não teve interferência prática no ócio dos meninos. Agora eles viviam um ócio polar, longe da praia, sem a possibilidade de férias. Era um sentimento mais solitário, mais melancólico, como se tivessem de fato sido esquecidos, desprezados. Uma coisa é você se sentir livre quando percebe a possibilidade de encarceramento, outra é a liberdade, fruto de total falta de escolha. Não havia nada o que fazer. Nenhum professor a repreendê-los. Ninguém a dizer o que eles poderiam se tornar, o que deveriam desfrutar. Eram garotos perdidos, meninos congelados, esquecidos no fundo do freezer, atrás dos hambúrgueres, ao lado de uma garrafa de vodca vazia
.

31/03/2008

ANIMAIS BONZINHOS


(Bastidores de Cymbeline)


Cristiane Lisbôa não come animais bonzinhos. Outro dia fomos jantar num restaurante chicoso e eu a ouvi dizendo isso ao garçom que oferecia cordeiro. Não come animais bonzinhos. Ela come carne, então não sei como pode achar que os bois são perversos. “As galinhas são más, elas nos perseguem”, me disse ela. Muito bem, as galinhas nos perseguem. Eu percebi que como apenas – APENAS – os animais bonzinhos. Hoje, numa peixaria, cresci os olhos para uma embalagem de cavalo-marinho - Quero cozinhar cavalo-marinho - Mas era só a marca na embalagem. Dentro havia polvo, ou lula, ou vôngole, esses animais sem coração...

Sou um magro de alma gorda.

Assim, encho a boca para falar dela, minha afilhada, que assim se tornou porque tinha muito, tanto, em comum.

O morto geme de dor. Está muito cheio de movimentos, de olhos bem abertos, implora, cospe, reza o Pai Noso em voz bem alta. Chora, bebe as lágrimas que o ruivo derrama. Que coisa desesperadora é ver alguém assim.

Trecho de seu novo livro: "Sylvia Não Sabe Dançar", um pulp fiction de costumes (adorei isso, "pulp fiction de costumes"), novela recheada de frases fabulosas, trama ironicamente sórdida, que eu tive orgulho de prefaciar. Pois é, Cristiane Lisbôa é da minha turma. E nos aproximamos como leitores-escritores, que agora podem se chamar de amigos. Assim me sinto mais próximo dela do que de qualquer outro autor na literatura contemporânea. Sabe como é, num mundo onde todo mundo diz que escreve, eu leio as frases dela e vejo na hora a diferença. A apresentação que eu assino do seu livro é essa aqui:

Após ter publicado belos volumes de contos, Cristiane Lisbôa estréia com esta novela rodriguiana, uma comédia de costumes bizarros, de humor cruel e ironicamente melodramático. Em 1929, uma jovem professora de balé mata o jornalista que a difamou. À partir desse assassinato, resgatamos a história de Sylvia, numa narrativa recheada de incesto, escândalos e relacionamentos sórdidos. Em resumo, uma delícia. Já há alguns anos vemos nos deparando com uma enxurrada de novíssimos escritores, sempre carregados de promessas e possibilidades. Nesse contexto, Lisbôa chega para deixar clara a diferença. É só ler as primeiras frases, as primeiras páginas, para evidenciar que encontramos uma escritora de fato, de talento inegável, lirismo e inteligência. No final, das centenas de frases brilhantes do livro, é possível encontrar uma conclusiva: “À partir de hoje, defendo que todos os bons escritores devam ter assassinado alguém a sangue-frio.”

E é isso. O livro virou um pocket fofíssimo (entregue aqui na minha casa com um camafeu de petisco). Ela lança na quinta-feira de noite, na Livraria da Vila da Alameda Lorena. Quem quiser mais detalhes, pode conferir o belo site: http://www.sylvianaosabedancar.com.br/

(você já viu site de livro melhor do que este? Se livro não fosse um produto cultural fantasma, todas as editoras fariam sites assim. )



Já eu, estou dando os últimos toques em "O Prédio, o Tédio..." depois nem sei mais. Andei conversando muito nas últimas semanas sobre teatro. Carl Grose, autor britânico que fez o texto de adaptação de "Cymbeline", me deu muitas dicas. Andei pensando muito nos últimos meses sobre outras possibilidades. Acho que vou dar um bom tempo para escrever outras coisas, talvez peças. Pensei até em adaptar "Mastigando Humanos" para o teatro, não sei. Só sei que não quero estacionar, fazendo sempre as mesmas coisas. E por aqui parece que não há muito além para evoluir. Quero dizer, a literatura, é tão restrita, tão pouco difundida. E os outros veículos são uma piada. Peças de teatro? Roteiros de cinema? Pfffffffff. Enquanto não morrerem todos os idiotas que ainda acham que é necessário mostar nossos serrados e nossas favelas, ou quaisquer outros cenários beges que eles acreditem que sejam mais NOSSOS do que qualquer cenário interno que se possa imaginar- porque eles NÃO podem imaginar - a gente vai continuar no brasil intelectual oficial. É isso, falta um pouco de imaginação. Mas essa é uma bandeira que eu carrego há tempos. E não sou de todo desesperançoso, porque parece que está surgindo uma geração (a minha geração) de cineastas muito mais interessantes. Gente como Esmir Filho, Felipe Sholl, Daniel Ribeiro e Marco Dutra. (E que morram de dengue todos os outros!!!)

Mesmo assim, é um pouco desestimulante pensar que, como escritor, o máximo que você pode ascender é a autor de outra coisa: autor de teatro, de cinema, não há como crescer como um mero autor por escrito. De Livros. Triste.

Por isso, quero experimentar outros veículos, ao menos como experiência, como já venho fazendo com o cinema. Porque também o meio editorial entupe minhas artérias.



Santiago Nazarian e Carl Grose nos bastidores de Cymbeline


Toda a equipe.


Então... sei lá... é por aí. É isso mesmo. Estou preparando o livro novo. Contando com todo o seu entusiasmo. E bastante amargurado de pensar que o máximo de sucesso que posso ter é vender 3 mil cópias (uma edição) nos primeiros meses, depois mais alguns milhares de gotas em gotas, e ainda ouvir cobranças e ataques como se uma vírgula errada pudesse provocar mais dano à cultura brasileira do que qualquer letra de Ivete Sangalo.

Entenda: é esse o Godzila que destrói nossas metrópoles, enquanto sou um micro aligator monologando nos esgotos...


Mas esta é uma alegoria antiga. Atualizando: são esses os zumbis que babam em nossas ruas, enquanto sou um simples assassino de criancinhas.

Bléh!

E devo discutir um pouco sobre isso com os alunos de letras do Mackenzie, numa palestra que vou dar esta semana. É bom conhecer gente nova que está estudando isso em dias atuais. Debater um pouco sobre as possibilidades. Pode parecer previsível um autor lamentar ter de migrar para o cinema ou a TV, mas não é. Sei que grande parte dos jovens autores que estão aí dariam tudo para ter essa oportunidade. Mas não é esse meu sonho, não é nisso que me especializei. Eu ainda preferiria ter tudo no papel, por escrito.

Anyway, terminou hoje a temporada de Cymbeline, com o Kneehigh Theatre, no Sesi. Para mim foi uma ótima oportunidade trabalhar com eles, traduzir, legendar, conversar. Todos foram muito queridos e muito profissionais. Vão deixar saudades.

25/03/2008

ODEIO O FATO DE SER REI...


(foto: Pierre & Giles)

I hate the fact that I´m king
I´ve lost more than I´ve gained
I´ve knelt more than I´ve reined
Would I be so rich, and yet so deprived?
Would my sons be still alive?
Would I hold my daughter and hear her sing?
I hate the fact that I´m king.


Trecho de “Cymbeline”, que está em cartaz no Sesi. Me perguntaram por email sobre o que era a peça. Ora, é Shakespeare! Então você sabe que ao menos tem um rei, uma rainha e um casal que se mata.

E afinal... no final, todo casal não se mata? Não se transforma em cacos cada taça? Cada taça com que brindamos será quebrada. A que restar, será devolvida, sem nem ao menos ter sido usada...

Oh! Quem mandou eu tirar o coração do congelador, não é? Ele ainda funciona. O congelador, digo, ainda funciona. Porque a geladeira foi pro saco, minha geladeira não presta mais. Meu refrigerador não funciona. E o coração, dá pra aquecer no microondas?

Muito bem, trabalho: nos últimos dias troquei uma enxurrada de emails com minha agente, Nicole, sobre antologias que estão saindo pelo mundo a fora. Vários contos meus saindo pela América Latina, México, Itália. E eu tenho de ficar revirando meus arquivos, abrindo o congelador, ver quais contos antigos eu consigo requentar no microondas, porque há um bom tempo que não sento e escrevo um conto novo. Também, esse romance novo me consumiu tanto... E romances antigos, que insistem em me assombrar... E a falta de romance na minha vida... E as assombrações do Supernatural... Ah! Tudo isso anda me tirando dos trilhos.

Mas tenho um projeto, ainda tenho um projeto, meu próximo projeto, provavelmente, de livro, será um volume de contos. Está na hora, não? Cinco romances, agora chega. É preciso variar. E deve ser um livro de contos de terror. Vamos ver. Um deles ao menos já está pronto, e vai sair este ano numa antologia de contos de vampiros, organizada pelo Luiz Roberto Guedes e publicada pela Devir. Meu conto lá é “Catorze Anos de Fome”. Quem foi numa leitura minha na casa das rosas, há dois anos, recebeu o conto. Agora, só na antologia. Depois, quem sabe, nesse meu livro de contos trevosos. Mas isso é projeto para daqui a dois.... três anos....

E é só projeto.
(É um perigo anunciar projetos aqui, porque depois eu tenho de responder durante anos e anos leitores que querem saber a quantas andam....)

Tá, um trecho do conto de vampiro:
Um homem careca, de olhos esbugalhados, olhos tingidos de vermelho, de doenças, de ódio. Olheiras profundas, narinas dilatadas. Mas o que mais impressiona é sua boca, sua mandíbula proeminente, na arcada inferior, uma longa fileira de dentes, afiados. Saliva, espuma. Olha para os meninos como quem pede socorro, como quem pede desculpas, como quem não pode se conter e não pode mais suportar. Como se quisesse engolir até o último dedo deles, sugá-los, como um fio de espaguete, como se só assim pudesse sobreviver

Por enquanto, dando os toques finais em “O Prédio, o Tédio e o Menino Cego”. Tenho mais um mês pra entregar a versão final pra editora. É um livro enorme. Sai em julho/agosto.

Tá, mais um trecho do livro novo:
Sua sorte estava lançada. Nicolas pegou um biscoitinho da sorte e partiu-o para ver o que dizia. Ainda no restaurante. Ainda no limbo entre almoço e jantar. Mas com os vapores da janta emanando da cozinha, o restaurante voltando à vida. Antes do primeiro cliente, antes que o trabalho recomeçasse, antes que a mãe o chamasse e pedisse que Nicolas ajudasse com os pratos na cozinha, ele partiu um biscoito da sorte, para forrar o estômago e ver se havia saída. E o biscoito dizia: "Você está fodido."

20/03/2008

PASCOA AOS PEDAÇOS





Estreou ontem no teatro do Sesi a montagem de Cymbeline, do Shakespeare, pelo grupo britânico Kneehigh Theatre. Eu estou legendando todas as apresentações ao vivo, lá de cima, da cabine de luz. Recebi o texto original já traduzido, mas como houve muitas mudanças, adaptações, cacos e improvisos, fiquei esta semana toda acompanhando os ensaios, repassando o texto com os atores. Eles foram super queridos, fizeram uma leitura dramática todos juntos comigo, aprenderam algumas coisas em português. Ontem na estréia arrasaram. E eu já estou vendo que vai ter cada vez mais improvisos em português. É preciso tomar bastante cuidado com as legendas já prontas...

Pra quem não conseguiu ver o convite aí em cima, é no Sesi da Paulista (1313), de terça a domingo. Horários: Terça a sex – 20h. Sábado: 16h e 20h. Domingo: 17h.

Como procuro sempre equilibrar (ou diluir?) alta cultura com futilidade, tenho assistido “Supernatural” todas as noites. Estou com a primeira temporada inteira aqui, não me pergunte por quê (um amigo disse que era pelo ator pitéu. Mas se fosse por ator pitéu, eu compraria a caixa de Smallville). A idéia da série até que é legal, dois irmãos caça-fantasmas, perseguindo várias lendas urbanas: a loira do banheiro, a noiva da estrada, o homem do saco, mas o resultado é péssimo, péssimo, péssimo. Os atores são péssimos, a produção é tosca, não tem clima e não dá medo nenhum, parece que eles só contratam gente bonitinha, até para fazer os papéis de fantasma. Fora que o ator bofão conquistador não me engana, sempre que ele quer dar uma de durão eu o vejo na mesma hora na pista da the Week, sem camisa, de óculos escuros, numa roda de bibinhas hollywodianas.
Ui, ui, ui!

A única coisa boa do Supernatural é que cada episódio tem sua independência (eles até tentam fazer uma trama contínua, sobre o pai desaparecido, mas não tem a menor importância). Acho um saco essas séries tipo Lost que você tem de acompanhar inteira para entender, e cada capítulo termina obrigando-o a ver o próximo. Você até pode comprar uma caixa com a temporada inteira, mas depois vai ter de esperar (MESES) pela segunda temporada, com a continuação. Eu não tenho saco. Isso dura anos. Vicia e escraviza. (Uma madrugada dessas, fiquei na casa da minha mãe vendo uma maratona de “Heroes”. Fiquei CINCO HORAS seguidas assistindo. Gostei. Mas é frustrante, porque cinco horas não é o bastante para você entender direito a história.)

(É mais ou menos como jogar SimCity....)

Ah, outra série que assisti esses dias é Greek. A Universal mandou um DVD aqui. Me parece um “Barrados no Baile” universitário. É gostosinho de ver, levinho, mas faltam pitéus. Ao menos, nos dois episódios que vi, não tinha nenhum pitéu, só pitéias. Tem uma trama seqüencial sim, mas como não lida com suspense, não frustra tanto o expectador, e cada episódio se resolve mais ou menos em si.


Cambada de nerds!



Estou querendo é rever o Arquivo X...

Falando em mistérios, retornos e bizarrices, estou ouvindo o novo cd do Porstishead, que vazou na net. Primeiro achei que era falso, agora.... ainda estou na dúvida. O cd é muito ruim. Ok, talvez seja mais BIZARRO do que ruim. Parece uns lados B da carreira solo da Beth Gibbons. Não entendo porque eles voltaram para fazer algo assim, tivessem então dado outro nome para banda. O cd que estou ouvindo não tem nada a ver com Portishead, não tem batidas eletrônicas, não tem o clima lounge-soturno tão gostoso dos outros dois álbuns, nem pode ser rotulado como trip-hop. Ok, ok que eles mudem e façam uma coisa diferente, mas daí é como eu disse, não faz sentido para uma banda que sumiu há quase dez anos voltar com algo que não tem nada a ver com a própria banda. Não sei, eu ainda quero acreditar que o que estou ouvindo não é o álbum final. (E não é de todo ruim não, tem umas faixas “interessantes”.)



O novo do Anthony eu ainda não ouvi.



O novo do Nelson Ned também não.



E o novo da Madonna que se foda.

No mais, boa Páscoa. Vou ficar por aqui direto, legendando os espetáculos.

17/03/2008

LONGO POST DE FARSAS E BIZARRICES

Laura Albert e Savannah Knoop - Autora e intérprete de JT LeRoy, respectivamente.



Opa, Santiago,
Muito obrigado por tudo isso. Acho que o povo lê sobre mim e tira suas conclusões sem ler uma única palavra. Eles não pensam que talvez a imprensa se aproveite apenas do lixo sensacionalista, o troço que usam para vender revistas, que tem pouco ou nada a ver comigo, com quem eu sou ou sobre o que é minha obra. É a cruz que tenho de carregar, mas há piores... como nós sabemos.
Eu li sim “Running with Scissors”, acho que te entendi errado. Lembro de você me perguntar e eu estava meio abobado e tão acostumado a nunca ter lido a maioria das coisas sobre as quais me perguntam, é [um livro] doloroso... ótimo e engraçado. Ele é um cara bem bacana também.
Enfim, obrigado por ser eu, escrevendo esse livro comigo, porque é o que um tradutor deve fazer. Estou muito honrado.
Sinto muitas saudades do Brasil. Espero voltar logo. Talvez para esse lançamento eles me tragam de volta… Não custa sonhar.
Com afeto,
JT.
PS – Pode retirar o nome do Dennis Cooper de qualquer lugar que apareça? Obrigado! Eu também gostaria de refazer a página de agradecimentos, incluir uma turma lá. Pode me enviar essas páginas?
Obrigado mais uma vez ; )
(Email de JT LeRoy, enviado para mim em setembro de 2005)
Ok, sei que essa história é velha...
Fui procurar o email do JT LeRoy depois de assistir “Segredos na Noite – De Night Listener”, em DVD. Recomendo, apesar do filme ser estrelado pelo Robin Willians... É baseado numa história real, uma história de fraude literária, muito parecida com a do JT, descoberta pelo (escritor) Armistead Maupin.
O livro de Maupin "The Night Listener", eu li há pouco mais de um ano. Também é bem instigante, mas acho que não tem tradução no Brasil.

Isso me fez pensar como a verdadeira história (da fraude) de JT LeRoy daria um bom livro, e me fez procurar os antigos emails que troquei com ele/ela. Nesse aí já se vê uma contradição entre algo que ela (Savannah - a intérprete de JT) me disse ao vivo, e o que dizia a autora (Laura Albert). No caso, era sobre um livro do Augusten Burroughs, que eu comentei pessoalmente com JT, e que ele/ela disse não conhecer.

Também fiquei pensando em como há bons autores gays/alternativos nos Estados Unidos. Como essa literatura “underground” contemporânea me influnciou, com nomes como o próprio Augusten Burroughs, Matthew Stadler (que eu também conheci pessoalmente), Alan Hollinghurst, Ton Spanbauer e principalmente o Dennis Cooper.

Mas daí é só pensar mais um pouquinho e ver que, no Brasil, há grande número de autores gays, que tratam da temática em maior ou menor grau, e estão no primeiro time da literatura contemporânea: Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Marcelino Freire, Bernardo Carvalho, Glauco Matoso, João Silvério Trevisan...

E daí me lembro porque quis organizar aquela MALDITA coletânea de contos gays, com o Marcelino Freire. Mas que ainda vai sair, pode ter certeza, deve sair este ano ainda, mais pro final.

Então, vamos lá. Encontrei uma bela entrevista com Laura Albert, revelando toda história por trás da farsa de JT LeRoy. Traduzi as melhores partes. Aproveitei para traduzir também uma entrevista com Dennis Cooper (que li há tempos, enviada a mim pelo Daniel Luciancencov). É bom para ajudar a difundi-lo por aqui. Não há nenhuma obra do Cooper traduzida para o português. Eu já tentei vender, mas é coisa HARDCORE MESMO, não é para qualquer um...

Então vai lá JT, depois Cooper (pega fôlego porque a coisa é longa).
Trechos da entrevista com Laura Albert, autora de JT LeRoy.
(Tradução Santiago Nazarian)
P: Você inventou o Jeremy, mas diz que ele se apoderou de você, como se existisse independentemente..

Parecia mesmo que ele era outro ser-humano. Vou falar dele no passado porque sinto que a energia dele não é mais a força primordial em mim, como era antes.
Como você decidiu apresentar o JT para um mundo mais amplo, além da sua terapia?

Dr. Owens pediu que eu escrevesse minhas histórias. Ele dava aulas na Universidade de São Francisco para gente que queria ser assistente social, e ele sabia o quanto eu odiava assistentes sociais, então ele disse: você pode ensinar a verdade para eles. Gostei disso porque me senti útil. E percebi que foi uma forma de me forçar a escrever. Quando escrevi a primeira parte eu senti um clique. Era um conto chamado “Balloons,” sobre o uso de heroína. Eu escrevia as história à mão, porque não sabia datilografar. Então mandava por fax para ele, às vezes ia de bicicleta para a escola e entregava pessoalmente. Eu estava louca por retorno.

Você ia pessoalmente, como Laura?

Não, eu ia como amiga do Jeremy, Speedie. Era quem eu era em público – uma mulher, mais tarde conhecida como Emily, cujo apelido era Speedie. Ela falava com esse sotaque cockney irritante, dava vontade de bater nela, mas ela morou em todo canto, porque o pai dela era militar. Ela teve uma vida difícil, e saiu de casa cedo para morar em São Francisco. Eu também disse que ela trabalhava com sexo, porque tinha gente que podia me reconhecer. Eu me encontrei com o Terry—Dr. Owens— como Speedie, algumas vezes.

P: Quando você escrevia, você sentia que JT se apoderava de você da mesma forma de quando você falava? Você sentia que JT é que escrevia?

Não, quando eu escrevia eu sentia como se estivesse tentando formar uma história. Ele contava a história e eu era a secretária que pegava e dizia: Ok, obrigada, agora vou tentar tornar isso uma obra. Mas assim como eu não sentava e não pensava em mim como JT, enquanto eu escrevia eu também não tinha de ser a Laura.

O que o Dr. Owens, e seus alunos, acharam das histórias?

Conversaram sobre elas do ponto de vista terapêutico. Mas eu queria saber mesmo o que achavam sobre a escrita. Então o Dr. Owens me passou o contato de um vizinho, um editor chamado Eric Wilinski, que me deu retorno. Um cliente meu, do disque-sexo, me havia indicado a poesia de Sharon Olds, e eu a admirava muito. Quando mencionei isso para o Eric, ele disse que havia estudado com ela e sugeriu que eu escrevesse diretamente pra ela. Eu disse, Nah, isso não se faz. Ele disse que tinha falado com ela, e ela queria que eu escrevesse para ela. Ela me escreveu de volta. Ela leu “Balloons” e a resposta dela foi tocante.
Na mesma época, entrei em contato com um autor gay de ficção, de quem tinha ouvido falar. Havia coisas muito perturbadoras nos livros dele, coisas sexuais, e a forma como ele capturava a solidão e as necessidades dos adolescentes realmente me tocou. Liguei pra ele usando o apelido de Terminator, e falei como Jeremy. Ele era alguém que eu admirava, mas quando li meu trabalho no telephone, percebi que, ainda que ele gostasse da minha escrita, se empolgou sexualmente pela perversidade e o abuso das histórias. Então começamos a mudar nossa relação para uma relação sexual. Era como os namorados da minha mãe – eu queria que eles estivessem por perto, então fazia de tudo. Ele achava que estava falando com um garoto de treze anos, e sempre me convidava para ir a sua casa. Eu achava que atenção sexual era melhor do que não ter atenção nenhuma. Aprendi nas ruas que se você entra numa situação sexual perigosa, é só dizer que tem AIDS – é a última estratégia de sobrevivência. Então finalmente eu pisei no freio e disse que tinha AIDS e feridas por todo o corpo. Não o desestimulou nem um pouco. Tem gente que gosta de ir ao extremo. Eu estava assustada, mas também aliviada. Se ele podia ter compaixão por alguém que não era bonito, que estava de fato desfigurado, ele podia ter compaixão por mim, Laura.

Mas ele não sabia que Laura existia. Ele tentou ajudar o JT de alguma forma?
Ele me mandou um romance de outro autor gay, com quem entrei em contato. Esse cara também me me chamou para ficar com ele, mas passou meu trabalho a frente para uma escritora do The Village Voice chamada Laurie Stone, que acabou publicando um dos meus contos, “Baby Doll,” numa antologia chamada Close to the Bone. Esse livro teve muitas resenhas e a maioria destaca meu conto, dizendo como é intenso e cru. Logo arrumei um agente, Henry Dunow, e a editora Crown quis publicar um volume com meus contos. Falaram em publicar como um livro de memórias. Era época da febre de memórias. Havia saido o The Kiss , da Kathryn Harrison, e The Liars Club, da Mary Karr, e tinha esses livros apelativos de abuso infantil por todo canto. Mas eu não queria publicar as histórias se elas não pudessem sobreviver como ficção. Comecei a me corresponder com a escritora Mary Gaitskill, e ela me deu um ótimo retorno, foi a primeira pessoa a ser crítica com minha escrita. Ela me levou a todas essa grande literatura: Vladimir Nabokov e Flannery O’Connor— e eu percebi o quanto precisava aprender.
Ela quis se encontrar com o JT?

Sim. Ninguém nunca o havia encontrado pessoalmente, e começaram os boatos de que ele não era real, então eu sabia que precisava de um corpo. Marquei um encontro com a Mary, e decidi contratar alguém para interpretar o JT. Mas não conhecia ninguém que combinasse com minha descrição física dele. Então Geoff e eu andamos de carro pela Polk Street, e eu vi um garoto que nunca havia visto antes. Tinha dezenove anos, era magro, loiro, de olhos azuis – perfeito. Disse a ele: quer ganhar cinqüenta pratas sem fazer sexo? Ele topou. Falei pra ele não conversar, só dizer oi para uma mulher chamada Mary, depois se assustar e ir embora. Levei-o ao café. Mary Gaitskill esperava lá. O garoto entrou, disse “oi, sou o Terminator”, passou um vinagre e um chocolate que eu comprei de presente pra ela. Ela disse “oi, prazer em conhecê-lo”, e ele fugiu. Então me sentei. Eu fui lá como Speedie, e nós conversamos.

Tem uma foto de autor do JT, no livro. Quem era esse?

Meu editor pagou para usar a foto de um adolescente que parecia com o JT. Quando Sarah foi publicado, teve críticas fabulosas, e as revistas queriam matérias com suas próprias fotos do JT. Não queriam usar a foto de divulgação. Então percebi que de novo iria precisar de um corpo. Amo o Andy Warhol, e havia lido que ele usava gente que fingia ser ele. Então quando a revista dele, a Interview, pediu uma foto do JT, perguntei a essa menina que conheci em Valencia Street, uma sapata bonitinha de vinte e poucos, se eu podia fazer uma foto dela, por cinqüenta pila. Coloquei óculos nela e fizemos a foto como JT. Mas mais revistas estavam interessadas. Eu precisava de mais fotos. A irmã mais nova do meu marido Geoff’, Savannah, sabia sobre JT, e me ocorreu que eu poderia usá-la como modelo, se não conseguisse achar mais ninguém. Ela tinha essa energia de estrela, e me deixou tirar umas fotos dela. Quando vi, eu disse: “Oh, meu Deus, parece com a foto de divulgação do JT!”

Por que fazia garotas serem o JT?

Bom, primeiro tentei um cara. Fiz até com que o JT dissesse para as pessoas que ele precisava de um dublê, como Andy Warhol. Mas finalmente eu percebi que o gênero não importava – era mais encontrar um visual específico. Savannah por acaso era mulher. Mas mesmo depois dela começar a aparecer como JT, eu sempre procurava alguém, porque eu sabia que não era fácil para Savannah se vestir como ele. Precisava de toda uma transformação física além da peruca loira, do chapéu preto e dos óculos escuros.

Você a deixava falar com os repórteres ou só posar para fotos?

Inicialmente, eu disse para ela não falar. Mas ela tem um ótimo ouvido, e depois de me ouvir falar como JT no telefone, conseguiu pegar o sotaque sulista, o ritmo lento e algumas frases básicas. Quanto mais entrevistas ela dava, mais falava. Mas levou muito tempo para se acostumar a ser JT, e no começo ela meio que ferrava com tudo. Uma vez ela disse que era de North Virginia—e as pessoas pensaram: Oh, JT gosta de zoar com as pessoas. Outra vez fomos num cinema e tinha um cara do som que tinha trabalhado com o pai dela. Ela me puxou pro banheiro e me contou. Eu pensei: bem, agora já deu. Felizmente, ele não a reconheceu. Isso sempre acontecia. Quando Savannah dava autógrafos, ela via gente que ela conhecia, e que não a reconhecia.

Como você conseguiu viajar com Savannah quando ela se passava por JT? Você tirou identidades falsas?

SIm, mas ela ia com o passaporte dela. Só o pessoal da polícia via, e tínhamos cuidado. Quando os livros foram publicados fora, fomos levados ao Japão, Brasil, e por toda Europa, e tínhamos um ritual. Quando pousávamos, arrancávamos os nomes de todas as malas.

Então vocês viviam com medo de serem descobertas?

Falávamos sobre isso, mas sabíamos que nossa intenção não era má, então não tínhamos vergonha. Nos perguntávamos: estamos fazendo as pessoas fazerem algo que não querem? Estamos sendo úteis? Estamos fazendo as pessoas se sentirem bem e estamos espalhando amor? [?!!!] Achamos que sim. As pessoas respondiam com muito amor e felicidade ao JT e sua literatura.

Ninguém notava a diferença entre a Savannah em pessoa e você no telefone?

Não, porque quando ela começou a interpretar o JT, eu copiei a voz dela. Na minha época de punk, eu falava com sotaque britânico porque era mais bacana. Eu saí com meu namorado skinhead por quatro meses antes de dizer a ele que eu não era inglesa. O que eu percebo é que depois de um tempo as pessoas começam a prestar atenção no que você diz, não na sua voz. Então você pode relaxar no sotaque e ninguém nota. Mas se eu sentia que estava falando com alguém desconfiado, eu mantinha meu máximo, e meu papel de Speedie ficou mais importante, eu tinha de falar como ela e como JT no telefone, às vezes na mesma ligação. Eu ia e voltava: Espere, deixe eu chamar o JT, então ele começava a falar.
Alguém acreditou quando você disse que você era o JT?

Sim, claro. No geral, muito mais gente – gente envolvida na publicação do livro, gente que ficou próxima de mim e de Savannah – sabia que eu era JT, e não quis admitir. É mais fácil alegar ignorância e me culpar do que admitir que sabia. Por outro lado, teve algumas pessoas que eu senti que tinha de contar, e que não tiveram problema com isso. Uma delas foi o Billy Corgan dos Smashing Pumpkins. Quando eu o conheci, há três anos, foi uma coisa e tanto, porque a música dele significava muito para mim. Ele leu meu trabalho e disse que me conhecer era importante para ele. Ele teve um relacionamento por telefone com o JT, mas quando eu o conheci em pessoa, disse que JT era eu—Laura. Ele entendeu e me apoiou.

Suas relações com celebridades eram diferentes das com outros escritores?

Sim, mas a maior parte dessas celebridades é que se aproximaram de mim. Ou mencionavam meu trabalho numa revista, daí eu escrevia agradecendo. Vi que Sheryl Crow falou sobre meu livro no site dela, e fiquei perplexa. Alguém me disse que Winona Ryder gostava do meu trabalho, e Drew Barrymore também, e entrei em contato com elas. Lou Reed leu os livros e gostou muito. Shirley Manson leu sobre JT na The Face, anos atrás, e a vimos tocando em LA, e fizemos todos uma festa de pijama. Shirley era tão receptiva com Speedie quanto era com JT, o que era raro. Ela escreveu uma música chamada “Cherry Lips”, baseada no personagem Cherry Vanilla, do livro Sarah. Músicos começaram a pedir para eu escrever histórias sobre eles, para fazer press releases. Fiz um para o Billy Corgan, Bryan Adams, Nancy Sinatra, Bright Eyes. JT era o cara se você queria ser cool ou atingir o pessoal jovem. Shirley Manson passou meu trabalho pro Bono, e numa entrevista na Rolling Stone, ele disse como The Heart Is Deceitful estava mexendo com ele. Nós o conhecemos e ele foi maravilhoso com todo mundo. A diretora Allison Anders leu Sarah e passou para Madonna, e me disse que Madonna estava lendo. Eu estava na Flórida, na piscina da casa da minha avó, e pensava: Meu Deus, Madonna está no meu mundo. Foi um sentimento incrível. Mas Madonna e eu nunca tívemos muito o que dizer uma pra outra, foi mais uma coisa de vaidade. Ela me mandou uma vez um monte de livros de kabbalah. Fiquei com um e vendi os outros. Precisava do dinheiro mais do que da kabbalah.

Como você se sentia quando via Savannah em público como JT?

Eu não via Savannah, eu via o JT. Era um grande alívio porque ele saía de mim e entrava nela. Eu sentia espanto, admiração, orgulho. As pessoas faziam fila o dia inteiro para vê-lo. Ele tinha tratamento de astro. Tínhamos seguraças porque haviam todas essas pessoas para tocá-lo. Eu tinha o que queria – me conectava com as pessoas – sem ser o foco das atenções.

Você se preocupou em como tudo isso podia afetar a Savannah?

Sim, muito. No outono de 2003 começou a produção do filme baseado em The Heart Is Deceitful, que a Asia Argento dirigiu. Havia um enorme uso de drogas no set, e muita gente queria se aproximar do JT, então ofereciam álcool e drogas pra Savannah. Eu ficava furiosa. Eles sabiam que JT tinha um passado de vício e davam drogas pra ele! E claro, eu tinha medo também de que ela pudesse dizer ou fazer algo que entregasse tudo. Não é segredo que ela e a Asia namoraram.
Então Asia sabia que JT era mulher?

Sim, claro.

E outros devem ter notado também. Como você explicava a aparência feminina do JT?

Savannah já estava realmente se tornando JT nessa época. Até seu corpo mudou. Ficou bem masculino, sua menstruação parou, seus seios diminuiram. Ao mesmo tempo, JT estava virando mulher – era a verdade dele. Ele começou a falar sobre mudança de sexo.

O que você previa para JT? Queria que ele continuasse crescendo como autor?

Sempre senti que JT era uma mutação, um pulmão compartilhado, e para eu me tornar normal, eu teria de respirar sozinha. No começo, senti que ele teria de morrer de AIDS, mas isso não está em nenhum livro. Eu não neguei os boatos, mas não dei nenhuma declaração dizendo que ele estava com AIDS para aumentar sua popularidade. Me lembro um dia, há dez anos, quando achei que ele ia morrer naquele final de semana. Fiquei mal. Estava fisicamente doente. Mas JT não queria morrer, e não pude deixá-lo morrer. Senti que se ele morresse, eu morreria.
Você sentiu – ou sente – alguma vergonha por enganar quem acreditava no JT?

Eu sangro, mas é um tipo diferente de vergonha. Fico triste por isso. Muitas pessoas se inspiraram por alguém tão novo ter escrito o que eu escrevia. JT tem quinze anos a menos do que eu. Tudo o que posso dizer é que sinto muito se as pessoas ficaram decepcionadas ou ofendidas. Se saber que tenho quinze anos a mais do que o Jeremy desvaloriza meu trabalho, então sinto muito.

Agora você escreve para seriados da HBO, como Deadwood , como Laura Albert. Como é não escrever como JT?
É impressionante, pela primeira vez na vida estou solta no mundo como Laura Albert, a escritora de sucesso. E estou indo escrever ficção com meu próprio nome. Dizem para você rezar para seus inimigos. No final, o que eles me deram foi um presente, e devo ser grata.
*****
Os dois livros de JT LeRoy - "Sarah" e "Maldito Coração" foram publicados no Brasil pela Geração Editorial. O primeiro foi traduzido por Flávio Moura, o segundo por mim.
O filme "Maldito Coração", dirigido por Asia Argento, pode ser encontrado facilmente nas locadoras aqui no Brasil. Mas é uma merda. O livro é bem melhor, mais pesado e mais divertido.
Ainda, é interessante imaginar quem seria o "autor gay" com quem JT teve contato por telefone e quis trepar com ele. Pelo email da Laura para mim, pedindo para excluir o nome do Dennis Cooper, dá para ter uma idéia...
Agora a entrevista com o Cooper (eu disse que seria longo, não reclame. Fiquei horas traduzindo. Também não repare nos eventuais erros, fiz isso nesta madrugada e você não está me pagando nada. Fora que meu auto-corretor estava passando tudo de volta para o inglês, e este blogger ferrou com a formatação do texto. Mas beleza.) O mais engraçado são as histórias sobre o Burroughs...
SLAVA MOGUTIN ENTREVISTA DENNIS COOPER

(Tradução de Santiago Nazarian)
“Los Angeles é Impressionante," ele me diz enquanto andamos em seu velho Toyota vermelho. "Aqui há tantos lugares onde você pode desovar um corpo e se safar.” Parece bem convincente. Quase como ouvir a voz de um de seus personagens em “Frisk” ou “Try”. Mais tarde, quando almoçamos no French Market em West Hollywood, ele pede um veggie-burguer. “Sempre fui vegetariano, desde os 18 anos.”

Às vezes é melhor não conhecer essas pessoas cujo trabalho você admira. Sempre há a chance de decepção. Mesmo assim, eu sabia que tinha de conhecer Dennis, depois de trabalhar em traduções do seu trabalho para o russo por alguns anos, e de trocar emails por alguns meses. "E suas roupas?” - Eu não podia evitar de olhar para seus jeans gastos e camiseta manchada com buracos. “Oh, isso é do meu passado de punk”, ele explica. “Acho que não sou um boêmio, não dou a mínima para o meu visual.” Uma declaração atípica de um escritor gay atípico, cujo trabalho influenciou toda uma geração de jovens escritores e alcançou um conhecimento bem além do mundinho gay.
SLAVA MOGUTIN: Ouvi dizer que o Presidente Nixon freqüentava a casa dos seus pais quando você era criança.

DENNIS COOPER: Sim, ele era o melhor amigo do meu pai. Meu irmão tem o mesmo nome dele. Meu pai gostava de política, era muito conservador e queria ser presidente. Todo esse povo Watergate era amigo do meu pai. Nixon entrou nessa porque eles também eram uns babacas fascistas. Então houve a grande queda. Nos anos 60, meu pai começou a fumar maconha, daí ficou mais liberal. Antes disso, queria ser presidente. Mas percebeu que não ia dar certo, então desistiu dessas ambições políticas.

SM: Como isso te afetou?
DC: Eu era muito novo. Então não me afetou tanto.

SM: O que você achava do Nixon?
DC: Nada, naquela época. Hoje em dia acho interessante. Mas eu só tinha uns oito anos, e era um povo que aparecia na minha casa e eu dizia “oi”. Mais tarde eu pensava “Oh, Deus! Vocês eram amigos deles!!"SM: Você veio de uma família rica?DC: Meus pais não eram ricos na juventude. Meu pai ficou rico. Era um garoto pobre do Texas, mas começou seu próprio negócio e ganhou aquela grana toda. Meus pais eram bem conservadores, especialmente minha mãe. Meu pai é mais liberal agora, mas não sei, não falo muito com eles. Eles se divorciaram quando eu tinha 13 anos.
SM: Então eles sabem bastante do seu trabalho?

DC: Ninguém na minha família lê meu trabalho, eles não querem saber, o que por mim tudo bem.. Sabe, cresci no final da era hippie, então para mim era como um mundo diferente lá fora, era legal. O conservadorismo dos meus pais me deu algo para se rebelar, de forma geral. Mas não foi o principal. Minha mãe era realmente uma alcoólatra psicótica. Foi o que me afetou. Ela era completamente horrível…

SM: Quando você percebeu que queria escrever?

DC: Quando eu tinha 15 anos eu comecei a escrever como uma forma de arte. Foi quando eu li pela primeira vez Rimbaud e Sade. E pensei “Oh, Deus! Pode-se escrever sobre isso!” Minhas fantasias foram justificadas pelo Sade. Não dá para ser mais extremo do que ele. Mas tudo o que eu escrevia como adolescente era lixo.

SM: Era poesia, ficção ou diários?

DC: Era de tudo. Eu tentei imitar 120 Dias de Sodoma, e escrevi esse romance extremo de 800 páginas. Era sobre uma festa na escola onde meus amigos e eu fizemos todos esses carinhas bonitinhos virem, então os prendemos e torturamos e matamos. Era uma coisa bem longa, totalmente horrível e ridícula.

SM: Basicamente, você tentou ser o mais bizarro possível.
DC: Isso, mau e cool. Então um dia percebi que minha mãe lia minhas coisas. É uma história longa. Ela me fez ir ao psiquiatra. Eu tinha medo, muito medo que ela descobrisse. Eu escondia no meu quarto. Então queimei. E anos e anos depois, estava escrevendo um livro e encontrei uma página que se safou de algum modo.

SM: Por que você ficou obcecado com violência e essas bizarrices?

DC: Não sei. Quando eu era bem novo, talvez uns doze, vi uma matéria num jornal sobre três garotos, de 11, 12 e 13 anos, ou algo assim, que foram encontrados pelados e mortos nas montanhas bem atrás onde eu morava. Me lembro de ter ficado tão excitado com isso, foi estranho. Achei que era a história mais fascinante que eu já tinha visto. Me lembro que todos meus amigos para quem eu contava isso achavam totalmente esquisito. Então percebi que havia algo de estranho em mim. Daí fiz um amigo ir comigo para o lugar onde eles foram mortos. A gente costumava caminhar por lá. Acampamos por três dias tentando achar o local exato. Bizarro!

SM: Sabe, nos EUA se lê sobre serial killers no jornal. Na Rússia, é um tabú para a mídia. Há apenas boatos…

DC: Mas vocês tiveram aquele cara, como é o nome?

SM: Andrei Chikatilo? Sim, foi o mais famoso serial killer russo, famoso por morder fora os mamilos e línguas das vítimas. Seu apelido era “Zver’ (“Fera”). E ele agia na mesma região onde eu morava com meus pais. Então cresci ouvindo essas histórias bizarras sobre maníacos. Não sabíamos muito, só ouvíamos de vez em quando que garotos desapareciam. E eu sempre tentei imaginar o que aconteceria se eu me encontrasse com a Fera, e o que ele faria comigo.

DC: Era igual comigo, mas eu sempre me imaginava como o assassino. Mesmo quando eu tinha 12, mas também porque há tantos assassinos em LA. Tem algo na atmosfera daqui...

SM: Em uma das suas entrevistas, você disse que serial killers não são gente muito interessante...
DC: Pela minha pesquisa não. E li tanto sobre isso. Acho que a fantasia torna o assassinato muito mais complexo do que é. O único que parecia ter uma estética envolvida era o Dennis Nilsen. Ele era bem esperto. Mas Gacy, Dahmer e todos esses caras matavam basicamente pela solidão…

SM: Mas você não acha que são necessárias algumas qualidades extraordinárias para cometer alguns assassinatos e não ser pego logo no primeiro? Isso não torna esses caras interessantes? E alguns deles tinham claramente uma imaginação louca e talento artístico: Nilsen escrevia poemas de amor para suas vítimas mortas., Dahmer tirava polaroides de seus corpos....
DC: Acho que o que eu quis dizer é que eles não sabiam se comunicar com o mundo, não podiam articular, não podiam explicar nada. As evidências podiam ser bem interessantes, mas só dá pra imaginar. Nilsen era o único intelectual. Nos outros casos, há diferentes graus: Dahmer obviamente é mais interessante do que Gacy. Gacy não parecia nem um pouco esperto…

SM: Obviamente, você foi mais inspirado pela literatura Européia. E quanto a autores americanos?

DC: Quase nada de autores americanos. Burroughs era OK. Mas não sou tão ligado em Burroughs. Mais nos franceses.

SM: Então você fala francês?
DC: Não, leio traduções.
SM: Sei que você morou na Europa um tempo. Quando foi pra lá?

DC: Em 1985 fui para Amsterdã. Fui convidado para um festival de poesia lá, conheci um holandês, daí ele veio me visitar. Ele tinha de estudar e eu estava falido e muito drogado. Então decidi morar lá.

SM: Como foi?
DC: Não nos demos nada bem. Nunca terminamos, mas estávamos acabados quando eu morava lá. Como eu não conhecia ninguém, ele era meu melhor amigo, mas ele tinha problemas em ser gay, o que eu não sabia até ir morar lá. Agora ele não é mais gay.

SM: Como se sustentava lá?
DC: Trabalhava ilegalmente. Trabalhei para algumas revistas de arte americanas, para The Advocate.
SM: Ainda faz muito jornalismo? Vejo artigos seus por todo canto.

DC: Bom… é minha única renda. Não tenho um emprego. Livro só dá uma certa grana, e leva alguns anos pra escrever um livro. Então preciso escrever artigos para pagar as contas.

SM: Sempre leio suas resenhas e entrevistas, mas às vezes não parece ser exatamente você, como uma pessoa totalmente diferente.

DC: Bom, sim, claro. Algumas coisas que escrevo é lixo, não me importo. Muitas vezes é só um trabalho, mas às vezes eu gosto, varia. O que eu escrevia para a Spin eu não gostava. Mas o dinheiro era bom e eu entrevistava Courtney Love e gente assim. Então tudo bem.
SM: Era legal sair com todas essas celebridades como Leonardo ou Keanu?
DC: Foi a última entrevista do Leonardo antes de Titanic, então foi a última vez que ele deixou isso acontecer. Eu o conhecia um pouco antes disso. Acredite ou não, ele ia participar do filme baseado em “Frisk”, porque ele gostou do livro. Mas depois decidiu não fazer, foi sábio da parte dele. Então só conversei com ele algumas horas. Mas Courtney Love quis que eu passasse um final de semana com ela. Naquela época, ela parecia bem bacana, agora ela é uma babaca burguesa. Não agüento mais ela. Keanu foi bem queridinho. Eu o achei muito legal e aberto, um cara honesto, fácil de gostar. Sonic Youth foi ótimo também. A maioria das pessoas que eu entrevistei foi bem legal. Não quero foder com elas, e não é que eu tenha nada contra. Obviamente eles controlam a situação. Há coisas que não dizem. Como fofocas e coisas assim. Teve gente que não me deixou entrevistar, tipo Marilyn Manson e Trent Reznor. Acho que sou pesado demais para eles, e eles sabiam que eu ia desmascará-los...
SM: Parte do seu jornalismo é meio moralista…

DC: Moralista? Sou bem moralista, de uma forma estranha. De uma forma BEM estranha. Depende do que estou tentando defender. Não gosto de autoridade. Odeio gays que tratam garotos como objetos. A beleza cega as pessoas. Conheço tantos garotos atraentes mas infelizes, porque as pessoas não os levam a sério. É um problema porque tenho muitos amigos que se magoam com isso. Não acho que é moralismo, é contra a estupidez, contra o egoísmo. E quanto as drogas, não gosto mesmo de heroína, porque fui tão próximo a gente ligada a isso, e é algo realmente perverso. Mas eu nunca faria uma lei contra, eu diria para legalizar...
SM: Há muitas drogas nos seus livros. Ainda é parte importante da sua vida?

DC: Quando eu era mais novo, tomava muitas drogas. Entrei numas coisas bem pesadas, bem perigosas. Mas faz muito tempo. Agora é só na mente. Minha vida é bem normal no momento. Só quero trabalhar, sabe. Eu era tão louco. Sinto como se eu já tivesse feito de tudo. Se surgir algo realmente interessante, eu experimento, do contrário, me sinto bem tendo uma vida normal. Também, na minha idade, se tomo drogas tenho uma ressaca! Faça agora, antes de ficar velho.

SM: Ótimo conselho!
DC: Sim, não tenho nada contra as drogas. Adoro drogas, só não sou fã de heroina.
SM: Na morte do Burroughs, você foi amargo, o acusou de usar ghostwriter e coisas assim…

DC: Mas é verdade. Eu conheci o Burroughs. Meu agente era agente dele, meu ex-namorado, Mark, trepava com o Burroughs o tempo todo. Trepava semana sim, semana não.

SM: Aí está! Sabia que tinha algo de pessoal!
DC: Eu nao me importava. Eu achava legal que ele quisesse trepar com o Burroughs, que tinha 75 anos. Agora esse cara está escrevendo as memórias dele, o que é meio assustador...
SM: Quem mais está na lista do Mark?
DC: Allen Ginsberg, Gus Van Sant, todo mundo... Então sei muito sobre o Burroughs. Não quer dizer que a obra dele é ruim, só quer dizer que ele não escreveu tudo sozinho. Tudo desde “Cities of the Red Light” pra frente teve muita ajuda, cada vez mais.

SM: Quem "ajudava" ele?
DC: James Grauerholz, o assistente dele. Não é um grande segredo entre as pessoas que conhecem o Burroughs. A turma dele me odeia. Burroughs era um velhinho bem bacana, mas o povo ao redor dele o tornou um freak. Me decepcionou mesmo pelo trabalho dele significar algo, ser realmente transgressor, e de repente perdeu o sentido para mim porque todas bandas do mundo o usava em seus clipes. O trabalho não significa mais nada. Ele se tornou como um garoto propaganda dos marginais. Acho deprimente. Eu nunca faria isso. Mas não foi culpa dele. Ele era velho demais, não estava mais controlando sua vida. O pessoal ao redor é que o controlava.

SM: E quanto a apresentação que Burroughs fez em um de seus primeiros livros?
DC: É, a apresentação… É uma longa história. Se você realmente ler, não é exatamente positiva. “Deus o ajude, ele é um escritor nato”, não quer dizer que sou um bom escritor. Meu agente pediu que ele fizesse, porque ele o conhecia bem. Parece uma ótima apresentação, mas se você pensar bem, não significa nada.

SM: Você gostaria de viver tanto?
DC: Eu fumo três maços por dia, então acho que não vai dar. Pode ser interessante. Não sei. Vamos ver. Ainda me sinto como um jovem fodido de 20 anos, mas não sou. Envelhecer é uma porra estranha...

SM: Como você se sente em ser cada vez mais conhecido e popular?

DC: Acho que meu trabalho vai permanecer por muito tempo, mas acho que nunca vou ser grande. Sempre será uma coisa cult. Não vou ganhar prêmios ou ser convidado para programas de entrevistas como o Norman Mailer ou escrever no The New Yorker. Vai ficar assim. E pra mim tudo bem, porque todos os artistas que eu gosto são assim. Muitos garotos lêem meus livros, mas não se pode fazer filmes com eles. Fizeram uma vez e foi algo horrível. Então não sei o que é o sucesso.

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...