Aborrecências a parte, sinto que está tudo se acabando, as formigas trancando suas portas e a cigarra ainda não encontrou sua chance de ser feliz. Sou feliz hoje. Sou praticamente exultante, mas não o suficiente, e não para sempre. Não para justificar esse final de novela, todos dando as mãos e cantando hinos nata-linos, não para a vida que se encerra e que ressuscitará sob sabe-se lá qual forma depois das férias...
A felicidade é insustentável.
Enfim, final de ano me deixa meio deprê por tudo isso. E tenho achado a vida muito difícil. Não só pela crise mundial, e a tragédia de Santa Catarina, nem pela pia que vaza quando desentupo a privada, e meu sapato que se gasta quando acabei de trocar de geladeira. O difícil é a independência em geral, sobreviver sozinho, fazendo e vivendo o que se acredita. E acreditando no que ninguém mais, apenas para deter uma verdade exclusiva.

Um dos conceitos que mais me intriga e até que mais me ofende é o conceito de família. Dos discursos políticos aos religiosos, populares e jornalísticos, defende-se de forma quase sagrada a família.
E a família deve ser destruída.

Família é a desgraça do mundo, minha gente. Família é formação de quadrilha. Família produz gases, entope bueiros. Família lota as ruas e os supermercados, eleva o preço da sexta básica, castra bovinos e degola perus.
Sem querer dar uma de “rebelde porque o mundo quis assim”, acho ideologicamente maligno o conceito de família. É o conceito de “dois contra um” ou “todos contra mim”. Defende-se a família (um grupo) às custas do sofrimento do indivíduo. A vida do ser individual é prejudicada em favorecimento da família. E você acha que está certo, que a família deve ser protegida?
A proteção da família se dá, obviamente, por questões evolucionistas, em detrimento das questões “revolucionistas” (não “revolucionárias”). Protegendo-se a família, pretende-se proteger a prole, as novas gerações, a continuidade. Mas essa é uma questão paradoxal (ou “insustentável”) porque “a continuidade”, a rigor, será o que destruirá este planeta. É claro que a vida em família é ecologicamente mais correta do que a vida independente – sozinho o indivíduo ocupa mais espaço, provoca mais desperdício, consome mais do planeta – mas a vida em família também perpetua os valores (e os erros) que nos fizeram chegar onde estamos.
Em outras palavras, a transformação só pode nascer do indivíduo.

A gente só pensa sozinho.
De qualquer forma, quando se diz que “a sociedade está cada vez mais individualista”, pode-se até acreditar. Talvez ainda não individualista o suficiente, talvez não individualista de forma consciente, ainda não respeitando as diferenças individuais, mas certamente mais do que jamais fora, historicamente falando.
Oh!Não quero (mais) um livro que defenda os mais fracos. Quero formas realmente inteligentes para se justificar a tirania.
Quando, há alguns anos, surgiu o movimento “Literatura Urgente”, de escritores reivindicando políticas públicas de incentivo à produção literária, alguns os acusaram de querer “mamar nas tetas do governo”. Eu cheguei a participar de algumas reuniões do movimento, questionando a mim mesmo sobre a coerência das propostas. Há incentivo ao cinema, ao teatro, à música, mas no caso da literatura os custos são menores e as ações de incentivo seriam destinadas pontualmente a indivíduos (a cada escritor). É exatamente o caso do favorecimento do indivíduo ao invés do favorecimento de um grupo (ou “a família”, no contexto artístico). Digo “ao invés”, mas de forma alguma “em detrimento”, porque acho que a sociedade toda ganha com uma boa produção individual.
Acho que, graças a esse movimento, tivemos alguns avanços. Graças também à visibilidade que a literatura contemporânea conquistou nos últimos anos, como há muito não se via (e isso devido ao trabalho e à batalha de gente como Marcelino Freire, Nelson de Oliveira e Claudinei Vieira, que organizaram antologias, eventos e valorizaram a cena. E também, claro, de escritores que deram as caras e abriram espaço em causa própria, me incluindo nessa.) Hoje temos alguns editais de patrocínio (como o PAC e o Petrobrás) e vários novos Prêmios em dinheiro (como o Prêmio São Paulo, Bourbon, Portugal Telecom e por aí vai).
É justo alguém ganhar 200 mil reais do estado por ter escrito um livro? Justíssimo. É um dos raros casos em que a escolha e a visão individual são valorizadas. Tem de ser valorizada. É preciso preservar esse espaço. É preciso lembrar o valor da produção individual. A seleção, o júri e o prêmio estão aí para avaliar qual escolha é mais significativa para a sociedade (segundo critérios literários, não podemos esquecer). E por mais que o resultado seja discutível (como todo resultado de prêmio) é digno.
Enfim, já escrevi diversas vezes coisas como essas aqui. Já escrevi diversas coisas como essas nos meus livros. Tenho um romance-estandarte ao individualismo (“Feriado de Mim Mesmo”, duh!) e vou continuar batendo nessa tecla, porque é parte da minha batalha pessoal.
Minha causa é essa, não fazer com que você siga minha causa, que saiba defender a sua, só a sua. Que separados possamos destruir a união.








