27/07/2015

FOBIA DE GÊNERO

Sou um homem branco nascido e criado num bairro nobre de São Paulo. Ainda assim, estou credenciado para falar das minorias, vez ou outra sou taxado de transgressor ou underground, sou uma opção “acessível” do lado B da literatura, por minha homossexualidade assumida.

Recentemente tem se discutido muito sobre “o lugar de fala” na literatura – trazido da mesa com Daniel Galera, Ronaldo Bressane  e Joca Terron na Flip. A mesa, da programação paralela do Sesc, discutia os deslocamentos literários, “viajar para escrever e escrever para viajar”, mas a pergunta de uma jornalista na plateia mudou o foco para o lugar da literatura feminina. A matéria resultante, publicada no G1 (aqui), levou uma série de feministas e feminazis a questionarem “o que três homens (brancos e héteros) acham que podem falar sobre literatura feminina?”

Galera supostamente defendia que escrever como mulher “não tem mistério”, Bressane, em ótimo artigo, desenvolveu a ideia (aqui) dizendo: “Se eu não usar a ficção para me colocar no lugar de outro — ou outra —, pra que diabos serve a ficção?” Mulheres como Ivana Arruda Leite e Simone Campos reivindicaram (aqui) o protagonismo – não serem colocadas sempre como “à parte” da grande literatura (a literatura masculina). E eu concordo com todos e discordo de todos.

Se o desafio e o prazer da literatura estão em se colocar no lugar do outro, colocar-se no lugar do que não se conhece pode soar falso e reducionista. Ainda que o escritor deva escrever sobre o que sabe, um personagem muito próximo de seu perfil/biografia pode remeter à egolataria da “autoficção”.

Eu acredito em literatura feminina, literatura gay, negra, masculina ou fantástica. Os rótulos existem. Existem os estereótipos. E cabe ao bom escritor fazer uso deles, negá-los ou ir além. Um homem pode fazer literatura feminina, um hétero pode fazer literatura gay. Não são escolhas fáceis, e frequentemente soam falsas. Isso não significa que mulheres só podem fazer literatura feminina, gays só podem fazer literatura gay. As pessoas não são apenas uma coisa, o escritor não é apenas um gênero.

Como homem branco classe média-alta, eu sou dominante; como gay sou minoria, marginal. Entendo o homem como “o outro” a ser conquistado. Tenho uma visão masculina de grande parte da vida. Escrever um “romance hétero” (e bastante machista), como BIOFOBIA, é mais fácil para mim do que escrever em primeira pessoa feminina (coisa que também já fiz em “A Morte Sem Nome”). Escrever em primeira pessoa jacaré tem seus desafios, mas também nunca haverá um réptil a me contestar.

Negar os rótulos é ato frequente de autores que se sentem reduzidos. “Não existe isso de literatura gay, é literatura e ponto.” Paia. Gays não precisam fazer necessariamente literatura gay – mas se a homossexualidade é a questão central da obra, é literatura gay. Se o livro trata de questões do íntimo feminino, é literatura feminina. Falar em “literatura masculina” só não é tão comum por, talvez, ser a maior parte da produção literária. O termo costuma aparecer quando é uma mulher que escreve do ponto de vista masculino – o que também não é frequente.   

A fobia do gênero (literário) é compreensível. Quando já se lê tão pouco no Brasil, enquadrar-se num rótulo é reduzir ainda mais o público (“livro de mulherzinha”, “livro de viado”). Para piorar, os autores que aceitam os rótulos são em sua maioria os que fazem uma literatura panfletária, que não apenas discute a questão (do gay, do negro, da mulher), mas querem defender essa questão, perdendo assim as sutilezas e contradições que podem rondar o tema.

Pessoalmente nunca senti preconceito no meio literário por “ser um autor gay”, mais por ser um autor “moderninho”, pelo caráter pop da minha imagem e escrita, pelo flerte com a literatura de horror. Nos bastidores, quem sabe a homossexualidade me tenha fechado e aberto portas; apenas nunca procurei cotas. 


Mais do que tentar se afirmar como o gênero dominante – “Literatura e ponto” – acho que homens, mulheres, gays e jacarés deveriam reafirmar suas diferenças, fortalecer seus gêneros próprios, tomar as rédeas dos rótulos. Eu fico com o “existencialismo bizarro”. Sou homem branco dos jardins, mas não quero escrever como um homem branco dos jardins. Quero meu espaço e quero respeito, não quero ser mainstream. Só faz sentido escrever se for para tentar fazer diferente. É o gosto pelos subterrâneos que me leva mais longe.


20/07/2015

NOVOS RUMOS


Após mais de dez anos de parceria, deixo a agência Mertin, que representava minha obra no exterior. Decidimos de comum acordo a necessidade de arejar. Fica o carinho e gratidão por todos, especialmente Nicole Witt, que mais do que uma agente foi uma amiga. Minha carreira agora segue novas configurações, com belas novidades em breve.

15/07/2015

ASDA


Asdinha, nossa amada coelha, morreu cedo demais.

Há três semanas fez uma cirurgia para retirada de um nódulo no focinho. Alguns dias depois, encontrei coágulos na bandejinha dela. A veterinária disse que deveria ser reação ao antibiótico. O sangramento parou, ela continuou normal por mais duas semanas, até este final de semana, em que os sangramentos voltaram intensos entre a urina.

Logo depois da cirurgia. 

Levamos segunda em outra veterinária, que deu vitaminas e pediu uma série de exames, de urina e ultrassom. Nem deu tempo de fazer. Segunda de noite ela ainda comeu verduras, comeu um pedaço de manga da minha mão, mas estava apática. Terça de manhã acordei com ela morta.


Tristeza demais. Horrível encontrá-la deitada de olho aberto. Fiquei tentando acreditar que ela ainda podia estar viva. Depois ainda tivemos de rodar pelo bairro com ela numa caixa de sapatos, procurando um lugar para cremar, com as pessoas parando o Murilo para tirar fotos.

Com Murilo. 

Não sabemos o que foi, se foi reação à cirurgia, se o próprio nódulo no focinho já era sintoma de outra coisa, se foi um problema completamente diferente. Coelho é um bicho frágil, e há poucos veterinários especializados. As duas que a atenderam eram especializadas em silvestres, mas não têm muito palpite do que aconteceu...

Claro que passa pela nossa cabeça uma porção de possibilidades – que poderíamos ter levado em outro veterinário desde o começo, que não deveríamos ter levado ela de volta para casa segunda do jeito que ela estava, mas de nada adianta.

Primeiros passos na minha casa.

Vai ficar para sempre uma saudade. É um bicho, viveu só um ano e meio, mas ocupava espaço demais na minha vida. Era minha companhia diária neste apartamento, carinhosa, aloprada, o primeiro animal de estimação que foi realmente meu, que me reconhecia como dono. Era uma injeçãozinha diária de amor. 

Última foto que tirei com ela. 

Fui o melhor dono que pude. Pesquisei muito para dar a melhor alimentação, o melhor ambiente. Não faltaram mimos, não faltou carinho. E ela sempre retribuía.

Agora ainda sinto como se ela fosse correr pela casa. Não acostumei que não preciso mais deixar a porta do meu quarto fechada, para ela não roer meus sapatos. O apartamento está bem vazio. 


 Quinta agora ela ainda estava assim...


Ainda não sei se quero/consigo ter outra. Não vou pensar nisso agora. Faz parte da vida, mas é por essas que a vida é triste.




11/07/2015

CRÍTICA PARA QUÊ?

Artigo que publiquei este mês no Suplemento Pernambuco, do Recife: 

O texto era para ser outro. O Suplemento Pernambuco me pediu a resenha de um clássico da literatura juvenil, que estava sendo reeditado. Por semanas o editor do caderno escreveu, ligou e relembrou a editora de enviar o livro, que teria apenas de me ser entregue num endereço central da cidade de São Paulo. Não veio. E não me surpreendeu.
 
Como autor, perdi a conta de quantas vezes tive de insistir com editora para que entregassem o livro a tal e tal jornalista, que seria garantia de resenha. Já ouvi da boca de assessoria que “resenha não vende livro”, para a editora é mais interessante matéria, entrevista ou o próprio release sendo reproduzido em jornal, coisa cada vez mais comum de acontecer, com redações preguiçosas e sucateadas. A opinião não importa.
 
Então a quem interessa a crítica literária hoje? O espaço nos jornais e revistas é cada vez menor. Cadernos literários (e revistas inteiras dedicadas à cultura, como a Bravo!) foram extintos nos últimos anos. A tiragem média da literatura brasileira contemporânea permanece nos três mil exemplares — é uma expectativa baixa de venda que muitas vezes não justifica o investimento no livro e o espaço dado a ele na mídia.
 
“Quem lê a crítica é o literato. A crítica serve para o livro ser conhecido entre os pares”, diz Paula Fábrio, 44, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 com Desnorteio, seu romance de estreia. Antes de ganhar o prêmio, seu livro praticamente não havia sido resenhado — o que desmistifica um pouco a ideia de que a crítica abre as portas para a premiação. “Comigo aconteceu o contrário. O prêmio me abriu para as resenhas,” diz ela “A forma como esses prêmios são estruturados garantem a leitura, mesmo sem um reconhecimento prévio.”
 
Andrea del Fuego, 40, tem experiência semelhante. Seu romance Os Malaquias, que recebeu o Prêmio Saramago em 2011, foi lançado por uma editora pequena (Língua Geral) e teve pouca repercussão de crítica antes do prêmio. Ainda assim, ela reconhece a importância da crítica para o autor. “Ela ajuda a situar o trabalho. Você percebe onde o livro se encaixa e onde não se encaixa. Sempre prefiro resenhas a matérias ou entrevistas. Prefiro o que não conheço.”
 
A crítica negativa nunca prejudicou as vendas — com a imensa maioria dos bestsellers sendo ou ignorados ou massacrados pela imprensa — e não impede nem mesmo que o livro seja premiado. Opisanie swiata, romance de estreia de Veronica Stigger, 41, não foi unanimidade nas resenhas literárias, ainda assim faturou o Prêmio Machado de Assis, o Prêmio São Paulo e o Prêmio Açorianos de Narrativa Longa em 2014. Stigger contesta a validade da crítica negativa. “Já não há muito espaço. Por que ocupar com resenha negativa?”
 
Del Fuego pensa diferente. “Na hora [em que se lê a resenha negativa] a dor é física. Mas depois eu prefiro [a não sair nada]. Gera uma discussão sobre o livro.”
 
Evandro Affonso Ferreira, 70, que ganhou o Jabuti em 2013 com o romance O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, vê com saudosismo a época de críticos como Alceu Amoroso Lima e Antonio Candido. “A importância do crítico antigamente era bem maior. A gente conheceu Raduan Nassar e João Antonio graças a essas pessoas.” Hoje ele acredita que a crítica ajuda a dar um pouco de visibilidade, em escala reduzida. “O prêmio e a crítica são importantes para a sobrevivência do autor, para ele ser chamado para eventos em que se recebe cachê”, completa Evandro. “Já a obra caminha independente disso. Nada é maior do que a obra.”
 
Mas se a literatura perdeu espaço na mídia impressa, proliferaram os blogs e vlogs sobre o tema. A maior parte é feita por leitores jovens, que oferecem uma visão menos embasada, porém mais apaixonada da literatura. “A crítica literária no Brasil sempre teve um tom de superioridade”, diz Raphael Montes, 24, autor revelação da literatura policial. “Isso é responsável por afastar o leitor da obra. Nos Estados Unidos, a crítica positiva gera frases de venda: ‘Melhor livro do ano’, etc. Aqui o crítico tem sempre um rebuscamento, parece que tem medo de elogiar.” Nesse contexto, ele aponta como a crítica de internet se aproxima mais do leitor médio.
 
Então qual é a função da crítica literária hoje? Não parece haver uma certeza nem um consenso. O que se conclui é que crítica não vende livro, não vende jornal, não leva aos prêmios. Mas contribui em mínima escala com tudo isso. Num meio tão limitado, é uma das ferramentas que o autor tem para tentar ocupar um pouco mais de espaço e ter um termômetro de sua própria produção. E, acima de tudo, é a satisfação de saber que o livro foi de fato lido, pensado, por um leitor especializado. É pouco. Mas o escritor brasileiro se acostumou a se contentar com pouco. Se abrirmos mão disso, estaremos desistindo do papel crítico da literatura em si.

08/07/2015

A REAL DO REALITY


Para tudo!

Murilo foi o eliminado do MasterChef de ontem. Faz parte do jogo. Talvez o prato dele tenha sido mesmo o "menos melhor", mas também ele nunca contou com especial simpatia dos jurados, seja lá por qual motivo.


O que importa é que fez bonito. Já ganhou melhor prato do dia; ganhou com a equipe que liderou; ontem mesmo fez o prato mais pontuado na primeira parte da competição. Mostrou sempre autocontrole, calma, educação e postura. Se fosse mais barraqueiro poderia ter aparecido mais, ter sido mais "personagem" no programa, focou sempre no prato. Certamente tinha gente mais experiente por lá, e eu acompanhei o esforço dele, o quanto ele estudou e evoluiu na cozinha.

Foi com esse prato que ele me conquistou...

Gostei bem que a sexualidade dele nunca foi uma questão no programa, foi apresentada de forma natural e nunca fez diferença. Eu estava lá com ele no primeiro episódio, ele me apresentou como namorado e foi só isso. E é assim que tem de ser - é preciso mais exemplos assim na mídia, de gente assumida, em que a sexualidade é só mais um detalhe.

Nós três, no primeiro programa (a ideia de levar a coelha foi da produção, claro). 

Triste ver que nas redes sociais ainda surge uma ou outra piadinha tosca, mas até que foi pouco, visto que é TV aberta, que chega ao "povão". Infeliz é humorista engraçadão, como o Oscar Filho, usar isso. Ele que fazia quadros de denúncia no CQC, solta uma pérola tão original como essa:



Pelas ruas, Murilo tem sido tratado com muito carinho. É gostoso de ver. As pessoas reconhecem, param, tiram foto. Fico orgulhoso. Ele agora precisa decidir como usar isso para redefinir sua vida profissional, com a qual ele está tão descontente. 

No Bossa, há poucas semanas. 

Para mim, tem sido divertido acompanhar os bastidores, assistir ao programa - até porque eu já assistia ano passado, de longe. Nesta temporada conheci todos os participantes, me tornei amigo de alguns. A Jiang mora aqui do lado de casa, e sempre saímos com ela. Já fomos também na casa da Aritana e da Carla. A Sabrina e a Cássia são umas queridas, o Lucas é muito gente fina. Não teve ninguém com que Murilo tenha tido treta realmente. 


Pessoalmente, minha maior decepção foi com a Paola Carosella. Já havíamos ido ao restaurante dela, eu  era fã, mas nessa temporada eu a achei extremamente antipática, não só no ar, principalmente nas declarações de bastidores e na mídia, pouco profissionais, desvalorizando o próprio programa. 

Mas não acabou! Como o programa já revelou, semana que vem tem uma repescagem, e não só o Murilo estará de volta, como os eliminados anteriormente, Gustavo, a Cássia, a Larissa… É torcer para ele continuar na competição. 

Enquanto isso, acompanhe-o por aqui, por aí. Nesta semana de eliminação, ele se torna o protagonista. Tem sido uma enxurrada de mensagens - ele ficou até alta madrugada respondendo pergunta dos internautas. Esta manhã ele já está dando entrevista para um telejornal da Band. 

E mais importante: da minha cozinha ele não vai ser eliminado. Aqui ele é sempre o favorito. Vai, lôro!


Nós, semana passada. 


03/07/2015

POLEMICUZINHO

Esta semana, circulando pelas bibliotecas periféricas de SP. 

Nunca procurei ser polêmico. Tenho preguiça. Já faço um esforço tremendo para me levantar da cama todos os dias, então não tenho energia para haters, frustrados e fiscais. Mas não sou hipócrita. Acho que é importante se posicionar sobre assuntos importantes. E hoje em dia qualquer um que tenha opinião – e que a expresse nas redes sociais - está sujeito a ser o crucificado do dia.

Semana passada foi uma piadinha. Uma brincadeira com aquela velha máxima de “não tenho nada contra os gays, mas...”,  invertendo o lado da moeda e pegando um traço discutível de tribo urbana coxinha, a qual qualquer um (inclusive eu) pode pertencer, vez ou outra na vida.



A imensa maioria dos comentários foi divertida, solidária. Mas não pude escapar de um ou outro fiscal:


O que me levou a uma resposta irônica:


E tudo me levou a pensar em como estamos em clima de guerra. Ou se fica em cima do muro em tudo, ou se está sujeito a levar pedrada, porque todo mundo se acha fiscal. Ironia e sarcasmo não existem (ou têm de ser explicados, justificados). O grande gênio hoje é um demente amanhã porque comeu o prato errado (no caso, um foie gras).

Mas a guerrilha não fica só nas redes sociais. Esta semana rodei por bibliotecas periféricas de São Paulo, para uma série de debates promovidos pela prefeitura, na maior parte das vezes sem público algum. Não foi totalmente em vão - além de poder conversar com as bibliotecárias, saber mais sobre a situação dessas instituições, circulei por uma São Paulo que eu não conhecia. E numa dessas viagens aconteceu isso:



Nem aí escapei da patrulha:



Então hoje acordo e vejo na minha timeline uma "amiga" compartilhando bolsonarices a favor da minoridade penal e atacando Jean Wyllys. Fui dar uma olhada em quem era. Encontro uma foto da capa do livro que ela publicou - que é uma avalanche de equívocos, desde título, foto, fonte, leitura, arte, proposta... não dá nem para começar a explicar o erro (e desculpa, não vou compartilhar aqui, mas imagine o pior). Compartilhei a foto da capa no FB, sem nenhum julgamento objetivo, deixando apenas claro que "este é o livro de alguém que defende o Bolsonaro."

Foi maldade. E certa covardia.  Porque no meu mural majoritariamente "esquerdista" e literário, é claro que a menina seria apedrejada. Estava jogando para os lobos. O povo até que foi bem humorado - porque também a capa do livro não dava para levar a sério - mas que rolou um bullying coletivo, rolou. Me arrependi e apaguei o post. Postei no lugar isso aqui:


Novamente muitos me apoiaram. A própria menina se manifestou dizendo que tinha muito orgulho do livro e continuando a discussão, expondo seu nome e livro (e eu tentando salvar a barra delaaaaaa...) de certa forma parecendo curtir a luz que a "polêmica" deu ao livro. Então me arrependi de ter me arrependido.

A mim parece que uma guerra civil está eclodindo. É o que a intolerância, a ignorância, a crise e a burrice estão gestando. Este post é também uma maneira de eu registrar essa discussão de uma forma um pouco menos fugidia do que o Facebook. Também precisamos conservar nossos meios de reflexão e memória, enquanto tudo desaba...

Pelo menos o debate de hoje, na Biblioteca Mario Schenberg, foi massa. E o primeiro que fui de galochas!

28/06/2015

NORA WEBSTER

Resenha do livro de Colm Tóibín, que assinei na Folha deste final de semana:


Narrativas de luto frequentemente pendem para o melodrama, como uma

necessidade de expurgo, tanto para o autor que as arquiteta quanto para o leitor

que as busca. O texto alcança um patamar superior quando consegue transmitir a

dor através de imagens sutis, aproximando-se do vazio da perda. Essa é uma

conquista inegável de Nora Webster, romance mais recente do irlandês, Colm

Tóibín, que estará no Brasil novamente na Flip, na próxima semana.


A protagonista-título é uma mulher de quarenta e poucos anos que

perdeu recentemente o marido, vítima de uma doença terminal que se prolongou

por meses. Enquanto situa-se na viuvez, Nora ainda tem de buscar meios de

sobreviver e criar os filhos, dois meninos em idade escolar e duas meninas que já

caminham para a independência. Letárgica, é guiada pela comunidade onde vive

no sudeste da Irlanda dos anos 1960, tendo sua vida e a criação dos filhos

decidida por todos que a cercam. Ela volta a trabalhar, estabelece novas relações

de amizade e redescobre o prazer pela música, porém sempre flutuando alheia

pelos acontecimentos.


O resultado pode ser visto como um romance muito delicado, mas que

resvala no insosso. A banalidade do cotidiano é justificada de maneira inteligente

pela apatia da personagem diante da vida, porém na prática o que se está

narrando é um cotidiano banal. E se por um lado a compreensão da alma

feminina por Tóibín impressiona, não deixa de ser um “livro de mulherzinha”.


“Nora pôs o disco para tocar e examinou a fotografia da capa, olhou os

homens com seu aspecto moreno e depois a jovem entre os dois, que parecia mais

feliz quanto mais ela a observava.” Passagens como essa pessoalmente me

fizeram gritar por mais sangue! Sabor! Testosterona!  No final, me pareceu um

exemplo clássico de romance que seria mais legal se fosse pior. Ou concluo da

mesma forma dizendo: é bom, mas é chato.

Avaliação: regular

23/06/2015

A ARTE DE MENTIR DIZENDO NADA ALÉM DA VERDADE


Escrevi para o site da Rocco um pouco do processo de tradução de Vidas Reinventadas, um dos livros mais bacanas que fiz recentemente. Aqui: 

Assim como a escrita, a tradução exige técnicas, que começam com um profundo conhecimento da língua, mas que nunca se restringem a isso, assim como nunca se restringem à técnica. Como um autor muito intuitivo, sempre adotei essa mesma postura na tradução, tentar “sentir” o tom do texto, viver a história, mais do que decodificá-la. Na prática, isso significa que faço uma tradução bem bruta, passando pelo texto de maneira grosseira, e revisando/readequando conforme avanço. Geralmente começo a tradução com o meu vocabulário (ou da tradução anterior) e vou encontrando aos poucos qual seria o vocabulário do texto, do personagem, quem é o personagem. Muitas vezes, ao chegar ao final do texto, encontro as melhores expressões para o começo, uma sugestão de título, mais ou menos como acontece com a escrita dos meus livros.

Dizer que Vidas reinventadas é um romance peculiar seria uma nulidade. Porém é um texto em que esse tom particular fica mais em evidência do que nunca. Para começar, já é narrado por um imigrante soviético (autor e narrador), com um inglês bem colorido. As expressões que ele usa não são as expressões que se usaria em inglês e não podem ser traduzidas pelas que se traduziriam em português. A história em si trata de um escritor tentando neutralizar seu tom de escrita para contar a história de outros – nesse processo sou tradutor de um tradutor fictício. Expor exemplos aqui seria detalhar um processo que provavelmente não interesse ao leitor (“só quem pode avaliar o trabalho do tradutor é quem não precisa dele”), mas a busca foi sempre manter as “cores” do texto original, uma certa estranheza com fluidez, sempre com fluidez. Obviamente minhas próprias raízes familiares na região (a Armênia, parte da antiga União Soviética), e conhecer pessoalmente um pouco de lá (Rússia, Estônia…), me ajudaram muito a visualizar o universo proposto por Fishman.

Talvez todo grande escritor seja universamente estrangeiro, observa o mundo de fora e tenta colocá-lo em palavras. Quem se propõe a escrever na sociedade de hoje já está contra a corrente. Mas Boris Fishman tem uma boa desculpa, a melhor desculpa. Para soar estranho, deslocado, e ainda assim encantador. Vidas reinventadas é a descoberta de um mundo novo, com leis próprias, a cada página.




Sobre o livro: 

Aclamado romance de estreia do russo radicado nos Estados Unidos, Boris Fishman, Vidas reinventadas é um livro sobre família, Holocausto, os limites entre a ficção e a realidade. Com uma linguagem fluida e elegante e uma história cheia de desvios e nuances, Fishman apresenta o protagonista e alter-ego Slava Gelman, um aspirante a escritor da revistaCentury.

Descendente de judeus russos que imigraram para os Estados Unidos quando ainda era criança, Slava vem se distanciando da família que vive no Brooklyn para se tornar mais americano e fazer algum sucesso escrevendo na América. Isso começa a mudar após a morte de sua avó – uma sobrevivente de um gueto nazista em Minsk – e de um pedido inusitado de seu avô: forjar um relato de como a avó sobrevivera à guerra.

Dois dias antes de morrer, a avó recebera pelo correio um formulário do governo alemão em que sobreviventes do Holocausto deveriam relatar suas histórias a fim de receberem uma indenização. Sua avó não falava sobre o assunto e nunca escreveu a carta. Seu avô, também um sobrevivente, não se enquadrava exatamente nos critérios do governo alemão para se candidatar: fugiu para o Uzbequistão no início da guerra, nunca esteve em um gueto ou um campo de concentração.

A princípio relutante, Slava acaba cedendo e escreve um relato para ser enviado no nome do avô. Em seguida, começa a escrever para toda uma comunidade de velhos imigrantes judeus da União Soviética, entrando de cabeça em um turbilhão de histórias – inventadas – sobre o Holocausto ao mesmo tempo que se reconecta com sua avó, suas origens e o restante de sua família. Tratando de temas muito sérios com humor, ironia e até mesmo aspereza, Boris Fishman nos apresenta questões sobre a verdade, a justiça e a história.

Com personagens tão humanos e verossímeis que quase podemos ouvi-los falando, Vidas reinventadas aborda temas sensíveis sem vitimização, o que confere profundidade à história. Aclamado pela crítica e carregado de referências literárias, desde Dostoiévski e Tolstói até García Márquez e música pop russa, o livro é repleto de jogos de linguagem, discutindo as limitações da língua adquirida, os contrastes com a materna, com pitadas de hebraico e ídiche.

05/06/2015

TEMATICAGAY


Semana que vem, reencontro o querido amigo Marcelino Freire para discutir sobre literatura e homossexualidade. 

Terça-feira, 9 de junho, às 19h30, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37)
com: Marcelino Freire e Santiago Nazarian 
mediação: André Fávero 


Entrada franca e tudo mais. Apareça. 

01/06/2015

OS CRENTE PIRA


Lia hoje sobre a atual polêmica do Boticário, boicotado pelos evangélicos por apresentar um casal gay em sua campanha de dia dos namorados. Voltou também a discussão do conceito de “família”, sendo formado apenas por homem e mulher. Nesses temas, sempre chovem comentários da crentaiada toda, um povo que nunca teve acesso à educação, mas que agora tem internet e poder de consumo (e de boicotar).

“É por isso que o Brasil está assim, sem valores”, pregam alguns que vêem a aceitação da homossexualidade como um sintoma de decadência moral do país. Gente certamente que não viajou muito, não parou para pensar que a aceitação da homossexualidade é coisa de país rico, de primeiro mundo.

Um amigo gay militante falou em “emburrecimento” da população. Não acho que a população esteja mais burra – é só que os ignorantes agora têm mais meios para se expressar. “Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo”, é um clichê repetido à exaustão. O clichê mais óbvio nunca é cogitado: “Deus não existe.”

Sou ateu, sem convicção. Não acredito em Deus, mas não tenho certeza de que Deus não exista – como poderia ter? Acima de tudo, acho muita soberba do ser humano tentar entender o seu “criador”, se é que há um criador. Se Deus existe, está muito bem escondido - talvez prefira ficar assim. Se o ser humano foi “criado” por alguém, como pode procurar entender esse ser? Pode ser uma criação de laboratório, alienígenas, forças desconhecidas – o que me parece óbvio é que se algo foi capaz de criar a vida, não pode ser explicado por ela.

Venho de família católica, mas nunca fui batizado. Meus pais nunca acreditaram, e sabiamente se abstiveram de batizar os filhos, já que não iriam hipocritamente seguir os rituais (ao contrário de tantas famílias que batizaram apenas para seguir a tradição de batizar). Estudei em boas escolas. Li bons livros. Pude entender um pouco que a ideia de religião, Deus, Jesus e tantos outros muda conforme a época, conforme o interesse. A Bíblia pode ser interpretada de diversas maneiras.

Sei que é certo preconceito – há grandes pensadores com crença religiosa – mas, para mim, de antemão, se o cara acredita em Jesus-Deus-Bíblia, eu já fico com pé atrás. Já acho que é um coitadinho suburbano que cresceu sem uma boa escola, que teve a educação e o lazer centralizados na igrejinha da rua. É como um adulto que ainda acredita em Papai Noel. Aliás, se o cara acredita em Jesus, tem de acreditar em Inferno, não? Então o cara acredita num diabo chifrudo queimando pessoas... Acredita em possessão, exorcismo? Acredita também em lobisomens? Bem, certamente acredita em fantasmas, não? Acreditar em Jesus não obriga que se acredite em fantasmas, zumbis? Enfim, é um adulto que acredita em contos de fadas.

Os que acreditam cegamente... tapam os olhos para os próprios pecados. Tanto moleque comentando por aí que gay vai queimar no inferno, que ser gay é errado. Deve ser tudo virgem, né? Claro. Porque transar antes do casamento é pecado...  Por sinal sexo oral também, não? Já que não reproduz... Isso sem mencionar tantos e tantos outros pecados citados na Bíblia e cometidos diariamente por todos, tipo usar roupas com tecidos diferentes, cortar a barba, etc, etc. Enfim, é uma condenação seletiva. Sinceramente, a Bíblia é só uma desculpa que esse povo usa para outros problemas que tem com a homossexualidade.

Não tenho certeza nenhuma. Não tenho certeza de que Deus, Jesus, nem coelho da Páscoa não existam. Só acho que que cobrar uma fé cega, irracional, é burrice. Devemos cada um fazer o melhor, seguindo o puro bom senso, educação. Acreditar é o de menos. Se Deus existe, ele não precisa que acreditemos nele. 

22/05/2015

LITERATURA E CINEMA


Terça agora participo novamente do Sempre um Papo, dessa vez com meu querido amigo, bróder e supervisor Marçal Aquino.

Vamos discutir sobre literatura e cinema, o mercado de direitos autorais, as adaptações para as telas, técnicas de roteiro. Eu venho trabalhando cada vez mais com isso nos últimos anos. Marçal é dos melhores roteiristas do Brasil, já trabalhou em diversos filmes, atualmente é roteirista da Globo e está supervisionando o roteiro de BIOFOBIA, que estou escrevendo com Renato Ciasca. Eu vou ter de me controlar para não tomar o lugar de mediador, porque quero mais perguntar do que falar.

Também será aberto a perguntas do público e no final vamos autografar nossos livros mais recentes. Apareçam!




PRÓXIMAS PARADAS

Semana que vem, em BH. Seguem os lançamentos. Semana que vem estarei em BH, para mediar um bate-papo com o querido Marcelo Nery, que está la...