30/10/2005

QUERO ESTANCAR O SANGUE

Ahhh...

Vocês não têm idéia do que é esse show da Marina Lima (Limão) no Parque do Ibirapuera. É sério. Eu sou um fã parcial dela. Gosto muito, mas não gosto de tudo. Prefiro as coisas "pós-queda" e comecei a ouvir mais recentemente. Mas, sinceramente, esse show que ela montou no Ibirapuera é uma das melhores coisas que eu assisti na vida.

Ok, explico.

O Auditório Ibirapuera é um novo teatro (que está sendo inaugurado no parque de mesmo nome). Parece que foi criado para englobar tantos espetáculos internos (pagos$$$) quanto aqueles shows gratuitos ao ar livre. Por esse motivo, o palco tem dois lados. Ele é virado para um auditório finíssimo, de 800 lugares, com poltrona como de cinema, de onde se tem uma visão privilegiada de onde quer que se sente. Mas tem os fundos para o próprio parque. E esse fundo fica normalmente fechado por uma parede móvel.

O show de Marina Lima não foi baseado em nenhum disco. Ela não está lançando nada novo. O que me parece é que queriam inaugurar o teatro e aprovaram o projeto da produtora dela. Escolha perfeita. Não é um show de música, é um espetáculo multimídia com projeções de vídeo, performance, laser, música e teatro. Marina entra com uma versão de Le Tigre. Em seguida canta músicas inéditas, tudo com luzes profundas, slides, modelos performáticas e um tom pesadíssimo. Coisa ultra gótica. Aliás, Marina sempre teve disso. Quem duvida, deveria escutar a versão que ela faz de "Nervos de Aço", de Lupicino Rodrigues. Acaba com a melodia da música e transforma numa poesia maldita. Termina desmaiando e sendo carregada do palco. E o show tem muito mais.

Marina está com mais voz. Ainda sofre para cantar, o que eu considero positivo, mas com certeza melhorou desde o acústico. Não tem mais medo. Em determinado momento, ela canta algo como "por que não existe sauna gay para mulheres?" e se abre uma cortina com manequins vivas simulando uma sauna. Ela também faz uma versão de Laurie Anderson em que diz, "Eu estava na Loca, é, a Loca, aquele inferninho", haha. Porra, a mulher faz Le Tigre, Laurie Anderson, A Loca, o que falta para ser rainha do underground brasileiro?

Tem aqueles momentos previsíveis de "Ainda é Cedo", "Acontecimentos" e outros hits inevitáveis, mas tudo entra no momento certo e só serve para evitar que o espetáculo seja um excesso de melancolia e tragédia, que eu considero lindo.

O final, afe, vocês não fazem idéia. É uma coisa que certamente só será feita aqui em São Paulo, aqui, neste teatro, e aqui, neste show. Ela canta "Para um Amor no Recife". Os versos: "eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você." Tudo muito bonitinho e compreensível, então o fundo do teatro se abre e você percebe finalmente que o palco também dá para um gramado imenso na noite do Ibirapuera, e que lá no fundo estão mesinhas montadas com as modelos vestidas de branco, e Marina vai embora andando pelo gramado, no meio da garoa, em direção às mesas, ainda cantando "que eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você." A impressão é que estamos vendo Marina morrendo, passando para o outro lado, enquanto continuamos cobertos, seguro da garoa, dentro do luxuoso teatro.

Para mim, essa imagem vai ficar para sempre.

E o melhor de tudo é que um show desses foi apenas 15 reais. Não entendo. Certamente deve ter sido pago pelos patrocinadores, para inauguração do teatro, porque tem uma estrutura absurda de luz e som. Quem estiver em São Paulo, tem mais este domingo (30) e sexta, sábado e domingo da semana que vem. Depois nunca mais. Em lugar algum. Porque com esse lance dos fundos do palco se abrirem é só mesmo aqui e agora.

E para quem não é de São Paulo, digo que é o momento ideal para vir. Cheio de atividades culturais. Estamos também no meio da Mostra de Cinema. Eu sempre consigo pescar umas pérolas, que depois carrego pelo resto da minha vida e que parece que ninguém mais assistiu. Mas a deste ano eu ainda não encontrei. Fui ver um filme interessante ontem. "Dumplings" (chinês), sobre uma mulher que faz bolinhos com fetos humanos para conservar a juventude. Coisa bem nojenta, com direito a babas e fluídos, bebezinhos mastigados e molho pardo, o que garante um certo interesse. No final da sessão, encontrei a (senhora Gianechinni) Marília Gabriela, e não resisti. "Fale a verdade, Marília, você anda comendo uns fetos." Ela apenas riu.

Enfim, já que pergurtaram, meu debate com Elisa Nazarian (a detentora do gene que deu origem à maldição) foi uma delícia. Lugar pequeno, público acolhedor. Ficamos lá quase duas horas, lendo contos, conversando com o público e lançando promoções instantâneas. Foi muito além do que a total desorganização (ou falta de) do Corredor Literário Prometia. Para vocês verem que não sou fresco (bem, há controvérsias) nem elitista, não havia mediador para nosso debate, nem microfone, nem mesmo luz! Eu precisei de uma certa insistência para conseguir que ligassem luzes sobre nossas cabeças para que ao menos conseguíssemos ler nossos contos. E eu mesmo fui o "mediador" do debate (eu esperava que os fundos se abrissem e eu saisse caminhando pela Paulista recitando "não quero mesmo viver para sempre, apenas experimentar mais uma forma de morrer"). É, baby, isso é ser escritor no Brasil.

Enfim, foi uma semana boa. Culturalmente ótima. E eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você.


PARA UM AMOR NO RECIFE (Paulinho da Viola)
A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que eu voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo esse tempo passe
Para beijar você

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

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