08/08/2014

A HISTÓRIA DO HORROR

"Schatten"

Terminou ontem o ótimo curso que eu e Murilo fizemos de "História do Cinema de Horror", no MIS. No mundo dos escritores há uma infinidade de cursos, oficinas e laboratórios truque, de autores aventureiros que inventam malabarismos para pagar as contas no fim do mês. E, com um tema desses, era fácil o curso cair na picaretagem.

Mas o professor Carlos Primati - jornalista, crítico e historiador - foi mesmo um mestre no tema. Estou longe de ser um especialista, mas sou fã do gênero, tenho bons livros e assisti a muita coisa. E com certeza ele acrescentou dando panoramas de época, biografia de cineastas, histórias de bastidores, teorias sobre as diversas subdivisões do gênero.

Um dos temas que sempre me perturbam é não só a falta de tradição de obras de gênero no Brasil (terror, fantasia, suspense), como a ditadura do realismo. O cinema brasileiro sempre tem de retratar o "Brasil", sempre tem de mostrar uma "realidade", seja ela da Copacabana bossa-nova, seja das favelas, do sertão. Não há espaço para sublimar. Isso vem mudando lentamente, com filmes mais subjetivos e universais, mas ainda não é possível dizer que exista uma produção fantástica consistente no país.

Discutimos um pouco sobre isso quando chegamos à aula que tratava do terror mundial - e de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, basicamente o único cineasta dedicado ao gênero que teve certo reconhecimento por aqui. Questionei por que o sucesso do cineasta no final dos anos 60 (com "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver") não estabeleceu o gênero no Brasil, com uma série de outros cineastas investindo no terror. O mau exemplo administrativo de Mojica - que nunca conseguiu ganhar dinheiro com sua criação - e a censura pesada da época são parte da explicação do gênero ter sido enterrado, mas apenas uma parte. Porque mesmo na literatura, o terror e o fantástico ficaram sempre restritos ao infanto-juvenil (de Monteiro Lobato a André Vianco). Não há uma literatura de terror brasileira do século XIX reconhecida, por exemplo.

Também discuti um pouco sobre isso na mesa que tive com o Raphael Montes, no Sempre um Papo. Ele apontava o preconceito que sentia com a literatura policial, e o desbravamento que tem feito com o sucesso de seu Dias Perfeitos. Mas se a literatura policial no Brasil é restrita, ainda se pode dizer que há obras e autores reconhecidos e de sucesso (vide o eterno Rubem Fonseca). Em terror não há. Embora alguns autores até tenham vendas bem expressivas (vide Vianco), são renegados à literatura de entretenimento. Parece que não se pode fazer terror com densidade no Brasil.

Primati apontou diversas vezes esse preconceito de certa forma universal com o gênero - que em parte tem fundamento, porque a grande maioria dos filmes de terror é divertimento descartável voltado ao público adolescente. Porém quando o terror é revestido de lastro, estofo e simbolismo, tem uma força sem igual (vide "Psicose", "O Bebê de Rosemary", "O Exorcista", "O Iluminado", "O Silêncio dos Inocentes", "Anticristo" e tantos outros, alguns mais discutíveis pelas imagens gráficas e/ou produção barata que comprometem alguns aspectos, mas garantem a força do gênero.)

Enfim, foram discussões bem bacanas que poderiam ter rendido mais duzias de aulas, mas que tiveram de ser abreviadas pela vastidão de material a ser apresentado (foram 18 horas de curso total, com trailers, documentários e trechos de filmes) e também pela quantidade inchada de alunos em sala (por volta de cinquenta, o que limitava as discussões; eu mesmo me contive para não ser sempre o chato que levantava a mão para fazer uma pergunta ou acrescentar uma teoria.) Deu vontade de mais.

O próximo curso do Carlos Primati é de ficção científica nos anos 1950 - que por ser um tema mais restrito talvez permita discussões mais aprofundadas - para quem interessar, é só ver na página do MIS. Ficção científica não é mesmo minha praia, então vou pular esse. Se rolar um curso específico de "história de cinema de horror no Brasil", não perderei. Eu mesmo não me considero um autor de gênero - mas ainda chego lá; talvez eu precise de referências mais próximas - tenho um flerte com o terror, mas estou mais próximo do thriller e do suspense no meu existencialismo bizarro. Fico feliz em ver que o cinema brasileiro lentamente caminha nessa direção. (Aliás, começam as conversas sobre um possível filme de BIOFOBIA...)

Permaneço aqui no misto de esperança e desânimo de sempre, desbravador e resignado, tentando trazer um pouco de sangue ao nosso dia-a-dia.

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