13/08/2014

A TRISTEZA DO SAMURAI

Outra resenha minha publicada semana passada na Folha: 


Uma jovem advogada prospera na carreira ao conseguir condenar um inspetor acusado de tortura. Quarenta anos antes, outra mulher tenta fugir do marido contra o qual planejava um atentado. Seu filho mais novo sofre de estranhos distúrbios e apresenta, ainda novo, um comportamento violento. Seu filho mais velho ingressa no exército para fugir do pai, um político autoritário. Essas e outras histórias aparentemente desconexas vão se interligando lentamente nas 450 páginas de “A Tristeza do Samurai”. De fato, até metade do romance de Víctor del Árbol, o leitor pode se encontrar perdido sobre qual é exatamente a trama, quais são seus mistérios (e qual é o sentido do título).
“A Tristeza de Samurai” é um ambicioso misto de drama histórico, thriller político, de espionagem e policial. A combinação não deixa de gerar um pastiche tarantinesco, com centenas de momentos recosturados de clichês cinematográficos: um menino passeia com seu cachorro, que acaba encontrando um corpo; um psicopata deformado é mantido num porão como animal de estimação dos mafiosos; o policial perseguido por matadores acaba morto por sua própria esposa abusada. Entretanto, se Del Árbol recicla imagens já vistas, o faz com extrema competência. A arquitetura do romance é impressionante, com diversos núcleos se encaixando em quarenta anos de história. A trama segue do começo dos anos 1940 até começo dos 80, servindo também de panorama da ditadura franquista na Espanha.
Beneficiado por uma melhor edição original, o texto poderia ter se livrado de momentos desnecessariamente explicativos e de lugares comuns (“se sentia vazia como uma noite sem estrelas”, “usada como uma ovelha entregue aos lobos”, “hesitava como um passarinho que vê, um belo dia, lhe abrirem a porta da gaiola”). Os diálogos são invariavelmente eloquentes demais para quem os profere, e tudo é demasiado encaixado para ser feita uma leitura realista – mas pode ser aceito sem problemas num contexto de gênero. Longe de ser alta literatura, A Tristeza do Samurai cumpre os diversos desafios a que se propõe e está longe de ser uma obra medíocre. Como romance policial, ganhou o Prêmio Polar em 2012.

Avaliação: Bom 

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