
16/11/2007

11/11/2007
Nada se compara...Minha atual obsessão em DVD é o “Goodnight, Thank You. You’ve Been a Lovely Audience” da Sinéad O’Connor. Está longe de ser o melhor registro dela. Ela não está na melhor forma, nem física nem vocal, mas já vale só pelos clipes hipnóticos minimalistas do álbum Sean-Nós Nua, como “Peggy Gordon” e Molly Malone. Não pode existir melhor cantora-compositora na face da terra...
Daí chego na casa de um amigo e ele está vendo MTV americana (?), uma dessas cantoras brancas/negras genéricas de R&B, e ele comenta como ela é genial, como é fantástica, que voz incrível. E certamente essa cantora está vendendo milhões, é adorada por milhões, ela sim se torna uma referência...
Merda.
Coisas como essas é que reforçam nosso caminho particular, a convicção que ainda podemos fazer algo significativo, construtivo, mesmo que não mudemos o mundo inteiro. O mundo inteiro não precisa ser mudado, só precisa ser destruído. Não vale a pena fazer arte para tentar mudar milhões, só para salvar a meia dúzia que importa.
Ou Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, ...
Woody Allen, Fellini, Almodóvar, Tarantino...
Caetano, Chico, Gal, Madonna…
(Outro dia comprei um monte de peixinhos pequenininhos inteiros, com cabeça, tronco e membros e olhos e espinhas e escamas, que deslizavam por entre meus dedos enquanto eu os jogava sobre o azeite e alho na frigideira. Me deu certa aflição - e certo poder - perceber que eu poderia comê-los assim, inteiros, como seres humanos, partindo seus esqueletos com meus dentes e engolindo sem nem travar a minha garganta. Engoli. Mas acho que prefiro continuar só com os filés.)
Livre-me dessa garrafa. Materialize meu gênio. Fique comigo e não me deixe sozinho. Não me abandone numa prateleira empoeirada. Esse é meu desejo atendido.
05/11/2007
Recife? Não, Brasília.Brasília acabou dando certo. Depois de tanto calor, depois de tanto sofrimento, cheguei ao último dia enturmado, localizado e aproveitando um agradável clima de outono.
Eu não moraria por lá. Acho que deve ser um local muito solitário para se viver, pior ainda sem carro. Tudo é longe, ermo, vazio, melancólico. Eu tinha de caminhar horas todos os dias, para almoçar ou ir na academia, e não encontrava mais ninguém caminhando na rua (mas encontrava calangos, ratos, sapos, papagaios e corujas, o que me lembrava sempre que eu estava no meio do cerrado. Por sinal, me disseram que Brasília é uma cidade grande que acha que é uma cidade do interior. Eu não sei se não é o contrário, uma cidade do interior com ocupações de cidade grande. As pessoas ainda se encontram nos parques – dentro de seus carros – comem cachorro-quente na praça....).
Depois de quinze dias trabalhando por lá, estabeleci uma rotina, contatos, fiz amigos que surgiram tantos entre leitores quanto entre o público da mostra e gente que conheci por acaso. Foi bom viver essa vida paralela, é bom ainda poder ter outras vidas. Lá eu era o tradutor que fazia legendas no cinema, morava na asa norte, treinava na academia Dom Bosco...
A mostra em si foi cansativa, bem cansativa. Fiz 68 sessões (incluindo as de São Paulo), além de ter visto todos os filmes antes, e traduzido. Então no final os filmes se tornaram insuportáveis, e eu só conseguia acompanhar as sessões com um enorme copo de café ao lado (e veja só, ainda ouço a trilha do Totoro).
Teve o lado interessante, claro, o público fiel que você encontra todo dia, que acaba virando uma turma, como colegas de escola. Também é interessante acompanhar o mesmo filme passado várias vezes, com diferentes públicos. Você já sabe quando o pessoal vai rir, quando vai chorar, estranha quando eles não reagem, sentem as diferenças de cada sessão. Acho que deve ser parecido com a experiência de ser ator de teatro.
E o público de Brasília foi muito mais educado do que o de São Paulo. Todo mundo aliás, os funcionários do cinema, os seguranças, gente simpática e solidária. E olha que tivemos vários problemas com versões de filmes, de legendas, com pane nos equipamentos...
Já os programas em Brasília não foram muitos, e não foram grande coisa. Acho que o mais legal foi beber vodca de madrugada na Esplanada dos Ministérios, vendo as corujas, os monumentos, ouvindo Cláudia Wonder cantando “eu não sou uma dama, eu sou um travesti”, me sentindo num plantão ébrio do Jornal Nacional. E como a cidade é pequena, encontrava várias vezes as mesmas pessoas. No final, posso dizer que formei uma turma de amigos. Vou sentir falta deles.
E dia desses, quando caminhava por lá, peguei uma chuva de rachar. Fui me abrigar no Museu Nacional e... veja só, estava tendo a mostra de premiação da Fundação Conrado Wessel. Para artes e fotografia, o prêmio é bem tradicional, e continua com tudo. Para literatura, que eu saiba, só teve o ano em que eu ganhei. Acho que não deu muito certo. Acho que eu dei azar ao prêmio. Hahaha. Também devo dizer que o prêmio não teve muita repercussão na época. Acabei aparecendo mais pela participação na Flip naquele ano (pela iniciativa da Planeta) do que pelo prêmio em si (bem, de certa forma a Planeta me descobriu pelo prêmio, então está valendo).
Agora é voltar para a (falta de) rotina de minha vida paulistana. Talvez seja hora de voltar a sair por lá, reencontrar os amigos que ficaram distantes, os amores que não tenho, aquele que suspira do outro lado de tela... Mas antes de tudo, terminar meu livro novo (a primeira versão, claro, para eu rever e retrabalhar até o lançamento no segundo semestre do ano que vem).
Ia contar aqui da edição dupla de “Tubarão” que trouxe e assisti no laptop – com horas e horas de bastidores, erros de gravação, cenas excluídas, ótimo – mas não entra no ritmo do post... Ah, bem, agora já entrou. Então recomendo. É ótimo não só pelo filme, mas como estudo de como se faz um filme de monstro, e uma das maiores bilheterias da história do cinema (que levou sete meses para ser filmado, quando Spielberg tinha apenas 26 anos).
No final, fica na minha cabeça a música que eles cantam:
Show me the way to go home
And it got right to my head
( hum, agora lembrei que estou com um laptop, este vôo está demorado e tenho o DVD de “Snakes on a Plane” na minha bagagem...)
De volta.
31/10/2007
O garoto revirava-se na cama, tentando dormir. Era difícil ultimamente. O braço quebrado, os pesadelos com a professora, tornavam difícil relaxar. Ele ficava lá, em sua cama, rosto colado ao travesseiro como um filé de frango numa bandeja de plástico. Via as luzinhas acesas, verdes, vermelhas, as luzes de stand-by do computador, aparelho de som, televisão... Ohava essas luzes como sua constelação particular. A via láctea achocolatada que tornava mais doce a morosidade de seus sonhos. E havia ainda uma outra constelação no quarto, mais antiga, primitiva, de outras vidas... Adesivos no teto do quarto, que ele nunca antes notara. Adesivos fosforescentes que brilhavam na forma de estrelas, luas, discos voadores, cometas. Deviam estar naquele apartamento há anos, grudados pelos antigos moradores, antigas crianças. Foram tapados por uma nova camada de tinta, que com o tremor do prédio, descascara. O tremor do prédio descascou a tinta que foi pintada sobre os adesivos, revelando os antigos sonhos de uma criança abandonada. O que se fez daquela criança que colou os adesivos no teto? Talvez também os tivesse colado na parede, que agora era tapada por pôsteres de Gerard Way, Ville Valo, Nicolas Graves... O que se fez daquela criança que precisava ampliar as paredes de seu próprio quarto, que precisava dar profundidade e abrir nela uma constelação? Agora era um adulto trancado num escritório sem janelas? Ou um mendigo dormindo à luz do luar? O garoto olhava àquela antiga constelação, sua constelação eletrônica particular e sabia que também iria sair dali. Sabia que um dia iria mais longe, iria avançar no universo, havia um universo inteiro para avançar. Era só preciso ter paciência. Era só preciso agüentar firme o finalzinho da infância. Era só cruzar aquela dolorosa adolescência, que ele teria sua própria vida, sua própria constalação para viver. Era só preciso fechar os olhos, e dormir.
E quando estava finalmente pegando no sonho, notou duas estrelas mais brilhantes. Estrelas cadentes? Duas estrelas verdes piscavam para ele. De onde vinham essas luzes no quarto, de qual aparelho ou qual adesivo?
O garoto ouviu o rosnado.
Num reflexo, esticou o braço ainda quebrado. A dor lhe despertou de vez. Acendeu a luz da cômoda. Ela estava lá. Ela estava lá. Pior do que nunca, estava no quarto.
Olhava para ele com grandes olhos verdes, brilhantes. Rosnava e sua boca pingava uma saliva viscosa. Sua pele estava amarelada, manchada, com grandes olheiras em volta dos olhos. Os dentes tortos à mostra, furúnculos enormes no pescoço. Completamente nua, os seios murchos. O corpo todo apodrecendo, fedendo, as pernas tortas. Ela estava lá em seu quarto, transformada em zumbi.
Feliz Halloween! De presente, este trecho. Do meu livro novo...
Estou conseguindo trabalhar bastante no livro. Também, não tenho feito mais nada aqui em Brasília. Por aqui, nada de gostosura e menos ainda de travessura. Só trabalho no livro e nas sessões do CCBB (que continuam lotadas).
O único dia que tive de folga aqui, segunda, aproveitei para... ir ao cinema! Vi "Jogos Mortais 4", não sei por quê. Ah, sei, porque o três era bem legal, mas esse 4 é chato demais. Cheio de reviravoltas sem emoção. Um bando de personagens sem graça, sem empatia, sem carisma. Eu também não entendi direito, é muito complicado. Haha. Os personagens são todos parecidos, e tem todos nomes de detetive. Me senti naqueles filmes orientais em que você não sabe quem é quem, porque todos tem nomes parecidos e olhos puxadins. "Jogos Mortais 4" é assim, com caucasianos.
Mas a primeira cena é legal. Já começa com uma autópsia 10o% gore.
Falando em Halloween, zumbis e cinema, quero ver o "Halloween" novo, dirigido pelo Rob Zombie. Não estreia hoje? Parece que é ao mesmo tempo um remake e uma "prequel", ou seja se passa antes do original, mostrando mais a infância do psico Michael Myers, depois sua carreira de esquartejador de baby sitters.
Bem, fico aqui em Brasília até segunda. Quando eu voltar, dou minhas conclusões finais sobre a cidade. Mas essa temporada já me serviu para tomar duas decisões antagônicas, mas coerentes:
1 - Preciso comprar um apartamento. Moro de aluguel. Tenho uma kitinete, mas nunca morei lá, nunca poderia morar lá, trabalho em casa, se eu morasse numa kitinete, me jogaria da janela. Vou vender a kitinete. Dar entrada num apartamento. Já vou começar a planejar, até a virada do milênio...
2 - Preciso decidir logo o que vou fazer desse reveillon. Sempre deixo para a última hora e sempre é aquela coisa... Este ano quero ficar numa boa, na piscinha de um hotel, olhando de vez em quando para uma praia. Mas depende também dos planos dos amigos, porque reveillon não dá para passar sozinho. Então espero os convites: Ana Fialho, Eduardo Strausser, Pedro Neves, André Coelho, Marcelo Cia, Marcos e Pazetto...
E de leituras... nada. Mas posso mandar uma resenha de chocolate, quer?
Na atual onda de esquizofrenia dos alimentos industriais - com miojo sabor cheeseburguer, iogurte sabor torta de limão, e anti-guloseimas que tingem a boca e anestesiam a língua - a Garoto vai além de traz a nova versão geneticamente modificada de seu clássico "Batom". Há muito eles já haviam surtado, transformando o Batom ao leite em chocolate branco e fazendo até uma versão em barra (Se é em barra, o que tem de batom?). Agora, fazem a versão Batom Colorido, de chocolate branco com pedacinhos de bala de goma. E o pior é que dá certo. Tudo bem, não tem mais nada de batom (o formato também é em "barra ondulada"), mas não deixa de de ser louvável a nova mistura, num mercado já saturado de castanhas, amêndoas e pedaços de cookies. O Batom com balas de goma é uma iniciativa inédita, não há nenhum outro chocolate com balas de goma no mercado, e a mistura é mais do que acertada, a cremosidade do chocolate branco se completa perfeitamente com as balas puxa-puxa. Claro, não é para aqueles que rejeitam doces muito doces, menos ainda para quem está controlando a cintura. Mas o Batom Colorido é um ótimo regalo para dar às crianças neste Halloween. Só podiam mesmo ter pensando em outro nome. (3,5 estrelas).
24/10/2007
É apenas o ar seco. E o sol escaldante. Inventei de andar a pé por essas ruas, ruas em que ninguém anda, e fiquei vermelhin, vermelhin, até estou passando hidratante.
Brasília me tornou metrossexual.
A cidade é exatamente o que eu esperava, embora eu ainda não conheça a fundo. Uma cidade desértica, ampla, vazia, aquela coisa planejada, muitas vezes burocrática, tudo difícil e tudo distante.
Ao menos já estou conhecendo gente queridíssima. Alguns leitores apareceram na mostra do CCBB, outros me levaram além. Uma leitora queridíssima já me levou para uma noitada, mas me comportei direitinho. Estou poupando minhas energias...
Se fisicamente Brasília é o que prometia, tem sido engraçado ouvir as pessoas daqui comentando “será que vai chover?”, ver os calangos nas ruas (e os candangos nos carros), treinar numa nova academia... A gente se acostuma tanto com “Brasília” como sinônimo de política (e corrupção) que estranha em ver que aqui tem gente que vive, que se diverte, que assiste a filmes e espera o sol se por.
Ontem mesmo, assistindo ao noticiário local, vi a história de um tamanduá que subiu num poste, vi uma reportagem sobre a guarda conjunta de crianças, sobre professoras particulares... Tudo sobre Brasília, e não era sobre política.
Minha trilha sonora aqui tem sido os novos discos de Deborah “Blondie” Harry e Annie Lennox. Peguei pouco antes de sair de São Paulo.
Annie says: "Posso estar velha, mas seu dentista me ama."
Annie Lennox já foi (e talvez ainda seja) minha cantora favorita. Claro, ela já foi andrógina, bizarra, sinistra. Agora é uma mãe de família (indo para avó...) que de vez em quando sai da casinha. Seu novo (quarto) cd solo, “Songs of Mass Destruction” é mais uma prova disso. Um disco de adulto, e isso não é exatamente um elogio. Tem aquele tom de disco-paisagem, embora Annie tenha dito recentemente numa entrevista que não faz “easy-listening”. Sua influência do R&B é flagrante, mas seu lado escocês é que a salva de ser tão chata quanto as atuais cantoras jovens norte-americanas. Aliás, fisicamente, Annie Lennox tem cada vez mais cara de escocesa, embora queira ser negona. Faixas como “Ghost in my Machine” e “Dark Road” quase empolgam. Há também balada bonitas, mas que não chegam a emocionar. No final, “Songs of Mass Destruction” acaba sendo mais um cd para ouvir durante um almoço, um coquetel, música de consultório de dentista (mas de um bom dentista, diga-se). Só é constrangedor mesmo ver a balada beneficente “Sing”, com a presença de várias cantoras de gosto duvidoso (como Madonna) e Annie exagerando nos vocais para mostrar que pode, como sempre se faz em músicas desse tipo. Aliás, é uma pena que ela tenha largado o que ela tinha de melhor: os graves.
Debbie says: "Não estou louca, o cirurgião só me esticou demais!"
Já Debbie Harry continua despirocada, continua fora da casinha e nunca se tornou mãe de família. Mas seu novo álbum de estúdio, “Necessary Evil” é obviamente bem mais tosco do que o de Annie, no bom e no mau sentido. A influência mais forte desse parece ser o hip-hop (estranhamente, duas loiras tão baseadas na música negra). Há algumas fracas passagens pop, baladinhas de butique, mas Debbie não conseguiria ser música de paisagem nem que quisesse, então é quando ela surta que fica divertido. Como na faixa “You’re Too Hot”, Debbie começa com um poderoso vocal gritado, mas sempre fora do tom e depois passa a música inteira numa única frase: “don’t touch me, you’re too hot.” Há também a ótima “Jen Jen”, em que o vocal de Debbie nem aparece, "In the Heat of the Moment", um sambinha experimental de gringo e o single “Two Times Blue”, bem new wave. No fim, “Necessary Evil” consegue ser um álbum divertido, “B”, tosco, mas divertido, infelizmente aquém das (ótimas) coisas que o Blondie ressuscitado andava fazendo.
E hoje, enquanto eu corria na esteira da minha academia temporária, ouvindo “White Out” da Debbie no Ipod, um treinador veio até mim:
“Desculpe, estava vendo você correr. Não quer fazer parte da equipe de corrida aqui da academia? Temos uma competição já amanhã e precisamos de mais um corredor...”
Veja só. Uma nova carreira, numa nova cidade.
O livro novo está nas finais (do primeiro tempo). Matei o último menino que faltava, agora é tentar salvar o sobrevivente.
Será que chego nas quatrocentas páginas? Das trezentas, já passei.
22/10/2007
Aqui estou eu, solo, em outra cama de hotel...
Faz trinta anos...

Sonhei com o Brett Anderson... (esse aí de cima).
Eu sempre sonho com o Brett Anderson. São sonhos puros, imaculados, de um fã sem maldade nas gônadas. Essa foto é de quando ele tinha minha idade. Agora ele não tem mais. Nem eu. Também já não sou tão suedeano, mas acho que ele ainda sim. Mas ele ainda mora em Londres, então faz sentido.
Eu não. Aprendi a dançar o Chachachá.
Por isso recomendo isso aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=O6fYliFHjEM
Depois disso, como poderia ter como ídolo Caetano, Chico, Milton Nascimento?
(O Ipod ligado no meu amplificador está tocando o tema da Cuca na voz da Angela Rô Rô. Por que a Cuca sempre tem o tema interpretado por uma sapa?)
Bem, essas semanas foram só legendas para cinema e meu livro novo. Também fiz um texto para uma "grife". E queria ter feito bem menos coisa. Digo aí para os mocinhos no começo de carreira que não há nada, nada, nada, NADA melhor do que trabalhar por conta própria. Essa história de ter horário para chegar, ficar até mais tarde, horário para tirar férias, é coisa das mais absurdas que não faz mais sentido agora que não existe mais carteira assinada.
Mas ao mesmo tempo, quando se trabalha por conta própria, nunca se tem um feriado de verdade. Eu não lembro quando foi o último domingo em que eu não senti que tinha obrigação de fazer uma paginazinha que fosse de tradução, que não tivesse que ler e responder alguma proposta, que não tivesse que formatar algo. "Quem tem a si mesmo como patrão, tem como empregado um escravo", deveria ser o ditado. Ainda assim, prefiro ser escravo de mim mesmo do que funcionário de outrem.
Então do que estou reclamando?
Acho que queria que a Petrobrás patrocinasse minha vida. Assim, cada vez que eu suspirasse, que um pássaro prendesse suas penas em meus brónquios, morresse e formasse a matéria orgânica do meu petróleo, eu poderia arrotar: "Estou fazendo por merecer!"
Falando nessa presepadas, hohoho, estou indo pra Brasília! Amanhã! Hoje! Já fui! Por que não me procura por lá? Sério, vou estar só, e já faz trinta anos, blablablá. É que vou legendar essa mostra de animação que traduzi. Nenhum evento literário (infelizmente) e os dias e as noites vou estar bem soltinho. Aproveitarei o laptop para terminar meu livro, mas fora isso... Quero conhecer a cidade. Então apareça em qualquer sessão no CCBB (vou estar fazendo TODAS) ou me escreva um email. Volto pra SP só em 5 de novembro.
Estou solteiro desde o começo do ano. Basicamente porque meu amor é proibido. E porque todo o resto não faz sentido.
Hum, que bonito isso.
Não enferruje, homem de lata.
(Agora esta tocando "Sacrifice" do Elton John, na versão da Sinéad O´Connor.)
Lembrei também que sonhei com zumbis. Meu livro novo tem zumbis. Zumbis voltaram à moda? Lembro que li alguma matéria sobre pornôs com zumbis. E a mesma coisa do que ler sobre a Juliana Paes sem calcinha? Se eu sonho com o Brett Anderson as pessoas pensam maldade. E que tipo de maldade se pensa quando se sonha com zumbis?
(Putz, meu Ipod é fodão. Agora tá tocando "Everybody", dos Back Street Boys, tudo a ver com zumbis, fala. Quê? Sim, vários minutos se passaram entre o último paragrafo e este, comi um pacote de batatas, bebi uma sprite zero e tive uma duas enxaquecas.)
Falando em toda essa fome por cérebros, passei a última semana lendo mais um livro do Dennis Cooper. E descobri que ele pode ser meigo (ou sou eu que me tornei tão tosco a ponto de não me impressionar mais?). De qualquer forma, ninguém consegue trabalhar narrativas tão extremas com um conceito verdadeiramente humano por trás. Ele pode masturbar uma criança recém nascida e parti-la ao meio, apenas para mostrar que o coração dela pulsa mais calmo quando você está por perto... Ou algo assim. É algo assim, acho.
Que foi, vai reclamar que fico relendo os mesmos autores e não tenho tempo para seus originais ou não comentei seu livro? Larga do meu cérebro, que ser vegetariano emagrece.
Bem, eu fui. Porque agora fechou-se o ciclo. Dussek canta: "Caluda, tamborins, caluda!"
15/10/2007
Não, essa é antiga, do meu pai, Guilherme de Faria, uma espécie de Lorena. Meu livro novo tem um pouco de vários rapazinhos que conheci, muito de mim, e muito (principalmente) do que queria encontrar. Aliás, estava pensando numa coisa que o Marcelino (Freire) disse em Recife, que é perigoso ser amigo de escritor, que um traço, uma frase, alguma coisa sempre acaba sendo levada para os livros. É verdade. Talvez seja por isso que geralmente meus namorados sofrem com meus livros. E por isso que uma vez ouvi de um mocinho que me abandonava: "Você já tem suas histórias, eu preciso viver as minhas."
Meu "Artur Alvin" no traço de J.Lestrange.Bem, bem, eu também preciso viver! Preciso de carne entre meus dentes! Tecido constituinte! Preciso de lenha para fornalha, carvão para a churrasqueira, óleo para minhas engrenagens de homem de lata!

A Lorena de André Coelho.
E outro dia ouvi uma frase melhor de uma traveca, uma traveca famosa, conhecidinha na noite paulistana. Eu disse: "Legal te conhecer. Você já faz meio parte do meu imaginário". E ela soltou: "Já faço parte do imaginário de muita gente, queria é fazer parte da realidade de alguém."
Que frase sofriiiiiiiiiiiiiida e óoooooooooooootima para se ouvir de um travesti. Não me condene se entrar no meu próximo livro.
(É, no meu próximo livro tem um travesti.)

Os primeiros estudos de Marco Túlio para "Mastigando Humanos".
E uma vez ouvi de uma prostituta num bordel em Curitiba. "Você escreve? Que ótimo! Eu também sou artista! Eu danço."
(Isso eu acho que já entrou em algum texto meu, só não lembro em qual...)
Daí fiquei pensando também na quantidade de lavadeiras que já me influenciaram ( fiquei pensando se tenho tara por lavadeiras), como a Dona Jussara, que lavava minhas roupas em Porto Alegre e entrou em "Olívio", ou a 5 a Sec, que inspirou meu conto que saiu na Joyce Pascowitch do mês passado, e percebi que é um absurdo eu ainda não ter permuta em nenhuma lavanderia. Ah, por quê? Qualquer ator com pecinha em cartaz tem permuta em restaurante, em academia, em lavanderia... E eu, que coloco foto de restaurante aqui, que escrevo sobre meus lençóis sujos e apareço malhadinho nas revistas não ganho nada?! QUERO MINHAS REGALIAS!!!

Oh, tó fazendo merchandising.
Safire says: Sou traveca, em crise, mas faço parte do imaginário de muita gente.
Totoro diz: "Para traduzir animê você tem de ter uma tecla de exclamação extra no seu teclado."
O Thomas Schim... Digo, Santiago Nazarian, de Jotapê Pabst.
Benjamin says: Sou francês, sou fino, mas não sou fruta.E ouvindo Amy Winehouse na casa de meu amigo Nicolas percebi que ela é a perfeita "cantora-cult-genérica".
11/10/2007

http://www.youtube.com/watch?v=SDPmORF7_q0
If U had a vineyard
On a fruitful hill
And U fenced it and cleared it
Of all stones until
U planted it
With the choicest of vine
And U even built a tower
And a press to make wine
And U looked that it would bring forth sweet grapes
And it gave only wild grapes
What would U say?
Jerusalem and JudahU be the judges I pray
Between me and my vineyard
This is what God says…
Ops, já coloquei essa letra aqui. “If You Had a Vineyard”, da Sinéad O’Connor, continua sendo a melhor música do ano (e é um hino religioso, vejam só). “Release the Stars”, do Rufus Wainwright, continua sendo o melhor disco, e ainda preciso pensar no melhor livro e no melhor filme. Acho que o mais difícil é filme, não assisti grandes filmes este ano. Também, comparando com o ano passado, não assisti muitos filmes. E ainda não vi “Tropa de Elite”.
Bem, bem, falando em livros, recebi aqui o “35 Segredos Para Chegar a Lugar Nenhum”, que é chamado de “Literatura de Baixo-ajuda”. O livro é uma antologia organizada pela Ivana Arruda Leite, com 35 escritores fazendo uma paródia da auto-ajuda. Há um pouco de tudo, “Como Matar Cupins” (Índigo), “Como Procurar Trezentos Espetos de Picanha Desaparecidos” (Cíntia Moscovich), “As Sete Vantagens da Depressão Crônica” (Marcelo Moutinho), “Como Contar à Sua Mãe que Você é Gay”, (Marcelino Freire) e eu participo com o “Horóscopo Terrorista”.
“O Horóscopo Terrorista” nasceu quando eu escrevia (inventava) horóscopos (pseudo-sérios) para uma operadora de celular, há uns 4 anos. Fiquei me perguntando porque o horóscopo nunca contava coisas terríveis que iriam acontecer às pessoas... porque coisas terríveis ACONTECEM ás pessoas, mesmo às que lêem horóscopo. Então fiz a proposta ao meu chefe, mais como uma brincadeira, que logicamente nunca passou. Cheguei a criar um site/blog com o horóscopo terrorista, que fez relativo sucesso, mas também não tinha muito incentivo para ficar atualizando sempre, sem receber por isso. Então aproveitei a oportunidade da Ivana para exercitar novamente os doze signos. Olha só:
GÊMEOS
De 21/05 a 20/06
Procure divertimentos mais tranqüilos nos próximos dias. Ler um bom livro, ver um bom filme e jogar jogo da velha trarão a você uma satisfação impar. Se tentar fazer qualquer outra coisa, como ir na padaria, sofrerá um acidente terrível e perderá os movimentos do lado esquerdo do corpo. Espere... esse é o horóscopo de gêmeos? Ah, não, para você o destino reservou um seqüestro relâmpago seguido de morte lenta (lentíssima!).
CÂNCER
De 21/06 a 21/07
Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Então não chore tanto se hoje alguém espetar seu olho esquerdo com uma faca de churrasco depois tentar tirá-la lentamente, mas escorregar e enfiar ainda mais fundo, enquanto pede desculpas. Doerá, sim, você sofrerá muito, sim. Mas, no final, você poderá ser rei numa terra de cego qualquer. Onde ela fica eu não sei. Procurar é problema seu, bangolé. Aliás, eu sei que seu ditado preferido mesmo é “em casa de ferreiro o espeto é de pau.” Ui, ui, ui!
LIBRA
De 23/09 a 22/10
Sua vida está prestes a dar uma guinada, de forma a se aproximar do enredo de um filme. É uma pena que esse filme seja “O Massacre da Serra Elétrica”. Você pode não acreditar que essas coisas acontecem na vida real, mas mudará de opinião quando houver um psico comendo seu colchão mole com você ainda vivo, berrando feito um bezerro desmamado. Então porque não começa a fazer uma dieta? Vamos lá, você vai morrer de qualquer jeito, não vai querer foder com o colesterol do canibal, vai?
SAGITÁRIO
De 22/11 a 21/12
Não há nada mais bonito do que ver o sorriso puro no rosto de uma criança. A não ser ver sua cara de bosta ao ler que seu horóscopo para hoje será dos piores. Hahaha! Sabendo o quanto você vai se ferrar, minha vida parece muito mais gostosa. Hahaha, não me agüento. Ai, não vou mais reclamar das minas que ficam no meu pé. Haha! Muito bem, vamos ver o que os astros dizem sobre você... Ah, acho que é tumor no cérebro. Mas tem algo pior antes disso. Tem algum mendigo tarado e perigoso perto da sua casa? Bem, sua cor para hoje é o vermelho sangue. E sua pedra é a da vesícula.
Isso é só uma amostra, no livro (editado pela Bertrand), vocês podem encontrar muito mais, tanto do meu horóscopo quanto dos outros autores. Tem coisas beeeeeem engraçadas lá. O lançamento é sexta, dia 19 de outubro, às 19:30 no Barco – Rua Dr. Virgilio de Carvalho Pinto, 422, em São Paulo. (Já aviso que eu, infelizmente, não estarei lá. Por causa de uma mostra que estou legendando. Inclusive por isso também não poderei participar do “Corredor Literário”, que acontece esta semana.)
E dia 23 vou à Brasília. Fico até dia 4 de novembro, nessa mesma mostra, mas não tenho nenhum evento literário marcado por lá. Não quer organizar nada não?
08/10/2007
Rafael: Como é completar 30 anos de idade e encarar o desafio de manter o ímpeto e inventividade de sua escrita? Você ainda se vê como um escritor jovem?
Boa pergunta. Apenas na literatura pode se agregar o título de "jovem" a alguém de trinta anos, não é? Ninguém diz "um jovem ator de 30 anos", ou um "jovem músico"... De qualquer forma, ainda me vejo como um escritor jovem por ter uma faixa etária menor do que a média que escreve, ou publica. E tento aproveitar isso, trazer à cena o que um jovem escritor pode trazer, novas referências, novas estéticas, acho que essa deve ser a "missão" do jovem escritor, se é que se pode falar em missão. Não me preocupa escrever como um "autor maduro", tenho tempo para isso. No momento, me interessa mais refrescar a literatura (ou "afrescar a literatura"? Haha). Como você colocou, acho que ímpeto e inventividade são qualidades do jovem que podem e devem ser aproveitadas na escrita, enquanto ainda é tempo.
Talles: Você enquadra sua literatura como marginal e/ou underground?Muitos dizem que sua obra é uma obra jovem, de teor adolescente. Em contrapartida, outros destacam você como uma promessa. Como você lidacom essas visões sobre seu trabalho?
Como eu disse, não me preocupo em fazer literatura marginal ou underground porque acho que o ato de escrever já é suficientemente transgressor. Meus três primeiros romances ainda têm uma aura mais negra, eu buscava uma densidade mal-de-século, queria adestrar minhas influências nessa área. Com o tempo fui percebendo que poderia deixar a coisa fluir mais livremente, e surgiu "Mastigando Humanos", que tem esse lado negro, mas tem um lado bem mais pop também, que obviamente faz parte do meu repertório, faz parte do repertório de qualquer um. E acho sim que "Mastigando Humanos" tem uma pegada adolescente. Penso nele como um livro para jovens adultos, ou leitores de 16 a 30 anos, principalmente por causa das referências, embora não se restrinja a isso. Então acho que é possível ser um escritor sério, ou uma "promessa", como queiram, e ainda ter uma obra jovem. Afinal, acho que a obra jovem é que está trazendo a transformação da literatura brasileira.
Leitores fofos e o jacaré que comeu minha mão.
Além das entrevistas e debates, Pernambuco proporcionou ótimos passeios. Começou com Mirabilândia, um parque de diversões que fica na frente da Bienal (sacanagem... concorrência desleal...). Também fui conhecer Olinda, uma das cidades mais lindas que já vi. Meus pais chegaram a morar lá, um tempo, antes de eu nascer (hoje a casa onde eles moravam é do Alceu Valença, e parece que é um ponto turístico).
Hum, que mais? Posso dizer que, para completar, li coisas maravilhosas durante os vôos, como contos de alguns autores latino-americanos que estiveram em Bogotá comigo. Cláudia Amengual e Pedro Mairal conseguiram me emocionar profundamente a bordo, e me senti honrado em estar numa antologia e numa seleção de escritores jovens ao lado deles.
Agora, bem que podiam lançar a antologia de contos dos autores do Bogotá 39 aqui no Brasil, né? Mas claro, claro, no Brasil ninguém está interessado na América Latina, que pelo visto fica em outro continente, selvagem e esquecido.
À bordo conferi também a nova edição da Key, revista da Erika Palomino, que tem uma crônica minha (sobre avanços e micos nos meios de comunicação – tema encomendado por eles).
Aliás, pouco antes de ir para o Recife, estive no coquetel de lançamento do reality show “Brazil´s Next Top Model”, do qual participam, além da Erika, meu querido amigo Pazetto.
Falando em terminar (e começar) romances, eu e meu querido amigo (duh!) Guima aproveitamos o coquetel para lançar também nosso reality show pessoal: “Our Next Top Boyfriend”. Já está na hora de surgirem novos candidatos. Fotos são imprescindíveis. Escritores já estão desclassificados.
Nazarian e Guima: solitários e desiludidos.
02/10/2007
Ahhh, decidi vou abrir um restaurante!
É só para eu poder ficar tocando o dia inteiro as músicas do Xavier Cugat e da Grace Chang.
Grace Chang eu já falei aqui e toquei exaustivamente no meu (finado) programa de rádio, “Le Kistsch C´est Chic”. Conheci pela trilha sonora dos filmes do Tsai Ming Liang (tanto em “O Buraco” quanto em “O Sabor da Melancia”). É uma espécie de Carmen Miranda chinesa dos anos 60, que cantou e atuou em vários filmes, cheia de chachachá, e deve ter dito uma morte dramática ou uma reclusão enigmática, isso eu não sei ao certo.
Xavier Cugat é bem conhecido por trilhas sonoras de filmes também dos anos 60, e também está na trilha de filmes chineses, como os do Wong Kar Wai.
Eu usava sempre sua versão de “Perfídia” para BG do meu programa. Mas hoje, visitando o blog do (cineasta) Carlão Reichenbach, achei um link para outro blog que disponibilizou vários discos dele:
http://viagemusical.blogspot.com/2007/09/xavier-cugat.html
Agora nunca mais vou ouvir outra coisa. E até vou abrir um restaurante, só para poder tocar essas coisas.
(Porque aqui com o meu apartamento não combina... )
Tchau, fui pra Recife!
01/10/2007
Então vamos esta semana para a Bienal do Recife. Vou estar lá em dois eventos:
Olha quem veio trazer o leitinho das crianças...Isso, assino o roteiro original em parceria com Christiano Metri, prestigiado diretor de publicidade, que estreará em longa com esse filme. Ainda estamos no roteiro, o filme não deverá surgir antes de 2009, mas o trabalho já está avançado e o Chris já está divulgando, então é oficial. Ano passado, inclusive, viajei pelo interior fazendo entrevistas sobre o "caso". Conheci uns lugares fantásticos, como a "cidade-fantasma" Rafard e Joanópolis, uma espécie de Campos de Jordão com lobisomens e não colonizada por Amaury Junior.
(Agora não me perguntem mais disso. Hehe. Até hoje me perguntam sobre o longa de "Feriado de Mim Mesmo" - e eu não sei de mais nada. Eliane Caffé me escreveu há alguns meses para resgatarmos o projeto. Mas por enquanto continua sendo só um projeto.)
Falando em projetos concretos, estou terminando a primeira versão do meu quinto romance. Vou aproveitar Brasília para isso. Daí reviso/releio até a metade do ano que vem, para lançar no segundo semestre.
O título eu falo depois...
(Eu sei, estou mais ansioso do que você.)
Só trabalhei no final de semana e não tenho mais nada pra contar.
Beijos
Ps - Sei lá porque coloquei a foto de abertura. Eu gostei. Tirei em Passo Fundo.