23/04/2013

LOS MUERTOS MALOS



O novo "A Morte do Demônio".


Eu tinha esperanças, mas não me surpreendi com a merda que é o remake de Evil Dead - A Morte do Demônio. O original (de Sam Raimi, 1981) tinha um roteiro capenga, um elenco canastrão e um clima de filme amador, mas tinha o principal: clima. A história era aquela: um grupo de jovens vai para uma cabana isolada no mato, encontram um antigo livro amaldiçoado, e passam uma longa noite, sendo possuídos um a um por demônios. Básico. Mas era feito de uma forma tão alucinada que garantia o tom de pesadelo, como se o expectador estivesse assistindo a um longo delírio. Para mim, essa é das qualidades principais que um bom filme de terror deve ter. E por isso Evil Dead se tornou um clássico. 

Agora fazem um remake com verba muito maior, um roteiro mais trabalhado, doses cavalares de violência e melhores efeitos especiais, mas cagam com tudo fazendo um filme genérico. Talvez fosse um projeto inviável a priori - se as qualidades principais do original estão no amadorismo e na tosquice. Refazer um roteiro básico como aqueles, apenas com mais dinheiro, não tinha por que dar certo, mesmo com a produção do próprio Raimi por trás. Eu só não esperava algo tão chato. 

É o primeiro longa dirigido pelo uruguaio Fede Alvarez - o que é visível. O filme não tem ritmo nenhum, é repetitivo, parece mais longo do que é, e o elenco não tem o menor carisma. Mesmo o (piteuzinho do) Lou Taylor Pucci, que é ótimo ator, tem um papel chato, moroso, um tédio. Eles não economizaram na violência, mas sem clima algum ela não serve de nada - e a caracterização dos possuídos em si ainda consegue ser mais assustadora no original, dá uma comparada: 





O original. 

Assim como não acho que filme de terror precisa de gore para ser assustador, também não acho que não possa ser gore e assustador ao mesmo tempo. O original era. E recentemente vi filmes extremamente sangrentos, com uma carga psicológica muito mais densa, por isso mesmo mais assustadores - os franceses Mártires e A Invasora. O novo A Morte do Demônio não é assustador, só nojento. Dele só se consegue extrair sangue, muito sangue.

Uma pena, porque não sou contra essa onda de remakes dos clássicos de horror. Alguns considero melhores até do que os originais ("Viagem Maldita"e "Piranha"). Outros ficaram aquém, mas ao menos trouxeram novas visões interessantes ("O Massacre da Serra Elétrica", "A Hora do Pesadelo" e "Halloween") e outros foderam de vez com o original ("Sexta-Feira 13" e... "A Morte do Demônio"). Então se fosse para recomendar uma nova versão de Evil Dead, ainda mais assustadora do que a original, eu recomendaria Antricristo, do Lars Von Trier.


Anticristo.

Uma pena também ser tão difícil assistir a filmes de terror por aqui. Eu moro em pleno baixo augusta, há TRINTA E TRÊS salas de cinema num raio de vinte minutos da minha casa e NENHUMA passa filmes como Evil Dead, só os cultões. Às vezes, muito raramente, eu consigo ver no Center 3 (na Paulista), mas geralmente os cinemas mais próximos com esse tipo de filme são no Shopping Paulista (que é horrível e fica a uns 45 minutos a pé) ou no Metro Santa Cruz.

 O Frei Caneca Unibanco é do ladinho, mas só passa a programação de bom-gosto (incluindo alguns mais comerciais). Ao menos de vez em quando consigo ver umas pérolas, como Dentro da Casa, do Ozon, a experiência mais literária que tive este ano.



13/04/2013


Com lama até os joelhos, Vinícius revira galhos, gravetos, pedras e raízes que momentaneamente se fazem passar por caranguejos. Ele não costumava se enganar. Mas a camada ocre que tudo cobre faz com que tudo seja partículas da mesma coisa. Partículas de nada. Vinícius permanece ajoelhado, buscando um movimento, o animal reptício que escapou-lhe entre os dedos, e o movimento que capta são galhos estalando, raízes voltando ao lugar, o lodo borbulhando após a investida do próprio Vinícius. O caranguejo não, o caranguejo não se move. Mais imóvel do que os galhos, as folhas, o vento e a respiração, nas mesmas formas, coberto do mesmo lodo, a mesma cor, afinal em mimetismo é no que esses animais se especializaram, e Vinícius não se especializou em nada. Vinícius não é especialista em nada.
                Vinícius é um retardado. Ou quase. Vinícius é um pouco lerdo, e em circunstâncias normais seria chamado de retardado. Talvez em nossa sociedade atual seja apenas diagnosticado com um leve distúrbio, um leve autismo, DDA, monomania, síndrome de asperger.  Na realidade, nessa cidade, Vinícius é apenas um pouco lerdo. Tão integrado em suas limitações como todos os outros em seus desinteresses. Filho mais velho, aos vinte e oito anos, já deveria ser capaz de catar caranguejos sozinho. Vinícius é capaz.  E tantas vezes foi com o pai, com os irmãos, na saída da lagoinha, catar caranguejos para vender para os vizinhos, para os turistas. Vinícius foi campeão. Os bichos rastejando no quintal de casa, a mãe contando, e dando o veredicto a Vinícius, aquele que mais conseguiu catar. Ele sabe, sabe sim, embora tenha escutado a própria mãe, atrás de si, enquanto ele deixava a casa com rede e balde na mão. “Você vai deixar o Vinícius ir sozinho lá no mangue? Juarez, isso não vai dar certo, eu já te falei que...” E a conversa morrendo atrás como o cheiro de churrasco, enquanto partia para a caça o filho retardado.
Agora Vinícius examina os pés descalços. Um corte que acho que sangra, misturando à lama, é difícil identificar o vermelho de um possível fluxo que escorre. Identificando um aracnídeo que corre, Vinícius reexamina entre os dedos, e agora encontra uma aranha esmagada. Os pés doem. Entre calos, frieiras, rachaduras, talvez uma picada. Começa a ficar mais difícil saber o que é lama, o que são aranhas, o que são caranguejos imóveis e dedos do pé rachados, raízes pneumatóforas. Vinícius olha o balde. E os caranguejos já colocados parecem ainda mais imóveis, talvez já mortos. Talvez ele devesse voltar. Mas ainda não há nem uma dúzia. E seu pai fora incisivo: “Entre vinte e trinta, hein? Entre vinte e trinta.”
Vinícius levanta o olhar, a cabeça, o nariz ao vento e tenta farejar os vinte e trinta caranguejos que podem estar espalhados ao seu redor. Fecha os olhos. Fareja o ar. O ar cheira à mesma lama, raízes, húmus que cobre tudo mais, cobre a ele, cobre os caranguejos. Vinícius abaixa o nariz e sorri. Enfia os dedos (das mãos) entre o barro denso e sente-se tão parte daquilo... como jamais se sentiu. Sorri. Então para de sorrir, sentindo-se idiota, retardado, como todos os outros o sentiriam.Vinícius olha o balde logo atrás de si e o imagina preenchendo com uma dúzia, duas dúzias, quantas dúzias são mais de trinta? Transbordando de caranguejos que voltam ao mangue.
                Vinícius se vê sentado afundado na lama. Vinícius pode enxergar a si mesmo, caído no lodo – claro, ele é apenas lerdinho – sorrindo, e sabe o quão idiota, o quão retardado aparenta ser. Ele não deveria estar ali. O que ele está fazendo ali? Ele não costumava ir tão fundo. Durante o verão, só a saída da lagoinha, a entrada do mangue, já rendia uma cambada de caranguejos. Não era preciso muito esforço, não era preciso tanto esforço. Agora ele estava fundo demais no mangue – afundado- longe demais da lagoinha, os pés picados e o balde ainda vazio.
                Vinícius não é um retardado. Não, Vinícius não é um retardado. Ele tem plena consciência de suas limitações. Ele sabe que não pode muito e ainda tem certo rancor por sua família que pode e não tenta nada mais. Mas agora, caído na lama, perdido entre crustáceos saprófagos ele se questiona se não é esse se lugar. E ele chora, ele geme em meio ao mangue, sem lágrimas reais. Então percebe que não há lágrimas e volta a rir. E volta a se concentrar. Volta a buscar entre as raízes o movimento dos caranguejos. E agarra um galho que se retorce. E agarra uma raiz que respira. E sufoca um grito. E se pergunta se todos esses sufocos não o fazem parecer um retardado, lá, caído em meio à lama, caranguejos escapando entre as pernas.
                “Você é um rapaz muito sensível, Vinícius, você é especial,” ele escuta a voz rouca da jovem professora que tenta aumentar sua auto-estima com adjetivos que só sublinham suas deficiências. Ela lhe aponta um destino diferente, diz que ele pode ir mais longe, quando Vinícius gostaria de ser só mais um na sala de aula. Ele é o aluno retardado. Ela tenta ajudá-lo, redescobri-lo, afastá-lo ainda mais das possibilidades da cidadezinha, indicando que, num outro contexto, outro cenário, ele poderia agarrar novas oportunidades.
                Agarrou! Vinícius afunda a mão no mangue esmagando um caranguejo que fugia. Merda. Vinícius levanta a mão e vê que o interior do exoesqueleto escorre mais amarelado do que qualquer coisa que há por lá. Não há dúvidas de que é um líquido estranho, externo, interno, que não se camufla como o sangue, o lodo, o mangue e tudo o que há por lá. Vinícius observa o crustáceo quebrado no chão, e sabe que não pode colocá-lo no balde. Ainda estamos no menos de meia dúzia, ele balança a cabeça. Então vê que há outro caranguejo, pequeno, movendo-se por lá. Claro que há, sempre há, encontrar caranguejos no mangue é como encontrar baratas num bueiro, uma praga. Os turistas comem, nós comemos, todos comem, mas como considerar isso uma iguaria para a qual é preciso certo sacrifício, certo esforço? Vinícius pondera.
                Cata o caranguejo pequeno e o joga no balde. Ainda vivo. Muito bem, mais um, mas ainda é pouco, e tão pequeno...  Vinícius escuta um trovão e vê o céu carregado, com nuvens prestes a despencar. Levanta-se com o balde. Melhor andar com isso, melhor correr com isso. Com as nuvens se fechando, sua família deve estar olhando preocupada para o relógio e em breve um deles irá chegar lá. Um deles, de seus irmãos mais novos, irá lhe buscar e todos terão de admitir, ele admitir a si mesmo, que ele é mesmo um incapaz. Voltar com aquele balde vazio ele não vai, de jeito nenhum. Voltar com aquele balde com meia dúzia de cinco, para ouvir de chacota dos irmãos: “Você não sabe contar?” Vinícius conta melhor do que os irmãos, ele sabe muito bem disso. Mas os irmãos se aproveitam de cada uma de suas deficiências para ressaltar sua inferioridade.
                Vinícius lava os pés numa poça. Seus pés não ficam lá muito limpos. A poça já é turva como tudo mais, e Vinícius mete os pés nela novamente. É turva, mas mais profunda do que Vinícius esperava. Sente a lama penetrando entre os dedos dos pés, então algo fugidio, deslizante, perfurando seu tornozelo e escapando em debatidas - um peixe? Um galho? Uma serpente? Assustado, Vinícius perde o equilíbrio, recuando com os pés ainda metidos na lama. Cai com as nádegas na terra, e antes que possa inspecionar a poça em busca do que o atacou percebe alguém atrás de si, então uma mão estendendo-lhe , ajudando-o a ficar de  pé. Vinícius a toma....

06/04/2013

Mandando hoje um torpedo para a Adrienne Myrtes: 


Eu: Querida, queria te ligar para te perguntar coisinhas da Petrobras. Me dá um ok quando puder falar?
Ela: ??
Eu: ???
Ela: Quem é?
Eu: Jesus.
Ela: Como você pode ser Jesus?
Eu: É preciso ter fé, Adrienne. A resposta está em seu coração.
Ela: Adrienne? Mas o meu nome não é Adriene!
Eu: Er... É sim, este é seu verdadeiro nome... Você foi trocada na maternidade... Era uma noite chuvosa... Sua mãe era muito jovem...
Ela: Ah, mas eu tenho uma família.
Eu: Sua mãe biológica se chama Zuleide.
Ela: Aham. E minha vida, como fica?
Eu: Com Jesus, não tem erro.
Ela: ...
Eu: BTW, aqui é o Jesus LUZ.

05/04/2013


SOBRE O AMOR...


Sobre o amor. Sobre Feliciano. Sobre casamentos. E o ônibus tombado no Rio. Cantoras de Axê. Cadeias de hotel. Novelas da Globo. Reality Show. Feira de Frankfurt. A Lei Carolina Dieckmann. Receita de carne de porco. Sobre o trânsito. Matança das onças... (não, matança das onças não). Os shows do Rock in Rio. Lolapalooza. Chorão. Papa Francisco. São Paulo Fashion Week.  As chuvas em Petrópolis. O Viaduto do Chá. A cura da calvície. E as manchetes do dia. Não tenho nada de novo a dizer, apesar de ser escritor. Por isso sou escritor. Faço ficção.






03/04/2013



0.        
A escrita é uma ocupação nociva. Escrever é uma profissão de risco. Não se pode fazer uma obra consistente sem remoer rancores, frustrações, essas coisas que provocam câncer, tendinite e impotência. Além disso, o escritor é um caçador solitário, sempre sujeito a se perder na floresta. A endorfina do orgasmo, ou apenas o prazer de um abraço são concorrentes de uma escrita produtiva. Não se pode escrever com as mãos ocupadas. Assim, todas as atividades, experiências e sensações que levam a uma vida saudável e positiva estão distantes do escritor. Para ele, os prazeres são apenas orais. O cigarro, a bebida, o café – muito café – enquanto as mãos trabalham. Apenas a boca vaga, a língua a vagar, procurando substitutos para o que não se pode alcançar...
Livros e mais livros, acumulam mais poeira do que sabedoria. Ácaros, mais ácaros do que poesia. Bloqueiam a luz solar, absorvem a luz do sol, provocam sombra, carência de vitamina D. Não que um escritor precise de livros para escrever... Livros acumulam dor nas costas, lombadas, afundam o apartamento piso abaixo, escada abaixo, abrigam parasitas e escondem problemas de encanamento. É só dar uma rápida olhada neste apartamento que fica claro que a escrita não é uma ocupação saudável, não tenho uma ocupação saudável. Não estou fazendo bem em escrever mais um parágrafo já com tantos livros povoando essa casa, nossa casa, planeta terra, com acres devastados...


21/03/2013

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
Marion: Só pelo visu já não tem como eu não gostar. 

A volta do Suede reavivou meu espírito indie rocker e me fez revirar minha (imensa) coleção de CDs, para resgatar algumas pérolas esquecidas. Nessa leva me lembrei do Marion, banda de britpop da qual já falei aqui, mas que tinha deixado meio de lado. 

Lançaram o primeiro CD - This World and Body - em 1995, o segundo - The Program - em 1998 e só. Nunca chegaram a fazer sucesso, nem mesmo na Inglaterra nativa, mas foram daquelas bandas queridas da minha adolescência - e não só porque o vocalista Jamie Harding é das coisas mais deliciosas que existe.  

Embala pra viagem, por favor. 


O som é um britpop pesado, com vocais miados, talvez precursor do emo. Lembra muito bandas que hoje são hiperpopulares, como Killers e Muse. Talvez tenha surgido cedo demais para virar moda. Talvez tenha tido uma má administração. Mas o motivo principal que matou a banda foi o vício pesado de Jamie em heroína.

Pesquisando mais esses dias sobre a banda - vi que a coisa foi brava. Foram dez anos de vício - de 1996 a 2006 - e Jamie só não morou na rua porque, como inglês, conseguia viver parcamente de DIREITOS AUTORAIS. Isso, segundo ele conta numa entrevista, tendo lançado apenas dois álbuns que não fizeram sucesso, dez anos depois ele ainda ganhava 200 libras por semana de direitos. Longe de ser uma fortuna, dava para mantê-lo precariamente (por mês é bem mais do que um salário mínimo brasileiro, afinal).

Em 2006, eles tentaram reformar a banda, fizeram alguns shows, mas o vício de Jamie continuava pesado e ele acabou no hospital, quase morrendo do coração e tendo de ser operado. Hoje, ele conta, não pode trabalhar pelos problemas cardíacos e vive da assistência por invalidez. Não é uma beleza?

O (também excelente) guitarrista Phil Cunningham teve mais sorte - ou foi mais centrado - e se tornou guitarrista do New Order e do Bad Lieutenant (opa, peraí... o Killers não tirou o nome de uma banda fictícia que aparece num clipe do New Order? E o Killers não soa bem como Marion? O mundo não é justo mesmo...).

Voltando a ouvir Marion esses dias, redescobri várias faixas que eu nem conhecia direito, e que são fodásticas. Aliás, quase todas as faixas dos dois discos são boas. Mas o melhor foi saber que o Marion VOLTOU em 2012, lançou um CD ao vivo com várias faixas inéditas e prepara o terceiro disco de estúdio. Já baixei o ao vivo e é ÓTIMO, a banda continua em boa forma, a voz de Jamie continua igualzinha (e eu ainda comia), então carrego a bandeira dos excluídos e divulgo aqui. Graças a um post no Facebook, já sei que consegui tornar pelo menos uma leitora fanática pela banda.

Ouve aí um dos melhores singles da banda (dos anos 90):



E saiba mais (inclusive como comprar/baixar o disco ao vivo), aqui:

http://www.marionuk.co.uk/


17/03/2013

NOVOS ADULTOS, VELHOS LEITORES


Finalmente sai esta semana na Espanha a tradução de Mastigando Humanos, pela Ediciones Ambulantes. O livro também sai daqui a alguns meses na Itália e devo fazer uma pequena turnezinha pelos dois países em breve. 

Não tenho tido muita sorte com minhas publicações no exterior... Bem, não tenho tido muita sorte com minha VIDA em geral, parece que há um bom tempo que fizeram um trabalho contra mim, amarraram meu nome na boca do sapo, empacaram minha vida profissional, financeira, amorosa, NADA vem dando certo e só não desisti ainda de respirar porque chafurdo no passado glorioso onde conheci a felicidade em suas versões orgânicas, sintéticas e abstratas.  

Marco Feliciano, Silas Malafaia e Edir Macedo bem que tentaram me alertar. Quem cultiva o mal, quem investe na sordidez não pode colher nada além de sofrimento, eu entendo. Não é brincadeira não, eu sempre busco retratar o lado negro, contestar os valores do bom senso, atentar contra a moral, e por isso pago o preço. Mas assim como Lúcifer tem sua função nos planos do Senhor, eu também estou realizando um trabalho importante ao expor o lado sórdido do ser-humano. E acho que por isso Deus não favorece os planos de felicidade para mim. 

Voltando a mastigar humanos, postei o aviso da publicação espanhola no Facebook, e foi lindo ver os comentários de antigos leitores: 

"Eu assumo: roubei mastigando humanos da biblioteca da escola por não achar em lugar
nenhum pra comprar. Não me arrependo."

"Eu tambem roubei um da biblioteca da escola. Graças a essa edição escolar, li o melhor livro que  um adolescente podia ler na vida!!! Simplesmente fantástico!!!"

"Melhor livro da minha vida pqp. Quem diria que eu ia achar alguma coisa de interessante na biblioteca da escola."

"Adoro esse livro!"

"Quase peguei o Mastigando Humanos da biblioteca também, mas consegui achar todos os livros dele pela internet. Meu mastigando humanos chega amanhã <333 font="">

"Poxa... E eu pensando que tinha sido a ÚNICA a roubar esse livro na biblioteca da escola! Cerca de um ano atrás (ou mais que isso, nem lembro) eu até enviei um e-mail pra o Santiago Nazarian, falando sobre o roubo e reclamando do preço salgado de "O Prédio, O Tédio e O Menino Cego" (infelizmente não achei ele em nenhuma biblioteca ainda ). Acho que ele nem lembra mais desse meu e-mail... Mas foi muito engraçado. Tudo. A adolescência com Mastigando Humanos, bom demais."



"Parabéns! Emprestei o meu volume a uma aluna, e ela adorou. Agora, há a divulgação boca a boca. Já tem outros alunos perguntando sobre a obra." 


Mastigando Humanos não foi escrito especificamente para o público juvenil (como Garotos Malditos), mas entendo que um livro ilustrado, narrado por um jacaré de esgoto encontre leitores com mais facilidade entre os adolescentes. Acabou sendo comprado pelo governo no PNBE para o ensino médio, em 2008. 12 mil livros foram distribuídos em bibliotecas escolares, somando às duas edições de livraria que o livro já havia tido, tornando-se o mais próximo que tive de um bestseller.


Essa venda escolar foi o que aproximou o livro de tantos adolescentes, que hoje são "novos adultos", alguns dos quais já estão no mercado editorial. Minha editora na Record é uma antiga leitora. Também já fiz diversas traduções para (novos) editores que me leram na adolescência. Para editores de 25, 28 anos eu já sou um senhor escritor, veja só. Já sou um senhor...

Esses dias dei uma entrevista para o jornal "O Tempo", de BH, sobre esse mercado, "jovens adultos" ou "novos adultos", que é uma nova categoria contemplada no mercado literário, que chega aos leitores de até trinta e poucos. Obviamente é o meu público, meu primeiro livro (A Morte Sem Nome) eu escrevi aos 23, a temática da adolescência está presente em grande parte da minha obra; porém os temas vêm acompanhando as fases da minha própria vida, e em Pornofantasma já começaram a entrar os fantasmas da maturidade ("Conto de Lobisomem", "Apocalipse Silencioso", "O Velho e o Mato", "Natrix  Natrix", "Você É Meu Cristo Redentor"). Resta saber se o leitor de meia-idade se interessa por mim...

Não é fácil... "Sua literatura não é mainstream", ecoam sempre as palavras da minha agente. Sou rapaz bem-nascido dos Jardins, não posso me considerar "marginal"; ainda assim, o caráter... alternativo da minha obra faz com que ela só repercuta entre os perdidos, os malditos, aqueles que não estão no poder e não podem me levar além. (Veja só, parece que Mastigando só incitou a juventude ao furto de bibliotecas). Talvez o mais surpreendente seja que, até hoje, eu tenha conseguido publicar sempre por grandes editoras, com razoável repercussão.


A repercussão de Mastigando Humanos, na época, foi quase unanimemente positiva. E por isso eu não esperava. Eu vinha de livros mais... sérios, e com Mastigando eu já esperava pedradas (que enfim vieram com O Prédio, o Tédio e o Menino Cego). Mesmo a infame foto de orelha (em que eu estou babando iogurte) só foi questionada mesmo por... Alcir Pécora (é claro, que surpresa). Hoje eu não colocaria uma coisa dessas num livro. But I was being young...


A edição brasileira está esgotada há um tempo. Você sabe, eu saí da Nova Fronteira batendo a porta, e eles não reeditaram mais o livro. Estou conversando há um tempo com minha editora para trazê-lo de volta, e espero que isso aconteça em breve. Eu pessoalmente prefiro olhar para frente, investir sempre num próximo, mas não posso negligenciar o que já escrevi, já são sete livros lançados, e acho que estão longe de terem rendido tudo o que poderiam render (em todos os sentidos). Preciso administrar melhor a minha obra e meu patrimônio. Mas é uma cruzada tão solitária...


Fora reedições e traduções no exterior, 2013 não verá uma nova obra minha. Não sei nem se 2014 ainda me verá respirando. É bom você começar a me amar imediatamente e reverter essa áurea de decadência em que me encontro, ou não terei nem mais forças para continuar a fazer você sofrer.



O creme não compensa. 

10/03/2013

A VOLTA DO GRANDE DRAGÃO BRANCO 


Quando Brett Anderson terminou com o Suede, em 2003, disse que "precisava fazer o que fosse necessário para recuperar seus demônios". Dez anos depois, a banda volta com o novo álbum Bloodsports, que parece ter seu título tirado daquele filme do Van Damme, O Grande Dragão Branco (que em inglês se chama Bloodsport). Sabe-se bem qual era o dragão branco que ele alimentava no passado - ("let´s chase the dragon", cantava Brett na faixa de abertura do primeiro álbum da banda), a pergunta agora é: será que ele recuperou essa fera adormecida?

Sim. Bloodsports é o álbum de rock sucessor de Coming Up (o campeão de vendas da banda, de 1996), é rápido, energético e certamente soa mais Suede do que a carreira solo de Brett Anderson, sua banda The Tears e talvez até mais do que A New Morning (o último álbum da banda). Eles já haviam liberado duas faixas - Barriers e It Starts and Ends with You, as mais acessíveis do disco, que são gostosinhas, pop, mas davam um certo medo do álbum se direcionar demais para um som acético de "stadium rock".

Bloodsports tem essa pegada, sim, e não chega nem perto da genialidade de Dog Man Star, mas se encaixa perfeitamente no legado da banda. Eu ainda não ouvi o suficiente para assimilar totalmente (ou cansar), mas vamos arriscar um faixa-a-faixa?

Barriers: a primeira faixa liberada pela banda representa bem o clima do disco, mas está longe de ser seu ponto alto. É stadium rock com uma letra enigmática: "Aniseed kisses and lipstick traces, lemonade sipped in Belgian rooms couldn’t replace the graceful notions that clung to me when I clung to you." (WTF?). Tudo bem, pelo menos ele não está mais rimando "house" com "mouse". Acho ok.

Snowblind: É minha favorita. Tem uma pegada "Starcrazy" (embora "Starcrazy" esteja longe de ser das minhas favoritas) e é totalmente Suede. Até começa com guitarras miadas e vocal de "uh-hu's!" Acho que se eles tivessem liberado essa primeiro os fãs teriam orgasmos.

It Starts and Ends with You: Devo dizer que se a banda buscava um hit, essa era mesmo a melhor aposta. Não chegou a estourar como single, mas as críticas foram bem favoráveis. É das mais pops do disco, tem três refrões, e o tom está sempre lá em cima. Se não ouviu, veja o clipe:



Sabotage: Essa eles vêm tocando há um tempo, já foi bem ouvida em clipes ao vivo no Youtube, e representa bem o "lado B" do álbum. Na versão de estúdio ela ganhou um clima meio spagetti western. É bacana, só acho que pedia uma edição mais longa, com uma introdução maior, um longo solo de guitarra no final. Bloodsports é um disco curto, afinal (40 minutos cravados), e senti sim falta de um instrumental mais elaborado. Brett Anderson praticamente não para de cantar em momento algum (quando não há mais letra ele fica nos "uh-hu's" e "lalá´s"), a banda está lá para lhe dar apoio - um bom apoio, mas nada além disso.

For the Strangers: Junto a "It Stars" esse é o segundo momento mais pop do disco, que pode dar um bom single. É fofa; eu já gostava bem da versão acústica que está disponível por aí, e no disco ela ganha o ar de stadium rock, que não compromete, mas não surpreende. Bacana.

Hit Me: Começa com uma bateria meio "She", meio "Killing of a Flashboy". E aqui é que a voz de Brett Anderson soa mais Suede, esganiçada no verso, falsete no refrão, completando com uma ponte "de lalalás". Gostosinha, mas meio "Suede genérico".

Sometimes I Fell I´ll Float Away: Com certeza o momento mais alternativo do disco. Aqui começam as baladas. Versos lentos de guitarra e órgão, crescendo no refrão com entrada da bateria e baixo. Um pequeno solo de guitarra pesado na metade. Parente distante de "Daddy's Speeding" ou talvez "The Ghost of You". Bem bacana.

What Are You Not Telling Me: Segue uma linha Dog Man Star distante. Uma balada de piano, sem bateria, com clima de música sacra. No final entra o arranjo de cordas - sim, a orquestra está aí no álbum. Mas não comove; inquestionavelmente um B-side.

Always: E continua a linha das baladas esquisitas. Mas essa preciso dizer que é... chata, chata, a pior do disco, sem dúvida. Refrão: "I´ll always be near" repetido à exaustão. Boooooring.

Faultlines: Preciso dizer que é outra chatinha... Brett dá nos nervos gritando "celebrate!" esganiçado a música inteira. É mais uma balada na linha de "Always" e termina o disco num clima meio down.


 Na coletiva em São Paulo, fazendo promessas que não foram exatamente cumpridas. 


E esse é o Bloodsports. Curto demais. Não é uma decepção, não, mas deixa com vontades. Ainda não estou certo se não gosto mais de... Black Rainbows, o último solo de Brett Anderson (que tem faixas surpreendentes e fodásticas como "Unsung", "Brittle Heart" e "Actors"). Ele parece querer sempre frustrar seus fãs (por que a banda volta com um disco de apenas 10 faixas?). No show que vi na Rússia, em 2011, tocaram 7 músicas novas (das quais só "Sabotage" entrou no disco). Perguntei pessoalmente a eles, na coletiva de imprensa aqui em São Paulo, ano passado, sobre o destino das outras músicas. Eles disseram que haviam sido deixadas de lado mas que "pode estar certo de que as do disco serão melhores". Não foi exatamente verdade - sinto falta de "I Don´t Know Why" (um popzão estilo "Trash) e "Falling Planes" (uma balada gótica com ótima letra:"sometimes when you cycle by the kicked dog in me smiles. I shudder and salivate. We keep the things we hate."). De qualquer forma, eles conseguiram soar como Suede novamente, sem virar auto-paródia, e até conseguindo fazer coisas diferentes, estranhas e sombrias. Já se sabe que há mais quatro músicas para serem lançadas, em B-sides e edições especiais. Estarei esperando ansiosamente.


Na Rússia (Brett ainda segurando as letras). 


Quanto ao novo do BOWIE, digo apenas que não gostei. Baixei há umas duas semanas e ouvi umas três vezes só. Sou fã de David Bowie (até traduzi a biografia dele, lançada pela Benvirá, sabe?), mas nem de longe tanto quanto de Suede, e achei o disco dele barulhento, chato, sem novidades. Não entendo por que ele ficou dez anos sem lançar nada, daí aparece com um disco exatamente na linha dos últimos (Heathen e Reality, que ao menos tinham uma ou outra faixa brilhante, como "Slip Away" e "Bring me the Disco King"). 



Next. 


Se quer saber o que MAIS me empolgou musicalmente este ano... foi minha segunda banda favorita de todos os tempos (ok "banda" não é o termo mais preciso). O novo single do Röyksopp com a Susanne Sundfor, "Running to the Sea". Aquilo é a Escandinávia concentrada em cinco minutos. De chorar. Escutaí:





03/03/2013

FICCIONAIS


Esta semana, Marcelino Freire e eu demos uma entrevistinha para Fabrício Pietro, do Espaço Mix (Mega TV, Canal 23 da Net) sobre o livro Ficcionais, que fala sobre o processo de escrita de diversos escritores. Dá para ver aqui:

http://www.megatv.com.br/programas/?cat=3&p=3927

Sem grandes novidades ou vontades por aqui. 

01/03/2013

Depois de tanto tempo sozinho sabia que estivera o tempo todo sozinho – e sempre estará. Cada amor, cada relação sexual em que participar terá a participação dele mesmo, inevitável. Impossível conseguir, e ter prazer, com a intrusão de si mesmo em suas fantasias sexuais. Ele não devia estar lá. Não foi isso que lhe fora propagandeado. Ele, nas revistas com as mulheres peladas. Ele, nos vídeos pornôs na Internet. Ele nunca fizera parte de suas próprias fantasias, mas teria de estar para que elas se concretizassem – o longo animal áspero, ácido, rançoso, em sua cama. Cada vez que se deitasse para o amor encontraria a si mesmo deitado, impotente, inevitável. E isso seria algo impossível de amar.

24/02/2013


Como se houvesse realmente uma alma a ser libertada, o corpo ascendeu à superfície da água. Gases escapando do pulmão, bolhas à boca. Veio à tona como não conseguiria se ainda vivesse, ainda se debatesse, lutasse contra as ondas buscando uma saída, buscando a luz que vinha de cima, dos lados, onde estava a luz da superfície? Se o corpo ainda vivesse, não saberia, e enquanto dava seus últimos engasgos parecia tão difícil perceber o óbvio: em que direção nadar, para que nadar, como romper aquela linha. Agora que era apenas um corpo, tudo era mais simples. Nem a gravidade a puxar para baixo, nem o desespero a desorientar. Apenas os gases seguindo seu curso, a alma seguindo o fluxo. E o corpo vinha à tona como para zombar de um homem que se afogou.
Boiando com os surfistas, num final de tarde. Acompanhava as pranchas, rabeava-lhes ondas, era despercebido e deliberadamente ignorado, na mesma proporção; não era possível que ninguém não notasse aquilo. Ninguém queria se responsabilizar por um corpo que boiava entre ondas. Marcelo e Benjamin fingindo não ver. Manoel não vendo realmente. Cristóvão espichando o pescoço e se perguntando o que era aquele corpo, que hora vinha, hora sumia, inchado, disforme e esverdeado como um animal marinho. Há de se pensar que surfistas seriam mais solidários, mas ninguém tinha nada com aquilo.
Então, como corpo sem vontades que era, ele abandonou os surfistas. Como corpo sem vontade que era, ele seguiu correntezas contra as quais lutavam homens decididos. Apenas meninos. Um corpo sem vontade se deixou ser levado, como partículas, conchas e lixo.  Enroscou-se em algas, acumulou areia. Levou mordiscadas de manjubas, nos dedos, nos olhos, nas calosidades dos pés. Então se cansou.
O mar o levou até a areia e o deixou lá. O mar recuou e o corpo agarrou-se à areia como o atrito de um surfista que não quer escorregar da prancha, agarrando-se à vida. O corpo ficou lá de bruços. As costas viradas para um sol que já não era suficiente para esquentá-lo. Nenhum sol seria suficiente para esquentá-lo. E as costas permaneceram viradas para um sol que nem esquentariam um corpo vivo. Um banhista vindo à areia, encolhido, retorcido, oferecendo as costas aos pingos esperando que o sol o rendesse e o secasse, não. O sol não esquentaria nem mesmo um verdadeiro banhista e faria com que aquele corpo permanecesse como um pecilotérmico, menos do que um pinguim. Inchando e esvaindo-se após a morte com um pulsar de vida. Pulsando por gases e líquidos e animais marinhos que escapavam e o invadiam. A vida continuava dentro dele, sobre ele, por todos os lados, apodrecendo. 
Há de se pensar que os urubus chegariam primeiro. Ou os siris, os caranguejos, beliscariam sua carne e o limpariam em restos. Mas havia tanto mais naquela praia a digerir. As partículas de vidas, animais esquecidos, aquecidos, pelo sol ressecados, decomposição em estágio avançado. Peixes, pássaros, crustáceos. Qualquer praia é um banquete para necrófagos e os urubus podiam esperar. Antes, o corpo era um autofágico, invadido por si mesmo.
De dentro, fungos e bactérias, larvas e vermes. Todos os silenciosos que sempre habitaram o homem vivente agora se alimentavam do corpo dele, de dentro para fora, de cima a baixo, consumindo o corpo numa luta vencida. Luta perdida. Os vermes que se alimentavam de um estômago que acabaria na boca de um urubu. As larvas que seriam consumidas pelos siris que ainda viriam. O coração na boca de um aquelminto, no estômago de um osteìcte, no bico de uma gaivota.... voando. O corpo em nada interferia. Permanecia com as costas viradas para o sol, como se manteria se ainda tivesse vida, com os mesmos vermes, as mesmas bactérias, a mesma luta dentro de si.
E quem era, o que pensava? O corpo não pensa. Apenas vem à tona, é levado pelas ondas, é consumido e rejeitado e aguarda um local final para atracar. O corpo estava lá. E quisera ser colocado embaixo da terra, cremado, crucificado, ressuscitado em três dias e três noites, não faria diferença. O corpo não tem vontades. Quisesse reencontrar antepassados, uma lápide para ser lembrado, tivesse comprado uma sepultura e escolhido uma música para seu velório, não lhe valeria de nada. E fosse jovem ou fosse velho, em forma ou acima do peso, com traços harmônicos ou desgraçados, não seria possível dizer. Se comeu demais nas últimas semanas. Se voltou a frequentar a academia. Se absteve-se das drogas e da bebida, do cigarro e do açúcar, não faria diferença. Poderia terminar do mesmo modo, terminaria lá.
Com as costas para o pôr-do-sol, os urubus começando a rodeá-lo, não há mais possibilidades para o corpo; ou há uma infinidade de possibilidades, todas fragmentadas. A carne que é repartida entre irmãos. Os ossos que confraternizarão com as conchas. Seus parasitas que viverão novas vidas, novas mortes, os rastejantes microscópicos que encontrarão nova morada. Do corpo resta muito pouco agora. Do corpo não resta quase nada. O corpo tem apenas isso, apenas uma história.  E essa história acabou. 

ÚLTIMA AULA DO ANO

Vou dar minha última aula este ano, em cima dos textos de vocês. Me mande as dez primeiras páginas ou o projeto de um romance em que esteja ...