12/06/2013

LISBOA

Botando os pés pela primeira vez em Portugal. 

 E Portugal é o 24o país que eu visito. Demorou; eu sempre procurei conhecer os países menos reconhecíveis; achava que mais cedo ou mais tarde surgiria algum convite para vir para cá. Até publiquei A Morte Sem Nome, em Portugal, em 2005, mas nada de eu vir. Então achei que já era a hora. Aproveitei a proximidade (e as passagens) da Espanha e estiquei para um feriadin de mim mesmo em Lisboa.



Restaurentezins. 

E Lisboa é INCRÍVEL. Das cidades mais lindas que conheci, mesmo. Reconhece-se muito do Brasil, mas com todo o charme europeu. Tem algo do Rio de Janeiro, de Olinda, de Ouro Preto, esse Brasil antigo, que veio daqui. Fora que é das cidades mais apetitosas do mundo – eu só rivalizaria com Paris – com uma pastelaria a cada esquina, restaurantezinhos super charmosos. Um mimo. 


Lisboa.  

E a oferta de gulodices não se restringe à comida. Lisboa deve ser a cidade com maior número de traficantes por metro quadrado. No centro, não consigo andar um metro sem um curió vir oferecer haxixe, maconha, cocaína. Não conferi, mas acredito que a qualidade não seja a mesma dos pastéis de nata. 


Lisboa antiga. 

O charme antigo de Lisboa também tem o lado negativo do antiquado. Foi só eu chegar aqui e um caixa eletrônico engolir o meu cartão. Dois dias depois, a gerente do banco me devolveu e disse que “era normal isso acontecer.” Como assim? E se eu não tivesse outro cartão e dinheiro para pagar as contas/comer/viver?


Lisboa antiga. 

A cidade também tem um sistema de wifi bem limitado. Pode parecer frescura, mas o Google Maps é uma mão na roda quando estou numa cidade desconhecida. E sem um número de celular aqui, fica difícil me comunicar com os amigos da cidade sem acesso à internet.


Lisboa moderna. 

Estou hospedado no Hotel Flamingo, que é central e reservei na sorte. O preço é bem ok, o quarto é grande, tem uma banheira deliciosa, mas o café da manhã é vergonhoso quando se compara com o que cada cafezinho de rua oferece. Além disso, só tem um serviço de wifi cobrado a 5 EUROS A HORA. Como alguém poderia TRABALHAR num hotel desses? Bem, felizmente o sistema é português, e não é preciso ser um grande hacker para estender essa hora gratuitamente...


Com Petra e Pessoa (ao fundo). 

Cheguei na segunda, peguei o finalzinho da Feira do Livro e encontrei a Petra, que trabalha com a Nicole, minha agente. Apesar da agenda apertada dela por aqui, conseguimos passear um pouco pela cidade.

Tiburones. 

Hoje de manhã fui ao Oceanário de Lisboa, aquário estupendo, que com certeza é meu favorito no mundo (e olha que já fui no famoso Aquário de Osaka, no Japão).

 Oceanário.

Dá meio medo de pisar nesse vidro ultra-transparente sobre tartarugas....

E, por pura sorte, amanhã é um dos feriados mais importantes do país: Dia de Santo Antonio. Esta noite o povo todo está pelas ruas, numa espécie de carnaval lusitano. Dei um pulo no Alfama, onde tem uma tradicional festa de rua, com sardinha na brasa, música e bebidas. Estava achando bem divertido, mas depois de um tempo não conseguia mais manter os olhos abertos com toda aquela fumaça de churrasco concentrada, e só conseguia pensar: “Por que diabos eu acabei de lavar o cabelo?”

Onde termina o aquário...


Amanhã é meu último dia aqui. Então voltei para o hotel para recarregar as energias e devo voltar para a festa, que hoje deve se estender pela noite toda. Queria conhecer um pouco a zona gay, mas com todas essas festas de rua não vejo muito sentido. Também estou meio cansado de sair sozinho. Não tenho mais tanta resistência para beber; não tenho vontade de caçar; estou namorando e queria mesmo estar fazendo tudo isso com certo loirin.

"Seja uma pessoa feliz, coma arroz doce da tia Beatriz!"

Mas esse é um bom motivo para voltar ao Brasil. E já gastei demais, comi demais, me queimei demais. Cheguei aqui na segunda, com 16C, hoje estava 36C e estou todo vermelho. Essa será uma viagem curta, de dez dias, mas já é mais do que o suficiente. E já tenho confirmado o 25o pais da minha lista: México ! Ainda este ano. 




 Always on the road. 


09/06/2013

NA ESTRADA, NA ESPANHA


Rumo a Zaragoza. 

Está chegando ao fim a maratona da turnê de Masticando Humanos pela Espanha. Foram quatro cidades em quatro dias, cinco eventos e algumas entrevistas.

Minha editora por aqui, a Ediciones Ambulantes, é pequena e está se especializando em literatura brasileira, tanto clássicos (Castro Alves, João do Rio, Machado de Assis, Álvaro de Azevedo), como novos (Otávio Júnior). Eles têm compensado o alcance limitado com muito empenho e um trabalho dedicado ao livro e ao autor, que muitas vezes não se vê nas grandes editoras que publicam à toque de caixa. 

Então eles armaram um esquema de guerrilha, conseguiram apoios para passagens, hospedagem e alimentação e me encaixaram na programação cultural de algumas cidades bacanas. 


Victor é espanhol, casado com Aline, que é brasileira. Os dois foram meus tradutores e editores. 

O formato de alguns eventos aqui da Espanha me pareceu estranho. As feiras do livro de Madrid e Zaragoza, por exemplo, têm estrutura semelhante à da Feira do Livro de Porto Alegre, com estandes montados a céu aberto, na praça (em Madrid, no lindo Parque del Retiro) e foco voltado à venda ao público. Mas o esquema dos autógrafos não funciona. O autor fica sentado num estande, com os livros à sua frente, esperando que leitores venham e comprem. Claro que perdi a conta de quantas pessoas me tiravam para vendedor e perguntavam o preço de outros livros. Sem conhecer o autor, não há muito porque a pessoa comprar o livro, e é um formato intimidante, pegar o livro na frente de quem escreveu, dar uma olhada e ter de devolver (ou não) na frente dele. A maioria das pessoas nem tocava no livro. 

Autógrafos na Feira do Livro de Madrid. 

Nessas feiras há algumas leituras e debates, mas são limitados, o foco é a venda mesmo. E me causou esse estranhamento não apenas pela minha experiência, de autor desconhecido por aqui. Na feira do livro de Zaragoza (que tem o mesmo formato da feira do livro de Madrid), eu fiquei sentado num estande com um autor local bem conhecido. Ele autografou uns 3 livros... eu 5. Ele se sentiu ofendido e foi embora depois de uma hora, sem nem se despedir. 

É fundamental que esses eventos tenham debates, leituras, apresentação do autor, para que as pessoas que estejam passando possam dar uma olhada sem compromisso, saber mais sobre o livro, daí decidir se compram ou não. 

Apresentação em Madrid.  

 Felizmente tive outro evento em Madrid, que compensou bem. O grande imortal espanhol Antonio Maura apresentou minha obra na Casa do Brasil, seguido de autógrafos. Foi bacana a presença e participação do público, mas o mais lindo foi ver as impressões entusiasmadas dele, que sublinhou passagens, destacou frases e ideias (da edição espanhola).

 Com Antonio Maura. 


Ontem também tive dois eventos bem bacanas. Comecei em Valladolid, cidadezinha à noroeste de Madrid, com uma apresentação na linda livraria Oletvum. Estava cheio, a conversa (conduzida pela jornalista Veronica Mellado) foi ótima, o povo participou e comprou bem. No final, a dona da livraria ainda pediu para eu autografar cinco exemplares para os clientes da loja. Ao ver que eu estava desenhando diferentes jacarés em cada livro, ela pediu mais cinco para meus editores, fotografou os autógrafos e disse que ia divulgar no Facebook que haviam dez exemplares autografados com ilustrações exclusivas à venda na livraria. Você que está na Espanha, já sabe.


"Leia-me ou devoro-te!"


Apresentação em Valladolid. 


Aqui muitos leitores já tinham lido o livro e estavam realmente empolgados. Bem lindinho. 

Turismo com Veronica.

De Valladolid seguimos direto para Salamanca, cidade incrível onde está acontecendo o Festival Facyl, com música, performance e literatura. Ontem tinha show do Mika, inclusive, mas não pude ficar para ver. Minha apresentação foi na Casa de las Conchas, com um público legal de espanhóis, brasileiros e portugueses. Voltamos na mesma noite para Madrid. 

Em Salamanca.  


Tem sido curioso falar e ouvir sobre esse livro, sete anos depois que eu o publiquei no Brasil. Ele parece menos meu. Não é o livro que eu faria hoje, claro, mas não deixo de ficar orgulhoso. Já sinto que aqui na Espanha se fala e se discute com mais profundidade sobre ele. E, segundo me disseram, Aline e Victor fizeram um trabalho primoroso de tradução. Eu não poderia avaliar, não só pelo nível do meu espanhol, mas também porque tenho receio de reler meu livro impresso...


Exquisito, yo?


Falando em espanhol, ainda vou bem no truque, mas dá para me comunicar e discutir numa boa. Aline disse que definiria meu nível como "avançado" e muitos disseram que tenho um sotaque argentino. Que esquisito... (ou exquisito?)


Samara, estás aí?


Hoje tenho o domingo de folga. Estou pensando se vou de novo ao Prado (que visitei em 2010), se vou às compras e finalmente caio na noite. Queria ter passado a manhã dormindo, mas me peguei me revirando na cama, então era hora de atualizar o blog.

Amanhã sigo para Lisboa, só até o final da semana. O dinheiro está curto, o trabalho está pesado, mas a vida está quase boa.



Churros stay or churros go?


31/05/2013

E A VIDA LÁ FORA


E finalmente chegou aqui, edição espanhola de Masticando Humanos, lançada pela Ambulantes, de Madrid. Bem na hora. Semana que vem estou lá, lançando na Feira do Livro. 

A carreira internacional tem sido lenta e restrita, mas tenho de agradecer só por ter uma carreira internacional, porque a batalha é sangrenta. Mais comum tem sido os convites para feiras e congressos, principalmente na América Latina (Colômbia, Argentina, Peru e Venezuela) e alguns na Europa (Espanha e Alemanha).  É estranho, eu vou para um país onde ainda não fui publicado, onde ninguém me conhece, e falo sobre minha literatura, a literatura do meu pais, a literatura em geral... e ainda há gente interessada em me ouvir. Hum. 



Congresso de Nuevos Narradores Iberoamericanos em Madrid (2010). 

PUBLICAR já é bem, bem mais difícil. Para começar, são poucas pessoas que podem LER o livro em português nas editoras lá fora. E essas pessoas estão avaliando os bestselllers, os premiados, os temas que são mais reconhecidamente "brasileiros". Um "jovem" autor "alternativo", como eu, com uma temática um pouco diferente, na maioria das vezes é colocado de lado de antemão.  

Uma forma de começar a penetrar são as antologias. No Brasil, que tenho meus próprios livros, eu não costumo participar. Mas lá fora já perdi a conta de em quantas antologias e línguas estou. Meus contos "Espinha de Peixe", "Apocalipse Silencioso", "Eu Sou a Menina Deste Navio", "Você È Meu Cristo Redentor", "Seis Dedos para Contar", "Conto de Lobisomem" e "Piranhitas", estão traduzidos e publicados diversamente em Espanhol, Inglês, Alemão, Italiano e Húngaro. 


Nicole, minha agente, é responsável pelo meu sucesso lá fora. Pelo fracasso, sou responsável eu. (Frankfurt, 2011)


De lançamento solo tive A Morte Sem Nome em Portugal, e só (e eu nem cheguei a ir para lá). Agora tenho Mastigando Humanos na Espanha e Itália, e Feriado de Mim Mesmo também deve sair na Itália em breve. 
Bogotá 39 (2007). 

Mastigando foi vendido há aaaaanos para a Itália, nunca saiu, o contrato aspirou e este ano assinamos com outra editora italiana. Também chegou a ser vendido para o Peru, mas nunca saiu. É a maldição de ser um autor "underground". 

Mas vamos lá, que é uma longa carreira a se aspirar.. no bom sentido. Já é uma delícia poder sempre viajar. E desta vez darei uma esticadinha em Portugal, que será o 24º país a conhecer.

Abaixo, minha programação na Espanha. Apareça!



22/05/2013

A VIDA AQUI DENTRO


Agora é oficial, contrato assinado, publicação prevista para o segundo semestre: Mastigando Humanos e Feriado de Mim Mesmo, que estavam esgotados há um tempinho, foram para Record, que tem me publicado desde 2009.

Bacana. Com isso, todos meus livros disponíveis ficam numa casa só - Feriado de Mim Mesmo; Mastigando Humanos; O Prédio, o Tédio e o Menino Cego; Pornofantasma e Garotos Malditos. Por enquanto, os dois primeiros (Olívio e A Morte Sem Nome) ainda ficarão esgotados. É questão de VOCÊ comprar HORRORES dos outros...

Mastigando Humanos será relançado primeiro. Uma versão revisada. Foi bem doloroso pegar o livro novamente, reler - eu pensava "fui eu mesmo que escrevi essa bagaça?" Ainda que os leitores em geral gostem mais da primeira metade, do que do final desse livro, eu achei o contrário. Ou demorei para entender a proposta do livro. É um fluxo de consciência alucinado e verborrágico, no qual eu não me reconheço mais. Por isso mesmo limitei a reescrita a uma revisão e corte de vícios de linguagem - acrescentei uma piadinha a mais aqui ou ali, nenhuma mudança substancial. Espero que apenas melhorias.

Peguei agora Feriado de Mim Mesmo, que tenho achado um livro muito mais estruturado e "maduro" (embora tenha sido escrito antes, e essa palavra não tenha apenas uma conotação positiva). Tem sido mais fácil de ler. Talvez seja meu melhor livro. Ainda assim, estou alterando coisinhas, dando uns pontos a mais, reforçando o bordado.

As capas dos dois ficarão a cargo do (meu eterno colaborador) Alexandre Matos. Sem ilustrações. Já dei distrações demais a você, agora é hora de reafirmar o texto.

Mas não espero viver só do meu "passado glorioso". Ano que vem deverá haver romance novo, adulto  (ou quase...). Eu na verdade comecei vários, abandonei vários, agora estou com um semi-delineado. A carga de trabalho aqui está pesada - traduções, a série de TV que escrevi e que já está na pré-produção - então a masturbação acaba ficando em segundo plano. Mas quando há prazer, há derramamento. Se todos os prazeres são orais, uma hora sai. ;)


12/05/2013

CHEGANDO AOS... 30. 


Dia das mãe o caralho, é meu aniversário!

Ok. São 36. Melhor assumir. Engraçado que muitos amigos mais velhos do que eu - alguns da minha idade -agora estão ficando mais novos na idade que consta no Facebook, na Wikipedia...

A idade está na cabeça. Você pode ter 40 com mentalidade de 20... se for um retardado mental. Não entendo essas pessoas que dizem que "não sentiram o tempo passar", se sentem jovens. Eu sinto cada segundo dos 36 anos. Manter a forma é um esforço, a cabeça já está mais do que lesada, o ânimo, a empolgação, a paciência já não são os mesmos... Tanta coisa muda. E a maioria para pior.

Mas nem tudo. Talvez ainda haja motivos para comemorar. Por isso comemorei ontem. 

Meu grande amigo Carlos Fortes ofereceu não apenas o apartamento dele em Higienópolis, mas comidinhas, bebidinhas, tudo impecável. Eu não queria abusar, e chamei só os mais chegados. Levei meu famoso sanduíche de pacotinho e fiz brigadeiros psicodélicos com sabores inusitados. Olha aí. 



O de "cristais de sal" é uma tendência europeia - sério, por lá se vê cada vez mais. No brigadeiro a dica é só colocar alguns grãozinhos pequenos de sal grosso junto ao granulado. O de wasabi foi invenção minha (inspirado no Kit Kat de wasabi que comi no Japão) e foi o  melhor de todos. 



Carlos e Gabriel. 

Festa animada. 



Carlos, o anfitrião, é amigo recente, mas para sempre. 


Meninos lindos. 

Meninas lindas. 



Laerte e Bruno. 

Gabriel e Juliana. 



Viu? Os brigadeiros foram sucesso. E fiz cinco latas de leite moça. 


A ideia era fazer "cara de Santiago", mas eu mesmo saí com cara de idiota. 

Núcleo do reveillon de Floripa.


É ele. 



Fim de festa.


10/05/2013

RUFUS! RUFUS!




Você é um cara simpático, bem apessoado, toca piano muito bem, domina o violão, compõe lindamente, escreve letras riquíssimas, sabe cantar como poucos e tem um belo alcance vocal. Ainda assim, as pessoas não estão interessadas no que você tem a dizer. As pessoas acham você meio chato. Elas se empolgam mais pelo novo single da Lady Gaga ou por uma nova banda com um som genérico. E os grandes prêmios - tipo Grammy - passam longe de você, claro. Você nunca vai estar nas paradas da Billboard.

Essa foi minha conclusão ao ver hoje o show do Rufus Wainwright em São Paulo, num HSBC praticamente vazio. Eu mesmo não iria ao show - confesso - já tinha visto o show de 2008, não queria gastar e não me empolgava em ver mais um show dele só de voz e piano. Mas me surpreendi.

Fabbie me ligou ontem dizendo que tinha ingressos, então me empolguei rapidamente. Fomos numa turma grande para o HSBC, sentamos todos juntos perto do palco (porque TODO MUNDO sentou perto do palco), pedimos garrafas de vinho e comemoramos.

O show foi perfeito. Mesmo.Apesar de ser no mesmo esquema de 2008 - voz e piano/violão - e de não ter o apoio da irmã e da mãe dele, como no anterior, o show foi superior, musicalmente impecável. Ele falou menos, tocou mais, foi o show de um artista mais maduro, e ainda assim simpático e flexível. No bis, ele distribuiu pandeiros e maracas para a plateia acompanhá-lo, e foi tudo lindo.

Quando ele tocou "Zebulon", sozinho no piano, perto do fim, confesso que deixei umas lágrimas escorrerem. Quase borrei minha maquiagem...

No show. 

Na metade do show, eu comentava com a Fabbie sobre como ele fazia tudo bem, cantava, tocava, compunha. Ainda assim... por que ele não é um sucesso?  Bem, comentava também como ele era "mais bom" do que "legal" e isso faz toda a diferença. E onde está a diferença, quando você sabe que um artista é ótimo, faz tudo bem, e até tem bastante carisma e simpatia, mas não é tão legal ou divertido como as pessoas gostariam. Bom, talvez o problema esteja aí. Por que o tão "bom" não é tão "legal"?

Talvez seja como eu falei naquele outro post, do tradutor/editor, talvez você precise ser um pouco pior para ser mais legal. Ou não necessariamente, mas talvez você possa ser reconhecidamente muito bom, e ainda assim não tocar tanto as pessoas, porque elas não se identificam tanto com você. Taí uma lição a ser aprendida. O artista alienígena - genial ou não - que tem um universo muito próprio e que não se comunica muito com o que as pessoas estão vivendo, sentindo, fazendo, acaba meio abandonado. Como Rufus Wainwright no HSBC Hall.

As pessoas que falam como Lady Gaga é revolucionária, blablablá, obviamente estão falando dela numa realidade muito restrita - estão falando como ela é revolucionária para quem escuta Madonna, para quem escuta lambada - se alguém escuta opera, música pop, MPB, Lady Gaga não tem nada de novo. Mas ainda pode ser boa por juntar uma ou duas coisas que não estavam combinadas...

Não acho que o Rufus seja "bom demais para ser apreciado", o som dele não é difícil assim. Mas acho que ele seguiu por uma direção elitista que poucas pessoas apreciam. É um som pop para quem já pode absorver o erudito, taí o dilema. Não basta fazer muito bem o que você sabe. Você também tem que mostrar muito bem o que AS PESSOAS QUEREM (ouvir/ver/ler), ao menos para fazer sucesso. Obviamente, eu estou fazendo minhas anotações pessoais.

Em tempo, o último disco dele "Out of the Game", eu acho dos mais fracos. Porque ele busca arranjos pop para o som sofisticado dele, mas acaba se contendo. Resultou num CD meio pasteurizado. Meus favoritos ainda são "Want One" e "Release the Stars", que talvez sejam de fato os mais pop.

Set list:

The Art Teacher

This Love Affair

Matinee Idol

Vibrate

Out of the Game

Jericho

Who Are You New York?

Martha

Memphis Skyline

Hallelujah

California

11:11

Going to a Town

Montauk

Zebulon

Cigarettes and Chocolate Milk


Millbrook

Candles

Poses




04/05/2013

ANIVERSARIANTE DO DIA


Minha sobrinha, Valentina.

Hoje foi a comemoração de aniversário de 1 ano da minha sobrinha. Minha irmã e cunhado reuniram amigos no Parque Vila Lobos para um piquenique. E tivemos comidinhas, vinho e sol - muito sol. Levei bexigas, bolhinhas de sabão, chapeuzinhos e sanduíches de pacotinho. Como não é motivo para grandes devaneios, reflexões e ficções, fico com as fotos. 



A pequena. 

O pequeno. (Levei meu estagíário para encher bexigas...)



Vó Elisa. 


Pai-cunhado e mãe-irmã. 

Tio vampiro.



Vampiro tem de morder. 


Os amigos. 


 Meus famosos sanduíches de pacotinho. Resolvi tirar a foto antes que acabassem. (Fiz 30, foram todos). A receita é segredo, mas vai frango, maionese, suco de laranja, curry, picles, cebola, maçã, cenoura, mostarda, gengibre e mais não digo. 


O parabéns.

Ele e eu.  

03/05/2013

TROLL FAIL


Como eu não tive infância - você sabe, enquanto você brincava de gato mia eu estava na labuta como Maroto, separando as carrerinhas a serem aspiradas pela chefa durante a exibição de "Cavalo de Fogo" -  tento resgatar o espírito lúdico no meu árido dia-a-dia.

Levei esse besourinho de borracha para a academia. Tenho uma colega, senhora mais velha, que sempre deixa sua garrafinha d'água marcando lugar na bicicleta ergométrica. Entrei na sala sorrateiramente, antes da aula, abri a garrafinha e coloquei o besouro dentro.

Enquanto esperávamos a aula começar, conversávamos:

ELA: Onde se meteu essa professora?

EU: Parece que está conversando com a fiscalização sanitária. O pessoal tem encontrado baratas, besouros aqui na academia.

ELA: Credo. Ainda bem que trago minha aguinha de casa.

E ela bebia sua garrafinha roxa-transparente, sem notar o besouro lá dentro.

A aula começou, avançou, e ela virava a garrafinha sem perceber o bicho lá dentro.

EU: Dá um gole dessa água?

ELA: Não, essa daqui é aditivada, não é pra criança.

EU: Mas tô com seeeede...

ELA: Azar o seu.

EU: Quero descobrir o que tem nessa água aí..

A aula foi passando, a água acabando, e nada de ela gritar por causa do besouro.

Na hora de ir embora, comecei a me preocupar dela jogar o bicho fora sem notar, de ter um ataque cardíaco. Se não deu certo o troll, pelo menos queria meu besouro de volta.

EU: Er... Preciso te dizer... Tentei te tollar mas não deu muito certo...

E sacudi a garrafinha contra a luz, mostrando a ela o conteúdo.

ELA: Acha que não vi, seu retardado? E não adianta que não vou devolver essa porcaria, não.

QUAC!

27/04/2013

EU, EDITOR. EU, TRADUTOR. 


Estou terminando a tradução de um livro ótimo, literatura, coisa e tal. Daí fiquei pensando que se eu fosse o editor eu recomendaria deixar os personagens um pouco menos reais, mais representativos. E aumentar um pouco o (melo) drama para deixar mais emocionante. Enfim, acho que eu sugeriria tornar o livro pior para que ficasse mais legal. Faz sentido?

Me fez pensar nas minhas escolhas - como autor e como tradutor. Recentemente o produtor da série de TV que estou escrevendo (que ainda não posso dar detalhes - estreia próximo ao fim do ano) me pediu para tornar alguns diálogos menos caricatos. Eu alterei, porque estou escrevendo sob encomenda. Mas se a escolha fosse minha eu obviamente preferiria a caricatura. Sempre tive consciência do limite do mau gosto na minha escrita. Sou partidário do excesso, do exagero, da repetição, gosto do kitsch, do trash, e prefiro personagens representativos do que reais. Acho que o livro em que isso fica mais claro (que é o livro que tem mais minha cara) é O Prédio, o Tédio e o Menino Cego. Enfim, o livro que a crítica e os leitores menos gostaram. 

Como tradutor, minha escrita também é limitada, claro. Eu preciso seguir o que o autor pretendeu. Mas o tradutor também tem suas escolhas, e pode melhorar (ou piorar) o texto, sim. 

Estava comentando agora há pouco no FB sobre O Mágico de Oz, que eu traduzi para a Leya/Barba Negra. É um livro bastante infantil, e não digo isso como crítica. Mas esse tom que direcionou toda minha tradução, como se eu estivesse contando a história para uma criança. A técnica é escolher as palavras mais fáceis em português, usar diminutivos que não existem no original em inglês ("Dorothy se sentou no cantinho da cama") e outras construções próprias do português que não teriam como estar no original, mas que podem ser usadas para dar o mesmo efeito (ou um efeito próximo ao) que o texto tem em inglês. 

Essa questão do tradutor "melhorar" o texto é muito discutida. Muitos dizem que isso não deve ser feito, mas às vezes é inevitável. Quando me deparo com um texto que peca pela repetição de uma determinada palavra, eu procuro sinônimos. Vez ou outra eu ELIMINO a palavra, confesso. Não acho que isso seja uma atitude errada do tradutor.

Por exemplo, traduzi um livro que tinha tanto a palavra sudden (repentino) que eu simplesmente a limei. Era tod hora uma "sudden explosion" uma "explosão repentina". Porra, que explosão NÃO É repentina? Só se você estiver trabalhando numa pedreira.  Não se precisa desse sudden. Cortei. 

Também confesso que já alterei levemente o tom de uma tradução. Um juvenil de fantasia chaaaaato pra dedéu, que só tinha drama, só acontecia desgraça, sem humor algum. Eu optei por traduzir palavras e expressões usando gírias que tornaram o texto mais leve e mais divertido. É errado? Não acho. Você só está escolhendo palavras para dizer o que de fato está escrito no original. "She's ugly as hell" pode ser "ela é feia como o diabo" ou "ela é feia para danar" ou "ela é o cão chupando manga" (neste caso, para um livro juvenil, eu escolheria a última.) 

Essas são algumas técnicas que uso como tradutor (e como autor). Na verdade, são intuitivas. Eu tive de desenvolver sozinho, na raça. Sou formado em Publicidade e Propaganda (pela FAAP). Apesar de ter entrado em Letras na USP, nunca cursei. Nunca frequentei oficinas literárias. Não fiz curso de tradução. Aprendi inglês morando fora (e jogando videogame, lendo, vendo filme, ouvindo música...). Então admito que tenho muito, muito, muito medo das minhas primeiras traduções. Jamais releria esses livros. Mas hoje já são mais de TRINTA livros traduzidos (alguns filmes e algumas peças), dez anos dessa carreira (que começou junto à minha carreira de escritor), acho que deu para aprender algumas coisas. 

Claro, minhas escolhas são discutíveis (e é preciso discutir com o editor). Mas é um trabalho que faço com prazer e - ainda que seja muito difícil viver só de tradução - que paga minhas contas.

Ps - Obviamente só dou nomes e divulgo os livros que traduzi e gostei. Não seria ético com a editora eu  espinafrar publicamente um livro que eles me pagaram para traduzir. 





ÚLTIMA AULA DO ANO

Vou dar minha última aula este ano, em cima dos textos de vocês. Me mande as dez primeiras páginas ou o projeto de um romance em que esteja ...