23/06/2015

A ARTE DE MENTIR DIZENDO NADA ALÉM DA VERDADE


Escrevi para o site da Rocco um pouco do processo de tradução de Vidas Reinventadas, um dos livros mais bacanas que fiz recentemente. Aqui: 

Assim como a escrita, a tradução exige técnicas, que começam com um profundo conhecimento da língua, mas que nunca se restringem a isso, assim como nunca se restringem à técnica. Como um autor muito intuitivo, sempre adotei essa mesma postura na tradução, tentar “sentir” o tom do texto, viver a história, mais do que decodificá-la. Na prática, isso significa que faço uma tradução bem bruta, passando pelo texto de maneira grosseira, e revisando/readequando conforme avanço. Geralmente começo a tradução com o meu vocabulário (ou da tradução anterior) e vou encontrando aos poucos qual seria o vocabulário do texto, do personagem, quem é o personagem. Muitas vezes, ao chegar ao final do texto, encontro as melhores expressões para o começo, uma sugestão de título, mais ou menos como acontece com a escrita dos meus livros.

Dizer que Vidas reinventadas é um romance peculiar seria uma nulidade. Porém é um texto em que esse tom particular fica mais em evidência do que nunca. Para começar, já é narrado por um imigrante soviético (autor e narrador), com um inglês bem colorido. As expressões que ele usa não são as expressões que se usaria em inglês e não podem ser traduzidas pelas que se traduziriam em português. A história em si trata de um escritor tentando neutralizar seu tom de escrita para contar a história de outros – nesse processo sou tradutor de um tradutor fictício. Expor exemplos aqui seria detalhar um processo que provavelmente não interesse ao leitor (“só quem pode avaliar o trabalho do tradutor é quem não precisa dele”), mas a busca foi sempre manter as “cores” do texto original, uma certa estranheza com fluidez, sempre com fluidez. Obviamente minhas próprias raízes familiares na região (a Armênia, parte da antiga União Soviética), e conhecer pessoalmente um pouco de lá (Rússia, Estônia…), me ajudaram muito a visualizar o universo proposto por Fishman.

Talvez todo grande escritor seja universamente estrangeiro, observa o mundo de fora e tenta colocá-lo em palavras. Quem se propõe a escrever na sociedade de hoje já está contra a corrente. Mas Boris Fishman tem uma boa desculpa, a melhor desculpa. Para soar estranho, deslocado, e ainda assim encantador. Vidas reinventadas é a descoberta de um mundo novo, com leis próprias, a cada página.




Sobre o livro: 

Aclamado romance de estreia do russo radicado nos Estados Unidos, Boris Fishman, Vidas reinventadas é um livro sobre família, Holocausto, os limites entre a ficção e a realidade. Com uma linguagem fluida e elegante e uma história cheia de desvios e nuances, Fishman apresenta o protagonista e alter-ego Slava Gelman, um aspirante a escritor da revistaCentury.

Descendente de judeus russos que imigraram para os Estados Unidos quando ainda era criança, Slava vem se distanciando da família que vive no Brooklyn para se tornar mais americano e fazer algum sucesso escrevendo na América. Isso começa a mudar após a morte de sua avó – uma sobrevivente de um gueto nazista em Minsk – e de um pedido inusitado de seu avô: forjar um relato de como a avó sobrevivera à guerra.

Dois dias antes de morrer, a avó recebera pelo correio um formulário do governo alemão em que sobreviventes do Holocausto deveriam relatar suas histórias a fim de receberem uma indenização. Sua avó não falava sobre o assunto e nunca escreveu a carta. Seu avô, também um sobrevivente, não se enquadrava exatamente nos critérios do governo alemão para se candidatar: fugiu para o Uzbequistão no início da guerra, nunca esteve em um gueto ou um campo de concentração.

A princípio relutante, Slava acaba cedendo e escreve um relato para ser enviado no nome do avô. Em seguida, começa a escrever para toda uma comunidade de velhos imigrantes judeus da União Soviética, entrando de cabeça em um turbilhão de histórias – inventadas – sobre o Holocausto ao mesmo tempo que se reconecta com sua avó, suas origens e o restante de sua família. Tratando de temas muito sérios com humor, ironia e até mesmo aspereza, Boris Fishman nos apresenta questões sobre a verdade, a justiça e a história.

Com personagens tão humanos e verossímeis que quase podemos ouvi-los falando, Vidas reinventadas aborda temas sensíveis sem vitimização, o que confere profundidade à história. Aclamado pela crítica e carregado de referências literárias, desde Dostoiévski e Tolstói até García Márquez e música pop russa, o livro é repleto de jogos de linguagem, discutindo as limitações da língua adquirida, os contrastes com a materna, com pitadas de hebraico e ídiche.

05/06/2015

TEMATICAGAY


Semana que vem, reencontro o querido amigo Marcelino Freire para discutir sobre literatura e homossexualidade. 

Terça-feira, 9 de junho, às 19h30, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37)
com: Marcelino Freire e Santiago Nazarian 
mediação: André Fávero 


Entrada franca e tudo mais. Apareça. 

01/06/2015

OS CRENTE PIRA


Lia hoje sobre a atual polêmica do Boticário, boicotado pelos evangélicos por apresentar um casal gay em sua campanha de dia dos namorados. Voltou também a discussão do conceito de “família”, sendo formado apenas por homem e mulher. Nesses temas, sempre chovem comentários da crentaiada toda, um povo que nunca teve acesso à educação, mas que agora tem internet e poder de consumo (e de boicotar).

“É por isso que o Brasil está assim, sem valores”, pregam alguns que vêem a aceitação da homossexualidade como um sintoma de decadência moral do país. Gente certamente que não viajou muito, não parou para pensar que a aceitação da homossexualidade é coisa de país rico, de primeiro mundo.

Um amigo gay militante falou em “emburrecimento” da população. Não acho que a população esteja mais burra – é só que os ignorantes agora têm mais meios para se expressar. “Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo”, é um clichê repetido à exaustão. O clichê mais óbvio nunca é cogitado: “Deus não existe.”

Sou ateu, sem convicção. Não acredito em Deus, mas não tenho certeza de que Deus não exista – como poderia ter? Acima de tudo, acho muita soberba do ser humano tentar entender o seu “criador”, se é que há um criador. Se Deus existe, está muito bem escondido - talvez prefira ficar assim. Se o ser humano foi “criado” por alguém, como pode procurar entender esse ser? Pode ser uma criação de laboratório, alienígenas, forças desconhecidas – o que me parece óbvio é que se algo foi capaz de criar a vida, não pode ser explicado por ela.

Venho de família católica, mas nunca fui batizado. Meus pais nunca acreditaram, e sabiamente se abstiveram de batizar os filhos, já que não iriam hipocritamente seguir os rituais (ao contrário de tantas famílias que batizaram apenas para seguir a tradição de batizar). Estudei em boas escolas. Li bons livros. Pude entender um pouco que a ideia de religião, Deus, Jesus e tantos outros muda conforme a época, conforme o interesse. A Bíblia pode ser interpretada de diversas maneiras.

Sei que é certo preconceito – há grandes pensadores com crença religiosa – mas, para mim, de antemão, se o cara acredita em Jesus-Deus-Bíblia, eu já fico com pé atrás. Já acho que é um coitadinho suburbano que cresceu sem uma boa escola, que teve a educação e o lazer centralizados na igrejinha da rua. É como um adulto que ainda acredita em Papai Noel. Aliás, se o cara acredita em Jesus, tem de acreditar em Inferno, não? Então o cara acredita num diabo chifrudo queimando pessoas... Acredita em possessão, exorcismo? Acredita também em lobisomens? Bem, certamente acredita em fantasmas, não? Acreditar em Jesus não obriga que se acredite em fantasmas, zumbis? Enfim, é um adulto que acredita em contos de fadas.

Os que acreditam cegamente... tapam os olhos para os próprios pecados. Tanto moleque comentando por aí que gay vai queimar no inferno, que ser gay é errado. Deve ser tudo virgem, né? Claro. Porque transar antes do casamento é pecado...  Por sinal sexo oral também, não? Já que não reproduz... Isso sem mencionar tantos e tantos outros pecados citados na Bíblia e cometidos diariamente por todos, tipo usar roupas com tecidos diferentes, cortar a barba, etc, etc. Enfim, é uma condenação seletiva. Sinceramente, a Bíblia é só uma desculpa que esse povo usa para outros problemas que tem com a homossexualidade.

Não tenho certeza nenhuma. Não tenho certeza de que Deus, Jesus, nem coelho da Páscoa não existam. Só acho que que cobrar uma fé cega, irracional, é burrice. Devemos cada um fazer o melhor, seguindo o puro bom senso, educação. Acreditar é o de menos. Se Deus existe, ele não precisa que acreditemos nele. 

22/05/2015

LITERATURA E CINEMA


Terça agora participo novamente do Sempre um Papo, dessa vez com meu querido amigo, bróder e supervisor Marçal Aquino.

Vamos discutir sobre literatura e cinema, o mercado de direitos autorais, as adaptações para as telas, técnicas de roteiro. Eu venho trabalhando cada vez mais com isso nos últimos anos. Marçal é dos melhores roteiristas do Brasil, já trabalhou em diversos filmes, atualmente é roteirista da Globo e está supervisionando o roteiro de BIOFOBIA, que estou escrevendo com Renato Ciasca. Eu vou ter de me controlar para não tomar o lugar de mediador, porque quero mais perguntar do que falar.

Também será aberto a perguntas do público e no final vamos autografar nossos livros mais recentes. Apareçam!




20/05/2015

O MESTRE CUCA E O COELHO



Nunca gostei de reality. Acho imbecilizante, não vejo qual é a graça de assistir um monte de gente burra confinada numa casa. Mas ano passado acompanhei toda a primeira temporada do Masterchef; Murilo era fã e me viciou– e ainda descobri que tinha uma antiga amiga, a Bianca, participando da disputa. Não sei nem se o programa pode se chamar de reality. É uma competição onde os participantes têm de fato demonstrar um talento – para a cozinha – onde o expectador aprende algo – sobre culinária.

Eu mesmo sempre gostei de cozinhar, vou além do básico, já preparei até urso, alce, rena, quando morei na Finlândia. Mas o Murilo é mais ambicioso, estudioso, leva a coisa mais a sério. E quando abriram as inscrições este ano, ele decidiu participar.

Desde que nossa coelha Asda veio aqui para casa, nos pegamos pensando se seríamos capazes de comer coelho novamente – nunca foi das minhas carnes favoritas mesmo. Quando pensávamos no que seria um bom vídeo de inscrição para ele, achamos que um prato de coelho seria um bom desafio. Murilo testou várias receitas e fez um divino. Colocamos a Asda no comecinho do vídeo, meio como uma piada para chamar a atenção da produção (já que nesse primeiro momento eles só poderiam ver, não poderiam provar).

Chamadinha no site do Uol, onde até eu apareci. 

Funcionou. Eles gostaram do vídeo, chamaram o Murilo e ele passou por várias etapas até ser chamado de fato para gravar o programa. No dia da gravação, quiseram reproduzir a brincadeira que ele fez no vídeo de inscrição. Relutamos um pouco, não pela segurança dela (ela ficaria comigo, na casinha de transporte, não havia “risco” nenhum), mas pelo sensacionalismo. Murilo queria ser avaliado pelo prato, não pela piada. Também era um pouco esquisito trazer um animal para a cozinha. Como a produção insistiu, topamos. Convém dizer que eles fizeram tudo para Asda ficar confortável e anteciparam a gravação do Murilo para ela ficasse o menor tempo possível no estúdio.

"Quem ama come"

Quando Murilo entrou para apresentar o prato, fiquei do lado de fora. Então não tinha visto exatamente o que aconteceu lá dentro. Mas entendi e gostei da mensagem que quiseram passar – de associar o animal à comida servida, mostrar que aquela carne foi um animal vivo, bonitinho, que poderia ter sido um pet, um membro da família. É um choque de consciência, ou para se ter mais respeito pelo alimento ou para se tornar vegetariano de vez. E se muita gente se choca com a ideia de cozinhar o próprio pet, convém lembrar que isso é normal para quem é criado em sítio, em fazenda...

Eu na torcida. 
Quem viu o programa ontem já sabe, Murilo ganhou o avental. E vocês vão poder ver como de fato ele cozinha (se não puderem provar...). Torçam por ele. Asdinha está aqui, está bem e manda beijos. 

Asda é blasé e nem liga pra TV. 

15/05/2015

TREZOITÃO


E já sou quase um quarentão. Sentindo cada segundo dessa vida intensa, no corpo, na alma, nas juntas. Dói, mas é gostoso. Planejava comemorar em grande estilo, fora do país, mas tive de adiar pelo excesso de trabalho, falta de dinheiro. Decidi de última hora vir para meu lugar favorito no mundo: Florianópolis. Murilo conseguiu uma brecha e veio comigo.

Foi uma semaninha perfeita: mormaço durante o dia, frio e chuva só de noite. Fizemos trilhas, rodamos metade da ilha de bicicleta, comemos muito bem (camarões, lagostas, polvos), tivemos a ótima hospedagem da Ida na Pousada do Marujo, na Barra da Lagoa. Para mim esse é o tipo de viagem ideal: natureza, atividade física, conforto, boa comida… e um lôro.

Na Lagoa do Peri
Murilo como sempre foi ótima companhia - parceiro e bem humorado. Topou pedalar os cinquenta e tantos quilômetros diários, literalmente de norte a sul. Fomos recompensados com belas paisagens, a fauna ainda preservada. Até um macaco conseguimos ver dessa vez na Reserva Florestal do Rio Vermelho.

O bicho no mato.


Looooongas pedaladas.
Com Ida e Trishiya
Na terça, meu aniversário, Murilo assou uma bela tainha na churrasqueira da pousada. Eu fiz minha famosa lula a dorê e drinques de Absolut. O friozinho veio só pra ornar.

Não faltou, é claro, a clássica sequência de camarão. 
Falando em Murilo e comidas, quem já viu a chamadinha na TV já sabe. Murilo está no Masterchef Brasil, que estreia nova temporada terça agora, 22:30, na Band. Até a ASDA participou. É ver para crer. 
Still do trailer. Será um tartar de coelha?

Voltamos já amanhã para São Paulo - tenho de correr com mil textos, roteiros e traduções. Apesar de tudo, tem sido um bom ano. Surgiram várias propostas bacanas, não tem me faltado trabalho e o dinheiro está entrando aos poucos. Logo conto as novidades que vêm em livro e em filme. E uma bela viagem fica planejada para o segundo semestre.

Novo fôlego aos 38.

08/05/2015

MINHA AVÓ

Dona Zília e eu, anos atrás. 

Hoje fui ao asilo visitar minha avó que acabou de fazer 89 anos. Levei lírios. 

"Vó, sei que talvez seja tarde para contar isso, mas não poderia deixar a senhora partir sem saber realmente quem é seu neto. Eu... eu sou gay."


Comprimindo os olhos, ela diz. "Não posso entender tudo o que se passa no mundo de hoje. Mas para mim você será sempre a mesma pessoa, meu neto."


Eu me aproximo para dar um abraço e um beijo. Ela estende a mão. 


"Não vamos exagerar, né? Sabe-se lá onde você pôs essa boca..."


Postei ontem de noite esse texto no Facebook. Acordei com centenas e centenas de polegares, comentários e compartilhamentos, que continuam crescendo.

Santiago, você é um cara gente boa demais. Não é de se estranhar que sua avó também seja assim.
Lindo momento esse que vocês dois tiveram

Vó sendo vó. HAHAHAHAH

Gay é um rótulo estranho. Vc é sim um ser humano maravilhoso . E vc acha que ela não sabia? Ela é uma graça!

Fofa pela aceitação e sábia por suspeitar do beijo hahahahaahahahaah

Muito forte essa história! Mostra bem - e com humor - as contradições nossas em lidar com as diferenças… de ambos lados, neste caso. Parabéns por contar publicamente, Santiago Nazarian!

Longe de ser uma história verídica...

Minha avó vem de família armênia, tradicional, conservadora. Nunca trabalhou.Viveu sempre com conforto rodeada de empregadas - "Ninguém pode dizer que sou racista porque todos meus criados são de cor" - é uma das frases antológicas que de fato ela verbalizou. Depois que meu avô morreu, há mais de vinte anos, ela passou a vida viajando pelo mundo (ou pelo "primeiro mundo"). Até que o corpo e a cabeça começaram a deteriorar e ela foi ficando mais e mais trancada em seu apartamento no Itaim Bibi.

Há pouco mais de um mês ela se mudou para um "asilo". Ou uma casa de repouso de luxo, de fato. Os filhos agora se desfazem de um apartamento acumulado de relíquias, recortes de jornal do século passado, moedas mortas, francos, liras, cruzados novos. A empregada que estava há mais tempo com ela - mais de quarenta anos - morreu três semanas depois de ser dispensada - diagnosticada e morta de câncer nesse curto espaço de tempo. Minha avó resiste aos 89.

Nunca falei abertamente com ela sobre minha sexualidade - porque jamais poderia falar de qualquer sexualidade com minha avó. Lembro de uma vez que, criança, levei um tombo e falei rindo "ai, minha bunda!" Fui reprovado por ela por falar uma "palavra feia". Minha avó deixou de assinar a revista Caras porque tinha muito anúncio de lingerie...

Ontem fui visitá-la no "asilo", levei flores (não levei lírios, que são para enterro), conversamos amenidades. Ela falou dos bisnetos, minha sobrinha ("tão loirinha"), surpreendi-me até de ela achar interessante poder ter um bisneto mestiço (uma prima minha acaba de se casar com um japonês).

A história sobre a "confissão" é apenas uma história. Inspirada pela declaração do Ziraldo, claro. Declaração infeliz, sem dúvida, homofóbica, mas de um senhor de 82 anos, de outro tempo. Reforça a reflexão de que um escritor, um artista, não precisa dar a opinião sobre tudo, não importa tudo o que ele pensa, e que caráter não tem nada a ver com talento.

Só não digo que continuo admirando Ziraldo como artista porque... nunca admirei. Sempre achei os livros dele um porre. Desde criança. (Com a Ruth Rocha - a crucificada da semana passada por falar mal de Harry Potter - já é diferente. Lembro bem Marcelo, Marmelo, Martelo como uma de minhas primeiras leitura prazerosas.)

Mas digo que continuo admirando Lobão como compositor, por exemplo. Só deixo de ouvir as merdas que ele fala de política.

Voltando à história da avó, me surpreendeu a repercussão. Acho que tem um pouco a ver com o momento, a ligação com o Ziraldo. E o povo gosta de uma história de aceitação, ainda que torta. (Se fosse mais piegas, talvez gostasse ainda mais.) Jamais seria aquela a reação da minha avó. Ela jamais entenderia ou aceitaria, mesmo tortamente. Mas eu continuarei visitando-a com flores, até chegar a hora dos lírios.

No final, a repercussão desse post me lembrou a história do JT LeRoy (de que já falei tanto aqui), da autora Laura Albert, que criou um personagem fictício, com uma história biográfica de sucesso, que fez sucesso por acreditarem ser real. É o "Paradoxo de LeRoy". Ao mesmo tempo em que ela se orgulhava de sua história, não podia assumir a autoria, pois revelada como "história" não teria o mesmo impacto. "A realidade é mais interessante do que a ficção" é uma falácia em que os não-ficcionistas querem acreditar.

Conversando com Laura "LeRoy" Albert. Grande autora. 

04/05/2015

O VOO DA LIBÉLULA

Resenha que assinei na Folha deste sábado: 

"Esse aí deve ser uma maravilha", disse meu namorado ironicamente ao ver a edição de "O Voo da Libélula", enviada pela Folha, na minha mesa de trabalho.

O título um tanto quanto cafona não ajuda (o original francês, "Un Avion Sans Elle", se traduz literalmente por "Um Avião Sem Ela"). A chamada de capa também já afasta qualquer pretensão literária: "Duas bebês, um trágico acidente de avião, só uma sobrevive. Qual delas?"

Não se pode, no entanto, culpar a editora por vender o livro exatamente pelo que é: ficção cafona, barata e rasteira que justifica bem os "mais de 800 mil livros vendidos" (também com chamada na capa). É preciso avançar apenas algumas páginas para constatar de que tipo de romance se trata.

Fica a dúvida se a narrativa será divertida e instigante o suficiente para merecer a denominação de "page turner", daquelas que não conseguimos parar de virar as páginas até saber o final.

Infelizmente, "O Voo da Libélula" é moroso como mosca de padaria. Através de anotações de um detetive particular e ações acontecendo em tempo real durante a leitura dessas anotações, acompanha-se a história de "Lylie", a bebê sobrevivente de um acidente aéreo, que 18 anos depois ainda não têm certeza de sua identidade.

Lylie pode ser "Émilie Vitral", órfã de uma família humilde, ou "Lyse-Rose", herdeira de ricos industriais.

Sim, as 400 páginas do romance inteiro giram em torno dessa dúvida um tanto inverossímil. A partir daí pode se imaginar todos os desdobramentos novelescos: os ricos inescrupulosos tentando comprar a menina; a família humilde criando-a com dificuldades, mas com amor verdadeiro.

Uma das questões centrais do romance, inclusive, é o amor incestuoso que o possível irmão Marc Vitral nutre pela jovem. É uma colagem de estereótipos, com personagens bidimensionais que parecem ser descritos de maneira apenas a facilitar a adaptação cinematográfica.

O texto do detetive é tão policialesco que parece envergonhar até o autor, que se isenta, colocando personagens que criticam os recursos que ele mesmo se utiliza para manter o suspense.

O que pode se dizer de positivo sobre o "Voo" de Michel Bussi é que ele é bem planejado, sem turbulências, decola e pousa onde se esperava.

Afinal, acontece sempre em círculos, e a solução se torna bem previsível com uma área tão restrita para se manobrar.

O VOO DA LIBÉLULA

AUTOR Michel Bussi

TRADUÇÃO Fernanda Abreu

EDITORA Arqueiro

QUANTO R$ 24,99 (400 págs.)

AVALIAÇÃO ruim

27/04/2015

TODA LUZ QUE NÃO PODEMOS VER

Resenhei o ganhador do Pulitzer na Folha deste final de semana (capa da Ilustrada):

Não se pode dizer que um épico histórico sobre a Segunda Guerra seja uma escolha arriscada para um romance. O tema parece oferecer enfoques tão inesgotáveis quanto o interesse do público —motivo pelo qual “Toda Luz Que Não Podemos Ver” começou a vender bem antes mesmo de ser indicado ao National Book Award, em setembro, e ganhar, nesta semana, o Prêmio Pulitzer de ficção.
Entretanto, se o resultado é (quase) garantido, o processo de se escrever algo assim nunca é simples. Reconstruir aquele momento requer um mínimo de pesquisa, sabedoria e principalmente sintonia.
Como entender o que é viver aqueles cenários, naquele momento? Dizer que o norte-americano Anthony Doerr, 41, fez a lição de casa seria menosprezar o escritor e superestimar a escola.

Lançado há um ano nos EUA, o livro teve recepção que surpreendeu editora e autor, cujos quatro livros anteriores, elogiados pela crítica, tiveram alcance restrito. Ao final de 2014, tinha vendido quase 1 milhão de cópias, o que levou a Intrínseca a tratá-lo como sua grande aposta para 2015 —coroada com o anúncio do Pulitzer dias depois de a tradução sair.

Em narrativas paralelas, o romance apresenta Werner, órfão alemão que aos poucos é cooptado pela máquina nazista, e Marie-Laure, menina francesa que perde a visão e vive sob a proteção do pai.
Werner é apaixonado por transmissões de rádio, aprende a ouvir, consertar, fazer cálculos e identificar emissores, e seu talento desperta a atenção da Alemanha. “É certo fazer algo porque todos estão fazendo?” é a pergunta da irmã que ecoa em sua mente quando se vê cada vez mais entranhado na juventude nazista, em seus ritos perversos.

Já o pai de Marie-Laure é guardião de um dos maiores tesouros da França, um diamante mítico a que se atribui poderes e maldições. Com a guerra, pai e filha fogem pelo país e acabam numa cidadezinha litorânea, protegidos por um tio misantropo, que tem uma coleção de rádios.
Essas duas linhas desconexas —menina cega e menino nazista— caminham para um encontro inevitável, do qual já se pode intuir um desfecho romântico e redentor como uma foto na revista “Life”.

A hábil estrutura segue linearmente, voltando a um ponto preestabelecido de tempos em temos, de maneira fracionada, com recortes da época em capítulos curtos e com uma quantidade limitada de personagens.

A interrupção constante da linha de cada protagonista para dar lugar ao outro mantém a expectativa que explica o sucesso de um livro de mais de 500 páginas. É o que os americanos chamam de “page turner”, um livro em que cada página obriga a virar a próxima. O texto é objetivo, narrado no presente como senso de urgência.

Com um protagonista órfão, outra cega, e tratando de guerra, é praticamente impossível fugir da pieguice, mas essa talvez esteja só na dose indispensável para que se ecoe como grande história, para um grande público.

“Toda Luz que Não Podemos Ver” é um livro delicado, em que se sente além do que é dito. Como exemplo, o personagem Frederik, “o mais fraco”, colega de Werner no internato, poderia render mais cem páginas ou se desdobrar num épico completo. Isso acaba por formar um universo muito mais tridimensional do que os protagonistas podem demarcar.

No final, a saudade por se afastar dos personagens parece reverberar tanto no leitor quanto no autor, que talvez tenha estendido o romance num sentido desnecessário, trazendo-o até os dias atuais, num resvalo de “Titanic”, de James Cameron. Não compromete, contudo, o conjunto. “Toda Luz que Não Podemos Ver” é um belo livro.

TODA LUZ QUE NÃO PODEMOS VER
AUTOR: Anthony Doerr
tradução: Maria Carmelita Dias
editora: Intrínseca
quanto: R$ 39,90 (528 págs.)
avaliação:  muito bom ★★

17/04/2015

DEFORMANDO LEITORES


Mesa de quarta. (do blog do Maurício C. Garcia: http://esquizo.com.br/)

Acabo de voltar do Salão do Livro da Serra Catarinense, organizado pelo grande Carlos Henrique Schroeder, um dos escritores que mais faz pela literatura no estado. Dividi mesa na quarta com Simone Campos, Raphael Montes (de novo nãaaaaao!) e o autor local Maurício C. Garcia. Quatro autores deixam uma mesa bastante inchada, mas a mediação de João Chiodini distribuiu muito bem as perguntas e permitiu que de fato houvesse um debate, não apenas discursos paralelos. Ainda sobrou tempo para perguntas da plateia - que foi tomada por uma juventude trevosa com camisetas de banda, talvez pelo tema da mesa (games, tiros e terror). Bem bacana.

No camarim, prontos pro debate. 


Recentemente Suzana Vargas e Afonso Borges publicaram textos em O Globo debatendo sobre a validade dos eventos literários na formação de leitores. Concordo com os dois, discordo dos dois. Acho que eventos literários formam leitores, mas sua função principal é formar autores, o que pode ser quase a mesma coisa, já que o autor é antes de tudo um leitor.

"Eu também escrevo" deve ser a frase que todo autor mais escuta de seus leitores. E os eventos literários existem para que essas frases sejam ditas. São a ponte entre leitor e autor, em mais de um sentido. É o momento do leitor ("já formado") entender como a coisa funciona, a escrita, o mercado, reformar-se como leitor e autor... ou calar-se para sempre.

Por isso é essencial que o evento tenha participação do público (que tenha público, para começar), em perguntas, conversas. As oficinas literárias oferecidas em muitos festivais contribuem com isso, mas sempre acho mais importante o leitor conhecer as experiências individuais de cada autor do que "fórmulas" para escrever.

E nesse ambiente, nessas tendas, sempre há um transeunte curioso, um acompanhante alienado, alguém que pode ouvir a palavra do autor pela primeira vez e perceber que também se fala (e se lê) sobre "games, tiros e terror". Assim também pode se formar novos leitores.

Na pesquisa que publiquei na Folha ano passado, sobre a renda de escritores, ficou claro a importância dos eventos literários na sobrevivência dos escritores. Eventos pagam as contas, formam autores na plateia, reformam autores nos palcos. Autores formam leitores, não tenho dúvidas disso.

Sobre os textos do Globo, para me deter a questões pontuais:

Eventos não levam ninguém a ler mais ou a comprar mais livros. Eventos literários sejam eles festas, feiras, bienais com maior ou menor projeção nacional, são fenômenos de marketing. Ou seja: eventualmente ouve-se falar num produto chamado livro, em seus autores, como quem anuncia uma nova marca de refrigerante. - de Suzana Vargas

Discordo veementemente. Uma limitação que encontro em muitas mesas literárias é exatamente que cada autor quer apenas falar de seu livro, dar seu serviço, não debater temas propostos e expandir a discussão para a literatura de forma mais ampla. Também não se pode esquecer de eventos que adotam e trabalham o livro previamente (como a Jornada Literária de Passo Fundo, o Festival Literário de Extrema), para depois oferecer a conversa com o autor.

O escritor quer, claro, ser reconhecido. Mas o reconhecimento se dá de uma só forma: em vendas. Ou existe escritor que vendeu 10 exemplares e é um sucesso? -
 Afonso Borges. 

Discordo e tenho discutido isso exaustivamente aqui. O reconhecimento não se dá só em vendas. O autor quer vender mas não quer vender a qualquer preço, pode ter muitas ambições antes disso. Aliás, o bom autor deve ter muitas ambições antes disso. Autores mais sofisticados, com uma literatura mais densa, arriscada ou controversa sabem que não estão publicando sucessos de vendas, e já consideram sucesso conquistar seu público (seja ele de dez leitores especializados). João Gilberto Noll, João Silvério Trevisan e Evandro Affonso Ferreira, entre outros, são senhores autores que não vendem, e sem dúvida são reconhecidos. Para mim, são heróis.


Você pode ler os textos originais da Suzana e Afonso aqui: http://editoras.com/discussao-debate-dialogo/

E assim se abre a (minha) temporada de eventos literários de 2015. Também ajudam a formar a mim como autor, não só pelos debates oficiais, mais pelas conversas que se estendem nos bares, nos translados. Sempre aprendo muito. Semana que vem vou estar na Flipoços, ao lado da querida Luisa Geisler, falando sobre o êxodo urbano na literatura brasileira atual (tema de um texto que publiquei na Ilustríssima ano passado). Você pode ver toda a programação aqui: http://www.flipocos.com/


Na estrada. 

13/04/2015

A FORMA DA SOMBRA



Resenha que publiquei na Folha deste final de semana:


O boom que o cinema de horror teve mundialmente nos anos 70 e 80 encontrou eco no Brasil da época em público, mas não em produções. A censura do regime militar e a falta de tradição na produção fantástica e de gênero (seja cinematográfica, televisiva ou literária) restringiram o horror nacional a produções underground ou, no caso da literatura, a obras mais voltadas ao público juvenil.

Isso começa a dar sinais de mudança com uma nova geração (de escritores, roteiristas e cineastas) que cresceu assistindo aos "slashers" --subgênero do horror, com muito sangue-- dos anos 80 e agora dá os primeiros passos escrevendo livros.

"A Forma da Sombra", romance de estreia do carioca Fernando Abreu Barreto, 38, é um grato exemplo disso. Ainda que firmemente inspirado pelos filmes estrangeiros de assassinos seriais e de vampiros, busca não só uma identidade nacional, como tem um trabalho cuidadoso de linguagem, tão raro em literatura de gênero.

"Encontro o sol aos domingos, quando não chove. Durante a semana, ao chegar ou sair do trabalho, ele não está lá. Sinceramente, não me faz falta", anuncia o parágrafo de abertura.

O protagonista anônimo é um condutor de trens do metrô no Rio. Passa os dias nos subterrâneos, sem ver a luz do sol, volta para casa de noite. Antissocial, não se identifica com o mundo "iluminado" à sua volta e questiona a própria identidade e humanidade. É uma visão mais profunda e sombria, que outros poderiam transformar facilmente numa paródia: "Um Vampiro em Copacabana".

Não é exatamente novo --a crise existencial do protagonista tem ares pesados de déjà vu (a série "Dexter" vem imediatamente à cabeça)-- e mesmo a ambientação de thriller nos túneis do metrô já é algo visto (o filme britânico "Plataforma do Medo", de Christopher Smith, é uma das influências citadas).

Entretanto, o autor acerta ao combinar esses elementos e ambientá-los no Rio dos dias de hoje. Principalmente, o lirismo do texto dá pistas de um novo autor nacional que pode acrescentar muito ao gênero e à literatura.

A FORMA DA SOMBRA
AUTOR Fernando de Abreu Barreto
EDITORA Caligo
QUANTO R$ 25 (116 págs.)
AVALIAÇÃO muito bom

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...