11/11/2012

NERDS E UNDERGROUNDS

 Debate na Feira do Livro.

Fábio Yabu é um autor de livros infantis, roteirista de histórias em quadrinhos e criador de desenhos animados. Foi com ele minha mesa na Feira do Livro de Porto Alegre. Estava cheio, principalmente de "jovens nerds" (como eles se autodenominam) seguidores do Yabu e alguns leitores meus. Deu para falar bem de Garotos Malditos, do processo de criação, mas acho que a petizada nerd não é exatamente meu target, talvez eu seja udi-grudi demais para eles, mesmo num livro juvenil; talvez eu devesse levar essa coisa mitológica, vampirológica ou fantástica mais a sério, e não fazer livros tão debochados. De todo modo, não pude deixar de confessar: "Eu gostaria de ser um autor mais hardcore do que eu sou. Fico orgulhoso quando alguém diz que achou algum livro meu muito pesado. Mas não posso posar de excluído que foi abusado na infância. Sou um garoto dos Jardins criado a leite com pêssego." Haha

Tem sido interessante também as mesas que vêm montando para mim este ano (com Eliane Brum, Andre Vianco, Martha Argel, agora com o Yabu, e em breve haverá uma com o Xico Sá e o Efraim Medina). São pessoas que trazem novos públicos, novos temas e novas conversas - talvez porque também já tenha se esgotado o diálogo entre a "Geração Zero Zero".

Eu mesmo ando meio perdido. Ou meus leitores se perderam de mim. Não sei mais quem me lê, não sei para quem interessa o que eu já disse ou o que eu ainda tenho a dizer. Felizmente a crise criativa já passou (a existencial e a afetiva longe disso), e o próximo romance está bem engatilhado. Minha editora está esperando, minha agente está esperando, então dá para fazer acreditando que é para alguém, alguém além de mim.

Com Cris Lisbôa, na Lancheria do Parque. 

O resto da estadia em Porto Alegre foi só amor e alegria, apesar do calor insano. As meninas que mais amo no mundo estão aqui, então toda vinda é motivo de comemoração. Também deu para encontrar leitores mais do que queridos. Lindo por exemplo um Policial Militar que acompanha meus livros há tempos e apareceu na Feira para prestigiar. É ASSIM que deveria ser, a literatura fazendo parte da vida das pessoas reais, não só do seu mundinho autofágico. Eu não me alimento disso.


Eduardo é leitor fiel e grande garoto. 



Letícia, sempre linda. 


Taina, irmãzinha (do Thomas). 

Falando em se alimentar, como se come bem em Porto Alegre (e bem mais barato do que São Paulo). Como eu me acabo sempre que vou lá. Além das trasheiras da Lancheria do Parque, tem as trasheiras do Baalbek, meu árabe favorito. Lá é sempre parada obrigatória. E eu morava bem pertinho - isso, o prédio de Feriado de Mim Mesmo que dá vista para o pátio do Inmetro é lá do lado, na Avenida Paraná. Bons tempos...


Comendo como se não houvesse amanhã, porque não haverá. Dezembro vem com o calendário Maia para tudo acabar. 


08/11/2012

PORTO ALEGRE E ALÉM

Lançamento este final de semana agora, na Feira do Livro em Porto Alegre. Os livros mais recentes da Record (Pornofantasma, Prédio) também estarão lá, para quem não quiser comprar um juvenil.

Tem sido lindinho receber o feedback dos leitores adolescentes.Claro que todos perguntam se haverá uma continuação. Haverá se as vendas se justificarem (tanto para mim quanto para a editora), então é questão de quem gostou do livro divulgar por aí e ajudar a bombar. Eu gostaria de fazer um segundo (e talvez um terceiro..), já tenho um argumento bem delineado, seria uma experiência nova, e acho que o livro deixou aberto para isso. Gosto muito dos personagens, adoraria trazer o Ludo, Lupe e a patota toda de volta, embora seja muito difícil escrever um livro para adolescentes, um público específico, com esse filtro de "não estou escrevendo para mim". Por enquanto, estou trabalhando num novo romance "adulto". Não justificaria a editora lançar a continuação de um fracasso.

A Record também está investindo mais no Garotos Malditos, e começou uma campanha nas estações de metrô em São Paulo e em busdoors no Rio de Janeiro. Obviamente, como sempre, eu cuidei dos textos, e torço para que não fique só nisso. Sei bem como é fundamental o trabalho de uma editora por trás do autor, não apenas em questões publicitárias, mas para colocá-lo em eventos literários, feiras, bienais, para fazê-lo se tornar premiável e respeitado. Eu já ouvi da boca de editores como fizeram esse e esse jovem autor bombarem. É claro que são autores de talento, e os editores os escolheram por isso, mas é uma escolha... E não basta uma boa editora, você precisa estar nas graças dos melhores editores dessa boa editora para não ficar como mais um no catálogo. Como você acha que um livro bizarro (ainda que excelente) de um jacaré de esgoto repercutiu tão bem quanto Mastigando Humanos, pela Nova Fronteira, até hoje, bem ou mal, a editora que mais apostou em mim?


Lestrange, ilustrador do Garotos, me manda seu flagrante do Ludo no metrô Consolação. 


A segunda versão do banner de divulgação. 


Isso tudo pode servir de fermento aos amargos e provar que toda essa geração é fabricada. E isso pode servir de lição aos ingênuos e provar que nem só o talento é vitorioso. Mas o melhor seria que isso não servisse para nada, porque o importante é cada um escrever o que sente independentemente de se vai cair nas graças dos editores, dos marketeiros, dos acadêmicos, tudo parte da mesma droga. Faça o que você acredita. Porque no final SEMPRE vai dar errado.

06/11/2012


RETRATO DO ESCRITOR ENVELHECENDO


Ninguém pode me dizer que não sou aceito pela academia. 


Ser escritor é muito pouco. E ser escritor é um pouco vergonhoso.

Quem precisa de mais uma história sobre um escritor em crise? Por que a história sobre alguém que escreve poderia ser interessante? A história de um escritor é invariavelmente a história de um perdedor, mas quais seriam as histórias dos vencedores? Paulo Coelho, Lair Ribeiro ou Augusto Cury? “O Vencedor Está Só.” Marcelo Rubens Paiva certa vez me perguntou se era uma tendência atual escrever sobre depressão. Mas se não for sobre o fracasso, o desastre, a perda, qual é a graça? A arte se alimenta da crise.

Mas estou divagando...

Ser escritor é muito pouco. E eu ainda me lembro, há uns dez anos, como eu tinha orgulho em me declarar escritor. Era uma novidade para mim mesmo, e era uma novidade. As pessoas ainda não estavam acostumadas com os “escritores jovens, tatuados”, esse foi o mote de algumas das primeiras matérias sobre mim. Nas apresentações informais, eu era visto com desconfiança. “Escritor? Já publicou algum livro?” Agora sim, agora... sete, isso, já publiquei sete (eu já começo a me perder nas contas, escrevendo o oitavo). Mas agora eu não engano, agora não sou tão jovem. As pessoas perguntam, eu digo que sou escritor, e elas acreditam sem mais perguntas. Agora não tem tanta graça.

Mergulhador ou X-man?

Se você não publicou até os trinta anos de idade, desista. Nenhuma conquista é válida depois disso. O mundo não precisa de mais um escritor tiozinho, careca, barrigudo, com peso nas costas.... E o senhor de respeito, acadêmico, pré-pós-supra-graduado não faz mais do que a obrigação em escrever, para que seus pares o leiam. O jovem escritor de sucesso é mais louvável. E mais feliz. Porque qualquer sucesso para um jovem escritor é uma conquista. Cada convite mais proveitoso, cada possibilidade mais possível. Você pode virar a noite na farra em Parati, e acordar produtivo de manhã cedo para uma mesa na FLIP. Leitores e leitoras querem dar para você não só pelos seus dotes literários. Cada palavra escrita é espontânea, toda ficção é de fato vivida. A literatura muda sua vida e isso é o suficiente para você acreditar que ela poderá mudar o mundo. Mas isso só até os trinta, mais ou menos, e olhe lá, pouco além dos vinte e oito. Se você não foi um escritor de sucesso ainda novo, só lhe resta o suicídio.

Haha. Ok, ok, estou sendo muito fatalista. Não desanime, não desanime...

Mas, bah, não leve a sério. Afinal, quem quer ser escritor?  É muito pouco ser só um, e o escritor é ainda um ser mais limitado, solitário, trancado num quarto. Era por aí que eu pretendia que o post fosse inicialmente. Acho que hoje, mais do que orgulho por ser escritor, eu tenho orgulho por também ser escritor, no meio de tantas coisas, entre tantas outras vidas. Ser só mais um escritor de respeito, senhor de idade, é pouco, não me cativa.

E pensava em tudo isso hoje de manhã, pedalando em Florianópolis, onde ser escritor não faz muito sentido. Lá eu sou mergulhador, surfista, às vezes até argentino. Ontem pedi uma caipirinha na praia, o rapaz preparou, perguntou se estava boa e eu respondi: “Está ótima, e olha que já fui barman.” E me soou como uma mentira, um passado tão remoto, uma vida ancestral, mas naquela hora eu era. Bronzeado, tatuado, cabeludo, certamente eu convencia mais como (ex) barman (e argentino) do que como escritor. E eu até já fui um barman argentino. Em Londres, tatuado, galanteador e latino, não fazia a menor diferença se minha cidade natal era Floripa, São Paulo, Buenos Aires ou Rio.


Em Helsinque, eu só pude ser latino. No máximo um genérico de argentino. Mas eu continuei sendo o escritor melancólico, já não tão jovem, trancado num apartamento. Uma coisa Feriado de Mim Mesmo abaixo de zero. Em Florianópolis eu tenho mais vida. Cumprimento a mocinha da farmácia. Corro para combinar o mergulho com o casalzinho submarino. É realmente uma outra vida, e ainda é uma vida minha, apesar de eu não morar mais lá. Nunca vou esquecer um diálogo que tive com a mocinha da peixaria, no começo do ano passado, que já publiquei aqui:

Hora do almoço, estou conversando com a mocinha da farmácia, a mocinha da peixaria me chama.
Ela: Olha, hoje trouxeram lula. Já mandei limpar pra você [porque sei que você gosta].
Eu: Dá dois quilos... E mexilhão.
Ela: Marisco? Mexilhão é gringo que chama...
Eu: O nome é mexilhão. Marisco é o genérico, todos esses moluscos de casca do mar, berbicão, vôngole...
Ela: É nada.
Eu: Tô falando, sou biólogo.
Ela: Você é biólogo? É biólogo nada!
Eu: Tá... mentira.
Ela: Você não tem cara de biólogo. Tem cara de surfista. E surfista marrento.
Eu (saboreando como elogio): Hum... Ok. Mas a coisa do marisco é verdade.

Ficou para meu folclore pessoal eterno.





Ainda engano, diz aí?

Muita gente me pergunta - você me pergunta - por que eu volto, por que eu voltei, porque não fiquei em Florianópolis para sempre. Mas é pouco, não me basta. Não posso viver só na vida de praia. E, bem ou mal, a vida em São Paulo me dá mais condições de manter uma vida esporádica por lá. O trabalho está aqui, a cultura está aqui, a grande maioria dos meus amigos está aqui. Assim tenho conseguido ir uma vez por mês, ou a cada dois meses. Chego lá e pedalo, pedalo como louco (sexta passada pedalei da Barra à armação e voltei - 6 horas seguidas). Às vezes consigo mergulhar e fazer kite surf. Sempre encontro amigos queridos, a familinha local, é uma vida paralela, enfim. Quem dera eu pudesse fazer isso com tanta frequência em Helsinque, Londres, até em Porto Alegre....

 Sábado, não de surfista marrento, mas de mergulhador lânguido. 


A próxima viagem para Floripa ficará para o reveillon. Isso, será lá, com amigos daqui, de São Paulo. Vamos juntar esses dois mundos. Antes disso tem Feira do Livro de Porto Alegre, tem Forum das Letras de Ouro Preto, coloco em breve as datas aqui. Me esforçarei para passar como escritor de respeito, ainda que bronzeado, espero. Espero que bronzeado, espero manter ao menos a cor, nessa cinza, cinza realidade...


 Em Floripa também tenho uma família e filhos. Levei de São Paulo uma abóbora debaixo do braço, dentro do avião, para entalharmos nosso Halloween. Pois é, Floripa é o tipo de lugar que você não consegue comprar nem uma abóbora para entalhar. Está explicado porque não fiquei por lá. 

25/10/2012


COMO ESCREVER UM ROMANCE



Se eu tivesse a fórmula, montaria uma oficina. Como não tenho, escrevo mais um.

Entrei naquele processo prazeroso de engrenar de fato numa história, que vai se completando mesmo longe da página, longe do computador. Enquanto caminho pelas ruas, quando vou ao teatro e ao cinema, vão surgindo novas passagens para um livro que ganha vida paralela à minha.

Cada livro que escrevi foi feito de forma diferente. Alguns tiveram uma estrutura toda montada de antemão, outros foram fluindo naturalmente. Feriado de Mim Mesmo foi escrito em 20 dias, O Prédio, o Tédio e o Menino Cego durante 3 anos. A Morte Sem Nome foi escrito sem o menor planejamento, cada capítulo de forma independente, ao ponto de eu poder reorganizá-los, trocá-los de lugar. O romance que estou escrevendo agora está sendo feito assim. Tenho já uma dúzia de capítulos abertos, poucos deles finalizados. Pretendo mudar alguns de lugar, preencher espaços entre eles com outros, aos poucos vou visualizando uma estrutura adequada.

Diferentemente de A Morte Sem Nome, para este eu já tenho a história inteira, derivada de um conto de vinte páginas. O exercício é fragmentá-la e remontá-la como um romance, um romance fragmentado.

Já escrevi romances absolutamente lineares (Olívio, Feriado de Mim Mesmo, Garotos Malditos) e ainda acho que é mais difícil. O romance linear oferece menos liberdade na auto-edição, até onde contar, onde cortar e retomar a história; a trama precisa ser mais objetiva e mais precisa, é mais difícil blefar. Claro que um romance linear não precisa (ou não deve?) ser escrito linearmente. Sempre pode se voltar ao começo, ajustar o primeiro capítulo para que ele se encaixe melhor no que você chegou ao final. O leitor não deve perceber. A mágica é ele acreditar que a primeira página que ele está lendo é a primeira que você escreveu. E que quando escreveu essa página você já sabia exatamente como aquela história iria terminar.

Em geral eu sei como a história vai terminar, pelo menos a última cena, mas sobram perguntas de como chegar até lá. Se você tem um argumento de vinte páginas (como eu tenho agora), vão surgir desvios, atalhos e distrações, e será preciso contornar muitos obstáculos para chegar ao destino programado.

O importante é que consegui recuperar o prazer de fazer isso. Ter optado por resgatar uma narrativa fragmentada foi essencial. Escrever apenas o que eu quero escrever. Poder me sentir o mais livre possível para eu exercitar minha técnica. Fazer piruetas. Recuperar aquele virtuosismo dos meus livros menos comerciais (A Morte Sem Nome e O Prédio. Isso, eu situaria esse novo romance entre esses dois).

E estou levando a fragmentação alguns passos além, não apenas na ordenação dos capítulos. Hoje, me questionando sobre questões de continuidade e cronologia, decidi abandonar a cronologia de vez. Um fato pode acontecer simultaneamente antes e depois de outro. Um personagem pode fazer referência a algo que ainda vai acontecer, como se já tivesse acontecido. Vou ter de escancarar isso mesmo, para depois não despertar de leitores um “ah, mas ele não pode ter visto aquilo, porque naquele dia ele já tinha morrido.” Agora pode tudo. Tudo acontece quando eu quiser que aconteça. Repetir frases e cenas, alterando apenas levemente o contexto, foi algo que eu sempre gostei de fazer, e passa por aí. Se eu gosto de duas opções de escrever a mesma coisa, eu coloco as duas. Se as duas opções se contradizem, pouco importa. (“Os marinheiros morrendo pouco a pouco. Os marinheiros morrendo todos juntos” - de "Eu Sou a Menina Deste Navio", dando apenas um pequeno exemplo).

Atualmente (além desse romance, que está programado só para 2014, e das traduções) estou escrevendo o roteiro de uma série de TV (que estreia ano que vem, então ainda não posso dizer...). E é gostoso trabalhar nos diálogos, imaginar que isso vai ser encenado e tal, mas não se compara com a liberdade que você tem como romancista.

E esse é meu maior conselho para alguém que quer começar a escrever. Exercite essa liberdade. A liberdade de poder fazer sozinho, do seu jeito, suas escolhas, o seu universo. A liberdade de não depender de orçamento – nas cenas, nos personagens, nos “efeitos especiais”. A liberdade até de não ter um público. Não se preocupar com o que pensa um poder maior, com a classe C, se vão gostar ou se vão entender. Para ganhar dinheiro com isso, primeiro você precisa fazer por prazer.




Aproveitando o post, saiu há alguns meses o livro Ficcionais, organizado pelo Schneider Carpeggiani, falando exatamente sobre isso. São grandes escritores dando o processo de escrita de alguns de seus livros. Tem Michel Laub com O Gato Disse Adeus, Andrea del Fuego com Os Malaquias, Bernardo Carvalho com O Filho da Mãe, Eliane Brum com Uma Duas, Marcelino Freire com Angu de Sangue, e muitos outros. Também estou lá, falando sobre O Prédio, o Tédio e o Menino Cego, um romance que muito pouca gente gostou, mas de que eu me orgulho por ter sido muito bem arquitetado. (Por sinal, acho que o problema do romance foi esse, unir um universo pop-adolescente com uma estrutura narrativa muito complexa. Muita gente ficou perdida). 

O que fica mais legal do Ficcionais é essa pluralidade de processos, e essa diversidade de escrita. Não dá para aprender a fazer com ninguém, mas dá para encontrar o seu jeito. Como confirma Antonio Carlos Viana: 

"Para aprimorar meus conhecimentos, fiz mestrado em Teoria Literária; anos depois, doutorado em Literatura Comparada. A facilidade do início de carreira, fruto da ingenuidade, foi sendo substituída pela complexidade do fazer literário, resultado da leitura de teóricos [...]. Confesso que, desde então, escrever se tornou uma tortura. [...] Saber teoria não melhora a produção literária, a não ser que você esqueça tudo na hora do trabalho. Perder a inocência faz mal ao escritor"

Assino embaixo. 

21/10/2012

BEAUTIFUL


Suede. 

Foi exatamente como esperado. E foi lindo. Suede tocou ontem no Planeta Terra durante apenas uma hora, apenas os hits, um atrás do outro, sem pausas, com Brett Anderson energético como sempre. 


Antes do show.

O show começou pouco depois das 18h, e estava razoavelmente vazio. Foi bom porque deu para ver de perto sem esforço, mas eu acharia mais lindo uma massa de fã cantando junto. Fui com irmãozinho Nico, e com certeza a gente era os mais empolgados cantando, de onde a gente estava. 


Durante o show. 

A comunicação com o público foi limitada a um "Oi, São Paulo", "obrigado" e uma despedida. Brett Anderson também se deixou agarrar em "Saturday Night", mas não parecia particularmente feliz. O conhecido "calor do público brasileiro" não o sensibilizou, até porque foi um público miado. Deve ser muito frustrante também você estar abrindo para bandas que estavam começando e abriam para você, quando você estava no auge.


Uma amostra, com a música que abriu o show (e Brett surtando com o roadie). 

Geralmente Suede termina com "The Beautiful Ones", dedicando à plateia "Because you're beautiful", diz Brett Anderson. Mas brinquei com o Nico que, vendo a plateia, Brett diria. "Bem, geralmente dedicamos a última música a plateia... Então vamos tocar "We are the Pigs" de novo." Hahaha

We are the pigs. (as capas dos álbuns e singles eram projetadas durante o show)

Fiquei ressentido em ver a coisa completamente lotada e o público mais empolgado com o Garbage, que é uma banda que até simpatizo, mas é bandinha de produtor, sem dúvida. Mas é isso aí, melhor ter nossos ídolos exclusivos. Minha veneração pelo Suede também me deixa mais confortável (ou resignado) com minha posição de underdog na literatura.  A gente não precisa ser o maior nome, ganhar os maiores prêmios e ser unanimidade para ser o mais importante para alguém. E nos últimos meses tive amostras comoventes de leitoras (sempre meninas). Ontem por sinal tinha uma menina com Mastigando Humanos na bolsa, para eu autografar. "Porque eu sabia que ia te encontrar aqui." Lindinha. 


Apesar de eu ter visto Suede algumas outras vezes (o show da Rússia, por exemplo, eu gostei mais), foi especial vê-los no Brasil (inclusive na coletiva de sexta), assistir o show com amigos (com os aditivos certos), ter esse universo Suede no meu habitat. Agora espero que eles voltem para um show menor, num lugar menor, com o disco novo. 

Setlist


She 
Trash
Filmstar
Animal Nitrate
We Are the Pigs
The Wild Ones
The Drowners
Kiling of a Flashboy
Can´t Get Enough
Everything will Flow
So Young
Metal Mickey
Heroine
Saturday Night
New Generation
Beautiful Ones


The Beautiful ones.



Quanto aos outros shows do festival, só vi mesmo o Garbage (competente) e o Gossip, de que não gosto do som, mas tive de tirar o chapeu (literalmente) para a vocalista Beth Ditto. Uma fofa, em todos os sentidos, foi a mais comunicativa com o público, a que mais se jogou, entrou no palco cantando "Oi, oi, oi" (aquela da Avenida Brasil), tomou caipirinha o show inteiro, tentou falar português, se enrolou na bandeira do Brasil e terminou agarrando e beijando o público da grade na boca. 

Agora deixo os próximos shows para vocês. Madonna, Lady Gaga não me empolgam. Lollapalooza também não (o que eu mais gosto lá são bandas de amigos, como Ludov e Stop Play Moon). Das bandas da minha vida, Blondie está devendo bem um show no Brasil. Nunca assisti. E Debbie Harry já está lá com seus setenta (!) anos. É agora ou nunca...

Depois do show. 




19/10/2012

VIDA DE FÃ

Na coletiva do Suede. 


“Legal essa banda, o que é?” Daniel perguntara. E no começo só tinha coragem de ouvir em fones de ouvido. As vozes andróginas, conotações ambíguas, guitarras rasgadas e paixões miadas diziam tanto sobre ele que ele nem sabia, não queria que os pais soubessem. - de "Marshmallow Queimado" @ Pornofantasma.



Suede está no Brasil, finalmente, pela primeira vez. Vieram para show curtinho no Terra, junto a uma caralhada de bandas que não me interessa. Eles devem tocar apenas os hits - se é que se pode dizer que eles têm hits aqui no Brasil, mas não importa. Eu não poderia perder. Suede é a banda da minha adolescência, da minha vida, que diz muito do que eu sou. 


Vendo da grade, em 2002. 

Descobri lá pelos 16, quando eles estavam no auge. Eu tinha acabado de voltar da Inglaterra, e as "guitarras rasgadas, paixões miadas," me seduziam e me intimidavam. Ganhei o primeiro CD de aniversário da minha namorada do ensino médio (que naquela época era chamado de "Colegial"), logo virei fanático. 

Com Simon, baterista (2002). 

Acompanhei single a single - ainda tenho todos. Quando a internet ainda rastejava, lia sobre as novidades da banda nas revistas importadas, nos semanários britânicos. Em 2002, quando morei em Londres, assisti dois shows da turnê "A New Morning", um com orquestra, outro num festival, da grade. Conheci o baterista, Simon; bati altos papos com o primeiro (e melhor) guitarrista, Bernard Butler; cumprimentei o vocalista Brett Anderson numa festa. 


Com Bernard Butler e David McAlmont (2002). 

Nunca deixei de gostar, nunca deixei de escutar, embora seja um fã com espírito crítico; não amo tudo, mas não gosto de pouca coisa. Continuei acompanhando a carreira solo de Brett Anderson, gosto muito do último álbum, "Black Rainbows", e me empolguei quando soube que o Suede iria voltar, em 2010. 

Em São Petersburgo, dezembro passado. 

Ano passado, assisti um show deles na Rússia. Para mim foi ainda mais especial por terem tocado 7 músicas inéditas. Não é a mesma banda de 1993, mas ainda é minha banda favorita. 

Hoje de manhã, aqui em São Paulo, fui na coletiva de imprensa deles, num pub britânico. Estava meio triste, uma dúzia de gatos pingados jornalistas, mostrando que a banda não atrai tanta atenção. Não pude deixar de tietar, me assumir como fã, dizer que já citei Suede em diversas passagens dos meus livros (como a que abre o post) e perguntei sobre as músicas inéditas do show de São Petersburgo, especialmente as que mais gostei, se entrariam no CD novo ou como B-sides. Matt (o baixista) foi muito simpático, disse que foram deletadas, mas que eu posso esperar "músicas muito melhores no novo disco."

Depois da curta coletiva com os jornalistas, abriram para os 50 fãs que estavam do lado de fora, que foi a parte mais bonitinha. Lindo ver aqui no Brasil gente tão apaixonada, empolgada, tirando fotos e tremendo ao vê-los de perto. A banda foi atenciosa respondendo perguntas, mas não deu espaço para fotos pessoais e autógrafos, compreensível. 

Eu mesmo não acho que ídolo precisa ser acessível (nem simpático), só precisa manter um relacionamento respeitoso (dos dois lados). Você admira um artista por seu trabalho, não por sua simpatia. E eu também já passei da idade de perseguir ídolo, de ir além das oportunidades oficiais. (A ocasião mais bizarra que tive como groupie/stalker foi uma noite que terminei literalmente na cama com Marilyn Manson, aos 19 anos, conversando e vendo o cara cheirar; mas isso fica pra outro post...)

Brett Anderson te despreza. 


Matt e Neil (o tecladista) foram os mais simpáticos. Algumas perguntas eles devem estar cansados de responder, como um jornalista que perguntou sobre "a saída de Bernard Butler". "Isso aconteceu há 20 anos!" disseram. E brincaram chamado Richard Oakes de "o novo guitarrista". Gostei quando perguntaram sobre bandas brasileiras, e eles citaram os queridos do Tetine, uma dupla eletrônica de amigos que também acompanho há tempos, e que está há anos radicada na Inglaterra. Isso aí, menos Caetano, mais Tetine.


Com Márcio Custódio, amigo das antigas e fã como eu, hoje na coletiva. 

Para mim, o show amanhã vai ser mais para uma celebração entre amigos, rever gente querida que não vejo há tempos, encontrar outros fãs. Confesso que o repertório só de hits não me empolga tanto. Não estive em tantos shows deles, mas já ouvi essas músicas tantas, tantas vezes, que estou muito mais ansioso por um disco novo.

Para quem ainda não decidiu se vai, ou não conhece, nunca ouviu, fica uma amostra do melhor que eles fizeram. Hoje em dia não é a mesma coisa, mas é a banda da minha vida.



Now you're over twenty one... ohhh... now your animal's gone. 



14/10/2012

O HOMEM TRAVESSEIRO
The Pillowman é a melhor peça que vi em 2012, de longe. 

Um escritor (Flávio Tolezani) é interrogado sobre uma série de assassinatos de crianças, cometidos de formas muito semelhantes às suas histórias. E contar mais do que isso seria arruinar a magia... negra do espetáculo.

É uma peça grotesca, no melhor sentido, com pitadas de um humor tenebroso e atuações insanas de Danilo Infantini, Bruno Autran, Bruno Guida e Wandré Gouveia. Direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz. Não conheço nenhum deles, fui sozinho (como de costume) e fiquei um pouco ressabiado ao saber que a peça tinha 2 horas e meia. Mas é daquelas raras, raras experiências teatrais que você quer que nunca acabe; eu, como ser ultra ansioso que sou, fico sempre torcendo para chegar logo ao final, nessa eu ficaria por mais horas, horas. Agora estou procurando o texto para ter em casa, para colocar na estante, para guardar para sempre.

O autor é o irlandês Martin McDonagh, que eu não conhecia. O texto é de uma crueldade e de uma genialidade absurda, que eu só posso invejar, porque está muito além da minha capacidade. E apesar de tudo (ou exatamente por isso) cheguei ao teatro melancólico e saí sorridente. Talvez por ver que ainda dá para ir muito mais longe, que coisas assim são possíveis. Ou talvez apenas por eu só me divertir com o sofrimento humano...

Engraçado também quando começam peças assim. Aquele publicozinho de teatro que faz questão de se divertir, de ser feliz, de mostrar que está gostando, que ri com qualquer expressão mais caricata ou engraçadinha dos atores. A peça começou assim. Mas aos poucos foram surgindo os risos de nervoso. A sala mais silenciosa. Percebi uma reação parecida quando fui ver o (também ótimo) Caderno Rosa de Lory Lambi, da Hilda Hilst, com a Iara Jamra, lá no final dos anos 90.

Enfim,  cumprindo minha função de DEFORMADOR DE OPINIÃO, recomendo ASSISTA The Pillowman - O Homem Travesseiro, que já está em cartaz há um bom tempo e fica só mais até o final da semana que vem, no Parlapatões (adoro esse teatro também), aqui em São Paulo. Sábados 20h, domingo 19h. 



ÚLTIMA AULA DO ANO

Vou dar minha última aula este ano, em cima dos textos de vocês. Me mande as dez primeiras páginas ou o projeto de um romance em que esteja ...