Mantendo a tradição... Minha marchinha deste ano...
BIOFOLIA, A FOLIA DA BIOFOBIA!
A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã
Se hoje é de folia
É de ressaca amanhã,
Ressaca amanha,
Ressaca amanhã
A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã
Se hoje você pula
Se arrasta amanhã,
Se arrasta amanhã
Se arrasta amanhã
Se tudo é permitido,
Nada tá liberado,
Aborto é proibido
Viadice é pecado
Hereges e ateus
Terminam tudo em treta
O bloco não é de Deus
E o cigarro é do capeta
A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã
Se hoje é de folia
É de ressaca amanhã,
Ressaca amanha,
Ressaca amanhã
A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã
Se hoje você pula
Se arrasta amanhã,
Se arrasta amanhã
Se arrasta amanhã
Não adianta beber
para afogar as mágoas
Vai dar DST
Cachaça não é água.
Enquanto um comemora
o outro tá de luto
Quem não mama e chora
É vítima de estupro
E para continuar em ritmo de festa, a clássica Marchinha do Zé do Caixão, aqui apresentada pelo grande Eduardo Dussek, citando inclusive um "escritor cult paulista" que mandou para ele. Já posso morrer realizado.
Domingo teve Grammy e muita gente está comentando a
apresentação da Annie Lennox com o Hozier, descobrindo a velha escocesa pela
primeira vez.
No Grammy de 1995.
Annie Lennox sempre foi minha Madonna. Minha
rainha desde a adolescência quando, convenhamos, ela era muito mais
interessante e inovadora. Tenho TODOS os álbuns, os singles, li duas
biografias. Então vamos a uma rápida apresentação dela, que posso fazer de
cabeça.
Tá bom pra você?
Annie Lennox tem 60 anos, é de Aberdeen, na
Escócia, e começou a carreira nos anos 70 com uma banda meia boca chamada The
Tourists. O maior hit deles foi um cover da Dusty Springfield, aqui:
A banda durou pouco e ela saiu com o guitarrista
Dave Stewart (que era seu namorado) para formar uma dupla, os Eurythmics. O
primeiro disco deles In the Garden (1981) tinha um som mais etéreo e experimental que eu adoro, mas não fez muito
sucesso. Aqui eles no começo de carreira:
No segundo disco eles investiram no technopop, que
estava em alta na Inglaterra e acertaram bonito. O maior hit da dupla (e talvez
da carreira de Lennox) é dessa época: Sweet Dreams, que com certeza você já
ouviu:
Foi inclusive com essa música que ela se
apresentou no Grammy pela primeira vez, vestida de homem. Na época, ela
flertava com a androginia e tinha uma proposta realmente ousada de imagem e
som, embora não exatamente inovadora. Annie Lennox era basicamente uma mistura
de David Bowie com Grace Jones. Coolíssima, musicalmente riquíssima, provocadora e divertida.
Os Eurythmics seguiram fazendo álbuns bem
diferentes uns dos outros, flertando com o R&B, rock, country e eletrônica.
Tiveram vários outros hits, como o pop deliciosamente kitsch “There Must Be An
Angel” (1985).
Em 1987 voltaram ao experimentalismo com “Savage”,
um dos melhores discos da dupla.
Eles se separaram no início dos 90 - se apresentaram pela primeira (e única) vez no Brasil pouco antes disso. Dave Stewart
seguiu com uma carreira de sucesso como produtor, ocasionalmente lançando
discos solo. Annie Lennox lançou seu primeiro solo em 1992, “Diva”, já com um
som mais “adulto”, que foi um mega sucesso. É mega mainstream, mas é ótimo.
E, para mim, depois disso, ela nunca mais fez
grande coisa. Lançou outros discos solo, discos de covers, até discos de
músicas de Natal. No final dos anos 90, ressuscitou o Eurythmics com Stewart e
lançaram um álbum medíocre. Também ganhou um (desmerecido) Oscar em 2004 com “Into the
West”, trilha sonora de “O Senhor dos Anéis” (alguém se lembra dessa música?).
O último álbum de inéditas dela é de 2007, “Songs
of Mass Destruction”, que é bem mais ou menos. Ela também se dedicou a
campanhas humanitárias, ao combate da AIDS na África, a salvar os golfinhos,
mas a música...
Sempre foi uma grande cantora, uma grande voz. Uma
“loira com alma negra”, para usar um termo bem politicamente incorreto,
apaixonada pelo som negro americano. Mas, ao meu ver, há tempos que ela
desvaloriza seu grave poderoso com piruetas vocais, adotando os piores
maneirismos do R&B americano. No Grammy não foi diferente.
Atualmente, prefiro bem mais a carreira solo do
Dave Stewart , que tem lançado discos country poderosos. Dá uma olhada:
Li uma declaração recente dela falando algo como “as
mulheres de 60 não devem ser desprezadas, têm muito mais o que dizer”, mas
então por que ela não escreve, não lança um disco de inéditas há OITO anos? Disco
de música de Natal? Ano passado ela lançou “Nostalgia” (que concorreu ao
Grammy), que é previsivelmente um disco de standards americanos, disco para
tocar em restaurante, em elevador, em consultório de dentista. É gostosinho
até, mas nada de novo. Mesmo a versão dela para “I Put a Spell on You”, que ela
reproduziu no Grammy, é bacana, afinada, mas é uma versão padrão, não tem
reinvenção nenhuma, nada de novo.
Continuo fã da Annie dos 80, dos 90. Mas se é para
falar de quem envelheceu bem, com criatividade e relevância musical, vamos de
Debbie Harry (outra diva pessoal), que chega aos 70 e talvez seja mais
cultuada, mas não tem a mesma potência vocal e a máquina por trás.
Resenha que assinei na Folha deste final de semana:
O estranho assassinato de
uma criança na cidadezinha de Wind Gap, no Missouri, desperta o faro do editor
de um jornal em Chicago, que manda sua repórter investigar o caso, esperando
novos desdobramentos (e vítimas). Escolhida a dedo por ser nativa de Wind Gap,
Camille Preaker tem de voltar a cenários de sua infância, à relação conflituosa
com a mãe dominadora e estabelecer laços com sua irmã adolescente, que ela mal
conhece.
Primeiro romance da
autora de Garota Exemplar, Objetos
Cortantes é um thriller clássico de investigação jornalística. Chega a ser genérico no primeiro quarto do livro,
até que começam a ser revelados traços bizarros dos personagens, como a
tendência de Camille de se mutilar e a prática precoce das meninas da cidade no
sexo e drogas. Não é uma transição sutil, e deixa a impressão de que a autora
decidiu “vitaminar” a trama no meio do processo, para fugir da banalidade. E não
é o único problema do romance, que tem diálogos bastante artificiais e um tom
geral que beira o surrealista, mas resvala no kitsch.
Ainda assim, Objetos Cortantes não deixa de trazer
surpresas. A identidade do criminoso oscila durante todo o livro entre três ou
quatro personagens e a autora joga bem com isso. Há também um erotismo latente,
todos os personagens têm moral dúbia e flertam uns com os outros. A própria
protagonista é uma alcoólatra depressiva e jornalista medíocre, que mais se
envolve com o caso como vítima do que como heroína.
É uma boa história,
escrita de forma pouco convincente. Bem adaptada, pode gerar um filme melhor do
que o livro. A impressão final da obra é que Gillian Flynn é aquela “garota
exemplar”, que faz o dever de casa, mas que não convence querendo posar de
drogadinha.
Estou mergulhado no roteiro de BIOFOBIA, comecei
um novo curso de História do Cinema de Horror Brasileiro no MIS e, como sempre,
vejo um punhado de filmes de terror toda a semana, que o Murilo consegue
arrumar. É sempre o que mais me inspira – e acho a produção independente atual
riquíssima. Sou fã especialmente do torture
porn, que acho que é onde reside o horror de verdade, físico, sem
sobrenaturalismo, provocado pela loucura do ser humano.
Pensando nisso, comecei a lembrar de tantos filmes
alternativos, obscuros, que vi nos
últimos anos. A maioria tem direção precária ou atuações sofríveis, são invariavelmente filmes baratos, minimalistas, com um conceito poderoso por trás. E tristemente sempre constato que isso –
esses filmes mais obscuros, menos prestigiados – é o tipo de coisa que eu
gostaria de escrever.
Monto então uma listinha, sem ordem específica, de
doze dos meus favoritos. Filmes de terror obscuros, recentes, que vi
recentemente. Nenhum brasileiro, infelizmente; as melhores produções atuais que chegam perto ficam mais no thriller e suspense. Aqui estou falando de terror extremo.
Certeza de que estou esquecendo de vários, pela quantidade de coisas
que assistimos. Mas esses são o que continuam ressoando agora:
FOUND (2012, EUA) de Scott Chirmer:
Assisti nesse final de semana. É um filme quase
amador, com escolhas e atuações bem questionáveis, mas um roteiro
estranhíssimo. Um pré-adolescente descobre que seu irmão mais velho é um serial
killer e, entre assustado e fascinado, mantém segredo e espia regularmente os souvenires que ele traz. Tem um dos
finais mais insanos dos últimos tempos. É baseado numa novela, que imagino que
seja melhor do que o filme, e que não vou deixar de ler.
ARMISTICE (2013, EUA) de Luke Massey
Um thriller de um único personagem preso numa casa
(não tinha como eu não me identificar). É um soldado que acorda todo dia para
viver o mesmo dia, matar o mesmo zumbi, e tentar escapar de lá. Também tem seus
problemas, mas uma ideia poderosa por trás. É quase teatro, e mais acessível aos impressionáveis da violência gráfica.
SEPTIC MAN (2013, EUA) de Jesse Thomas Cook
Um funcionário da limpeza é trancado numa galeria
dos esgotos. Pouco a pouco vai apodrecendo enquanto se alimenta de dejetos e
restos humanos. Minimalista, trash, menos engraçado do que parece, tem seu
valor no absurdo com contornos surrealistas.
EXCISION (2012, EUA) de Richard Bates Jr.
Com um tom meio lésbico, o filme retrata uma
adolescente freak que sonha estudar
medicina e tem desejos doentios com sangue e morte. O filme inclui um elenco de
astros do gênero que vão de Malcolm McDowell e John Waters a Traci Lords, como
a mãe controladora.
BIG BAD WOLVES (2013, Israel) de Aharon Keshales e
Navot Papushado
Suspeito de pedofilia e assassinato, um professor
é sequestrado e torturado pelo pai de uma das vítimas, numa mistura de torture porn e humor negro. Filme bem
inteligente e divertido, em que você sempre fica na dúvida sobre quem é o
culpado. Mais cinema que os demais. Obrigatório.
EDEN LAKE (2008, UK) de James Watkins
Esse não é tão obscuro. Tem até Michael Fassbender
no elenco e uma história um tanto quanto genérica: um casal vai acampar no mato
e entra em conflito com adolescentes locais. Violento, chocante, daquelas
histórias que poderiam de fato acontecer, com um final dos mais deprês dos
últimos tempos.
THE WOMAN (2011, EUA) de Lucky Mckee
Pode tanto ser considerado misógino quanto
feminista. Uma mulher “selvagem” é encontrada por um pai de família e mantida
presa no porão, para ser “civilizada”. De viés altamente alegórico, o filme
explora a dominação masculina sobre as mulheres, chegando aos extremos mais
bizarros. Apesar disso, vejo com frequência nas madrugadas do Space.
CHAINED (2012, EUA) de Jennifer Lynch
Mais um filme-fetiche de Jennifer Lynch (de “Encaixotando
Helena” e filha de David Lynch) esse é um torture porn com síndrome de Estocolmo.
Um menino que é mantido acorrentado por um psicopata e vai se tornando seu
pupilo. Vincent D’Onofrio é o psycho e o menino é um pitéu.
AFTERSHOCK (2012, Chile) de Nicolás Lopez
Esse poderia facilmente ter sido um filme maior. Não
sei por que nunca ouvi falar por aí. É uma mistura de filme catástrofe e
torture porn, escrita e estrelada por Eli Roth (“O Albergue”) e ambientada no
Chile. Um grupo de americanos vai passar férias por lá – curtindo a vida
adoidado – quando há um violento terremoto, que acaba destruindo uma
penitenciária e todos os presos saem para cometer atrocidades. Bem divertido.
BENEATH (2013, EUA) de Larry Fessenden
Esse é mais tolo do que todos os demais. Mas adoro
esses filmes de animais assassinos (e assisti até “Zombeavers” recentemente).
Aqui o monstro é uma espécie de bagre gigante, meio mal feito, que ataca jovens
num barco. É surpreendentemente divertido e o herói é um Johnny Depp genérico. É minimalista, pequeno, do jeito que
eu gosto. (Obs: Tem um outro "Beneath" recente também, de caverna, mas não é tão legal).
DEADGIRL (2008, EUA) de Marcel Sarmiento, Gadi
Harel
Outro dos misóginos. Dois adolescentes encontram
uma espécie de menina zumbi num hospital abandonado, e a exploram de todas as
maneiras, com participação dos coleguinhas. Também tem seu Johnny Depp genérico.
HATCHET (2006-2013, EUA) de Adam Green
Uma homenagem aos slashers clássicos, não entendo como essa série não é mais popular.
São três filmes, feitos entre 2006 e 2013, bem na pegada de “Sexta-Feira 13”; e
cada filme começa exatamente de onde o anterior terminou. A história... não tem
muita história, é um assassino matando gente num pântano. E é cheio de estrelas
do gênero, como Kane Hodder (que interpretou o Jason em vários filmes) como o
assassino, Danielle Harris (de “Halloween”) como a heroína, e Robert Englund
(o Freddy Krueger) numa ponta. Talvez funcionasse melhor como série de TV – a continuidade
é bem de série de TV, em três episódios.
À L´INTÉRIEUR (2007, França) de Alexandre
Bustillo, Julien Maury
Esse já vi há um tempinho, mas decidi colocar aqui
como o melhor representante francês dessa nova safra, que tem coisas bem
extremas como “Mártires”, “Alta Tensão” e “Frontiers”. Esse eu gosto mais, por
ser (novamente) um filme mais minimalista, passado todo numa casa, e ter um
drama mais real. Uma mulher grávida é ameaçada por uma invasora, que comete as
violências mais absurdas. Indispensável.
Um projeto bem bacana do João Chiodini em que o autor escolhe o perfil ideal de leitor para seu livro. No caso de BIOFOBIA, sugeri um leitor masculino, de meia idade. E acho que acertei o alvo.
Andei distante, mas por perto. Ando bastante ocupado passando fome. As resoluções de ano novo foram as mais previsíveis para um homem de meia idade: dieta, beber menos, ser mais empreendedor, menos internet e mais literatura. Quero voltar a nadar também; ano passado só fiz musculação e fui inchando, inchando. Nunca quis ser barbie, mas meu biotipo ajuda, com os suplementos de Nhá Benta e gin tônica. Já não dá mais para ser um garoto franzino (porque não dá mesmo para ser garoto), mas dá para fugir do bonde da stronda.
As férias em si foram só quatro dias em Itapoá e Guaratuba, fronteira de Santa Catarina com o Paraná, na virada do ano. Um horror, o sopão da classe C, praia suja, lotada, espumante quente... Bem, no reveillon qualquer praia está longe de seu auge bucólico. Fui muito bem recebido pela família do Murilo, que tem casa por lá, mas o movimento das festas também impediu que fosse um ambiente dos mais confortáveis. Provavelmente o mais divertido da viagem tenha sido a volta, o caminho surreal para Joinville, por uma balsa que fica no meio do nada, passando por vilinhas pesqueiras e estradas de terra.
Falando em viagens, começo a planejar agora uma viagem para a Armênia, com a minha mãe, para conhecer mais sobre a terra de nossos antepassados. Quem tiver dicas, agradeço.
No mais, traduções, roteiros, projetos de séries. Um ano como os outros, no qual espero que os frutos sejam mais recompensadores.
A capa da Ilustrada da Folha este sábado foi uma pesquisa que fiz com 50 autores brasileiros sobre venda de livros e renda mensal. Foi aquela velha pergunta: "Do que você vive?", que confirmou a impressão que eu tinha de que os autores estão vivendo de literatura, mas não exatamente da venda de livros. Atividades correlatas, como oficinas literárias, debates, prêmios, venda de direitos etc rendem mais do que a venda de livros em si, a exceção fica para os autores de literatura juvenil, ou de entretenimento.
A ideia da pauta foi minha - depois de ler sobre a questão da lei de preço fixo para os livros - imaginei que o preço de livro fosse mais uma discussão de livreiros e editora do que de autores. Criei um questionário com perguntas como "de onde vem sua renda principal", "o que acha do preço dos seus livros", "qual está a situação do autor hoje em relação há vinte anos", "qual é a sua ambição como autor". Mandei para 60 autores, 50 me responderam - procurei distribuir em diversos gêneros e me concentrar no autor de público médio (ou seja, que vende a média brasileira); não teria sentido encher de bestsellers/exceções, tampouco lotar de autores desconhecidos.
Os questionários renderam dados sintomáticos e consegui tirar aspas interessantes para as discussão. A queridíssima Raquel Cozer editou. Infelizmente, mesmo sendo capa, é um espaço bem limitado para aprofundar a discussão; pelo menos se estendeu pelas redes sociais e rodas de bar, com os chatos de plantão - que não devem ser nomeados - dizendo que não é bem assim, ou querendo apenas polemizar por terem sido deixados de fora.
Impressionante como qualquer lista envolvendo escritores no Brasil gera birras e inimizades - mesmo uma dessas, em que os autores não ganham objetivamente nada. Eu mesmo não deixo de assumir meu desapontamento em ser deixado de fora de tantas essas, mas não deixo de reconhecer boas seleções que me excluem (como a de Frankfurt e de Paris, ambas que considero bem equilibradas).
É por isso que não fiz minha lista de "melhores do ano" na literatura. Trabalho com isso, li grandes autores que divulguei este ano aqui ou no Facebook, mas ainda estou em dívida com tantos outros que lançaram livros; seria uma lista muito relativa se eu colocasse apenas os que li, prefiro não fazer. (Dia desses vi uma lista vergonhosa de algo como "homossexualidade na literatura contemporânea" que tinha um punhado de autores jovens e excluía gente como Glauco Mattoso, João Silvério Trevisan, João Gilberto Noll, Hugo Guimarães, acho que até o Marcelino Freire entrou no segundo tempo. Se é pra fazer, pesquisa direito, porra.)
Enfim, criar listas e criar inimizades...
Tenho visto BIOFOBIA em algumas seleções de melhores do ano, fico honrado em ser lembrado, mas também são visões muito parciais. Melhor esperar os júris me excluírem ano que vem...
No mais, sigo hoje para a praia, encontrar meu loirin em Santa Catarina. Boas viradas por aí.
Eu, como um dandizin no fantasma de um Natal Passado.
Deixei o Natal passar para não ejacular na sua cidra, mas fiquei remoendo aqui as dores e delícias desse feriado tão pouco brasileiro.
A menina se senta no colo do Papai Noel e pergunta: "Papai Noel, você rói unha?" ao que ele responde: "Hohoho." Vamos ao post.
Eu odeio e amo o Natal... acho que mais odeio do que amo, penso depois de criar esta lista - a segunda foi bem mais difícil - é um segundo inferno astral no ano.
Com a rena, em 2012, na Lapônia.
Não querendo dar uma de Grinch, mas... Bem, vamos lá:
DEZ COISAS QUE ODEIO NO NATAL:
- Se você vive de frilas, como eu, é um mês perdido... ou um mês e meio. Tudo para. Os trabalhos param. O financeiro entra de férias e só te paga em meados de janeiro. E a esperança do ritmo voltar ao normal é só depois do carnaval.
- É um período de festas, então você já está comendo e bebendo há vários dias e não pode ou não deveria se jogar em mais uma.
- É um período de festas, então você já está gastando com as festas e tem de pensar nos presentes, tem de pensar nos presentes, mas gasta nas festas, e viagens e etc; tudo acontece ao mesmo tempo.
- É um período de festas, mas no Brasil é verão, então você não pode se vestir decentemente para as festas.
- É um período de festas, mas a maioria das festas você passa com gente que não vê o ano inteiro, com quem não tem intimidade, então não pode ou não deve afundar o pé na jaca. Tem de sorrir e ser civilizado.
- Você vê gente que não vê o ano inteiro - que vai então dizer que você engordou, ou está magro demais, que está abatido; só com muito esforço vão te achar melhor, porque sem dúvida você estará um ano mais velho.
- É a conclusão do ano. Você tem de dar sorte de esse ser seu melhor mês, porque ficará como um saldo do últimos doze. Se for um mês apertado ou de acontecimentos infelizes deixará a impressão de que foi assim o ano todo.
- Você também precisa ter grandes perspectivas para os próximos meses, o próximo ano, do contrário parecerá o fim do mundo.
- Não importa quão bom seja, não haverá Papai Noel, não haverá a completa satisfação com um simples brinquedo da Estrela. Seu Natal de hoje nunca será como o de ontem.
- E por melhor que seja, mesmo que você seja criança, sempre parecerá uma versão pirata e requentada do “Verdadeiro Natal” com neve.
Quandos os presentes eram maiores do que eu.
DEZ COISAS QUE ADORO NO NATAL:
- Os presentes.
- As comidas.
- Você tem desculpa e convites para farrear todas as noites.
- É horário de verão. Então você pode ter passado o dia de ressaca, mas ainda vive com alguma luz.
- Pratos, ingredientes e combinações que são estranhas ao brasileiro o ano inteiro são obrigatórios, tipo peru com fios de ovos, nozes e romã.
- E os Panetones.
- Você pode se permitir relaxar um pouco no trabalho, porque nada acontece (ou é OBRIGADO a relaxar um pouco).
- Apesar do clima sufocante você pode se refrescar um pouco com toda a ideia de neve e renas e bonecos de neve.
- O clima mais tranquilo que a cidade fica entre Natal e ano novo (no caso de São Paulo, claro).
- Por pior que tenha sido, você sente que está chegando ao fim.
Em 2011 fizeram um autêntico gingerbread com meu nome, na Finlândia.
No mais, feliz ano novo para vocês. Passei esta semana aqui com minha coelha e passarei a próxima semana de reveillon em Santa Catarina com meu loiro. Bjs
Apesar de não ter sido exatamente autoral - foi uma encomenda - gostei bem do resultado. A produtora Pródigo me procurou em meados de 2012, depois de terem lido meu Pornofantasma, e me convidou para desenvolver esse projeto de histórias de crimes passionais, livremente inspiradas em casos reais. Eu já havia trabalhado em alguns projetos de longa, colaborado em alguns roteiros, mas nada que tivesse dado muito resultado, então tinha pouca experiência. Me colocaram em dupla com a Paula Szutan, uma roteirista experiente que eu não conhecia, mas que acabou se revelando a melhor parceira. Criamos todas as tramas juntos. Ela deu muito da estrutura, do andamento, eu contribuí com o universo trevoso e o humor negro dos diálogos. No meio do processo entrou também a queridíssima Mirna Nogueira, que arredondou as versões finais dos roteiros. Os episódios foram dirigidos por Henrique Goldman (de "Jean Charles") e Marcela Lordy.
Com a Paula, no set do episódio da Betty Faria (2).
A série tem núcleo central com uma história que segue em paralelo (o bar), mas os episódios podem ser vistos de forma independente. (Meus favoritos são o 4, 5 e o 10.) É muito louco você ver frases da sua vida, personagens imaginados por você ganharem vida na tela, às vezes de forma surpreendentemente positiva.
Micro-resenha na coluna da Patricia Kogut no Globo - "roteiros inteligentes", sabe como é.
Destaco algumas curiosidades.
- O título original da série era "Amor Mata", mas o produtor achava que criava um cacófago com "a marmota". Após várias discussões ("Entre Quatro Paredes", "Amor e Morte", "Cale-se Para Sempre"), eu sugeri o básico por se tratar de uma série de crimes passionais: "Passionais"; ganhou meu título.
- Procuramos variar o máximo no perfil de casais, novos, velhos, lésbicas, e nas formas de se matar. Havia também um roteiro centrado num casal gay masculino, mas ficou um pouco pesado para o canal e tivemos de adaptá-lo. Acabou se tornando um casal sadomasoquista (episódio 5, dos que mais gosto).
- Aliás, as obras de arte da dominatrix desse episódio (lindamente interpretada pela Rachel Ripani Rachi) são do meu irmãozinho Alexandre Matos, por indicação minha.
- Com uma judia no roteiro (a Paula) e outro na direção (o Henrique), tínhamos de ter um episódio da "colônia". Acabou sendo o do casal de lésbicas, que tem até uma rápida aparição do rabino Henry Sobel.
- Apesar de carregado no humor negro e no tom kitsch do roteiro, muito disso veio da direção, como as máscaras de bicho do primeiro episódio.
- Outro dos episódios de que mais gosto é o da lua de mel no navio (4). Por questões de produção, foi complicado definir o cenário, que passou de navio para resort, de resort para hotelzinho na serra e voltou para navio quando se saiu do realismo e se apostou num ar mais onírico e minimalista.
- Uma das histórias que criamos girava em torno de um casal incestuoso de pai e filha; mas também exageramos um pouco na dose e foi vetado.
- Eu só não participei efetivamente dos últimos dois roteiros, porque já tinha viagem marcada para Espanha para a turnê de lançamento de Masticando Humanos por lá.
Agora já comecei o trabalho no roteiro de BIOFOBIA (que será escrito por mim com supervisão do Marçal Aquino) e tenho outros dois projetos de série aguardando aprovação. Assim vai se abrindo uma carreira paralela que só me acrescenta como escritor.
Assinei mais uma resenha do Murakami, na Folha deste sábado:
Durante a adolescência, cinco amigos inseparáveis definem suas próprias personalidades através do relacionamento entre eles. Com apelidos derivados de seus sobrenomes, Vermelho é o estudioso, Azul o esportista, Branca é a bela e Preta a extrovertida. Como uma quinta perna dispensável ao equilíbrio há Tsukuru Tazaki, o protagonista, que não tem o nome relacionado há nenhuma cor e nem consegue definir sua própria personalidade. É o elemento neutro, sobrando entre dois casais, que teme ser expulso do grupo a qualquer momento. Isso de fato acontece pouco depois que ele ingressa na universidade. Os quatro amigos o rejeitam sem explicações e Tsukuru mergulha numa depressão de seis meses, que o leva quase até a morte, seguido de anos de vazio que se estenderão até que ele decida resolver seu relacionamento com os amigos, já chegando à meia-idade. Para isso, ele volta à sua cidade natal, redescobre quem seus amigos se tornaram depois de adultos e chega até uma cidade de veraneio na Finlândia, onde um deles reside atualmente. “O Incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” é o romance mais recente do escritor Haruki Murakami, um dos autores mais importantes do Japão atual, que vendeu um milhão de cópias só no mês de lançamento desta obra. Escrita numa prosa objetiva com diálogos didáticos, que a assemelha a um fábula realista, é digerida facilmente e parece bem menor do que suas trezentas e poucas páginas. Na história da literatura não faltam protagonistas apáticos – talvez uma projeção idealizada de tantos autores emocionalmente derramados – mas o “incolor” de Murakami cumpre o seu papel exatamente ao investigar seu lugar e sua responsabilidade no mundo. Ao longo da narrativa, nem todas as perguntas são respondidas, mas a chave para a conclusão parece estar no próprio título, fundamentando a existência do romance durante os anos de peregrinação de Tsukuru. Se seus personagens monocentrados só poderiam ter nascido no Japão, suas buscas não deixam de ecoar verdades universais. Avaliação: Ótimo.
2014 foi um bom ano. Não foi incrível, o dinheiro foi apertado, não teve nada de sensacional, mas tive algumas conquistas importantes e consegui movimentar novamente minha vida profissional e literária.
Ascendendo sem entusiasmo.
Demorou a começar, é verdade. Até maio praticamente nada aconteceu, eu segui nas traduções, resenhas para a Folha, nas preparações para o lançamento de meu oitavo livro.
Nas gravações do trailer, com Murilo, Marcelino e Mutarelli.
BIOFOBIA saiu no começo de maio, sem grande alarde, repercussão limitada, mas boas críticas, muitas entrevistas, um lembrete do que faço de melhor, de que ainda estou no jogo, não entreguei os pontos nem fiquei relegado à literatura juvenil.
Gravando ótima entrevista no Metrópolis.
Os lançamentos em São Paulo, Rio e Florianópolis foram os mais bacanas, pela quantidade de público e o carinho dos leitores. Consegui também viajar bastante para festivais literários, dos quais destaco o Fliaraxá, o Flu de Uberaba e o encontro com leitores no Festival de Extrema; Minas Gerais foi mesmo o palco mais frequente neste ano, por algum motivo aleatório.
Com Murilo, em Punta.
Tive também duas viagenzinhas internacionais (mantendo minha média anual) e consegui cumprir a meta de conhecer um país novo por ano. O deste foi o Uruguai, que há tempos era uma carta na manga. Viajei com Murilo para Cabo Polônio, Punta e Montevidéu, que foi bem gostoso, ainda que não exatamente surpreendente.
Fervendo no México.
Voltei ao México em outubro, convidado da Feira do Livro de Zócalo, na Cidade do México. Fui muito bem recebido, pude debater bem minha obra por lá com pesquisadores, tradutores e estudantes que já conheciam o que faço, e acho que mantive portas abertas para um futuro próximo. Mas também não foi uma viagem de grandes surpresas ou cenários.
A pré-equipe do filme de BIOFOBIA.
Agora em novembro tive a melhor notícia do ano: a aprovação do projeto de BIOFOBIA para o cinema. Já começarei o ano fazendo o roteiro para o filme, com Marçal Aquino, Renato Ciasca e Beto Brant. A série de TV que escrevi ano passado - PASSIONAIS - foi finalmente ao ar no +Globosat e, ainda que com ressalvas, gostei bem do resultado. É muito louco você ver frases da sua vida, personagens da sua história transformados e reproduzidos no ar. Tem sido gostoso e importante me desenvolver como roteirista. Parece que é um caminho viável para minha sobrevivência como autor.
Entrevista com o Dr. Kurtzman, no Canal Brasil.
Mas a grande novidade de 2014 com certeza foi a chegada de ASDA, minha coelhinha que adotei no final de abril.
Com Murilo, no dia em que chegou em casa, ainda bebê.
Há anos não tinha um animal de estimação (o último tinha sido um iguana, que não é lá um bicho muito "companheiro"); Asda exigiu que eu reorganizasse minha vida, desorganizasse a casa, me adaptasse para cuidar dela. Coelho é um bicho muito carinhoso, limpo, apegado, mas dá trabalho. Eles roem tudo o que vêem pela frente. E ela roeu tudo o que encontrou no meu apartamento: livros, fios, móveis, rodapés... parede! Gastei bem mais do que havia previsto, mas não sei se poderia dizer que fiquei no prejuízo. Ter um bicho desses em casa realmente muda o clima, o ânimo, hoje já não posso mais pensar em ficar sem a Asda aqui.
Agora, já mocinha.
Tenho boas expectativas para 2015. Não haverá livro novo (graças!), mas o trabalho no filme já está garantido, e tem também a peça de teatro e outras possibilidades para cinema e TV. Também já está certa uma grande viagem ainda no primeiro semestre, que fará parte da pesquisa para meu livro novo (que ficará para 2016... 2017...). Então está tudo certo. O importante é o movimento. E a vida segue.