Resenhei o ganhador do Pulitzer na Folha deste final de semana (capa da Ilustrada):
Não se pode dizer que um épico histórico sobre a Segunda Guerra seja uma escolha arriscada para um romance. O tema parece oferecer enfoques tão inesgotáveis quanto o interesse do público —motivo pelo qual “Toda Luz Que Não Podemos Ver” começou a vender bem antes mesmo de ser indicado ao National Book Award, em setembro, e ganhar, nesta semana, o Prêmio Pulitzer de ficção.
Entretanto, se o resultado é (quase) garantido, o processo de se escrever algo assim nunca é simples. Reconstruir aquele momento requer um mínimo de pesquisa, sabedoria e principalmente sintonia.
Como entender o que é viver aqueles cenários, naquele momento? Dizer que o norte-americano Anthony Doerr, 41, fez a lição de casa seria menosprezar o escritor e superestimar a escola.
Lançado há um ano nos EUA, o livro teve recepção que surpreendeu editora e autor, cujos quatro livros anteriores, elogiados pela crítica, tiveram alcance restrito. Ao final de 2014, tinha vendido quase 1 milhão de cópias, o que levou a Intrínseca a tratá-lo como sua grande aposta para 2015 —coroada com o anúncio do Pulitzer dias depois de a tradução sair.
Em narrativas paralelas, o romance apresenta Werner, órfão alemão que aos poucos é cooptado pela máquina nazista, e Marie-Laure, menina francesa que perde a visão e vive sob a proteção do pai.
Werner é apaixonado por transmissões de rádio, aprende a ouvir, consertar, fazer cálculos e identificar emissores, e seu talento desperta a atenção da Alemanha. “É certo fazer algo porque todos estão fazendo?” é a pergunta da irmã que ecoa em sua mente quando se vê cada vez mais entranhado na juventude nazista, em seus ritos perversos.
Já o pai de Marie-Laure é guardião de um dos maiores tesouros da França, um diamante mítico a que se atribui poderes e maldições. Com a guerra, pai e filha fogem pelo país e acabam numa cidadezinha litorânea, protegidos por um tio misantropo, que tem uma coleção de rádios.
Essas duas linhas desconexas —menina cega e menino nazista— caminham para um encontro inevitável, do qual já se pode intuir um desfecho romântico e redentor como uma foto na revista “Life”.
A hábil estrutura segue linearmente, voltando a um ponto preestabelecido de tempos em temos, de maneira fracionada, com recortes da época em capítulos curtos e com uma quantidade limitada de personagens.
A interrupção constante da linha de cada protagonista para dar lugar ao outro mantém a expectativa que explica o sucesso de um livro de mais de 500 páginas. É o que os americanos chamam de “page turner”, um livro em que cada página obriga a virar a próxima. O texto é objetivo, narrado no presente como senso de urgência.
Com um protagonista órfão, outra cega, e tratando de guerra, é praticamente impossível fugir da pieguice, mas essa talvez esteja só na dose indispensável para que se ecoe como grande história, para um grande público.
“Toda Luz que Não Podemos Ver” é um livro delicado, em que se sente além do que é dito. Como exemplo, o personagem Frederik, “o mais fraco”, colega de Werner no internato, poderia render mais cem páginas ou se desdobrar num épico completo. Isso acaba por formar um universo muito mais tridimensional do que os protagonistas podem demarcar.
No final, a saudade por se afastar dos personagens parece reverberar tanto no leitor quanto no autor, que talvez tenha estendido o romance num sentido desnecessário, trazendo-o até os dias atuais, num resvalo de “Titanic”, de James Cameron. Não compromete, contudo, o conjunto. “Toda Luz que Não Podemos Ver” é um belo livro.
TODA LUZ QUE NÃO PODEMOS VER
AUTOR: Anthony Doerr
tradução: Maria Carmelita Dias
editora: Intrínseca
quanto: R$ 39,90 (528 págs.)
avaliação: muito bom ★★
27/04/2015
17/04/2015
DEFORMANDO LEITORES
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| Mesa de quarta. (do blog do Maurício C. Garcia: http://esquizo.com.br/) |
Acabo de voltar do Salão do Livro da Serra Catarinense, organizado pelo grande Carlos Henrique Schroeder, um dos escritores que mais faz pela literatura no estado. Dividi mesa na quarta com Simone Campos, Raphael Montes (de novo nãaaaaao!) e o autor local Maurício C. Garcia. Quatro autores deixam uma mesa bastante inchada, mas a mediação de João Chiodini distribuiu muito bem as perguntas e permitiu que de fato houvesse um debate, não apenas discursos paralelos. Ainda sobrou tempo para perguntas da plateia - que foi tomada por uma juventude trevosa com camisetas de banda, talvez pelo tema da mesa (games, tiros e terror). Bem bacana.
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| No camarim, prontos pro debate. |
Recentemente Suzana Vargas e Afonso Borges publicaram textos em O Globo debatendo sobre a validade dos eventos literários na formação de leitores. Concordo com os dois, discordo dos dois. Acho que eventos literários formam leitores, mas sua função principal é formar autores, o que pode ser quase a mesma coisa, já que o autor é antes de tudo um leitor.
"Eu também escrevo" deve ser a frase que todo autor mais escuta de seus leitores. E os eventos literários existem para que essas frases sejam ditas. São a ponte entre leitor e autor, em mais de um sentido. É o momento do leitor ("já formado") entender como a coisa funciona, a escrita, o mercado, reformar-se como leitor e autor... ou calar-se para sempre.
Por isso é essencial que o evento tenha participação do público (que tenha público, para começar), em perguntas, conversas. As oficinas literárias oferecidas em muitos festivais contribuem com isso, mas sempre acho mais importante o leitor conhecer as experiências individuais de cada autor do que "fórmulas" para escrever.
E nesse ambiente, nessas tendas, sempre há um transeunte curioso, um acompanhante alienado, alguém que pode ouvir a palavra do autor pela primeira vez e perceber que também se fala (e se lê) sobre "games, tiros e terror". Assim também pode se formar novos leitores.
Na pesquisa que publiquei na Folha ano passado, sobre a renda de escritores, ficou claro a importância dos eventos literários na sobrevivência dos escritores. Eventos pagam as contas, formam autores na plateia, reformam autores nos palcos. Autores formam leitores, não tenho dúvidas disso.
Sobre os textos do Globo, para me deter a questões pontuais:
Eventos não levam ninguém a ler mais ou a comprar mais livros. Eventos literários sejam eles festas, feiras, bienais com maior ou menor projeção nacional, são fenômenos de marketing. Ou seja: eventualmente ouve-se falar num produto chamado livro, em seus autores, como quem anuncia uma nova marca de refrigerante. - de Suzana Vargas
Discordo veementemente. Uma limitação que encontro em muitas mesas literárias é exatamente que cada autor quer apenas falar de seu livro, dar seu serviço, não debater temas propostos e expandir a discussão para a literatura de forma mais ampla. Também não se pode esquecer de eventos que adotam e trabalham o livro previamente (como a Jornada Literária de Passo Fundo, o Festival Literário de Extrema), para depois oferecer a conversa com o autor.
O escritor quer, claro, ser reconhecido. Mas o reconhecimento se dá de uma só forma: em vendas. Ou existe escritor que vendeu 10 exemplares e é um sucesso? - Afonso Borges.
Discordo e tenho discutido isso exaustivamente aqui. O reconhecimento não se dá só em vendas. O autor quer vender mas não quer vender a qualquer preço, pode ter muitas ambições antes disso. Aliás, o bom autor deve ter muitas ambições antes disso. Autores mais sofisticados, com uma literatura mais densa, arriscada ou controversa sabem que não estão publicando sucessos de vendas, e já consideram sucesso conquistar seu público (seja ele de dez leitores especializados). João Gilberto Noll, João Silvério Trevisan e Evandro Affonso Ferreira, entre outros, são senhores autores que não vendem, e sem dúvida são reconhecidos. Para mim, são heróis.
Você pode ler os textos originais da Suzana e Afonso aqui: http://editoras.com/discussao-debate-dialogo/
E assim se abre a (minha) temporada de eventos literários de 2015. Também ajudam a formar a mim como autor, não só pelos debates oficiais, mais pelas conversas que se estendem nos bares, nos translados. Sempre aprendo muito. Semana que vem vou estar na Flipoços, ao lado da querida Luisa Geisler, falando sobre o êxodo urbano na literatura brasileira atual (tema de um texto que publiquei na Ilustríssima ano passado). Você pode ver toda a programação aqui: http://www.flipocos.com/
| Na estrada. |
13/04/2015
A FORMA DA SOMBRA
Resenha que publiquei na Folha deste final de semana:
O boom que o cinema de horror teve mundialmente nos anos 70 e 80 encontrou eco no Brasil da época em público, mas não em produções. A censura do regime militar e a falta de tradição na produção fantástica e de gênero (seja cinematográfica, televisiva ou literária) restringiram o horror nacional a produções underground ou, no caso da literatura, a obras mais voltadas ao público juvenil.
Isso começa a dar sinais de mudança com uma nova geração (de escritores, roteiristas e cineastas) que cresceu assistindo aos "slashers" --subgênero do horror, com muito sangue-- dos anos 80 e agora dá os primeiros passos escrevendo livros.
"A Forma da Sombra", romance de estreia do carioca Fernando Abreu Barreto, 38, é um grato exemplo disso. Ainda que firmemente inspirado pelos filmes estrangeiros de assassinos seriais e de vampiros, busca não só uma identidade nacional, como tem um trabalho cuidadoso de linguagem, tão raro em literatura de gênero.
"Encontro o sol aos domingos, quando não chove. Durante a semana, ao chegar ou sair do trabalho, ele não está lá. Sinceramente, não me faz falta", anuncia o parágrafo de abertura.
O protagonista anônimo é um condutor de trens do metrô no Rio. Passa os dias nos subterrâneos, sem ver a luz do sol, volta para casa de noite. Antissocial, não se identifica com o mundo "iluminado" à sua volta e questiona a própria identidade e humanidade. É uma visão mais profunda e sombria, que outros poderiam transformar facilmente numa paródia: "Um Vampiro em Copacabana".
Não é exatamente novo --a crise existencial do protagonista tem ares pesados de déjà vu (a série "Dexter" vem imediatamente à cabeça)-- e mesmo a ambientação de thriller nos túneis do metrô já é algo visto (o filme britânico "Plataforma do Medo", de Christopher Smith, é uma das influências citadas).
Entretanto, o autor acerta ao combinar esses elementos e ambientá-los no Rio dos dias de hoje. Principalmente, o lirismo do texto dá pistas de um novo autor nacional que pode acrescentar muito ao gênero e à literatura.
A FORMA DA SOMBRA
AUTOR Fernando de Abreu Barreto
EDITORA Caligo
QUANTO R$ 25 (116 págs.)
AVALIAÇÃO muito bom
31/03/2015
ATUALIZANDO A COELHA
A Páscoa está chegando, trazendo dollynhos a todos. E também é a época em que muita gente compra coelhos de estimação para os filhos, e depois não sabe o que fazer com eles.
Minha coelha Asda é a paixão da minha vida. Foi a primeira vez que tive um coelho, e tive de aprender a criar por experiência própria e muita pesquisa na net. Agora que já estou com ela há um ano, resolvi fazer este post atualizado, sobre como criar um coelho, aproveitando muitas das perguntas que me fazem.
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| Querendo carinho. |
ONDE COMPRO?
Geralmente é fácil de se encontrar nos petshops maiores e não é nada caro (entre R$50 e 100), mas é mais recomendado procurar criadouros especializados, que garantem a saúde e o bem estar do animal. Como coelho se reproduz muito facilmente, também é fácil encontrar quem queira doar filhotes. Uma busca básica no Google resolve. A minha confesso que foi comprada em pet shop, por impulso, nada recomendado. Ela veio com alguns problemas de pele (fungo) que levaram alguns meses para sarar.
POSSO DEIXAR SOLTO?
Deve, mas com cautela. Na compra, o petshop me recomendou manter minha coelha numa gaiola, o que nunca cogitei. Mas deixar coelho solto sozinho dentro de casa é dor de cabeça - eles roem tudo o que vem pela frente, você não vai conseguir tirar esse instinto e vai ter prejuízo. Então o ideal é você ter um bom espaço em que ele possa ficar solto quando você não estiver em casa (a minha fica na área de serviço) e ficar de olho quando estiver com ele solto pela casa.
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| Esse pelo macio é fruto de feno e da ração milionária. |
O QUE COME?
Livros, revistas, móveis, fios, parede... Coelho precisa roer constantemente para gastar os dentes, e não adianta apenas arrumar uns pedaços de madeira (como faço com a minha), ele vai roer a madeira e o que mais encontrar pela frente. Então o ideal é não deixar nada importante é "roível" ao alcance, principalmente fios de eletrodomésticos (já perdi quatro teclados de PC por causa disso). Não tive problemas com móveis - por algum motivo ela nunca roeu. Mas vira e mexe a vejo enfiando os dentes até na PAREDE.
Fora o que ela rói, o que ela precisa comer é ração, feno e vegetais. Na compra, o petshop indicou dar apenas ração, R$10 por 5kg. Logo percebi que era ração de engorda, para coelho de abate, ou seja não era nada saudável. Hoje dou uma ração de R$40 por 1,5kg (Nutrópica) que dura em média um mês. Complemento com vegetais (escarola, rúcula, almeirão, etc) e fruta e legumes uma vez ou outra, como petisco. O que é muito importante (e complicado) é deixar feno disponível para o coelho - porque ajuda no processo de digestão e desgaste dos dentes. Isso em São Paulo é um saco de achar (ainda mais para quem não tem carro, como eu), mas não é caro. Geralmente eu compro fardos de 15kg (R$20) em loja de produtos para fazenda, e isso dura uns quatro meses. Então é uma missão para se fazer três vezes por ano. E você precisa ter um lugarzinho para deixar um fardo de feno.
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| Bebedouro para água e o monte de feno atrás. |
FAZ SUJEIRA?
Não. Coelho é como gato, um bicho muito limpo, que está constantemente se limpando com a língua. Inclusive não é recomendado dar banho, porque pode ter problemas de pele. Também igual ao gato pode facilmente aprender a usar a bandejinha para as necessidades. A minha deu trabalho por uns meses, vez ou outra mijando no sofá, mas agora já está totalmente acostumada a usar só a bandeja (que é forrada com feno também, não com areia de gato). Cocozinho ela faz vez ou outra pela casa, mas é uma bolotinha seca, sem cheiro, que se joga fora com facilidade. Solta um pouco de pelo também, mas nada dramático - só uma vez por ano tem uma troca maior, por umas duas semanas.
PRECISA VACINAR?
Não. Não existe vacina para coelho doméstico. Você pode literalmente ter um coelho e nunca levá-lo ao veterinário (mas se tiver algum problema, vai ter de procurar um veterinário de silvestres, que geralmente é bem mais caro). Recomendam muito que se castre o coelho, não apenas para não procriar, mas também por prevenção de doenças, para que ele fique mais tranquilo, etc. Eu não castrei a minha - a própria castração sempre envolve riscos, e não quero uma coelha gorda e apática.
INTERAGE COM O DONO?
Muito. Se tiver convivência diária com ele, não ficar trancado numa gaiola ou no quintal, o coelho se apega muito ao dono, sobe no colo, lambe. Digo que é mais afetivo do que um gato, menos do que um cachorro. Também aprende o nome e alguns comandos básicos. Quando peço para ela sair, geralmente ela teima, mas acaba obedecendo. Quando estou na sala e chamo, ela vem quando quer. Quando estou na cozinha e chamo, ela sempre vem, porque acha que vai ganhar comida.
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| Ainda bebê, já apegada. |
POSSO LEVAR PARA PASSEAR?
Não. Tem gente que leva, existe até coleira, mas não é recomendado. Primeiro porque, como um gato, o coelho não vai andar direitinho seguindo você na rua; depois, porque é um bicho que se assusta facilmente com barulho. Vez ou outra eu levo minha coelha na casa do Murilo ou na minha irmã (numa caixa de transporte), mas ela sempre fica muito acuada com o passeio e estranha novos ambientes. Então se ele puder ficar solto num apartamento quarto-e-sala já está ok.
É BOM PARA CRIANÇAS?
Para crianças muito pequenas, não. É um bicho que se assusta facilmente, não gosta de ser carregado, e não é tão dócil quanto um cachorro. Obviamente não oferece risco à criança, mas não é bom para o coelho. Para uma criança um pouco maior, é tranquilo.
QUAL É A VANTAGEM AFINAL DE SE TER UM COELHO?
Em relação ao cachorro: não suja a casa, não precisa levar para passear, faz zero de barulho. Em relação ao gato: é mais carinhoso (depende do animal), precisa de menos espaço, não escala (não vai comer a comida em cima de sua mesa, nem precisa de tela de proteção na janela). Desvantagens: rói tudo pela frente, então você precisa adaptar sua casa e ficar sempre de olho.
27/03/2015
VIVER PARA VENDER
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| Assim se faz a nova literatura brasileira (Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca, Veronica Stigger e eu, representando o Brasil em Bogotá, 2007) |
Vira e mexe vejo algum "jovem autor" razoavelmente bem sucedido apontar o dedo para o meio literário (que geralmente o despreza) e dizer que "escritor no Brasil não vende porque não se comunica com os leitores, só quer escrever difícil, blablablá". Realmente, não estou falando de um autor específico, esse é o argumento em diversas entrevistas, colunas e antologias de literatura comercial.
É a lógica de se nivelar a um discurso mais raso, mais fácil, em vez de tentar encontrar e formar leitores mais sofisticados, pensantes. Guardadas as devidas proporções, é a lógica da TV que só exibe bunda e lepo-lepo porque é isso que o brasileiro quer.
Não tenho nada cont... Ok, tenho algumas coisas contra a literatura comercial, mas procuro afastar o preconceito. (É só dar uma olhada mais atenta nas pilhas de bestsellers internacionais e se encontra quase meia dúzia que eu mesmo traduzi.) Acima de tudo, acho que o mercado brasileiro precisa de diversidade. E os bestsellers nacionais permitem que as editoras continuem apostando em novos autores, talvez mais difíceis, talvez melhores...
Para o"jovem autor bem sucedido", as vendas são a medida do sucesso, e realmente é uma boa medida. Não é a única. Há um recalque constante do autor (que vende) em ficar fora das listas, dos prêmios, não ser resenhado e nem participar das mesas literárias. Acho mesmo que poderia haver uma mistura maior. Mas é compreensível que, na hora de "representar o Brasil", (Paris, Frankfurt) escolha-se o que o país tem de mais sofisticado.
"Todo autor quer vender" alguns argumentam. Pode ser, mas não a qualquer preço. Tenho formação de publicitário - e larguei a carreira para poder fazer o que acredito. Se for para dar à massa só o que ela quer, eu ficaria em agência. Não estou aqui para dar o que o público quer, mas o que EU quero que o público saiba. Minha intenção é provocar, contestar, e isso nunca vai ser recebido tão facilmente quanto a onda da vez.
Falando especificamente do meu caso, fui enquadrado no restrito espaço dos alternativos: pop para os literatos, difícil para o grande público. De certa forma concordo, não vou tornar meu discurso mais raso nem adotar um tom intelectualoide, então continuo brigando para conquistar o maior espaço que posso, dentro da minha proposta - até porque tenho uma coelha para sustentar. Quero mais espaço para os alternativos, quero mais existencialistas bizarros. (Acho que teria uma forte crise existencial se me tornasse bestseller). Não quero me resignar, mas também não tenho tanto a me queixar, talvez hoje eu seja o "alternativo oficial", que tem seu público, seu espaço, e é escolhido para representar um lado B do Brasil (na Colômbia, Argentina, Peru, México, Venezuela, Alemanha, Espanha.)
| Em primeiro plano, Lisias, Del Fuego e eu, em Guadalajara (2013) |
Sem modéstia, é preciso reconhecer a importância que a minha geração como um todo teve em abrir espaço para o boom de "jovens autores". Claro, não foi só mérito de nós autores, como muito o momento da época (com a Internet, o barateamento das formas de publicação). Nos anos 90, não era comum se ver tantos moleques de vinte e pouco publicando, como se tornou nos 2000 com Simone Campos, Daniel Galera, Clara Averbuck, João Paulo Cuenca, Andrea del Fuego, Ana Paula Maia. Nossa geração teve enorme visibilidade (de mídia) e mudou muito a visão que se tinha do autor nacional. (E em casos pontuais se refletiu em vendas expressivas de algumas dezenas de milhares como o caso do "Barba Ensopada de Sangue", do Galera, o juvenil da Del Fuego e o meu "Mastigando Humanos".)
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| Com Mauro Ventura, Galera e Cuenca, em Bogotá (2012) |
A matéria que publiquei na capa da Ilustrada em dezembro, sobre a fonte de renda dos autores, ao meu ver, mostra um cenário muito positivo. Que é possível o autor sobreviver hoje no Brasil sem se curvar ao mercado. Afinal, se pode dizer que Raphael Draccon faz mais sucesso do que Daniel Galera? Que Thalita Rebouças é mais bem sucedida do que Veronica Stigger? Rascunhando meu livro de auto-ajuda eu diria: sucesso é fazer o que se acredita.
25/03/2015
QUANTO CUSTA UM CONTO?
Nazarian: Que eu faço com um conto inédito?
Jonatan: Publica?
Nazarian: Onde? Como? Quem paga hoje em dia?
Lucas: Junte a outros e faça um livro de contos.
Nazarian: Livro de contos é um tiro no pé...
Tiago: Faz um quebra-cabeça com as frases...
Jonatan: E um conto avulso pela E-Galáxia?
Juão: Pixa.
Helena: Entre em concursos.
Nazarian: E começo tudo de novo?
Jonatan: E-Galáxia é fria?
Mariana: Por que livro de contos é um tiro no pé.
Anucha: Publica no blog :)
Nazarian: Não vale nem uma cenoura pra minha coelha?
Gastão: Leiloa
Nazarian: Ou rasgo em pedacinhos, jogo para o alto, cada um cata uma palavra...
Mariana: Zine. Kkkkk
Bianca: Posta para nós de presente de Páscoa.
Nazarian: É meio indigesto, Bianca.
Nobile: Control C, Control V aqui.
Nazarian: Você quer é um microconto...
Penna: Conta!
Nazarian: É sobre um escritor, que tem um bloqueio criati... Mentira.
Ricardo: Dá para mim que eu enceno.
Nazarian: E tudo o que derramei todos esses anos? Você não encenou nem a ejaculação precoce do Thomas Schimidt...
Nobile: Larga esse negócio de literatura e bora fazer novela.
Nazarian: Como não tinha pensado nisso? Una novela psicodélica...
Nobile: Começaria com algo inusitado. Tipo uma trans mulher e um trans homem em Bangkok.
Nazarian: Bem o tipo de coisa que eu escrevo. Acertou na mosca...
Nobile: Eles teriam um gato que falaria das misérias humanas. No núcleo pobre teria um escritor de contos...
Luciano: Imprime e vende na porta da Unib.
Nazarian: Vocês estão me lembrando do meu passado...
Filipe: Me manda que eu transformo em música.
Nazarian: Ninguém me ofereceu ainda para virar perfume da Jequiti....
Ricardo: Transforme em "O" perfume da Jequiti.
Nazarian: Meu sonho é virar mensagem subliminar na entrevista da Mulher Pera.
Tonico: Publica de presente no próximo livro.
Nazarian: Que "próximo livro"?
Henry: Eis o dilema da contemporaneidade...
16/03/2015
TRABALHOS BIZARROS
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| Barman no Ghetto, em Londres. |
BARMAN EM LONDRES
Em 2002 fiz um longo mochilão pela Europa e parei em Londres, onde tinha amigos brasileiros. Com o dinheiro no fim, ou eu arrumava um trabalho ou voltava ao Brasil. No primeiro final de semana lá, passei por um club, pedi emprego e na segunda semana já estava empregado como barman. O Ghetto era um club alternativo, que abria de segunda a segunda, cada dia com um tipo de música/público. As quartas tinham o Nag Nag Nag, noite de elektro que se tornou lendária. Eu fiquei lá desde o começo até quando começou a bombar. Kate Moss, Boy George, Brian Molko foram alguns dos clientes que servi (Bjork foi exatamente numa noite em que eu estava de folga). Trabalhava quase toda noite lá, porque ganhava pouco e tinha de me manter, comer, ajudar no aluguel. Meus chefes e colegas eram todos muito bacanas - fizeram uma festa e me deram um discman quando fui embora - mas eu já era formado no Brasil, já escrevia, e não queria trabalhar de barman para sempre, ainda mais na informalidade.
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| Com Dusty O, drag-dj da casa. |
Voltando da Europa, no final de 2002, o primeiro emprego que arrumei em São Paulo foi de Barman na Sogo, basicamente um "clube de sexo" nos Jardins. Os primeiros andares tinha bares e pista como uma boate (gay) normal. O terceiro andar era chamado de "Dungeon", com cabines, camas, dark room, vídeos pornô. Foi exatamente aí que me colocaram para trabalhar, como barman novato. Apesar do pitoresco da situação, é mais divertido contar e lembrar do que viver. Tinha um clima muito pesado e deprê. Com um mês trabalhando lá, pedi demissão. O chefe de bar era muito bacana, me transferiu para o bar da entrada e me pediu para continuar. Fiquei só mais um mês, até voltar aos trabalhos como redator.
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| Na Sogo, Natal de 2002. |
PROFESSOR DE INGLÊS
Esse também arrumei logo que voltei da Europa, mais ou menos na mesma época em que trabalhava de noite como barman. Como jovem inconsequente, achei que só por ser fluente no inglês poderia dar aula, e uma dessas grandes redes teve a inconsequência de me contratar. O método era completamente absurdo, baseado na repetição e tradução. Eu era um péssimo professor, creio, sem a menor didática e embasamento teórico. Ganhava muito mal também. E depois de seis meses desisti de vez.
LEGENDISTA
Outro emprego que pagava mal, mas até que era gostoso e instrutivo. Trabalhei com uma produtora que fazia tradução e legendas de filmes e peças para festivais. (Em filme geralmente acontece quando vem uma película de fora, que vai ser devolvida, então não se pode queimar as legendas. O operador tem de lançar as falas - previamente traduzidas e diagramadas em formato de legenda - conforme vão sendo ditas na tela). Traduzi diversos filmes e legendei ao vivo várias mostras em São Paulo, Brasília, Porto Alegre. Minha mãe também traduziu alguns filmes em francês, e eu legendei (meu francês é bem mais ou menos, não me arriscaria a traduzir). Tenho carinho especial por uma peça de uma companhia inglesa que legendei no Sesi da Paulista, "Cymbeline" (Shakespeare), fiquei em cartaz com eles a temporada inteira. A montagem era foda. Hoje em dia não sei se há muita demanda para esse tipo de trabalho - talvez já existam programas que façam isso automaticamente. Ano passado até me pediram para orçar legendas para um evento da Copa, mas eu estava viajando para lançar o livro e declinei.
| Testando as legendas... |
VENDEDOR DE LIVRARIA
Meu primeiro emprego, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho. Entrei como temporário, depois o dono (na época o Aldo Bocchini) me chamou para trabalhar no projeto de uma nova livraria, voltada ao público gay. A Livraria do Meio durou pouco, logo foi vendida e se tornou a "Futuro Infinito", mas eu já não estava mais lá, trabalhando em agência de publicidade.
REDATOR PUBLICITÁRIO
Esse foi o emprego que fiquei mais tempo, seguindo minha formação universitária, quatro anos no total. Estagiei na Young & Rubicam e trabalhei na Futura, em São Paulo, e na Escala, de Porto Alegre. Conheci muita gente bacana, tenho grandes amigos até hoje, mas o trabalho mesmo era muito imbecilizante e vazio. Muita punheta para vender sabão em pó. O que mais me divertia era criar jingles - fiz mais de vinte nos dois anos em Porto Alegre, que ainda tenho no iPod. Saí de agência para mochilar na Europa, e o resto você sabe...
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| Na Escala, em Porto Alegre (lá por 2001) com a Letícia, que até hoje é amiga das mais queridas. |
REDATOR DE DISK SEXO
Esse foi outro trabalho pitoresco que arrumei pouco depois de voltar de Londres, que me fez largar o trabalho de barman e professor de inglês. "Precisa-se de redator para textos eróticos e exotéricos", dizia o classificado de um jornal. Publicaram o email de contato errado, eu consegui adivinhar o certo e fui o único que mandou currículo. Dia seguinte fiz entrevista e fui contratado. Basicamente eu criava histórias eróticas que eram gravadas e ficavam disponíveis como conteúdo de voz para celular (que na época, em 2003, ainda não tinha toda tecnologia de vídeo/imagem). Eu também criava os horóscopos. Inventava TUDO. Eu trabalhava em casa e pagava razoavelmente... quando pagava. Meu chefe era o estereótipo do que se pode imaginar nesse tipo de trabalho - um velho safado às vias de se tornar cafetão virtual. Foi nesse período que ganhei o concurso que publicou meu primeiro livro, daí comecei os trabalhos de tradução, os textos para revistas e jornais e pude largar a putaria. De todo modo, essa foi a história que fez grande sucesso nas vezes em que fui ao Programa do Jô.
REDATOR DE MARKETING DIRETO
Esse foi um emprego sem a menor graça. Já era autor publicado, e trabalhei alguns meses na Abril, cobrindo férias e licença maternidade de redatores do marketing. Quem me conseguiu a vaga foi o finado poeta Donizete Galvão; pagava razoavelmente bem e o trabalho era tranquilo... demaaaaais... Eu tinha de criar aquelas cartas para assinantes: "Oportunidade incrível para você assinante de Veja", e coisas assim. Na prática, eu passava às vezes DIAS sem fazer NADA. Era uma agonia tremenda, porque trabalhava lá, tinha hora para entrar, hora para sair... Acho que grande parte do Mastigando Humanos foi escrita lá.
TECLADISTA DE BANDA DE GLAM ROCK
Ok, esse não foi exatamente um "trabalho", mas no final dos anos 90 eu tocava teclado numa banda "indie" daqui de São Paulo, o "Viva Violet". Tocava mal - estudei três anos de piano na adolescência - a banda era terrível, mas era divertido. Nunca chegamos a gravar nada, tocamos poucos shows em lugares como o extinto Retrô, e eu logo larguei para me dedicar à faculdade e ao trabalho em agência. Compus também algumas coisas solo, experimentais, só com teclado, que tenho gravado até hoje em K7 bizarríssimos. Tenho saudades de brincar disso; qualquer hora que tiver um dinheiro sobrando quero comprar um teclado novo só por lazer.
PERFORMER DE BODY ART
Outro que não foi exatamente um "trabalho", mas teve uma certa repercussão. Como adolescente gótico, aos dezenove anos fiz uma performance de auto-mutilação na faculdade, para um trabalho de História da Arte. As fotos acabaram atraindo um diretor, que fez um curta metragem sobre mim como se esse fosse de fato meu trabalho. O curta ganhou alguns festivais, passou na TV Cultura, e no ano seguinte eu mesmo resolvi dirigir um curta irônico sobre body art (uma espécie de "torture porn"), que foi o "Ame o Garoto que Segura a Faca", do qual já falei aqui. Passou em alguns festivais, não ganhou prêmio algum, e assim se encerrou minha carreira de artista performático. (Embora eu ainda tenha feito pequenas mutilações para as fotos de divulgação dos meus três primeiros livros).
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| Clássica foto que fiz para a divulgação de Olívio, meu primeiro romance. A foto é do Ambooleg, o sangue é meu mesmo. |
COLUNISTA DE MODA
Não entendo nada de moda... e acho que por isso que me chamaram. Em 2007, a Erika Palomino tinha um jornal diário no São Paulo Fashion Week e me chamou para ter uma coluna, uma página diária no evento. "O Caminho de Santiago" trazia o que eu quisesse, minha visão do evento. Assisti a muitos desfiles, aloprei bem, conheci algumas pessoas bacanas e muita gente escrota. Foi uma experiência ter de escrever diariamente sobre... nada, ou sobre qualquer coisa. Fiz quatro temporadas, Erika pagava direitinho, sempre foi muito querida e me deu carta branca para eu fazer o que quisesse. A mais divertida foi a que cobri a "última fila", o povo que se sentava no fundão dos desfiles - ou gente que nem conseguia entrar. Era uma coluna social dos excluídos, onde pude contestar um pouco a futilidade desse universo.
| Com a querida Jana rosa, no SPFW. |
MAROTO (PAQUITO DA MARA)
Nah, nah... esse é lenda urbana... Ou não?
06/03/2015
IMORTAL DA ACADEMIA
Aos 33, na minha melhor forma...
Se ele quisesse voltar a fazer sucesso era bom cuidar do peso. Os quilos a mais eram a imagem flagrante para os fãs de que ele não era o mesmo – havia fracassado no teste do tempo, cometera o pecado de envelhecer. Mas, porra, não podia nem comer? Então deveria voltar a fumar. Tinha de ficar longe das drogas, evitar a bebida, o cigarro, maneirar na comida – a vida só lhe exigia privação, prender a respiração, para que pudesse continuar respirando. (de BIOFOBIA).
Sempre tentei equilibrar a vida de atleta, junkie, intelectual... Não é uma tarefa fácil. Trabalho em casa, gosto de comer, meu namorado cozinha muito bem, então a academia é uma necessidade diária, para gastar energia, queimar combustível, ventilar a cabeça, conseguir dormir... Apesar de já estar bem distante das drogas, adoro beber, mas aos 37 anos cada gota tem seu preço, e ainda que o álcool ajude a soltar um pouco a escrita, inviabiliza (para mim) a leitura, embaralha as ideias...
Voltei a nadar esta semana. Ano passado inteiro só fiz musculação e fui inchando, inchando... Decidi parar com tudo. Achei que sentiria falta. Não senti. Na verdade, foi um alívio acabar com essa obrigação diária, ter de sair de casa, ver aquele povo de academia, ficar nos mesmos exercícios que faço há mais de uma década...
Mas o corpo exige. Nessa idade não tem jeito...
Mesmo no longo inverno que passei na Finlândia, era assim que ia pedalar todos os dias, a -10C.
Treinei caratê a adolescência toda, parei na faixa marrom. Malho desde os 25. Com tal dedicação que mesmo em viagens eu procurava uma academia local - já treinei no Japão, Colômbia, Dinamarca, Alemanha, Argentina.... Aos 33 anos, morava na praia, em Florianópolis, fazia academia, kite surfe, scuba dive, corria na praia, pedalava, caminhava horrores todos os dias. Toda minha rotina e meu lazer exigiam intensa atividade física. Era impossível não ficar com meu melhor corpo.
Com minha roupa fetiche de surfista X-man. Queria poder andar assim pelo baixo augusta.
Em São Paulo é exatamente o contrário. Parece que todas as possibilidades de diversão envolvem comer, beber ou se drogar. Não existe coisa mais deprê do que ir correr no Ibirapuera, sábado de manhã, em fila com a multidão, talvez só pedalar na ciclovia da paulista. Deprê. O paulistano é condenado à academia.
E elas abusam. Dei um giro procurando academia com piscina. Uma grande rede me ofereceu um plano anual de mais de SETE MIL reais, com horário marcado, duas vezes por semana. "E se você precisar de toalha a gente tem pra alugar." (Mercenários da porra. Pagando seiscentos reais por mês o mínimo que eles deviam ter era uma toalhinha cortesia!)
Acabei voltando pra minha antiga, por menos da metade. (E eu daria o nome aqui, se fosse um plano de cortesia...). Foi bonitinho a festa que a instrutora da natação fez. Colocou o CD de músicas kitsch que eu tinha gravado pra ela...
Nadei ontem com palmares, paraquedas, todos os acessórios que criam resistência e exigem mais dos músculos. Achei que estaria destruído no dia seguinte. Não estou. Não sinto dor alguma. Novembro passado, de visita em Florianópolis, peguei a bicicleta para girar pela ilha; achei que eu estaria totalmente enferrujado. Também não estava. Pedalei mais de cinquenta quilômetros num dia. Tranquilo. Acho que o corpo não se esquece tão facilmente de uma vida dedicada.
O mundo literário é um mundo sedentário. Não se leva a sério um escritor com tanquinho. Já o mundo gay é um mundo cruel, beleza é questão de sobrevivência. Volto a buscar um equilíbrio. E acima de tudo,me sentir bem comigo mesmo. Os quarenta estão chegando, nunca serei um imortal, mas ao menos já consegui uma academia com piscina. Não é pouco nesses tempos de seca.
Água tem, mas tá salgada.
Se ele quisesse voltar a fazer sucesso era bom cuidar do peso. Os quilos a mais eram a imagem flagrante para os fãs de que ele não era o mesmo – havia fracassado no teste do tempo, cometera o pecado de envelhecer. Mas, porra, não podia nem comer? Então deveria voltar a fumar. Tinha de ficar longe das drogas, evitar a bebida, o cigarro, maneirar na comida – a vida só lhe exigia privação, prender a respiração, para que pudesse continuar respirando. (de BIOFOBIA).
Sempre tentei equilibrar a vida de atleta, junkie, intelectual... Não é uma tarefa fácil. Trabalho em casa, gosto de comer, meu namorado cozinha muito bem, então a academia é uma necessidade diária, para gastar energia, queimar combustível, ventilar a cabeça, conseguir dormir... Apesar de já estar bem distante das drogas, adoro beber, mas aos 37 anos cada gota tem seu preço, e ainda que o álcool ajude a soltar um pouco a escrita, inviabiliza (para mim) a leitura, embaralha as ideias...
Voltei a nadar esta semana. Ano passado inteiro só fiz musculação e fui inchando, inchando... Decidi parar com tudo. Achei que sentiria falta. Não senti. Na verdade, foi um alívio acabar com essa obrigação diária, ter de sair de casa, ver aquele povo de academia, ficar nos mesmos exercícios que faço há mais de uma década...
Mas o corpo exige. Nessa idade não tem jeito...
Mesmo no longo inverno que passei na Finlândia, era assim que ia pedalar todos os dias, a -10C.
Treinei caratê a adolescência toda, parei na faixa marrom. Malho desde os 25. Com tal dedicação que mesmo em viagens eu procurava uma academia local - já treinei no Japão, Colômbia, Dinamarca, Alemanha, Argentina.... Aos 33 anos, morava na praia, em Florianópolis, fazia academia, kite surfe, scuba dive, corria na praia, pedalava, caminhava horrores todos os dias. Toda minha rotina e meu lazer exigiam intensa atividade física. Era impossível não ficar com meu melhor corpo.
Com minha roupa fetiche de surfista X-man. Queria poder andar assim pelo baixo augusta.
Em São Paulo é exatamente o contrário. Parece que todas as possibilidades de diversão envolvem comer, beber ou se drogar. Não existe coisa mais deprê do que ir correr no Ibirapuera, sábado de manhã, em fila com a multidão, talvez só pedalar na ciclovia da paulista. Deprê. O paulistano é condenado à academia.
E elas abusam. Dei um giro procurando academia com piscina. Uma grande rede me ofereceu um plano anual de mais de SETE MIL reais, com horário marcado, duas vezes por semana. "E se você precisar de toalha a gente tem pra alugar." (Mercenários da porra. Pagando seiscentos reais por mês o mínimo que eles deviam ter era uma toalhinha cortesia!)
Acabei voltando pra minha antiga, por menos da metade. (E eu daria o nome aqui, se fosse um plano de cortesia...). Foi bonitinho a festa que a instrutora da natação fez. Colocou o CD de músicas kitsch que eu tinha gravado pra ela...
Nadei ontem com palmares, paraquedas, todos os acessórios que criam resistência e exigem mais dos músculos. Achei que estaria destruído no dia seguinte. Não estou. Não sinto dor alguma. Novembro passado, de visita em Florianópolis, peguei a bicicleta para girar pela ilha; achei que eu estaria totalmente enferrujado. Também não estava. Pedalei mais de cinquenta quilômetros num dia. Tranquilo. Acho que o corpo não se esquece tão facilmente de uma vida dedicada.
O mundo literário é um mundo sedentário. Não se leva a sério um escritor com tanquinho. Já o mundo gay é um mundo cruel, beleza é questão de sobrevivência. Volto a buscar um equilíbrio. E acima de tudo,me sentir bem comigo mesmo. Os quarenta estão chegando, nunca serei um imortal, mas ao menos já consegui uma academia com piscina. Não é pouco nesses tempos de seca.
05/03/2015
O HORROR BRASILEIRO
Terminou nesta quarta mais um curso que fiz com o
jornalista Carlos Primati no MIS, desta vez sobre A História do Cinema de
Horror no Brasil.
Achei ainda melhor do que o passado (sobre
História do Cinema de Horror em geral), porque, talvez pela aridez do tema, deu
para se aprofundar mais, gerou mais discussões, e pude assistir a pérolas que não
se encontram com tanta facilidade, como o novo Fabulas Negras, antologia de curtas de Rodrigo Aragão, Peter
Baiestorf, Joel Caetano e Jose Mojica Marins.
Um dândi brasileiro.
Claro, “Cinema de Horror no Brasil” gera de
antemão a dúvida: mas há o que discutir? Quão muito além de Mojica/Zé do Caixão
se pode ir, ainda mais em cinco aulas de três horas? Nas duas primeiras
permaneceu essa dúvida; antes do cinema do Mojica se pode basicamente localizar
filmes com referências de terror, um
suspiro sobrenatural, mas não exatamente do gênero. Porém as produções da Boca
do Lixo e, principalmente, ao meu ver, as produções mais atuais provam que
existe uma produção de terror no Brasil, ainda que bastante marginalizada.
Só de toda a discussão e reflexão que o curso
gerou, já valeu bem. Primati é especialista no gênero e sempre é muito bem
embasado no que fala. Um cara com quem tenho de estender as discussões por
Facebook e além, porque é sempre tão raro alguém com consistência focado nesse
universo. Acho que valia bem ele lançar um livro sobre o tema, principalmente pelo momento...
"Amor Só de Mãe" obra prima de Dennison Ramalho... com um título infame característico do cinema nacional.
Foi especialmente divertido conhecer mais das
obras do Dennison Ramalho e do Rodrigo Aragão, dois militantes do gênero com
uma produção bem intensa e pegadas diferentes. E a gente repara como nesse meio
todo mundo se conhece, começa a trabalhar junto. Fiquei pensando em como eu
mesmo (como fã, autor e roteirista) me encaixo, daí foi só lembrar que sou
vizinho e amigo do Marco Dutra (de “Quando Eu Era Vivo”), que os direitos do meu “Feriado
de Mim Mesmo” estão com o Rafael Primot (de Gata Velha Ainda Mia) e que estou
sempre trabalhando com quem trabalha com o Dennison, só para citar alguns
discutidos no curso. Dá para sentir que tenho um papel nessa nova geração,
principalmente com o início dos trabalhos no filme de BIOFOBIA.
"Quando Eu Era Vivo", do Marco Dutra.
O que sempre me incomodou foi a ditadura do realismo. O Brasil não tem a menor
tradição no fantástico, seja na literatura, no cinema ou o que seja. Nunca. Então
não acredito que seja por aí que o cinema de horror possa se desenvolver.
Talvez o mais viável seja um terror calcado no psicológico, na loucura, na
violência do ser humano, mais do que no sobrenatural. E isso me interessa. (Você
vê, até Zé do Caixão, o maior símbolo do horror nacional, é um personagem que
rejeita o fantástico, o sobrenatural.)
Aí, o único still que você vai ver do único curta que eu dirigi-escrevi-atuei, na faculdade. Um torture-porn videoclípico que ainda está no Imdb, "Ame o Garoto Que Segura a Faca" (1998). (Do título eu ainda gosto.).
OBS: Quem tiver interesse no tema, confira no Facebook:
Filmoteca do Horror Brasileiro. Lá o
Primati está postando preciosidades da produção nacional.
20/02/2015
DISCO DO ANO
Foi só eu publicar aqui o post dos cantores gays que me lembrei que uma das minhas cantoras favoritas, a norueguesa Susanne Sundfør, tinha acabado de lançar disco novo. Procurei para baixar e estou ouvindo sem parar desde quarta. "Ten Love Songs" já é forte candidato a disco do ano.
Susanne é outra das que conheci através da parecia com o Röysopp. Em 2012 ela gravou com eles o single "Running to the Sea", que é das melhores coisas da carreira deles (e dela). Está presente também em outra faixa do álbum deles do ano passado, que não impressiona tanto.
Com o Royksopp.
Com o Royksopp.
No último ano baixei tudo dela. É sempre genial - nem sempre divertido. Ela tem por exemplo um álbum só instrumental de sintetizadores, que não consigo ouvir. Mas deixa claro que está num padrão bem acima das cantorinhas pop por aí. Na Noruega (e apenas lá, apesar de cantar em inglês), ela é cantora de topo das paradas - um bom reflexo do nível daquele país... Em seus primeiros discos investia mais no soul e folk, com grandes malabarismos vocais. Ultimamente adotou um tom mais etéreo e eletrônico. Mas nada se compara ao álbum lançado esta semana.
Em 2011.
"Ten Love Songs" é sem dúvida o álbum mais acessível de Susanne, E ainda consegue ser o mais requintado. Fica transparente na obra que é uma musicista erudita fazendo música pop, nos arranjos, nos teclados (que ela toca), nas ambições.
Abre com "Darlings", lenta, lastimosa, como se já fosse o fim do primeiro amor. Então segue dançante com o baixo pulsante de "Accelerate", que já emenda em "Fade Away" (o primeiro single), deixando claro que é um álbum conceitual, para ser ouvido inteiro em sequência, mais do que uma coletânea de faixas. Nesse quesito ela vai na contramão dos colegas do Röysopp, que dizem que álbuns não fazem mais sentido e lançaram seu (presumidamente) último (aquele em que ela participa de duas faixas e ainda tem contribuição massiva dos Irrepressibles).
Susanne, por sinal, deve ter ressentido que "Running to the Sea", uma das suas melhores faixas, ficou com o Röyksopp, porque no disco novo ela tenta recriá-la com "Kamikaze" e chega perto, muito perto. Ponto alto do disco (e ótima pedida para novo single), "Kamikaze" é um europop escandinavo até o osso, daqueles beirando o kitsch mais delicioso (até o título "Kamikaze" parece algo a la Lady Gaga). Aos 4 minutos a música termina e, como se pedisse desculpas, Susanne entra com um solo de cravo, ressaltando a beleza da melodia e que "o arranjo poderia ser outro se eu quisesse." É ela quem toca.
Por sinal, ela faz isso no disco todo. Interrompe com arranjos de cordas, de cravo, de órgão gótico. Outra das grandes faixas do disco (em todo sentido), "Memorial", começa como uma balada anos 80, bonita e meio cafona, e antes dos 4 minutos vira um instrumental de piano e orquestra que chega até os dez minutos de duração.
E o disco tem muito mais. É INTEIRO bom. Tem seus momentos líricos, momentos dançantes, termina com um eletrônico esquisitão de "Insects", para deixar claro ao que ela veio. Tem tudo para estourar, pelo menos no resto da Europa. Para mim, vai ser difícil alguém superar um disco desses, mesmo com Suede para lançar disco novo este ano.
Enfim, para quem ama e conhece tão bem a Escandinávia, quanto eu, "Ten Love Songs" é um disco perfeito. Lindo ver que ainda consigo encontrar novas musas, em plena ativa, que ainda têm muito o que me embalar.
18/02/2015
SONS DE CINZA
Chega de folia! Agora é hora de cinzas e tenho
afundado no sons deprês das minhas playlists. A “Bibas Deprimidas” é um
clássico, e está sempre sendo atualizada e reinventada. Músicas de fossa com
cantores gays. Tem brasileiros inevitáveis como Ney Matogrosso, Cauby; alguns amigos
queridos; clássicos como Boy George, George Michael e Elton John; até Michael
Jackson arrisco pôr. Mas deixo aqui a dica dos estrangeiros mais bacanas, mais
alternativos ou menos conhecidos.

THE IRREPRESSIBLES
My friend Jo
/ was a crazy bitch / Wore her heart on sleeve / with an ounce of kitsch. Assim começa a primeira faixa do primeiro álbum dessa banda
semi-sinfônica gay da Inglaterra, com dois álbuns e alguns EPs lançados. O
vocalista já gravou várias faixas com o Röyksopp, e foi aí que conheci. O
trabalho do grupo é orquestral, barroco, kitsch, dramático e bem bonito. Lembra muito
Antony and the Johnsons e um pouco James Blake. Certeza de que ainda vão ser
mais cultuados, quando tiverem um som mais acessível. Mas já tem faixas de
chorar. É o que mais tenho ouvido ultimamente.
ANTONY AND THE JOHNSONS
Não podia faltar. Já é mais conhecido, mas é
essencial. Uma banda de “pop de câmara” de Nova York com um vocalista gordo,
transgênero e genial, que soa como uma mistura de Nina Simone com Brian Ferry.
Cantam a vida e morte de travestis, sexo, sadomasoquismo e amor com uma poesia
e melancolia sem igual.
KLAUS NOMI
Pode ser considerado um precursor desses todos.
Cantor alemão que misturava cabaré, ópera e pop kitsch, com um vocal em
falsete e um visual bem absurdo. Morreu em 1983, uma vítima dos primeiros tempos da AIDS.
JOHN GRANT
Cantor quarentão americano, radicado na Islândia.
Conheci pela Sinéad O’Connor, que regravou “Queen of Denmark”, faixa que dá
nome a seu primeiro disco solo e começa com I
wanted to change the world / But I could not even change my underwear. Faz
um som entre o folk, country e eletrônico, com um humor depressivo muito
peculiar. Remember walking hand in hand
side by side / We walked the dogs and took long strolls to the park / Except we
never had dogs / And never went to the park, ele canta em outra faixa. Seu
primeiro disco é inteiro maravilhoso. O segundo já é mais ou menos, mas se
salva com faixas foda como GMF (de “Greatest Mother Fucker”).
MARC ALMOND
Cantor britânico clássico dos anos 80, que com o
Soft Cell teve o grande hit “Tainted Love”. Mas o trabalho solo dele tem uma
pegada cabaré dramática deliciosa. Não há drama maior do que ele cantando
“Yesterday When I Was Young”.
DAVID MCALMONT
Cantor negro de soul que fez algum sucesso nos anos
90, na Inglaterra, em parceria com Bernard Butler, do Suede. Juntos lançaram dois álbuns - o primeiro está no meu top 10 da VIDA. Já o trabalho
solo é bem irregular; regravou vários Standards, mas também narra belas
crônicas da vida gay em algumas de suas músicas.
PATRICK WOLF
Não dava muito por ele até assistir a um show no gelado
inverno de Helsinque, em dezembro de 2011. Seu álbum “Lupercalia” se tornou dos
meus favoritos da VIDA. Ele tem outros bacanas e um bom flerte do pop com o
barroco. É um jovem músico gay britânico bem consistente, toca viola, violão,
piano, harpa – inclusive tem excursionado como músico de apoio da Patti Smith.
KÉ
Cantor americano que teve UM hit nos anos 90 ("Strange World", recentemente regravado pelo Him) e só.
De toda forma foi o suficiente para eu comprar o álbum na época, baixar os dois
seguintes e escutar com frequência desde aquela época. Tem uma voz andrógina e
um som difícil de classificar, entre o Indie rock, pop, com traços de R&B. Está
meio desaparecido desde o começo dos 2000, mas troquei ideias com ele pelo FB
esses dias.
PERFUME GENIOUS
Na verdade esse entrou aqui pelo drama e viadagem, mas ainda não consegui gostar muito. Perfume Genious é pseudônimo de Mike Hadreas, um artista solo de Seattle. Fica aqui para fechar dez artistas sem ter de recorrer a outros mais óbvios.
RUFUS WAINWRIGHT
Ok, esse é bem óbvio, mas não deixa de ser alternativo. Criado no Canadá, Rufus veio de uma família de músicos e tem uma erudição sem igual. Já compôs ópera, gravou standards, e seus álbuns sempre têm elementos de música erudita. Gay assumido, canta sobre amores perdidos, amores casuais e até sobre a paternidade entre homossexuais. Assisti nas duas vezes que veio ao Brasil. Obrigatório.
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FLIRECÊ
Mais que colegas, friends. Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...

























